O chão enxombrado,
A erva amarelando.
Sob o cajueiro
A sombra fria,
Sobre a folha seca
Serpenteia a coral.
Isso foi a tanto tempo atrás.
O chão enxombrado,
A erva amarelando.
Sob o cajueiro
A sombra fria,
Sobre a folha seca
Serpenteia a coral.
Isso foi a tanto tempo atrás.
Um poeta de Serrinha Wedson de Caquinho declamou.
Enquanto, dei um cochilo,
Sonhei que estava no nilo,
Percando cada tilápia
Pensando mais de um quilo.
As palavras me permitem uma aproximação aos objetos que nunca terei conexão. Só consigo acessar o espirito o ser assim nunca o ser ai. Assim me aproximo de Pessoa sem me aproximar, me aproximo de Quintana... Tantos trovadores que estiveram aqui. Tantas cantigas cantadas a luz do candieiro ou lamparina. Versos de sabedoria de exaltação a natureza. Alguns sublimes como poema da saudade do Grande Antônio Pereira... Alguém o memorizou... mas só em parte. Que genialidade concentrar uma sabedoria profunda e ordenar as palavras em um texto que define a palavra... As palavras quebram o silêncio em silêncio. As palavras são a alma material do inexistente que foi... Essas coisas.
Silêncio!
Psiu
A chuva está cantando.
A chuva está chovendo.
A chuva está chiando.
A água está pingando,
A água está escorrendo.
Que coisa macia,
Que coisa macia,
Na biqueira transborda uma bacia.
Que alegria sente o sertanejo.
Que alegria ouvir o beijo,
Que a chuva dar na terra...
A chuva muda a terra com esse abraço,
A chuva muda a terra,
A chuva inunda a terra.
A chuva desperta a semente,
A chuva desperta os ramos,
A chuva é a chave que muda a paisagem,
A chuva molha minha alma,
A chuva traz me a calma.
Enchendo-me de bonança,
Da potência da esperança,
Ao ato da existência...
Deus! Obrigado
Por sua presença,
Obrigado por falar comigo
Pela voz da chuva...
E venha a mim
De novo e de novo e de novo...
Até o meu fim.
E continuará chovendo,
Filhos nascendo,
E agora estou entendendo
Que tudo que vem
Vai...
Tudo que é teve um pai...
E uma mãe que é a chuva.
Um domingo no passado, estava muito feliz. Meus avós eram velhinhos. Meu tio Raimundo havia vindo de Natal. Estava feliz porque ia ver ele, sua esposa Tereza e seu filho Aquiles. A gente sentia felicidade em conhecer aqueles parentes que não conhecemos. Só o conhecia pelos retratos. Nem lembro de muita coisa. Lembro de uma câmera fotográfica e um carro, acho que era um gol GTI. Lembro da felicidade que estava naquela casa. A casa onde minha mãe cresceu. Era época de inverno. Lembro da alegria de meu avó. Lembro da felicidade dos vizinhos que passavam falando do doutor Teixeira. Zequinha, Antônio de Chiquinho... A dificuldade que vovô passava, Meire ajudando a vovô. Mamãe De Assis feliz conversando com Terezinha. As coisas trancadas no quarto intocável de vovô Sinhá. Então, ali na frente tio fez algumas fotos nossas. E contando histórias...
Contou de uma disputa entre dois cantadores.
Tio tinha uma voz muito forte, orgulhosa e rompante. Falava alto para ser ouvido ou para se mostrar.
Então ele contou que dois cantadores cantaram assun:
A. Eu sou jiquitiranaboia,
Besouro do piauí,
Quando prego meu ferrão,
O sangue começa a cair.
B. Tu não és juiquitiranaboia,
Besouro do piauí,
Tu és um rola-bosta qualquer
Besouro besta daqui...
Rimos muito e aquele dia foi memorável.
