Com quatorze versos faço um soneto.
Sendo as estrofes divididas em quatro, quatro e três e três.
As rimas podem ser alternas ou opostas.
Aprendi numa aula de português a muito tempo atrás.
Nem sei o que me adicionou.
Sei que Quintana gostava muito.
Com quatorze versos faço um soneto.
Sendo as estrofes divididas em quatro, quatro e três e três.
As rimas podem ser alternas ou opostas.
Aprendi numa aula de português a muito tempo atrás.
Nem sei o que me adicionou.
Sei que Quintana gostava muito.
Abro a porta da sala,
O corredor vazio,
O corredor frio,
Não se ouve fala.
Tudo é silêncio!
Um agradável odor de molhado,
É cheiro de chuva chovida.
A luz branca ilumina sua profundidade,
É fim de período...
Pra já já recomeçar...
Abro a sala nove.
E é mais um dia,
Ou menos um dia.
Sabe lá.
Após o café, o caminhar...
A manhã metade ida.
O corpo quer um descanso.
A gente senta na área.
Nessa área eterna.
Área que sentei toda a infância.
Área que sentei na adolescência,
Área que papai sentava pela manhã
E pela tarde.
Área que mamãe despertava
Após o cochilo vespertino.
Área de recepção,
Área de despedida...
Nunca estava vazia nestes momentos...
Esta área foi testemunha das nossas visitas
Vovô sinhá,
O amigo Dadá,
Meu tio Aldo,
João de Licor,
João de Lourival...
Quantas vezes Bege, as meninas
E eu chegamos
E quantas vezes demos adeus.
Esta área eterna.
Hoje vive vazia,
Tendo um cachorro
Por companhia.
O sol
E a lua
Alumiaram
E alumiam.
Papai deixou plantado em sua frente
Um espada de São Jorge,
As vincas,
Mamãe aqui deixou a açucena
E o jasmim laranjeira...
Área que me ensinou sobre paciência.
Aqui li Gandi,
Machado de Assis,
Aluízio Azevedo...
Encarei a biologia,
A química as ciências naturais.
Aqui esperei o inverno e as chuvas.
Os resultados das provas que fiz.
O triste dia da partida de papai,
De mamãe...
Aqui foi o palco de alegria e tristeza.
Não se sabe,
Não se percebe
Porque se vive sempre
No presente...
O passado são memórias
E o futuro são desejos.
Essas coisas são particulares
Está cultivada em cada um de nós.
Aqui papai envelheceu, cochilou e partiu.
Mamãe tantas vezes renasceu
E a morte venceu.
Hoje tudo é só memória,
Parte de uma memória...
Se está área falasse.
Se ao menos existisse,
Porém é apenas um vazio entre três portas.
Só isso.
Tudo e nada.
Ontem tive o maior presente do criador,
Estando em minha terra natal
E foi como um sonho renovador.
Acordei enquanto chovia
Meu peito cheio de alegria...
Foi um sonho vivido,
Foi um sonho revivido.
Vivi duas coisas numa só.
A natureza eterna e profunda
Numa face maravilhosa,
Verde, fresca e molhada.
Quantas vivi essa face em minha vida
Não foram muitas.
As maravilhas divinas sentimos
E amamos mesmo
Que seja a primeira vez.
A esperança forte batendo no peito.
E a já sente a eternidade.
A chuva, o verde e a fé que isso é bom
É verdadeiro e efêmero.
O cantar alegre das aves...
O cantar harmônico das aves.
O cantar feliz das aves
nos transmite felicidade.
Foi o que senti ainda criança
E reafirma sempre que ouço...
Tá guardado na memória.
Ver pela janela a fora
Enchendo a vista de forma, de cor, de profundidade...
Sentir o ar fresco,
A brisa fria, o cheiro de mato molhado, o cheiro da terra enxombrada.
Sentir a realidade da ausência de pai e mãe materializada em saúde.
Aí está.
O coqueiro morreu.
A graviola está quase morta.
Foi papai que plantou.
A realidade do tempo que se foi.
