Um domingo ensolarado, acordamos e fomos à Praia de Cabo Branco. Íamos sempre! Amamos praia. Num domingo específico. Estávamos na praia. Cavamos um buraco na areia. Estamos plenos. Sol intenso. Céu azul. Então um senhor vinha vindo e parou para nos cumprimentar. Era um poeta. Era um engenheiro poeta. Era José Massena Dantas. Nas mãos tinha vários livros de cordéis. Conversou bastante. Uma conversa interessante. Então me presenteou com um cordel com mote: Só a chuva faz mudar a paisagem do Sertão. Levei o livro pra casa. Folheei, mas não cheguei a ler. Um dia peguei para ler. Então comecei a ler um texto por dia e a pesquisar pelo poeta que o construiu. Acabei descobrindo um universo do meu sertão que não conhecia de fato. O mundo da poesia popular. Conheci inúmeros nomes. Tudo isso Graças ao presente de José Dantas. Leio... paro. Leio. Paro. E vou desvelando esse universo lindo da poesia popular. Já me tornei fã de todos. Obrigado Zé Dantas.
16/06/26
08/06/26
Eterno momento
O chão enxombrado,
A erva amarelando.
Sob o cajueiro
A sombra fria,
Sobre a folha seca
Serpenteia a coral.
Isso foi a tanto tempo atrás.
03/06/26
Sonho
Um poeta de Serrinha Wedson de Caquinho declamou.
Enquanto, dei um cochilo,
Sonhei que estava no nilo,
Percando cada tilápia
Pensando mais de um quilo.
21/05/26
Silêncio das palavas
As palavras me permitem uma aproximação aos objetos que nunca terei conexão. Só consigo acessar o espirito o ser assim nunca o ser ai. Assim me aproximo de Pessoa sem me aproximar, me aproximo de Quintana... Tantos trovadores que estiveram aqui. Tantas cantigas cantadas a luz do candieiro ou lamparina. Versos de sabedoria de exaltação a natureza. Alguns sublimes como poema da saudade do Grande Antônio Pereira... Alguém o memorizou... mas só em parte. Que genialidade concentrar uma sabedoria profunda e ordenar as palavras em um texto que define a palavra... As palavras quebram o silêncio em silêncio. As palavras são a alma material do inexistente que foi... Essas coisas.
20/05/26
Quebra do silêncio no silêncio
18/05/26
Ouça a chuva
Silêncio!
Psiu
A chuva está cantando.
A chuva está chovendo.
A chuva está chiando.
A água está pingando,
A água está escorrendo.
Que coisa macia,
Que coisa macia,
Na biqueira transborda uma bacia.
Que alegria sente o sertanejo.
Que alegria ouvir o beijo,
Que a chuva dar na terra...
A chuva muda a terra com esse abraço,
A chuva muda a terra,
A chuva inunda a terra.
A chuva desperta a semente,
A chuva desperta os ramos,
A chuva é a chave que muda a paisagem,
A chuva molha minha alma,
A chuva traz me a calma.
Enchendo-me de bonança,
Da potência da esperança,
Ao ato da existência...
Deus! Obrigado
Por sua presença,
Obrigado por falar comigo
Pela voz da chuva...
E venha a mim
De novo e de novo e de novo...
Até o meu fim.
E continuará chovendo,
Filhos nascendo,
E agora estou entendendo
Que tudo que vem
Vai...
Tudo que é teve um pai...
E uma mãe que é a chuva.
26/04/26
Dia memorável
Um domingo no passado, estava muito feliz. Meus avós eram velhinhos. Meu tio Raimundo havia vindo de Natal. Estava feliz porque ia ver ele, sua esposa Tereza e seu filho Aquiles. A gente sentia felicidade em conhecer aqueles parentes que não conhecemos. Só o conhecia pelos retratos. Nem lembro de muita coisa. Lembro de uma câmera fotográfica e um carro, acho que era um gol GTI. Lembro da felicidade que estava naquela casa. A casa onde minha mãe cresceu. Era época de inverno. Lembro da alegria de meu avó. Lembro da felicidade dos vizinhos que passavam falando do doutor Teixeira. Zequinha, Antônio de Chiquinho... A dificuldade que vovô passava, Meire ajudando a vovô. Mamãe De Assis feliz conversando com Terezinha. As coisas trancadas no quarto intocável de vovô Sinhá. Então, ali na frente tio fez algumas fotos nossas. E contando histórias...
