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14/04/26

Águas no sertão

 Depois que caia a chuva,

A coisa melhorava,

A terra bem molhada,

Despertava as sementes,


A mata logo acordava,

A passada cantava,

Era grande a alegria,

Tanajura aparecia,


Cururu do sono despertava,

Nos tanque fazia logo cantava...

A roupa suada ia ser lavada,

No tanque da imburana.


Ali morava o cardeiro,

Ali morava o xique-xique,

Ali minha alma era plena.


Já em maio havia a novena,

Feijão verde, maxixe e muito leite.

O tanque agora perfumado,

De flores de mucunã,

De flores de cerrador,

A mãe lavava com amor,

A roupa do trabalho suada,

Era bom de ver,

Girino com cauda e perna,

A água escorrendo no riacho,


Ah, meu Deus...

Quanta alegria,

O doce da cajarana,

Do milho assado no carvão,

Da alva pinha madura no pé,

Da amarela e velho doce goiaba...


A gente vivia plenamente,

Feliz muito mais que contente,

Por isso foram guardadas na memória...

Cantar a invernada...

Roxa, rosa, amarela flor...

Minha vida guarda amor,

Da terra, da água e do sol...

Porque o amor é a eterna inocência,

É não saber o que se ama.


Adeus tudo isso.

Foi maravilhoso enquanto durou.



13/04/26

Onde começa o eu

 A gente sempre volta ao pote, 

porque tem sede.

A gente sempre volta à mesa,

Porque tem fome.

A gente sempre volta à igreja,

Porque crê no eterno.

A gente mesmo que demore volta a pensamentos,

Porque não sabe como deles fugir.

A gente sempre deseja o que quer,

Por achou bom,

A gente sempre quer fugir da dor,

Porque achou ruim.

Ah! Um riso, um olhar nos encanta,

Um riso e um olhar nos espanta.

Porque achou belo?

Porque achou feio?

Porque foi sincero?

Porque nos assustou...

Onde tudo começou?

07/04/26

Notas da existência

 A areia seca,

O solo molhado,

Sobre o solo a gitirana 

Cresce se esparramando.

Tão belo seu movimento,

De crescimento,

De vida efêmera.


A Pinheira verdinha.

Senhora Pinheira,

Amiga conhecida

De tantas safras,

Tantas visitas,

Sanhaçus,

Vem-vems...


O fruto verde gerado,

Crescente e maduro.

Do duro ao mole,

Só verde ao branco.


Dia e noite,

Verão e inverno.


Chuva e água.


Ser.


Ali ao lado,

Tantas vezes me sentei.


Tantas vezes me senti.


Sou uma Pinheira.

Que resiste se sequidão.

Que sofre calada,

As ervas daninhas nos meus galhos.


Sofre calada o calor, mas repleta de esperança 

Pelo tempo de bonança que sempre vem.


Para a terra.

O lugar.

A existência...


Sentado ali.

Foi confidente a Pinheira,

Minha de papai e de mamãe.


Quando eles participaram ela estava triste e desgalhada e assim me senti.


Ontem estava plena.


Eu também.

Mas havia um certo vazio no meu peito...

Que nunca vai passar...

É a autoconsciência.


Queria ser uma gitirana espalhando-se pelo chão.


Mas o tempo, a memória me fizeram Pinheira.

Notas do eu dois

 Agora fim de páscoa.

Sou o que fui.

Sou o que sou.

Deveio e devir.


Minhas ilusões.

Minhas desilusões.


Estou onde mais estive neste época.


Estou sem quem mais estive.


Ainda sim na balança da existência,

Vivi mas com eles...

É a vez do meu filho.


O tempo escorre.


Sempre escorreu em espiral...


O cheiro do mato,

A brisa fria da tarde.


Algo anormal.


Cadê mamãe.

Cadê papai.


Onde foram?

Onde estão.


Seguirei pela eternidade sem resposta...


Me apoiando em algo que me encanta.


