A gente quando se interessa por plantas faz um jeito de cultivar.
No meu caso gosto de colecionar as formas, as cores através da fotografia.
A gente quando se interessa por plantas faz um jeito de cultivar.
No meu caso gosto de colecionar as formas, as cores através da fotografia.
Mamãe mandou que fosse buscar mangas.
Mangas que forram o chão do sítio de vó Sinhá.
Bora lá Mera...
A cangalha já foi botada e os caixões também.
O jegue preguiçoso vai andando devagar.
Vai andando com suas quatro patas.
Vamos seguindo pela beira da estrada.
Já estamos em Zé de Júlio.
E avistamos as barreiras da terra de vovó.
O jegue marrento carrega o menino e a menina.
Vai andando sob a tutela dum cipó.
Para não dar bandeira vamos por tio Jessie.
Os caminhos de seixo rolado, o perfume das unhas de gatos e cipó preto encantam a caminhada.
Logo se ouve o som das águas do riacho do porção.
Logo se sente o aroma acridoce das cajaraneiras de tio Aldo.
A sobra de sua copa a terra fica coberta de esperas doces e amarelas.
Então já no porção passamos em frente a casa de Pedro Lião onde se ouve os gritos de tia Biluca.
Na casa de neta uma penca de meninos parecendo índio passam o tempo no terreiro da cozinha.
Passamos a escola e já perto de Zequinha de ver na entrada a casa de Paté.
Então chegamos a casa de vovó que não tem nenhum agrado para criança.
Vamos para o sítio da cacimba de Joel pegar as mangas.
Chegando lá até o jegue se delicia com uma delas doce e amarela.
Enchemos os caixões de mangas espadas e mangas buchas...
E voltamos pra casa em paz.
É de longe o gosto de mamãe por mangas.
A manhã se passa só nessa atividade.
A gente era rico e não sabia.
Com uma vó com um sítio de mangas.
A sabiá miou na sobra da cirigueleira,
Miu... Miu...
A terra de barro molhado,
Miu... miu...
A era florida de flores lilás,
Miu... Miu...
O capim flocado áspero mole,
Miuuuu.
Miu, miu, miu...
A Pimenta malagueta está rubra enfeitada.
Pec... Pec... Pec... Pec...
A sabiá fez um ninho no pé de ciriguela.
Pec... Pec... Pec...
O girimum com sua rama espalhada bota flores amarelas.
Miu... Miu...
As flores azuis da bomba d'água imitam o manto de nossa senhora de Conceição.
Miu... Miu...
Lá está ela a sabiá de papo laranja no chão.
Miu... Miu...
No galho da cirigueleira.
Pec... Pec...
Olhe ali o ninho filhotes.
Pec... Pec...
Um tirrite estralou seu canto amarelo,
Tire... Tire... Tire...
Seu ninho um saquinho na algaroba.
Tire... Tire... Tire...
A roupa seca na cerca.
Tire... Tire... Tire...
A Pinheira está cheia de pinha.
Tire... Tire... Tire...
Os sanhaçus voam no espaço feito jato.
Iç... Iç... Iç..
O sanhaçu achou a pinha madura.
Iç... iç... Iç...
A pinha verde por fora e alva por dentro.
Iç... Iç... Iç...
O alvo mais doce que existe.
Iç... iç... Iç...
A fruta madura da palma.
Iç... Iç... Iç...
Cantou lá pra cima a patativa.
Tric... Tric... Tric...
De peito amarelo e sobrancelhas alvas tão maneira.
Tric... Tric... Tric...
Pousada não se põe parada parece uma agulha na mão de costureira.
Tric... Tric... Tric...
O umbuzeiro de Elite de Palmira tá que é só imbu no chão.
Pec... Pec... Pec...
Aquela calda verde agridoce da fruta que gostosura.
Pec... Pec... Pec...
O Juazeiro de folhas cartáceas amargas com tá coberto de juá.
Quiro... Quiro... Quiro...
Na ceriguela mia o sabiá.
Pec... Pec... Pec...
Fruta amarelada babona a fruta do juá.
Tziu... Tziu... Tziu...
A frutinha vermelha da maria-reta.
Tziu... Tziu... Tziu.
Levanto e paro de pensar.
A realidade virou saudade.
Tziu... Tziu... Tziu...
A roupa já secou na cerca.
