06/05/26

Emboás e a mente

 Emboás são cheio de pernas,

Emboás tem exoesqueleto,

Emboás são lineares.

Emboás são segmentados,

Às vezes bicolores,

Às vezes unicolores.

Emboás tem duas antenas.

Quando enredados,

Os Emboás se envolvem em espiral.

Quando está seca a paisagem,

Emboás se escondem.

Acho que as vezes sou um emboá...

Ou minha mente me tornou um emboá.

Talvez...

Escultura

 Ontem Sassá estava muito inspirado e concentrado. Com os isopors de um eletrodomestico que compramos entalhou com seu cinzel um peixe lanterna e um esquilo. Trabalhou com afinco sua escultura. A sala ficou cheia de pedacinhos de isoopor, mas ele responsavelmente, varreu e apanhou com a pá. Ele me pediu ajuda e o ajudei.  Foi um momento de concentração plena.

Pereiro

 No fruto do pereiro mora duas abóbodas celestes noturnas.

Lua, luz e som

Na madrugada a lua desperta,
Alumiava o mundo...
Percebi no chão escuro
Uma área pálida e iluminada...
Era o brilho da lua.
Não resisti e fui ver a lua
No cimo do céu vagava...

Uma soma de memória despertou...
Papai, mamãe, meus irmãos e a noite.

Senti-me feliz.
Uma felicidade pálida como a lua na madrugada.

À noite, parece ser mais eterna que o dia.
O silêncio da natureza,
O brilho das estrelas em suas galáxias
Que os bichos não a nomeiam.

Longe ouvi um cão latindo.
O que o perturba?

Um mundo para além do meu.
Muitos mundos num só mundo.

A lua sabe disso.
Plenilúnea tudo clareia.

Eu... descubro o além de mim.

Num cão que não sei quem é,
Só sei que é cão.

E a lua que é lua.

E eu que sou um todo em expansão.


Patativa

 A patativa canta sozinha,

Canta acompanhada,

Canta muito esse passarinho,

Tão pequenino, de bico arqueado e fino,

Com sobrancelha, arqueada,

E olhinho redondinho,

Seu papinho bem amarelinho...

De perninhas bem fininhas,

Mas sua voz,

Mas o som que vem do seu peito...

Impõe mesmo respeito,

De beleza e altura...

Não importa sua finura...

Eita passarinho pra cantar...

Encontrando a namorada,

A pinha madura... coisas mais.

05/05/26

Aula licófitas

 A aula foi enriquecida com os objetos de estudo. 

Selecionei uma cavalinha, uma selaginela, uma samambaia de folha lobada e uma samambaia nefrolepis.

Foi questionado sobre a presença de raiz, caule, folhas e estruturas reprodutivas.

Falou-se sobre tipos de caule, tipos de folhas e de estruturas reprodutivas.

As respostas foram positivas.

Gerou-se várias dúvidas.

Samambaia

Ontem ao sair da escola Sassá pegou uma flor no jardim. Depois viu umas samambaias ele chama de Samandaia. Quis uma folha então peguei um ramo e veio uma planta jovem. Ele ficou muito feliz e veio falando sobre samambaias do tamanho de nosso prédio. Em casa ele colocou as samambaias nas plantas de nossa sacada e aguou todas. E a lua nem veio cedo. Depois jantamos, brincamos de esconde esconde. Lutamos, brincamos, dei banho nele e a mamãe cuidou dele. Eu apaguei.

04/05/26

Notas do eu

 Vou construindo meu mundo.

Somo a subjetividade com a objetividade.

Meu entorno percebido,

Meu entorno absorvido.

Eu me derramo,

Objetivo minhas vontades...

O concreto é a face primeira do ser, da existência.

Essas coisas.

Coisas aleatórias

 Sassá ganhou um caderno de Bob good. Ganhou canetas.

Ganhou também um caderno de pintar de dinossauros.

Foi interessante ver o empenho dele para pintar os dinossauros.

Aproximou-se muito das Feras. Na Livraria leitura até quis ganhar um livro de dinos.