...

Notas do eu

 Sinto minha alma viva.

Sinto intensa presença da eternidade.

Sinto que sou este lugar.

Este lugar sou eu.

O cumaru cultivado por papai,

As Pinheiras, as palmas.

A erva com sua rama

Que pinta tudo de verde e formas,

Formas cordadas,

Formas radiadas,

Formas ternadas.


Ouço fora e em mim o som da passarada...

A Garrincha no oitão,

O sanhaçu nas pinheiras, 

O vem-vem no encheique,

O sabiá na aroeira,

O encanto de ouro no catolé.

O pacum voando,

A rolinha no terreiro comendo.


O cheiro alvo da flor do araçá, do mororó,

Do jasmim.


Esse lugar sou eu,

Minha alma é esse lugar.

27/03/26

Mani

 Mani.

Maniçoba

Mandioca.

Encontrei variações na lingua tupi "mani ou mandi"

Os povos indígenas chamavam amendoim de mani. Certa vez, perto de casa estava fotografando um amendoim silvestre e aprendi de papai que aquela planta era mandubim...

Nós temos a palavra maniçoba - soba no tupi tem conotação para folha... folha de mani.

Temos ainda mandioca - tupi também, canta uma lenda sobre a origem da macaxeira.

Pois bem - oca para mim tem uma conotação de vazio, ou oco... Temos a palavra "oca" nome para casa indígena. Oco vazio. Ex.: tronco oco. ou tronco com sem cerne...

Já mani ou mandi - parece que pode ter uma conotação para algo que se usa na alimentação mas que está enterrado, vi num artigo "aquilo que se arranca.


10/03/26

Um pouco de nós

 Vida essa multiplicidade absoluta.

Aos vivemos, deixamos algo de nós no mundo.

Absorvemos muito do mundo.

Somos produto dessa interação

do ser com o mundo.

Do mundo com o ser.

Essa relação nos revela o mundo e nós mesmos.

É preciso parar,

É preciso se concentrar,

Parar de querer...

Rever seus hábitos,

Tentar saber quem é você e o que você pretende ser.


Em silêncio

 O lugar respeita a manhã.

Tudo é paz e silêncio.

Aos poucos o lugar desperta,

As aves são as primeiras

a despertarem.

Umas gritam,

Outras pulam...

Os grilos cantam no balceiro de ervas.

Silêncio.

As máquinas funcionam sem cansaço,

Piscam cores verdes, vermelhas,

Zunem...

As folhas das árvores parada,

Despertam...

E um novo dia chega.

Em silêncio.

08/03/26

A alteridade

 Quando algo me agrada o que está acontecendo em meu ser.

Estou compreendendo, concordando. Estou abstraindo?

Tantas coisas me agradaram na vida.

Depois descubro que foi uma paixão, acho que foi uma ilusão.

Agradam-me principalmente coisas trazidas pelos sentidos,

Sabor, odor, forma, combinação de cores...

Porque não tudo isso junto e uma pitada de biologia.

O que acontece com meu espírito ao se deparar com uma fatia de pudim.

Ou quando no alto da juventude um olhar se cruza ao meu e a parte me leva a ver o todo

E algo me é revelado, o belo.

E algo me é revelado, o feio.

Que é o belo e o feio, senão uma condição a qual sou exposto o tempo todo e sou levado a categorizar.

Há biologia por trás destes conceitos?

E os elementos intelectuais, contemplação das ideias?

A fé na razão, na ciência, na manada.

O que é tudo isso, senão uma centrífuga que nos confunde,

Que nos faz confrontar o tempo todo a autoconsciência... o eu e a alteridade.

Essa forma de pensar é natural?

Talvez pareça se não pararmos para ver o todo e não as partes.

06/03/26

Questão metafísica

Por que descrever nossas impressões, sensações e percepções?

O que é, é.

O que é pode ser nos impressionar.

O que é existe.

E a existência não basta por si.

Existência é fenômeno.