Acorda que o inverno mal começou.
Vincas
Roberto plantou vincas no nosso jardim,
Plantou vincas alvas e depois vincas rosas.
Tenho uma longa memória das vincas,
Será provável que foi o odor que se apegou ao meu cérebro?
Papai cuidava das vincas
Quando ia lá eu cuidava dela,
Pensava um pouco de água por algumas flores.
Na terra arenosa e seca crescia e cresce a vinca,
Quando a gente coloca a água a terra chupa tudo e não deixa nada.
Em 2010 tinha água de sobra do porção,
Agora a gente fica racionando a água
Enquanto as vincas sedentas crescem nas beiras das calçadas,
Crescem aos montes no inverno nos monturos,
Algumas sobrevivem e outras não,
Adoro as vincas,
Adoro sua resistência,
Suas folhas brilhosas,
Seu odor esquisito,
Dizem que seu alcaloide cura até leucemia.
Por enquanto enfeita minha tristeza,
Me faz sentir em paz.
Meu querido e velho amigo.
Agora já não tenho um parceiro para ouvir Nelson Gonçalves.
Mamãe já não pode nos chamar de Manés.
Já não podemos sentarmos juntos nas cadeiras de balanço na calçada da frente.
Restam apenas as paisagens e as músicas de Nelson que posso ouvir sempre que quiser lembrar de ti.
Lembra que te dei um cd e falou que era o melhor presente que tinha ganhado.
Naquele aniversário seu, naquela noite de natal, tomou umas a mais.
A gente riu, pena que não bebi contigo.
Mas ouço sua voz e seu riso.
A partir daquele dia sempre ouvia Nelson contigo no intuito de viver um pouco se seu orgulho
de sua juventude, sua boemia e contavas as mesmas histórias.
Com a idade a gente vai se acomodando e contando as mesmas estórias.
Era a mesma coisa sempre que ia a casa de João de Licor... as mesmas estórias.
A gente conta a mesma estória tentando não apagar o passado.
A gente tem muitas ilusões.
Mesmo sabendo que tudo aqui é passageiro, continuamos sendo os mesmos anos a fio.
E as vezes descobre que as verdades são castelos de areia.
A gente descobre que sistemas de classificações são apenas ideias que nos norteiam.
No final tudo é orgânico e mortal.
Nem me incomoda se disseres que tenho péssimo gosto.
A gente gosta de coisas simples, aquelas que a gente entende.
Aquela que a gente busca gostar ou entender talvez a gente ame.
Ou não.
Lá em Serrinha está chovendo.
Lá em Serrinha está frio.
Não tem xerém que aqueça nossos corações,
O que aquece meu coração e é a saudade,
Não teve que não me perguntei por que partiu?
As lágrimas inundam meus olhos,
Um aperto espreme meu coração.
Aqui estou papai ouvindo seu cantor favorito que agora é meu favorito.
Sei que o sentido de seu gostar era adverso do meu gostar,
Mas meu gostar é meu amor por ti.
Nem um xerém aquecendo o estômago,
Nem sua voz amiga e pacata,
Nenhuma semente de milho ou feijão na terra.
Ali fora geme Vinícius... Um dia certamente saberá tudo sobre ti.
Em meio a essa profunda saudade,
Estou feliz pela chuva que cai,
As sementes germinarão,
As matas crescerão,
E me emocionarei sempre com Nelson Gonçalves.
Mozart compôs como ninguém,
Gogh pintou como ninguém,
Borges escreveu como ninguém,
Algumas coisas vem a minha mente sobre os melhores.
Papai foi um pai como nenhum outro.
Agora que partiu, sinto muito a sua falta.
De Mozart tenho a música,
De Gogh tenho a pintura,
De Borges a escrita,
De papai tenho o respeito, o carinho e o amor e a saudade.
Que saudade de papai ouvindo Mozart.
As vincas continuam vivas no nosso terreiro.
Quantos cachorros e gatos se foram nessa nossa vida.
Tudo que ganhei e tudo que perdi,
Quem fui e quem sou,
É a soma de minha vontade,
É a soma de minhas representações.
A maior parte das coisas não compreendo,
Só sei que meu amor paterno é eterno
E dói demais sua ausência.
Dentre as formas de representar, talvez a escrita seja a mais complexa.
Todavia há aqueles que usam a fala para se expressar.