Então sexta-feira, feriado e chuvoso ele resolveu pintar os Bobgods dele.

Como estava por perto fui ajudar. Não curtiu muito.

Me deixou pintar os dinossauros, mas os bobs.

Fiz uma sobrancelha em tibrúrsio o urso... Ele falou não papai... Bobgods são bonzinhos não são maus.

Coisas da cabeça dele.

Ontem não me deixou pintar o Bob. Então fui pintar.

Ele foi pinta também e pintou camaleões.

Dai saímos para caminhar. Como prometi um sorvete foi muito ágil... Fomos conversando, mas ele tinha um foto doce no fim.

Digo que Sorvete faz mal. Então ele disse e o que podemos fazer para tirar esse mal. Falei atividade física. Bom após chegamos na Praça do Rapaz e ele correu muito... Disse que era para tirar o mal do sorvete.

Essas coisas como ele diz.

Ciclo das ideias

 Uma tempestade de ideias cai na terra.

Grande parte é absorvida pela terra,

E faz germinar e brotar ideias adormecidas.

Quando a terra fica saturada,

Então as ideias seguem os sulcos, como veios

Onde as ideias vão descendo rio abaixo

Em direção ao grande oceano...

Onde tudo começa.


01/05/26

Maio

 Maio nasceu fértil,

Nasceu iluminado pela lua cheia,

Nasceu molhado pela chuva matinal,

Nasceu ao som dos grilos no mato florido,

Nasceu enquanto cantava a roxinó, a patativa.

Quando despertei...

Lembrei que maio é o mês das mães.

Senti falta de mamãe.

Porque olhei através da memória 

Meu passado,

Lá em Serrinha minha amada terrinha...

Nos maios férteis que vivemos...

A fartura garantida nos dava conforto,

Nos dava felicidade... Salvo que felicidade é se sentir bem, satisfeito com o que se tem para comer,

Esperançoso de coisas boas.

A vaca com cria nova e muito leite,

Feijão verde na panela,

Pinha alvinha e docinha na furna,

Melancia vermelhinha trazida do roçado,

Amarelas e perfumadas cajaranas...

Água na cisterna e nos tanques,

Paisagens verdes pra olhar,

As cores perfumadas das flores,

Flores docinhas como as juremas, 

Flores das jitiranas, rosadas, azuladas, amareladas e alvinhas...

A goiabera florida,

As abelhas zunindo nas floras...

Água escorrendo nos riachos e caminhos...

Maio! Que paraíso...

Á noite íamos as novenas ouvirmos os sermões e ladainhas...

Chiquinho de Raimundo mora pregando...

Papai e mamãe nos ensinava com suas fés...

Nós bebíamos a Serrinha...

As primeiras lições com Lenita e Livani...

Meus amigos de infância.

A descoberta de um mundo simples...

Não sabia o que era problema, dinheiro...

Tudo era proporcionar nosso bem estar.

Os confeitos nas bodegas e brinquedos

Era tudo que precisava para a plenitude da felicidade.

Nossos pais... eram mais novos do que sou agora...

E isso chega a dar um nó na garganta com cinco filhos eram maios fortes do que sou.

Maio! Mãe...

Volto ao agora!

Sinto uma saudade doce daquele tempo.

A vida no campo,

O inverno...

A serrinha.

Meus pais.

Tudo que não tenho hoje.

Hoje tenho tudo que desejava,

Melhor do que imaginava...

Uma coisa aconteceu... 

Uma coisa excelente... Compreendi a fé dos meus bisavós, avós e pais...

Compreendi que o tempo passa, por experiência...

Tudo que sou começou na crença de meus pais nos ensinado os princípios da ética...

Maio! Maio! Maio...

Mês das flores, mês das mães... de Nossa senhora a flor maior

Que gerou nosso salvador,

Que nos ensinou a nos salvar...

Maio das mimosas...

Da terra molhada...

Da esperança que desperta cada dia nos peitos que pelo mundo bate...