Mas direcionar um sentido ao belo;

Ao singelo,

As vezes não percebemos na grandiosidade disto.

Por definir o que sentimos intimamente?


04/03/26

Mudamos e nem percebemos

 A tecnologia mudou os nossos hábitos para sempre.

Hoje me dei conta disto.

Faltou internet na madrugada e fiquei de mãos atadas.

Como acessar as orações no youtube?

Como acessar a bíblia online em qualquer língua?

Mudamos os nossos hábitos e estamos reféns dessa forma moderna de viver.

02/03/26

Mudança de estado

Sob o solo as raízes sustentam, 

Um eixo cinzento,

Um tronco que se ramifica

sustentando folhas 

Alternas em espiral,

No ápice do eixo,

Um céu de estrelas de prata,

Estrelas de prata,

Com garganta dourada,

Ali tem o fim de um estado,

Se inicia outro estado...

O ato vira potência...

O germe do ser,

O fim da existência...

Um jasmim pudoroso.

Ao mundo vigoroso,

Resistente,

do início ao fim.


Tudo vai bem

 Abro a janela de minha sala.

Sinto o frescor frio entrar,

A mata molhada se cala,

Avisto um sabiá de papo branco,

Ele me olha como quem me ver,

Depois me ignora...

É sua casa fernanda a aroeira.

Abre suas asas, estufa o peito e canta.

Sou apenas um espectador 

Deste singelo cantor...

É tão bom quando ignoramos o devir,

Quando cremos em Deus.

Tudo vai bem.

27/02/26

Meu voo

 Disseram-me que eu voava.

Achei que fosse sério.

Voava.

Nas ideias, para além da realidade.

Criancei-me.

Ver além da forma.

Ver a matéria;

Ver além de definições.

Voo, voa menino,

Voa rapaz, 

Voa senhor.

Dá asas a imaginação.

Fiquei pensando nesse vôo.

Me veio uma vontade de sorrir.

O que é um vôo!

Bom ou ruim?

Voo de urubu,

Vôo de carcará,

Voo de borboleta,

Voo de morcego,

Voo de beija-flor...

São não estiver voando não sou eu.

Bom preciso voar,

Para as vezes pensar algo de útil...


24/02/26

Memória uma fonte

 Memórias guardadas como despertadas?

Vi aquela visão de muito tempo atrás. A gente tinha umas vacas. E vez por outra mudava de currais. Ai a gente plantava nesses currais. Veio agora de imediato do nada os embuás encontrados de baixo da paus deitados no solo onde estavam o milharal. A sensação de calor, luz intensa, presença de vida. Papai e eu trabalhando. O embuá preto com pontos amarelos. Embuá casco-de-peba. A terra molhada e macia. A enxada. Minha conexão com o bicho. Com a vida. A tentativa de entender o mundo no meu entorno.

Foi árduo, virou memória e hoje uma doce memória e a presença de papai na minha alma.

23/02/26

Instante

 Lúcida luz nas folhas da árvore.

O cheiro da alva flor de guabiroba.

Os papagaios na mata.

O calor!

Parado espaço.

Pronto para mudar.

20/02/26

Só o silêncio

 Em casa de idoso o silêncio é a regra. 

Assim foi na casa de meus avós Chicos.

A casa era grande e alta o silêncio parecia fazer eco nas paredes.

Parece que do oratório se sugeria silêncio.

Palavras pensadas e depois falada, o tempo embotando de sabedoria os cabelos brancos com suas cabeças vividas.

Vovo adoçava o café.

Vovô só observava.

O lengo-tengo da colher na vasilha de alumínio.

O preto sabor doce do café adoçado.

A chapada a vista.

O canto do golinho que em sua prisão a gaiola cantava por opção.

Preferia o canto ao silêncio.

Um exilado a cantar sua desgraça.

Seria de alegria ou de tristeza seu canto?

Quem sabe?

Só suposições.

Um dia o silêncio imperou parcial e outro dia total.