Sabem com destreza como organizar as palavras com sentido e beleza.
São os poetas populares que sabem como usar a palavra para se expressar,
A palavra que é a substância da fala,
E falam sobre tudo que há, desde a natureza humana a natureza da terra.
Então me ponho a matutar sobre o sentido de representar de organizar o nosso entorno em palavras?
Não sei se há um sentido, mas se encontra um sentido ao representar.
A inteligência humana não tem como parar.
E assim uns se expressam outros entendem e outros não estão nem ai.
A totalidade é isso o todo a falta e a presença,
Silêncio e palavra...
Acordei na madrugada e ouvi o sabiá cantar.
Ninguém o avisou que era domingo.
Cantou e cantou no sossego da madrugada.
Enquanto limpava meu menino
Ouvia aquele sabiá.
Então lembrei de outros sábias em outros lugares.
Na copa da aroeira,
No pé de cajueiro,
No solo do jardim.
Quem me conhece sabe que amo sabiá.
Depois apareceram os sanhaçus
Depois cai no sono
Sabiá doido, trabalhando num domingo.
Manhã de domingo,
Nesta manhã deste dia reina a paz,
Neste dia há cultos religiosos,
O que via era a missa
Pois, minha formação é cristã.
Por muito tempo tive a benção e a presença de meu pai,
Agora que se foi restam apenas representações e memórias.
Ele nos deixou em paz.
As coisas são assim seguem o fluxo natural.
Ontem ele, amanhã eu...
Por muito tempo tive sua presença, seu amor...
A realidade é dura, mas é a realidade.
Olhando a paisagem nem parece que existiu,
Quando presente nem se pensou nessa realidade.
À tarde cai,
Toda tarde a tarde cai,
Todo dia tem uma tarde,
Em sua totalidade a tarde pode está chovendo, nublada ou ensolarada.
À tarde sempre tem a sua história,
Os lugares contam as histórias da tarde,
Nos hospitais, nas UTIs, nas calçadas,
No sertão...
Aqui neste quarto...
As sensações, as percepções são minhas,
Todavia as tardes são universais.
Por isso ocupo meu tempo com palavras,
Com textos, com aulas ou com memória.
Recentemente esta parede está me dando companhia,
Uma linda pintura representa minha casa em 2010,
Nela papai está sentado na cadeira de balanço,
Peito a vista, perna cruzada, de havaiana azul,
Tendo no colo a cabeça de tuninha uma cachorra vermelha,
Céu azul,
As vincas floridas com flores alvas,
A algaroba faz sombra,
Só que na representação é a manhã que cai.
A tarde se vai,
Na calçada da fama
Pode se observar o céu azul,
O quintal de palmatoreas,
Pé de caju,
Pé de pinheira,
Pé de catolé.
Chega lá pra ver.
Vou voltar ao trabalho aqui.
Os bem-ti-vis cantam ali nas castanholas
E Vinícius recém chegado aqui dorme um sono de paz e plenitude.
Quando era crianca não largava o pé da mamãe, indo onde ela fosse. As vezes, íamos para vovó Chiquinha. Onde quer que chegasse, explorava o lugar. Não era traquino apenas observador das coisas. Na casa de mãe Chiquinha como chamavam meus primos que era grande tinha tornos de madeira na parede, um autar de Santo Antônio, uma área com peituris baixos, cimento da sala ornamentado e uma cristaleira das que tinha lá em casa. A cristaleira simples com umas locinhas simples e a foto de Cristiane filha de meu primo João. Através do vidro via aquela menina numa toalha sobre a grama.
Tudo era tão misterioso. Quem colocava um toalha no chão?
Mas alí estava Cristiane.
Coisas de um mundo diferente.
Na casa de vovó tinha flores
Um pé de pimenta, um pé romã e pés de alfavaca, uma horta atrepada e um banheiro de palha.
Por isso achava que minha casa era melhor.
Eh... Ir como dizia vovó.
Após perceber a mariposa voando em órbita na luz pela madrugada. Não é que o tempo mudou. Chegou até a chover e a temperatura esfriou.
Coisas acontecem o tempo todo e é pouco percebemos.
São tantos os focos e tantas as anciedades
Que vamos nos enterrando em nós mesmos.
É assim.
Tudo aconteceu tão rápido em 2020.
Me pergunto por quê?