Contou de uma disputa entre dois cantadores.
Tio tinha uma voz muito forte, orgulhosa e rompante. Falava alto para ser ouvido ou para se mostrar.
Então ele contou que dois cantadores cantaram assun:
A. Eu sou jiquitiranaboia,
Besouro do piauí,
Quando prego meu ferrão,
O sangue começa a cair.
B. Tu não és juiquitiranaboia,
Besouro do piauí,
Tu és um rola-bosta qualquer
Besouro besta daqui...
Rimos muito e aquele dia foi memorável.
22/04/26
A poeta do Sítio Bravo
Onde está a beleza
A beleza não é embelezada,
Sensação no amanhecer do cariri
A pálida luz fria da manhã,
A brisa fresca e perfumada,
Chão de cimento
Chão frio de cimento,
Singela planta
Na areia do riacho,
Curvas do tempo
Tempo
Os currais do tempo dos nossos avós, do tempo dos nossos pais.Os currais são tão iguais.
Boi, vaca, esterco e estaca.
O cheiro, a textura do pelo do boi
E da vaca.
A carícia áspera da língua do gado.
A escova e se abanar.
A respiração profunda...
O olhar generoso...
Chifres e cascos queratinoso.
Os olhos espelhos convexos e negros.
O ubre e os quatro peitos,
Esse mananciais fonte de vida.
O gado é amizade, é parceria,
É alegria, é fonte de alimento e é vida.
Não é boi ou vaca é leon, é baronesa, é mimosa, é careta...
Quem sabe sente...
Vozes da mata
A mata não fala,
A mata não canta,
Mas a mata encanta,
E a mata é perfumada,
Oras inerme, ora armada.
Na mata mora
Os grandes trovadores...
A bicharada empenada,
Que canta e canta de graça,
Não é uma graça...
As vozes da mata
São de tanta beleza,
Em ordem de cores,
Em ordem de sons,
Em ordem de alma
Que a gente fica encantado...
Sinfonia sertaneja
Despertei de madrugada,
Ao cantar da passarada.
Meu peito bateu desperto,
Ao despertador divino,
Natural e perfeito...
Só Deus fez o mundo desse jeito...
Na baraúna canta o galo de campina,
No fio canta o canarinho,
Na cajaraneira canta o corrupião,
Na goiabeira o xexéu-de bananeira.
Que beleza é o despertar da natureza...
Na algaroba fez o ninho,
E agora de lá a cantar,
De gibão e penacho,
Canta a casaca-de-couro macho.
Gritou pra avisar,
Que no chão ali está,
A coruja buraqueira.
O galo do chiqueiro em alerta,
Cantou o seu canto falcado.
Ou meu Deus abençoado,
Como é bom aqui estar,
Poder ouvir e decifrar quem vos canta e encanta...
O sanhaçu na pinheira, cantou,
O seu despertar...
Na estrada de terra fria canta a siriema...
Oh meu Deus que coisa linda,
Quanta alegria divina.
Não posso deixar de falar que agora despertou o sabiá...
... Sinfonia do sertão...
O canarinho cantou,
Galo de campina despertou,
O currupiu se juntou,
Teteu na campina gritou,
O xexéu de bananeira, sanhaçu e sabiá...
A andorinha, a casaca de couro
Canta lindo em estouro...
18/04/26
Flores
Amarela, vermelha e branca.
Uma chanana, uma ixora e um jasmim.
Uma erva, um arbusto e uma árvore.
Dispostas vejo através de minha janela.
Flores numerosas.
Flores radiadas.
Flores que florescem porque florescem.
Eu as uno nestes versos.
As abelhas quiçá
Podem mais que eu.
A existência é em si...
Nós criamos, unimos e o fazemos...
Para se eternizar de qualquer forma.
Para preencher o vazio de nossa existência...
As flores só dão um tom...
Meu amigo jasmim,
Minha amiga ixora
E agora a chanana.
Mais nada.