A beleza não é embelezada,
A pálida luz fria da manhã,
A brisa fresca e perfumada,
Chão frio de cimento,
Na areia do riacho,
Tempo
Os currais do tempo dos nossos avós, do tempo dos nossos pais.A mata não fala,
A mata não canta,
Mas a mata encanta,
E a mata é perfumada,
Oras inerme, ora armada.
Na mata mora
Os grandes trovadores...
A bicharada empenada,
Que canta e canta de graça,
Não é uma graça...
As vozes da mata
São de tanta beleza,
Em ordem de cores,
Em ordem de sons,
Em ordem de alma
Que a gente fica encantado...
Despertei de madrugada,
Ao cantar da passarada.
Meu peito bateu desperto,
Ao despertador divino,
Natural e perfeito...
Só Deus fez o mundo desse jeito...
Na baraúna canta o galo de campina,
No fio canta o canarinho,
Na cajaraneira canta o corrupião,
Na goiabeira o xexéu-de bananeira.
Que beleza é o despertar da natureza...
Na algaroba fez o ninho,
E agora de lá a cantar,
De gibão e penacho,
Canta a casaca-de-couro macho.
Gritou pra avisar,
Que no chão ali está,
A coruja buraqueira.
O galo do chiqueiro em alerta,
Cantou o seu canto falcado.
Ou meu Deus abençoado,
Como é bom aqui estar,
Poder ouvir e decifrar quem vos canta e encanta...
O sanhaçu na pinheira, cantou,
O seu despertar...
Na estrada de terra fria canta a siriema...
Oh meu Deus que coisa linda,
Quanta alegria divina.
Não posso deixar de falar que agora despertou o sabiá...
... Sinfonia do sertão...
O canarinho cantou,
Galo de campina despertou,
O currupiu se juntou,
Teteu na campina gritou,
O xexéu de bananeira, sanhaçu e sabiá...
A andorinha, a casaca de couro
Canta lindo em estouro...
Amarela, vermelha e branca.
Uma chanana, uma ixora e um jasmim.
Uma erva, um arbusto e uma árvore.
Dispostas vejo através de minha janela.
Flores numerosas.
Flores radiadas.
Flores que florescem porque florescem.
Eu as uno nestes versos.
As abelhas quiçá
Podem mais que eu.
A existência é em si...
Nós criamos, unimos e o fazemos...
Para se eternizar de qualquer forma.
Para preencher o vazio de nossa existência...
As flores só dão um tom...
Meu amigo jasmim,
Minha amiga ixora
E agora a chanana.
Mais nada.
A esta hora da manhã,
Pousou na ali aroeira,
E começou a cantar,
Que linda canção
Que linda canção Sabiá,
Mestre exímio em cantar,
Parei tudo só para escutar,
A beleza do canto do sabiá...
Canta sabiá canta sabiá.
Queria saber quem te ensinou a cantar,
Queria saber quem compôs esta canção?
Canta lindo sabiá...
E enche e preenche meus momentos
De paz, e de beleza.
Pois tu és parte da natureza,
Seu canto é de beleza,
Seu canto é de alegria,
Seu canto dá sentido a esta poesia.
Depois o tempo se vai...
E este momento eterno momento...
Tu me fez guardar no coração.
Mais nada
A gente se sente feliz, sem saber porque,
basta ser sertanejo e ver que vai chover,
E perceber que o inverno vai pegar.
A gente se sente feliz sem saber.
Chuva é sinal de água, de trabalho e de fartura...
O sertanejo ama tudo isso e nem sabe donde veio esse amor.
São neurônios especulares... É sua raiz de existência?
Aprendeu que chuva é abundância... Chuva é esperança...
Ouvir a bica bicando a gotejar,
perceber na cara de quem a gente ama e respeita um sorrido dali brotar...
uma oração a debulhar, um café a tomar.
O clarão do relâmpago, na noite escura,
O estalido do trovão...
Perceber que da cinza ergue verde,
do seco o molhado, do sol o nublado...
Esperança...