Não tenho meios de explicar
Ou entendimento para compreender.
Você se foi paizinho.
Para ou onde anda sua alma?
Não sei.
Nem saberei.
Quem sabe.
Acordei a noite,
Vinícius queria mamar,
Então, olhando através da janela,
Vi um inseto voando no halo de luz de um poste.
Minha mente alçou um voo muito longe...
Instantaneamente estava na casa de papai.
Pensei no tempo, nas duas estações inverno e verão,
Pensei no período de transição,
Grandes mudanças ocorrem além de nossa percepção,
A umidade alta, a pressão...
Só percebemos o óbvio como a chuva
Que trás a água e é a grande transformadora,
Faz a vida despertar,
Faz a semente germinar,
Enxame de insetos,
Faz os sapos coaxarem,
E a natureza despertar...
Ao fim, troquei a fralda de Vinícius e voltei a me deitar,
Até tentei escrever,
Mas o cansaço era maior.
É madrugada profunda,
Quanto mais profunda,
Maiores as recomendações,
Papai acordava nessas madrugadas,
Fazia o fogo de lenha e passava um café
Enquanto ouvia o rádio.
Às vezes, tio Aldo que acordava cedo
Chegava lá em casa pela madrugada,
Para ir para Pau dos Ferros,
Aí conversava contando estória,
Relembrando fatos, avaliando atos,
Criando história até Ci de Doninha passar.
A madrugada está profunda,
A janela aberta, faz muito calor e silêncio,
A madrugada é silenciosa.
O menino acorda e desperta querendo um peito.
Primeiro troco a frauda.
Então ele mama até dormir
Então arrota.
Já é mais de duas quase três.
Então ouço pela a siriri vocalizando
Siriririririri
Por tempo...
Siriririririri.
Enquanto dorme
Siriririririri
Cantou pela primeira vez o sanhaçu de coqueiro.
Um galo.
Tenho sono,
Ouço
Siriririririri.
Estou tão longe,
Mas minha mente está em Serrinha
Ouvindo o siriri
Cantando num cajueiro.
Até o dia despertar.
Certo dia fui embora.
Deixei e levei saudades.
Era tudo que queria,
Aquilo que mais desejava,
Certo dia parti novamente,
Deixei minha gente,
Outra terra,
Outro lugar,
A mata atlântica,
Os manacás,
As maritacas,
Os jerivas,
Os solanuns,
Os guapuruvus,
As paineiras,
As sibipirunas,
Os ligustruns
A realidade objetiva ali
E tudo que podia absorver,
A Guarapiranga, a Blings,
O rio pinheiros, o Rio Tietê,
A Sé,
A luz,
O Jabaquara,
O Trianon
A USP,
O Grajaú,
A rádio cultura 103,9
Eis que vi e aprendi São Paulo.
A tarde cai,
Pode ser uma primeira tarde consciente,
Pode ser uma última tarde,
Pode ser uma coincidência com o passado,
Pode ser uma memória ativada.
Quem sabe o que devemos fazer para despertar as memórias.
Por que despertar uma memória?
Algo de belo pode acontecer...
Escrevo de forma fragmentada,
Pedaços, fragmentos de pensamentos,
Pequenas informações volúveis, solúveis...
Que se materializa em palavras,
Não seriam ideias,
Estaria mais para a forma de vida vírus que para célula,
Estaria mais para cristais de areia que mineral,
Esses fragmentos não são peças de um quebra cabeça,
Não são peças de lego.
Acho se trata da forma como vejo e concebo o mundo.
Acho que vejo o mundo assim...
Ouço o canto das aves e reconheço por espécies,
E se vejo uma planta quero saber quem é sua família, seu gênero e sua espécie e suas particularidades fisiológicas, ecológicas...
Ler o que escrevo é perda de tempo,
A menos que tenha tempo sobrando
A menos que não tenha sido engolido pela rotina capitalista humana.
Então ousa pensar.
A tarde se vai e a noite chega.
À tarde sempre foi por natureza triste,
Era só sensação,
Agora, às tardes tem motivos para serem tristes...
Nestes dias papai se foi,
Seus olhos dormiram deste mundo,
Seu corpo descansou e terra se tornou.
Não verá mais o sol se esconder no poente
Enquanto a luz dourada acaricia os ramos tortos das catingueiras e juremas...