A realidade do tempo que é.
Esse posso viver,
Aquele não mais
Em totalidade.
Tenho um filho pra criar,
Um filho pra ensinar como é a vida aqui...
Na ausência de meus manos e meus pais.
Aqui as mesmas sensações terá.
O ontem foi pra isso.
O café aquecendo o frio da manhã.
A manhã de chuva.
O banho de chuva.
O passeio na mata.
O almoço com arroz de leite e peixe frito.
A tarde de chuva...
Chuva a tarde todinha...
A noite escura e fria.
O angu com leite...
O chá.
A vida.
Quando cheguei lá,
Tomei um susto
Um susto de realidade.
Casas trepadas nas barreiras,
Casas de tábua,
Casas de lonas...
Casas...
A minha casa pareceu um palácio.
E ninguém ali, imaginava,
O que em minha mente passava.
A gente anestesiada,
A quela gente acostumada,
A chuva e ao sol,
As casas onde morava,
As casas que ali estavam.
Eram casas.
Eram pessoas como eu,
Vivendo sua vida,
Vivendo sua realidade,
A mim uma triste realidade.
Irreal a minha realidade...
Tudo bem, ali era ali.
Bem distante daqui.
Quem se preocupava
Com aquela pobre gente,
Com nome, com voto...
Seu valor,
Nitidamente marginalizada.
Recife...
Grande Recife.
A capital da cultura,
A capital do Pernambuco...
É real,
Em sua entrada não mostra maquiagem
´
É tudo gente e verdade...
Fiquei afetado,
Fiquei impactado...
Mas descobri naquela gente,
Amizade, bondade.
Gente real...
Sinto que a vida está passando rápido.
Sinto que a vida está muito boa.
Sinto que sou.
Sinto e sei da existência.
Algo em mim me faz sentir tudo isso.
Algo em mim quer que saibas disso.
Sinto a vida na vida, na existência.
Sinto que tudo vai bem mesmo que por um breve momento,
E isto está bem.
Sinto felicidade nas crianças,
Sinto felicidade na arte por mais embrionária que seja...
Desde um jardim até um comigo ninguém pode numa lata.
Sinto felicidade na luta pela vida.
E tristeza no desprezo do corpo,
Dessa existência...
Nos abismos que podemos cair,
Nos abismos escuros que se caem...
Tantas pessoas por ai abandonadas...
Drogadas...
Cadê a compaixão humana?
Cadê a empatia...
É preciso força e união para vencer tudo isso e sair do abismo.
Sinto que estou fazendo muito pouco,
Para mudar o que ai está.
Mas estou dando o meu melhor.
A madrugada silenciosa, escura e quente.
Faz a gente despertar.
Desperto a gente fica a pensar.
A gente pensa o que vem na mente.
A gente pensa pensamentos recentes.
Uma tal de heurística da disponibilidade.
A gente pensa aquilo que acende uma memória e um pensamento.
Que a gente cultiva se quiser.
Então, parece que o silêncio em mim me acende o passado, a memória.
A saudade.
Meu filho mudou tudo isso.
A fé e a busca da fé também.
São caminhos, são decisões.
Essa encruzilhada a gente um dia se depara.
Então temos que fazer uma escolha.
O mal de tudo é querer saber qual é a escolha certa.
O silêncio, parece ter o domínio de tudo.
No silêncio, nossa mente parece ficar atemporal.
Sem movimento reina o silêncio.
Então temos vagar nos objetos mentais...
A madrugada é silenciosa.
A madrugada é reflexiva.
Movimento na madrugada, muitas vezes pode ser tragédia...
Duas faces na madrugada cansaço ou vigília e energia...
Duas faces em pessoas diferentes.
Depois de dormir energia,
Trabalho excessivo cansaço.
Essas coisas.
A forma é a matéria definida.
É o estado terminal da matéria.
A forma pode ser dita.
A matéria é a indefinição da forma.
A substância é a forma e a matéria.
A substância é a totalidade que há.
Forma é ilusão.
Forma é o negativo.
Forma é definição.
