Uma tarde ensolarada,
Som de piano,
Composição de Amadeus.
Dúvidas quanto a vida.
Cadê a fé?
Reza um pai nosso e te acalma.
Tudo vai ficar bem.
Uma tarde ensolarada,
Som de piano,
Composição de Amadeus.
Dúvidas quanto a vida.
Cadê a fé?
Reza um pai nosso e te acalma.
Tudo vai ficar bem.
Quando minha mãe partiu, ficou um grande vazio.
Vazio da palavra, da voz, dos conselhos, do carinho.
Quando mamãe se foi eu fiquei sem chão, não sabia como ia ser.
Mas ai, eu tinha o meu filho, a minha esposa e os meus irmãos.
Perdera uma pessoa importantíssima, mas não estava só.
Precisava lutar. E lutei. E tentei e consegui dissolver a dor.
Com amor, fui construindo uma ponte.
E transpus essa dor.
O tempo, e aqueles que estão ao meu redor me ajudaram.
E segui a vida.
Sentir o mundo,
Encontrar um sentido...
Na cor,
Na harmonia do som,
No cheiro da flor,
O do calor da flor,
No gosto amarelo da manga,
No gosto rosado do beijo quente
E molhado,
Num olhar não procurado e achado,
Achar um sentido,
Em tudo que se passou,
Em tudo que se passa,
Achar e por isso de graça,
É uma verdadeira graça.
Achar um sentido,
Pelos sentidos,
Uma emoção,
Uma percepção,
Um sentimento,
Pra vingar precisa ser criado,
Precisa ser cultivado...
Às vezes parece que será eterno,
Mas é inexperiência...
Às vezes, a gente até aposta...
Outras vezes até se ilude
E nessa ilusão,
A vida tem até sentido,
Além de um sentido,
A ilusão até nos anestesia,
Faz suportar a dor,
Ah...
O sentido de tudo
É o sentido da vida...
Vida que a gente cultiva
Até que a vida se enfraquece,
O tempo e a experiência machuca demais
Se são tantos desenganos,
Os sentidos e os sentimentos...
Há de aprender a cultiva-los senão
A desilusão o mata cedo.
Na lagoa um sapo compõe a paisagem. Estático apenas o percebo. Sua forma e suas cores aquilo que me diz que é um sapo. Seus olhos percebem a mim pelo meu movimento. Estático está e permanece. Perto do sapo está um jacaré e na mesma lagoa peixes.
Essa lagoa não é natural nem aquele peixe.
As vitórias regias enfeitam de cores alvas e verde o espelho da água...
O sapo fica pequeno diante do jacaré diz um.
O sapo fica feio diante da vitória regia diz outro.
O sapo nada menos que o peixe fala o outro.
O sapo não responde só existe.
Se tem fome come.
Se tem perigo foge.
Só responde.
Agora nada o incomoda e compõe uma paisagem.
Só.
Após uma longa seca, ontem à tarde, 22 de dezembro 25, finalmente caiu uma chuvinha. O tempo esfriou e a noite nasceu nublada. À noite, antes de dormir, trovejou muito. Dormi a noite inteira. Agora que acordei e fiz minhas rezas, estou a contemplar o mundo com os ouvidos e com a pele. Ouço tudo que acontece lá fora os veículos a passarem na estrada, e todos os pássaros a cantarem, sanhaços, cabeça-vermelhos, rixinó... O tic-tac do relógio, o zunido do ventilador. Sinto o frescor da manhã nova que chegou e vai me dando tempo e graça de vida. É quase a última semana de mais um ano.
Estou muito grato com o ano que vivi.
Meu filho está forte e feliz, já está quase lendo.
Tudo em minha vida é uma benção.
A existência é um fenômeno.
Ser é existir.
Existir é intuitivo, é imediato...
No sertão potiguar onde nasci, todo fim de ano vou passar. Esvaziar a mente e descansar. Hoje subimos a serra num sítio, jacas fomos comprar e ali nos pomos a conversar.
As jaqueiras centenárias pela seca maltratadas e as Pitombeiras a nos escutar. Seu Cleiton cujos olhos são os ouvidos a narrar os acontecimentos recentes. Todo cuidado com sua esposa que o alzheimer a infantilizou. Conversámos muito e depois saímos Vinícius e eu para o sítio pegamos o carro e pagamos as jacas, três duas duras e uma mole.
Nos despedimos e o acontecimento terminou.
A manhã foi tão ligeira,
Caminhei na estrada tentando esvaziar a mente.
A mata seca e intrincada, a forma das árvores,
A aroeira inerme e oblonga, o Juazeiro verde e armado, com flores diminutas, a Jurema castigada cortada e ressuscitada tão ramificada, as cajaraneiras plantadas e idosas...
Os angicos de troncos ornamentados espalhados na mata.
Na beira da estrada encontro a trindade na materialidade de três pequenas rochas, sagrada família.
Olhar aqui e aculá a contemplar a unidade e a pluralidade...