Não mais frio, papai era friorento e não reclamava do calor,
Nada mais de doce de mamão ou de caju...
Nada mais de queijo,
Nem um petisco de carne ou queijo para o lourinho,
Nem para sherlock...
Quando imaginava que papai se ia, meu peito explodia de dor.
Quase enlouqueci quando descobrimos a enfermidade como ele chamou.
Pensei... Enfermidade!
Enfermidade é melhor que câncer.
E quando caia a noite no mês enfermo, antes da cirurgia.
Quando ia dormir que lhe entregava os comprimidos...
Aqueles quatro comprimidos que tomava um a um...
Quando pegava o pinico,
Quando arrumava sua cama...
Aconchegava aquela coxa verde,
Dobrava ao meio
E dava espaço para ele rezar,
Não apagava a luz,
Beijava sua cabeça calva,
Sentia seu cheiro,
O cheiro de sua vida,
Então ele rezava,
Creio que pedia pela saúde,
Mas nunca saberei.
A oração é algo muito pessoal.
Depois de enrolado,
Ia lá beijá-lo novamente e dizer o quanto o amava.
Eu ia, Li ia, Roberto ia e Meire ia...
Aquele homem que foi tão forte um dia,
Se tornou um amável idoso,
Embora não sentíssemos isso,
A tarde caiu...
E para onde vai o dia,
E para onde vai a tarde,
E para onde foram suas orações,
E para onde foi sua alma,
Terá ouvido meus monólogos?
Meu peito papai está cheio de ti,
Acredite,
Desde o dia que me tornei pai,
Sinto que sou um pouco de ti.
E o senhor é nós,
O senhor e mamãe são a totalidade
E nós sua particularidade...
Te amo.
Agora, nesta tarde, senti vontade de falar com papai.
Pegar meu telefone e discar para Francisco.
E ouvir sua voz dizendo alô.
E ficar conversando sobre o calor, o tempo, os gatos, sherock, o loro,
Mamãe, Beg, Rosângela, Meire, Lidiana, Roberto...
Os amigos.
Por onde andará o espírito sem o corpo?
Vagando em algum lugar?
Nas coisas que amou,
Nas coisas que o fez?
Onde estará,
Em mim?
Nesta hora, minha mente vagueia
Viaja no espaço,
Está lá na matinha,
Lá no orozinho,
Sabe lá onde.
Estou me referindo a papai Chico Raimundo
Que gostava de humanizar os animais...
Sherlock gosta de está onde as pessoas estão,
Gosta de ouvir as pessoas,
Só dorme tocando na pessoa.
Os últimos anos de sua vida foi assim,
Se dedicando a coisas simples
Como plantas e animais e mamãe e Li.
E tudo segue indefinido, indeterminado,
E fica a grande falta.
É quase meia noite.
O calor e Vinícius me acordaram.
Após a mãe dele o amamentar
Vou ao banheiro me molhar.
Então vejo através da janela
A lua bela, plena e minguante
Tendo como fundo um atropurpúreo.
A beleza viva que é e logo deixa de ser.
Então minha consciência questiona.
Para onde vai a alma desencarnada.
Não tenho resposta, mas apenas o silêncio da lua.
Meu ser se cala.
Papai, Chico Raimundo, herdou dos pais Chico Raimundo e Chiquinha o bom humor. Uma das melhores coisas que comungávamos eram as risadas. Papai tinha um estoque de histórias que já conhecíamos. Eram estórias de vizinhos e parentes. A gente conhecia e podia até catalogar as piadas e era como assistir o Chaves, pois a gente acabava rindo. Papai tinha bons amigos que criavam essas estórias o principal deles era Hélio de Chico Franco que por ser comerciante lutava muito com o povo e tinha sempre uma nova estória. À noite, papai ia lá para Hélio assistir televisão e conversar. Ele sempre trazia uma nova história. Foi assim por anos, desde que os meninos de Hélio nasceram.
Minha mente se encontra em caos,
Pensamentos aleatórios,
Desordem externa e interna,
Cansaço,
Desorientação,
Às vezes, tudo isso é necessário
Que o caos se estabeleça
E do caos surge o cosmos.
Vi a aurora nascer,
Ouvi as aves cantarem,
Senti o calor do dia de verão que já nasce quente,
Senti sono,
Mas despertei ao som da respiração de Vinícius,
Troquei sua frauda olhando para a pista de caminhada,
Mas cadê a energia para sair?