E tudo sumiu.

Uma nova ordem surgiu.

Alma de poeta

 Um poeta se dispõe a pensar e o mais laborioso escrever.

Um poeta organiza suas ideias. Ele transforma o momento efêmero em beleza e substrato para o pensamento.

Poetas, acho que morrem de medo da morte. Descobriu que nas palavras pode se imortalizar.

Um poeta ver a beleza e a põe em palavras. Ele usa os sons para rimar. 

Tem poeta de todo jeito. Uns agricultores como patativa do assaré.

Os poetas eruditos não o entenderiam pois são se Capela.

Um poeta professor como Anacleto. Esse tem um pensamento cristão. Sua poesia é linda cristã e divertida.

Um poeta pintor como Vandembergue... só fez um livro, mas é maravilhoso. Sua poesia é visual?

Um poeta Lino Sapo que como o rio ao receber água nova ganha potência e vai levando o amor a frente.

Um poeta que canta como Ivanildo Vila Nova... Valdir Teles... 

Um poeta da serra um cancioneiro Eliseu Ventania foi o poeta que vi papai admirar.

Que ilusão definir os poetas...

Os primeiros que descobri e amei foi Bandeira e Drummond.

Sou pobre nesse quisito.

Aprecio o bonito e perceptível.

Tem um poeta maior Manuel de Barros...

Ah! Pantanal de juma minha primeira paixão...

As aves, as águas, os lagos e os rios. A imaginação dá um brilho a realidade...

Só desprendidos de nossos desejos podemos ver a realidade como se apresenta.

Ser poeta... uma vontade.

Mas ai...

19/02/26

A madrugada e o jasmim

 A madrugada oculta muitas formas. Nossos corpos tem suas limitações e estas só ampliam quando dele s distancia. Assim mesmo uma deliciosa sensação ao acordar  e ir a janela. Era o cheiro doce e intenso do jasmim-de-laranjeira. Quem conhece entende! E aquela linda planta está a mais de 200 metros de minha casa. Como a copa redonda, com folhas verde escuro, parece coberta de pipocas perfumadas ou seriam botões pipocados? Para que tentar definir flor ou essa sensação. Só quem conhece o jasmim vai entender. Essa relação é de paixão ou aversão. Há quem não goste, mas isso é tão particular. Só sei que a madrugada me revelou um dia perfumado.

18/02/26

Jas mim

 As murraias estão floridas. Murta ou jasmim-de-laranjeira. Suas flores alvas, perfumadas, pentâmeras estão floridas em cachinhos ternados. A mim me encantam essas plantas. Suas folhas de sabor amargo, de pontos translúcidos e multifoliolados; seu tronco forte, sua copa redonda. Em janeiro ou fevereiro ou basta chover elas florescem... Elas gostam da água da chuva. E respondem a esta com botões, flores e frutos.

Não sei quem me ensinou a perceber nas plantas. Terá sido a doçura dos cajus, das mangas, das ciriguelas, das pinhas e das goiabas?

Onde há vontade há consciência. O açúcar será nossa primeira fonte de consciência?

Amar os jasmins é algo sublime, porque alimenta além do corpo ao espírito... E é fácil agradar o espírito com um bom perfume... Será o jasmim uma palavra oriental para perfume? Coincidentemente todo jasmim é perfumado... Jasmim manga e manga jasmim...

Vi na etimologia da palavra no google... yasmim... de origem Persa: flor de aroma intenso e delicado,

Algo léxico - com sentido... com direção... que afeta nossos sentidos.

Aparte isto. Olhei pela janela ontem à tarde e vi o jasmim-de-laranjeira florido.

E me veio a mente essa ideia.

Pronto agora posso esquecê-la só por um momento.

Amanhece

 Enche o peito do ar frio da madrugada. Traz em si um cheiro particular, Cheiro das chuvas de abril, Cheiro da mata molhada. O silêncio é su...

Gogh

Gogh