Deste peito de criança que cresce e nunca cresce,
porque ama sua terra...
E não entendo o crescer.
invernada pegada,
feijão florido, milho pendoando,
o cheiro da rama do marmeleiro,
um porco feliz no chiqueiro,
o cheiro da esperança...
Guardando a boa lembrança.
As noites escuras e molhadas
a revoada da insetada, cururus gordos, se fartando de bichos...
A melancia partida na roça,
o leite alvo levado na carroça,
o carão cantando no banhado...
Meu Deus quero morrer nordestino, sim esse é meu destino...
E quando tudo passar, o corpo estiver velhinho
e ainda assim ama e tem esperança na chuva, na bonança...
Depois deitar e dormir neste chão...
Esse é nosso lindo destino. Crescer de um menino... do alfa ao ômega.
Ao meu amigo sertanejo Silvano Araújo
O mufumbo floresceu
Perfumando estradas
E veredas.
Voa apressado o cavalo do cão,
Não quer perder uma gota de néctar.
O riacho lá em baixo,
Está escorrendo de lado a lado,
Água azulzinha.
O cheiro doce as flores de mufumbo,
Enfeitou tanto o mundo,
Meu Deus.
Que pena que o inverno dura tão pouco.
Com o inverno as coisas são mais bonitas.
Sinto no fundo da minha alma.
A beleza é alegria.
Sabe!
Com a água da chuva do inverno...
A vida acorda...
Acorda da sementes até o embuá.
Acorda os ramos secos da mata.
E a vida se enche de graça,
Aparece folha, flor e lagarta.
Á água caindo do céu,
O cheiro da vida...
O tremor do trovão,
Enche o coração de alegria...
De cinza perde o tom do tronco da catingueira,
Amarelas flores brotam,
A água do riacho escorre cantando.
O zunido da abelha é doce como o mel que ela esconde...
Um dia vou me encantar
Que seja lá na caatinga,
No sertão...
Não sei de onde vi,
Mas tenho certeza que se morrer,
E se pudesse reviver...
Queria poder viver eternamente nordestino.
Só pra poder cheirar a florada do mufumbo...
O cheiro do sabão na água de chuva,
Lavando a coberta dormida.
Como é boa a vida.
Aprendendo um pouco sobre literatura popular.
Observando a técnica dos escritores.
Juntei alguns livrinhos de cordel para entender um pouco.
O que separa um cordel de um livro de poesia?
Cordel não é poesia?
Neruda, Drummond, Pessoa escreveram poesia.
Ferreira Gular.
Pinto do Monteiro,
Patativa do Assaré,
Louro e Otacilio Batista...
Valdir Telez,
Ivanildo Vila nova.
A noite a murucututu
Voou e pousou no jucurutu quase se furou.
Então cantou
Muru-cu-tutu.
Veio o timbu e a espantou
Ela voou e pousou no mulungu
Cantou novamente
Muru-cu-tutu
Veio o caburé e dali a enxotou
Então ela voou
E pousou no cumaru
Então ela cantou
Muru-cu-tutu
Então o bando de jacu pois ela pra voar.
Então ela voou e pousou na jurubeba ela então cantou muru cututu...
Então viu um cururu se assustou e voou
Pousando num pé de caju.
O caburé não gostou e de lá a expulsou
Incomodada foi para a aroeira...
Então viu no chão se rastejando
A surucucu vermelha e preta.
Cantou novamente
Muru-cu-tutu...
Então voou até a beira mar,
Quando viu um pescador da rede tirar
Uma perigosa murucutuca.
Dai encontrou uma fêmea...
Se calou e a contemplou.
De longe a espreita estava o urubu...
E na cabeça da estaca o urutau via tudo e fingia nada ver.
Sabe quem estava bem ali o Curucuturi...
Fomos recentemente ao parque das Dunas. Ir ao parque das Dunas é para mim um ponto importante de minha vida. A primeira vez que fui foi em...