Muita coisa muda em um mês
Para bem ou para mal...
Viver é bom demais.
Só com a vida posso contemplar o mundo.
Só com a vida posso compreender a grandeza de tudo que Deus criou.
Só com a vida tenho impressões, sensações e percepções.
Na vida, somos todos iguais.
São as condições ou acidentes que são diferentes.
Um amigo meu sabiamente dizia que o sol nasceu para poucos, mas a sombra é para poucos.
Podemos mudar qualquer situação, mas é preciso tempo, esforço, esperança e fé.
Nossa vida é uma fração entre milhões de probabilidades,
Somos quem somos pela lotérica divina, um gameta diferente e não seria eu...
Sou quem me proponho ser,
Porque a existência precede a essência.
Ser é existência ou essência?
Ser é a soma...
Viver é bom demais.
Quanto tempo temos?
E isto importa. Talvez sim ou talvez não.
Posso viver melhor ou viver pior tendo este conhecimento.
Isso é contingente,
Há um subjetivismo em tudo.
A compreensão é peculiar,
A consciência também.
Os livros,
A estante,
O computador conectado a internet,
A intenção,
O desejo,
A linearidade do discurso,
Aquilo que me encanta pela maestria,
Borges e seus contos,
Kant e sua filosofia,
Hegel e seu sistema complexo,
Darwin e a origem das espécies,
Londres e o capricho e arquitetura de suas ruas,
Conan Doyler,
Buenos Aires e o frio gelado,
Facundo Alves,
A divisa do Uruguai,
Eduardo Galeano,
A rádio Cultura de São Paulo,
O rio Tiete,
O por do sol de Brasília,
O calor de Campinas,
A aurora de João Pessoa...
As aves de Serrinha dos Pintos,
Uma salada deliciosa que não consigo assimilar,
Numa só vida.
Acho que não preciso mais escrever o poema perfeito,
Acho que não preciso mais encontrar o melhor escritor,
Acho que não preciso mais viajar e conhecer o mundo,
Acho que não preciso descrever uma espécie nova,
Escrever o melhor artigo,
Acho que não preciso ser o professor perfeito,
Ser o filho perfeito,
Ser o marido perfeito,
A pessoa perfeita...
Vinícius meu filho,
Tu preenches qualquer lacuna,
Pois por ti sou pai,
Pois é minha alegria maior,
Minha coisa mais perfeita,
Peço a Deus sabedoria
Para conduzir pelos caminhos
E te ensinar a conduzir o trilho de sua vida,
Enquanto estiver no meu poder,
Até que consigas caminhar com tuas próprias pernas.
Te amo imensamente meu filhinho.
P.S. ouço sonata de Mozart.
Acho que a gente tem inspiração para escrever quando está feliz ou triste.
Acho que precisamos de emoção.
De certo,
O nascimento de meu filho Vinícius não para de me surpreender,
Cada dia vejo que não poderia amar mais alguém,
Amor tão intenso...
Tenho vontade de ficar só olhando, contemplando, cuidando, sentindo o cheirinho...
Cuidar!
Com o que tenho vivido,
Descobri que é muito confortante cuidar...
Passei um dos meses mais intensos de minha vida cuidando de meu pai,
Desde o acordar ao dormir...
Dei todos os beijos que podia dar,
Dei todo o carinho que podia um filho dar,
Cuidei como jamais havia cuidado de alguém...
Às vezes, acho que até perturbava com tanto cuidado,
Dei banho, escolhi a roupa, dei de comer,
Dei remédios...
Papai sempre foi atencioso e paciente...
É infelizmente ele se foi...
Ai nasceu meu Vinícius que precisa dos mesmos cuidados.
Sabe cada gracejo que meu filhinho faz, mesmo que inconsciente,
Faz meu coração explodir de alegria.
Tenho certeza que papai estaria rindo comigo com essas coisas.
Está rindo comigo,
Papai está em mim, nos gestos,
No cuidado,
Em todo amor que tenho a meus irmãos, sobrinhos, mamãe e a ele mesmo...
Aprendi tudo com o jeito simples de viver de papai.
Papai dizia que não é necessário muito para ser feliz,
Para ele tudo estava bom,
É tudo está bom!