17/04/26
Canção do sabiá
A esta hora da manhã,
Pousou na ali aroeira,
E começou a cantar,
Que linda canção
Que linda canção Sabiá,
Mestre exímio em cantar,
Parei tudo só para escutar,
A beleza do canto do sabiá...
Canta sabiá canta sabiá.
Queria saber quem te ensinou a cantar,
Queria saber quem compôs esta canção?
Canta lindo sabiá...
E enche e preenche meus momentos
De paz, e de beleza.
Pois tu és parte da natureza,
Seu canto é de beleza,
Seu canto é de alegria,
Seu canto dá sentido a esta poesia.
Depois o tempo se vai...
E este momento eterno momento...
Tu me fez guardar no coração.
Mais nada
15/04/26
Sabe lá
A gente se sente feliz, sem saber porque,
basta ser sertanejo e ver que vai chover,
E perceber que o inverno vai pegar.
A gente se sente feliz sem saber.
Chuva é sinal de água, de trabalho e de fartura...
O sertanejo ama tudo isso e nem sabe donde veio esse amor.
São neurônios especulares... É sua raiz de existência?
Aprendeu que chuva é abundância... Chuva é esperança...
Ouvir a bica bicando a gotejar,
perceber na cara de quem a gente ama e respeita um sorrido dali brotar...
uma oração a debulhar, um café a tomar.
O clarão do relâmpago, na noite escura,
O estalido do trovão...
Perceber que da cinza ergue verde,
do seco o molhado, do sol o nublado...
Esperança...
Deste peito de criança que cresce e nunca cresce,
porque ama sua terra...
E não entendo o crescer.
invernada pegada,
feijão florido, milho pendoando,
o cheiro da rama do marmeleiro,
um porco feliz no chiqueiro,
o cheiro da esperança...
Guardando a boa lembrança.
As noites escuras e molhadas
a revoada da insetada, cururus gordos, se fartando de bichos...
A melancia partida na roça,
o leite alvo levado na carroça,
o carão cantando no banhado...
Meu Deus quero morrer nordestino, sim esse é meu destino...
E quando tudo passar, o corpo estiver velhinho
e ainda assim ama e tem esperança na chuva, na bonança...
Depois deitar e dormir neste chão...
Esse é nosso lindo destino. Crescer de um menino... do alfa ao ômega.
Ao meu amigo sertanejo Silvano Araújo
14/04/26
Florada do mufumbo
O mufumbo floresceu
Perfumando estradas
E veredas.
Voa apressado o cavalo do cão,
Não quer perder uma gota de néctar.
O riacho lá em baixo,
Está escorrendo de lado a lado,
Água azulzinha.
O cheiro doce as flores de mufumbo,
Enfeitou tanto o mundo,
Meu Deus.
Que pena que o inverno dura tão pouco.
Com o inverno as coisas são mais bonitas.
Sinto no fundo da minha alma.
A beleza é alegria.
Sabe!
Com a água da chuva do inverno...
A vida acorda...
Acorda da sementes até o embuá.
Acorda os ramos secos da mata.
E a vida se enche de graça,
Aparece folha, flor e lagarta.
Á água caindo do céu,
O cheiro da vida...
O tremor do trovão,
Enche o coração de alegria...
De cinza perde o tom do tronco da catingueira,
Amarelas flores brotam,
A água do riacho escorre cantando.
O zunido da abelha é doce como o mel que ela esconde...
Um dia vou me encantar
Que seja lá na caatinga,
No sertão...
Não sei de onde vi,
Mas tenho certeza que se morrer,
E se pudesse reviver...
Queria poder viver eternamente nordestino.
Só pra poder cheirar a florada do mufumbo...
O cheiro do sabão na água de chuva,
Lavando a coberta dormida.
Como é boa a vida.
27/03/26
Desvelar a poesia
Aprendendo um pouco sobre literatura popular.
Observando a técnica dos escritores.
Juntei alguns livrinhos de cordel para entender um pouco.
O que separa um cordel de um livro de poesia?
Cordel não é poesia?
Neruda, Drummond, Pessoa escreveram poesia.
Ferreira Gular.
Pinto do Monteiro,
Patativa do Assaré,
Louro e Otacilio Batista...
Valdir Telez,
Ivanildo Vila nova.
Coleção de conchas
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Gogh