O som do metal na proteção de uma curva fechada.
O som em minha alma e na natureza o vento sendo riscado no garrancho da mata.
A luz fria do sol que vai aquecendo o dia...
O ir e vir...
A manga na sobra da mangueira, doce amarelo.
O céu azul.
A promessa de chuva.
A fé.
A estrela alva da vinca.
O café com leite.
A saudade.
E o desfecho da manha aqui e agora.
O tempo tem me revelado o que é a vida.
O tempo tem me ensinado a viver
Entre percepção e razão,
Entre a realidade e a fé.
O tempo é o combustível da minha existência.
Vida por vir.
A vida vivida é matéria do meu saber.
Sentimento...
Ser...
Existir.
Nossa casa aconteceu.
Nossa casa nasceu do amor,
Nasceu do trabalho e do suor do meu pai.
Nossa casa surgiu um dia e se transformou em um lar.
Nossa casa foi criança, nova e cheia de barulho, bagunça e alegria,
Nossa casa nunca estava vazia.
Nossa casa foi pequena e depois cresceu.
Nossa casa foi baixa.
Nossa casa teve várias cores...
Foi amarela, foi rosa, foi Verde e foi azul.
Nossa casa tinha mãe e pai.
Nossa casa passou por tantas coisas, alegrias e tristezas.
Nossa casa teve sentimentos...
Nossa casa assistiu nossa chegada e nossa partida.
Nossa casa descobriu as doenças do fim.
Nossa casa velou meus pais.
E ficou grande, velha e vazia.
Ainda sim é o nosso lar.
Seus netos nossa casa não tem tanto amor.
Nossa casa, neto é neto.
Nossa casa é agora a casa da tia.
Nossa casa no natal já tem aquela festa ha cinco anos,
Nossa casa o Natal perdeu o brilho...
Nossa casa é católica.
Nossa casa tem Maria, tem José, tem Jesus de Nazaré.
Nossa casa tem são Chiquinho.
Nossa casa não falta amor aos animais...
Gato, cachorro, gado, galinha e pato.
Nossa casa fica feliz com nossa visita...
Sorri de portas abertas...
Nossa casa um dia será por si.
Sois forte, existente, sois parte de nos.
Seus átrios preenchem nossas mentes de memórias e de saúdes...
Nossa casa como é linda, como amo te ornar.
Guarda lembranças do meu amor por papai, canecas de porcelana, um boi e um jaguar, imagens...
Fotografias, documentos...
O que é a nossa casa.
Nossa felicidade e nossa existência.
Nossa casa paciência com a vida.
Nossa casa é nossa vida, nossa vida vivida.
O verão intenso,
Seca!
Poeira, e estiagem.
As árvores florescem e nem sentem,
Vão buscar água no subsolo.
Mas sofre e muda,
Abri a janela,
E ouvi o som das folhas se desprendendo dos ramos,
Folhas amarelas,
Flutuando pelo ar...
Não se percebeu o início,
Mas estava lá a se dividir
Mas estava lá a se multiplicar,
Da gema, cresceu um botão...
Por dias a se preparar,
Cresceu sem parar.
Um dia do nada,
A flor desabrochou,
Numa antese triunfal,
O botão se fez flor,
A flor negou o botão,
Em plenitude de beleza,
Pétalas encarnadas,
Pétalas perfumadas,
Pétalas macias,
Com os olhos devorava a beleza,
Com o nariz devorava a beleza,
Com os dedos devorava a beleza,
Foi só um dia de plenitude,
Apenas um dia de existência,
A rosa logo desapareceu,
Enquanto outros botões
Geravam as rosas,
Então! vale a pena plantar,
Vale a pena cultivar,
A existência é um fenômeno.
O sol acendeu a manhã.
O vento afaga a manhã.
As aves cantam para a manhã.
O silêncio,
A palavra,
A contemplação.
Que fazer com tudo isto?
O sol aquece a manhã,
O vento refrigera a manhã,
As aves sentem o sol,
As aves sentem o vento,
Ora calam,
Ora cantam.
Eu que não faço nada
Apenas sou.
Apenas estou sendo,
Quando tu leres pode ser que ainda seja ou não.
Atemporal é eterna é a manhã.
A imagem no espelho revela marcas do tempo vivido.
As experiências, os encontros, os afetos.
Cada marca tem um dia, um momento, um instante.
A mente se apega a um traço,
E abre a porta da memória e divaga.
Onde estou nesta história?
Em frente ao espelho,
Atrás do meu olhar,
Em algum lugar sem espaço,
Pois memória não tem materialidade...
Adoro o silêncio desta sala, a vista para a mata, para a aroeira e o jutaí.
A manhã nublada e a aves em sua alegria a cantar.
Na correria dos nossos compromissos esquecemos das coisas mais simples e importantes da vida.
Cai a tarde escura, Nuvens que oras chovem, Oras deixam o sol clarear, Ruas molhadas e enxutas... Definitivamente, Caiu à tarde, Caiu à tar...