Desde o dia que papai se foi que sinto uma imensa saudade.
Saudade de sua presença, do seu jeito simples, de suas vestes, de sua voz, de suas histórias velha e conhecidas,
Mas gostosas e como ríamos juntos.
Aí você se foi e deixou tanta saudades paizinho.
Agora nasceu meu filhinho e nem pode conhecer, mas contarei a ele tudo sobre você, e sobre eu e ele...
É assim que tudo acontece
É a vida
É a vida,
É tudo e nada
Hoje mesmo vi um lindo por do sol
E lembrei de ti,
Senti saudades das coisas simples que era a tua presença.
Quando passava pela rua olhava para o verde das árvores, a arquiteta das casas
A disposição das ruas
E pensava o que é a totalidade,
E o que é a unidade,
Confesso que não entendi nada...
Meu pai, meu maior e melhor amigo
Vou continuar por aqui mais um pouquinho,
E entender a paternidade
Vinícius vai me ajudar,
Te amo papai Chico Raimundo.
As coisas são como devem ser.
Somos quem somos,
Essa substância,
Essas ideias,
Nossas memórias,
A terra seca,
A vegetação arbustiva, intrincada,
Os ramos cor de cinza,
Os cactos espinescentes,
Algo inacabado.
Ontem, anteontem... lembrei de papai.
Tenho lembrado muito de papai.
E como ele se foi a saudade é tamanha que não tem explicação.
Uma vontade de vê-lo, abraçá-lo e sentir sua presença física,
Notar sua simplicidade,
Seu corpo rústico,
E sentir o seu amor.
Vinca linda flor simétrica,
Flor pentâmera de corola tubulosa,
Flor cheia de cor,
Alva e rosa,
Nasce em qualquer lugar,
Nasce no pé da calçada,
E cresce e floresce,
Vinca...
Vinca...
Em minhas memórias estão sempre presente...
Gerações e mais gerações...
Vincas de odor peculiar.
Ontem por acaso conheci Facundo Cabral,
Um cantor e poeta fabuloso que desconhecia completamente,
Fiquei apaixonado por sua voz,
Seus pensamentos,
É impressionante como a vida me surpreende tanto a cada dia.
Facundo Cabral em sua fala traduziu muito do que penso...
Tenho combustível para pensar e pensar...
Quantas paisagens há em minha alma?
Memórias... Memórias daquilo que se desfez
No tempo e no espaço.
A velha escola isolada Serrinha do Canto,
As professoras Livani e Lenita,
As merendeiras Dudé e Ziná
A tarde e a manhã,
De 1987 e 1988,
De 1989 e 1990,
Primeira, segunda e terceira séries primárias...
Mamãe e papai, beg, nana, lera, eu e li,
Os jegues, liao, o burro e dog...
Tempos de tapioca, beiju de milho,
Xerém...
Paisagens, de ganchos de baladeiras,
Cocos catolés e mangas espadas,
Dos macios e doces cajus...
Minha rica inocência,
Minhas paixões
Quão tudo foi perfeito e maravilhoso
Que viveria tudo de novo,
Quantas fossem as vezes,
Compreendi e aprendi o nescessário,
Embora a sabedoria está distante
Que venha um dia,
Que graça foi tudo bem
Tudo que vivi foi necessário e bom.
O tempo,
O vento...
A rima,
O verso,
O poema...
Espaço,
Compasso.
Notas musicais,
Mananciais.
O tempo,
Essa linha que tudo marca,
Marca nossos dias,
Nossas experiências,
O tempo existe?
Sabe lá...
As memórias viscosas, fluidas,
Que são memórias...
Ser...
Não ser...
Quanta matéria para pensar.
Ontem,
Agora... hoje,
Passado e presente.
Ser.
Que pode mudar?
Que pode mudar?
Desconhecer,
Conhecer...
A indiferença.
Tudo é tão rápido,
Mistérios,
Desígnios divinos.
Domingo,
A casa com paredes de taipa,
Só a sala com tijolo adobe,
E telhado com telhas velhas irregulares,
Abrigava a família de José Neves,
Ali habitava Sinhá, José e Lera,
O terreiro de solo alvo,
Estava todo varrido,
Arrastando as asas, com crista dilatada cantava o peru glugluglu.