Forma é enquadramento,
Forma é o começo da abstração...
Nana rupa - nome e forma.
Um ponto para um pensamento,
Ou a base do pensamento.
O amor não usa balança.
Amar é sublime.
Amar é a essência da vida.
Amar é cuidar da vida, cuidar das pessoas, cuidar dos bichos e cuidar do mundo.
Quando começa o amor?
O amor tem fim?
Olhar no olho daquela pessoa que está ali viva, porém sem memória.
Cuidar até o fim. Por amor...
Amar... Chega a doer só de pensar na partida.
Amar é um sentimento que melhora o ser infinitamente sem que percebamos.
Não usa peso aquele que ama.
Amar...
Para minha tia que Doença de Alzheimer e para sua filha que cuida tão infinitamente bem dela.
Nos humanos somos todos passiveis de dor.
Sonhei ser tanta coisa.
Sonhei com a grandeza.
Lutei pelos meus sonhos.
Amei as filosofias.
Hoje a vida vivida em parte.
Percebo que a vida vai ganhando sentido no viver.
Hoje o que mais amo não estava em meus sonhos,
Mas estava lá comigo em potência e em ato,
Minha família e meu filho.
Os meus sonhos foram a lenha
Para sobreviver até aqui,
Foram importantes para ser o ser que sou,
A parte isso pulsa em mim a humanidade,
Sou igual a todos com todas as dificuldades e facilidades...
Sou a vida que entendeu que o tempo tudo consome,
Sou sentimento e esperança e o mais sublime amor.
A manhã foi tão ligeira,
Caminhei na estrada tentando esvaziar a mente.
A mata seca e intrincada, a forma das árvores,
A aroeira inerme e oblonga, o Juazeiro verde e armado, com flores diminutas, a Jurema castigada cortada e ressuscitada tão ramificada, as cajaraneiras plantadas e idosas...
Os angicos de troncos ornamentados espalhados na mata.
Na beira da estrada encontro a trindade na materialidade de três pequenas rochas, sagrada família.
Olhar aqui e aculá a contemplar a unidade e a pluralidade...
O som do metal na proteção de uma curva fechada.
O som em minha alma e na natureza o vento sendo riscado no garrancho da mata.
A luz fria do sol que vai aquecendo o dia...
O ir e vir...
A manga na sobra da mangueira, doce amarelo.
O céu azul.
A promessa de chuva.
A fé.
A estrela alva da vinca.
O café com leite.
A saudade.
E o desfecho da manha aqui e agora.
Numa manhã tudo terá passado.
E o sentido terá terminado.
Em uma manhã o que se mostrou,
Já não existe.
E nós que seremos?
Ver tantas vezes esse movimento.
Não dá para entender que tudo está mudando.
Tudo é devir.
Cedo ou tarde chega-se ao fim.
Somos a soma viva de todos nossos antepassados que já existiram.
Somos impares.
Somos eternos.
Nem percebi, mas aconteceu,
Do ramo surgiu um botão,
E do botão a rosa desabrochou,
O botão calado e tímido,
Passou desapercebido,
A rosa! se mostrou toda,
Se derramou em beleza,
Em simetria, em cor, em perfume e em maciez.
Por se mostrar de mais a rosa foi colhida,
Despetalada, devorada.
O botão teve plena sua existência,
Já a rosa!
Dependeu da sorte da vida.
Boa ou má sorte?
Minha vida mudou tanto quando passei para o ensino médio. Fui estudar a noite em Martins no Joaquim Inácio. Tive excelentes professores.
Um deles era uma professora, Oneide. Minha professora de português. Não tive dificuldade com ortografia, tive e tenho com a sintaxe. Enfim, adorava as aulas com os textos e suas análises. Gostava de escrever no caderno e ver ela escrevendo no quadro. Ela tinha cabelo curto, uma voz pensativa e gostosa de se ouvir. Havia uma áurea de experiência e amor pelo ensino. Um texto maravilhoso e marcante que nos passou foi o texto rua dos cata-ventos de Mário Quintana...