Do lado de fora da porteira badalava o chocalho das vacas,
O cheiro de estrume aromatizava a paisagem sertaneja,
A janela da cozinha aberta,
A porta da cozinha aberta,
No fogão cozia o feijão,
O fogo laranja dançava,
Na panela o feijão com carne de boi borbulhava e soltava um gostoso aroma,
Que despertava fome na gente,
Uma melancia aberta,
Coalhada no alguidar da forquilha...
A luz iluminava o serrote,
As algarobas e pinheiras faziam sombra,
Na fachina as galinhas cocoricavam,
Vovó Zé, Mamãe, Migué e Vovô Sinhá a conversar,
Uma conversa que não entendia,
Preferia só olhar no oitão a escora da parede,
As paisagens plantas,
A serra,
Enquanto isso cantava no campo o tico-tico do campo,
Na pinheira cantava um golinha
E na gaiola o sabiá de vovô...
Que anos maravilhosos os anos 80,
Da minha infância, da velhice de meus avós,
Do eterno encontro da vida,
Das gerações se enlaçando e desenlaçando,
Feito a dança de Shiva,
Na destruição e construção...
E a consciência que tudo isso não passa de ilusão
Quando nasce o dia,
Após a noite chovida,
Como canta a passarada,
Canta o fura-barreira,
O cabeça-vermelho,
O sanhaçu,
Longe canta a sapaiada,
Em casa o cheiro da terra molhada,
Se mistura com o cheiro de café com cuzcuz,
Enquanto badala na estrada o chocalho das vacas,
Eh! boi, aboia Loló de João Corme,
Vavá grita Diniz,
E só se ouve o chiado da vaçoura de Diassis...
Passa Josimar,
Passa Bunina,
E depois Teta com o leite tirado dos Joanas,
Então Papai, Chico Raimundo, bate o enxadeco,
Deixa a bacia cheia de milho e outra de feijão e o outra de fava,
A terra molhada,
A tanajurada voando para o céu perdidas,
E os pássaros enchendo o papo,
Então segue para o roçado,
Na frente vai o pouco gado,
Papai, Rosângela, Meire e eu, Rubens...
Papai cava as carreiras tortas na terra escura do ano passado queimada,
Se mistura o cheiro do verão e da chuva do inverno,
Que doce aroma,
Dog longe late,
Se vê Zé de Geremias trabalhar nas terras de Dudé,
E as carreiras tortas papai vai abrindo,
Se ouve o pic-pic do enxadeco na pedra da terra,
E eu vou ensamiado fava, Rosangela plantando milho,
Se ouve o ronco da sapaiada,
E no céu canta o gavião,
O sol aparece entre a chuva,
Casamento de viúva dizia vô José...
O tanque encheu de água,
Plantamos mais que legumes,
Plantamos esperança,
Esperamos por bonança,
Desta terra tanto arada...
E no fim da manhã a terra plantada,
A gente volta pra casa de pés enlameados,
Felizes por terminar mais uma planta.
Agora é com a natureza.
Sou filho da terra,
Plantei e colhi milho e feijão,
Na minha roça,
Cansei de admirar a lavoura crescer,
Vi as estações secas ou invernos,
Me acostumei com a lida da vida,
Me acostumei a trabalhar,
Sou filho da terra,
Sou dono da casa,
Sou dono do nada,
Agora fui...
Mas amei tudo...
O que entendi e ignorei.
As coisas se sucederam tão rápido,
Entre a descoberta e sua partida.
Às vezes, pego-me sem acreditar,
Mas Deus nos deu sinais,
Ele pode visitar os filhos,
Viu os campos floridos de um grande inverno...
Comeu, sorriu e amou tudo isso,
Me apavorei só de pensar em tua partida,
E agora que partiu
Meu peito se enche de saudades...
Saudades de seus abraços,
Saudades de seu cheiro,
Saudades de sua voz...
O papa-cebo anuncia o verão,
O galo-de-campina canta na madrugada,
Os sanhaçus azuis cantam durante o dia,
O cantar da passarada é poesia
É alegria,
O vem-vem de peito dourado,
O saci de cucuruto invocado,
Cantam a vida,
Cantam a chuva,
Cantam o tempo...
De quem foi,
De quem é
E de quem será.
A chuva, A chuva molha a mata, A chuva molha o solo. A chuva desperta a vida, A chuva enxarca tudo, Faz os ramos brotar, Faz a semente e es...