Nas tarde fagueiras, na minha cadeira de balanço, no corredor da biqueira, li e reli tantas vezes, as rimas, os sentidos e a solidão.
Aquele texto marcou para sempre na minha vida. Procurava e não encontrava e nem sabia que rua dos cata-ventos é um livro com 17 sonetos. E que o soneto que conheci foi o soneto II. Recente comprei um livro de poemas de Mário Quintana e descobri essas informações.
Estou descobrindo a genialidade ou a sensibilidade daquele maravilhoso poeta. Estou concomitantemente lendo o DNA do nordeste do poeta Lino e um livro de poemas e imagens de Wandenberg Medeiros. Já li Neruda, mas faz tempo que não leio.
Recentemente conheci a poesia de Waldir Teles... E conheci pessoalmente a poetisa Lizbethe Oliveira e converso sempre com o poeta Anacleto!
Em meio a este universo concreto e abstrato vou tentando dar alguma matéria para meu espírito construir alguma coisa.
Acho que em meio a estes busco temas que sejam universais.
Descobri ou redescobri o poeta de nossa cidade Martins Eliseu Ventania, que foi um grande cancioneiro...
E falar o que de Patativa do Assaré?
E falar o que de Borges?
O que afinal forja um poeta!?
Que falar de Drummond?
Manuel Bandeira?
Tiago de Melo?
Manuel Bandeira?
João Paraibano?
Pinto de Monteiro?
Estou apenas descobrindo...
Uma vida não seria suficiente...
E o grande Leonardo Bastião?
E Padeiro?
...
Salvo o absoluto...
E entender que tudo foi gerado numa aula de português?
Numa mente jovem com vontade de vencer.
Numa mente que acreditou numa ideia.
Que a palavra tem poder de mudar o ser.
Mestre Oneide!
As suas aulas me encantaram mesmo sendo pura abstração...
Mario Quinta naquele poema me fez viajar e agora terminado esse universo.
A realidade é percebida,
Com o tempo a realidade é sentida.
Nosso juízo está pautado no concreto.
Mas tem seu hatitate no abstrato.
As impressões me chegam
E começo a perceber,
E a conhecer aquilo...
A experiência me envolve no mundo,
A experiencia me faz pensar num eu.
E o que é o eu na realidade.
Conhecimento de si.
Autoconsciência.
Fui a padaria e me lembrei de um momento crítico na minha vida. Os primeiros dias em Natal. Foi quando precisei ser mais forte. Estava totalmente só. Não tinha ninguém por mim. Minha vida era só saudades e solidão. Nem café da manhã tinha. Saia as vezes pra comprar algo para tomar de café. Não tinha regras como era acostumado. As luzes do quarto só eram apagadas muito tarde e tive que me adaptar. A força Deus dá. Todo começo é muito difícil. Cada um tem uma história que conta a seu sabor. É preciso aquecer o coração para relaxar e entender a vida... As janelas para o passado de vez em quando precisa ser aberta para entender que a vida é uma história em acontecimento. E que somos responsáveis pela cor e pelo brilho que tem nela.
Fui contando coisas para Vinícius enquanto íamos a padaria. Coisas que não entende, mas a gente vai conversando.
Domingo dia do senhor. Dia de pensar na vida.
Aí volto a Serrinha, mamãe, papai, João de Licor, Elita... Personagens de nossa história.
Fevereiro passageiro,
Toda soma é quatro lua
Dia e noite a se fechar.
Sol, estrela, luz e calor
O verde da mata cinzenta,
Mata cansada, e enfadada,
Com a chuva que chegou,
Chão molhou,
Secura sumiu,
E tome calor!
Do verão que passou,
Só a folhagem no chão,
Agora, toda florada,
Agora toda florida,
Flores alvas e amarelas,
Floresce a guabiroba,
O pombeiro,
O pau-sangue,
O ipê e o jitai...
Nunca vi...
Nunca vi.
Antes podia desfrutar às noites de lua cheia em família. Papai, mamãe e meus cinco irmãos. Eu olhava para o céu com um olhar ingênuo. Era t...