Maio memória de minhas avós, de minha mãe...

Recebo maio com o meu peito florido.

Mais nada.

30/04/26

Forma de aprendizagem

 Ontem Sassá ficou muito triste porque não pode levar uma melancia para casa. Fez birra. Na hora, fomos enérgicos. Mas o fato é que sempre levamos melancia. Na hora achei pedagógico. Depois, refleti. Ele sabe o que podemos e não podemos comprar e melancia, sempre compramos. Fiquei com um peso na consciência. Mas Saindo do mercado ele falou, a gente compra amanhã né pai, no Bem mais caro. Concordei e ele aceitou. É muito bom poder dar o que meu filho quer, mas as vezes a gente tem que mostrar que existe um limite. Dizíamos na semana que vem a gente compra e ele argumentava que era "Longe".  Meu filho... Como você me fez ser uma pessoa melhor. Como a vida hoje, só faz sentido sem você. Não tenho nada Sassá. Tudo que é meu é seu. Só quero que seja muito feliz. De vez enquanto a gente vai sofrer, mas é uma forma de adaptação, de aprendizagem... 

Vida

 Filho nosso coração foi dividido,

E em ti somado, num vente vai ser gerado,

Você vai ser o mais amado...

Do ser ao existir, tudo acontece nessa hora,

Em que dois corações aceleram,

Uma semente plantada,

Uma vida fecundada...

Uma potência a ser definida,

Que vai ti ensinar o que é a vida...

Esse intervalo de existência...


29/04/26

Casa e cores

  Em 2021 fui ao mercado de artesanato de Tambaú.

Lá vi inúmeras coisas,  mas gostei uma toalha com o sol e uma casa amarela do sertão.

Comprei, mas como estava desapegado, presenteamos a mesma para mãe de minha esposa. 

Depois comprei mais duas com a mesma imagem. Uma tem a casa azul e outra vermelha. 

O seu Marcos de quem adquiri me disse que foi entalhada por seu Dedé, provavelmente seu nome é José.

Outra vez fui ao mercado e seu Marcos falou que seu Dedé não está mais trabalhando.

Por que duas talhas? 

Uma é vermelha para mim, o vermelho representa dia, calor, proximidade... Dá para ver melhor os detalhes.

A outra é azul e para mim, o azul representa noite, frio, distância... os detalhes não são tão bem vistos.

Mas as talhas estão aqui representando meu sertão que fica norte da casa.

Instrumento

 Uma mão,

Um pensamento,

Uma ação,

Materialização,

Um texto...

A mão expressando um pensamento.

Argumentos,

Contraposição,

Justaposição,

Síntese...

Em algum lugar 

Uma poesia sento 

Gerada,

Falada...

Coisas da razão.

Super jaguar

 Sassá criou um super jaguar. Após falar com ele a respeito de uma sussuarana que foi matada na cidade de Martins. Ele começou a falar de um jaguar enorme. Muito potente. Que foi visto em 1960. Ficou tão empolgado falando deste bicho... É maravilhosa sua mente inventiva. 

28/04/26

Tesoura

 Ontem Sassá soletrou sozinho a palavra TE-SOU-RA..., conseguiu ainda soletrar outras palavras. Fiquei impressionado e muito satisfeito. A gente vem exercitando a matemática também. Comprei um livro de joguinhos no sábado e ele adora. Tem um dado, fichas e um percurso que avança com o número que sai no dado. Queria muito que eu visse os olhos de camaleões que colocou no aquário de apuleu seu peixe. Olhos de camaleões são conchinhas que encontramos na praia. Parece mesmo. Ele pesquisou sobre o caranguejo heremita e ai chegou as conchas. Lembrou que tínhamos quatro. Enfim hoje vou ver. E assim segue.

A chuva e o tesouro

 A noite inteira choveu,

Houve relâmpagos, 

Houve trovão...

Muita água escoando pelas ruas.

A casa com infiltração,

A casa com goteira...


Pensei na aflição dos pobres

De casas simples.

Casas frágeis.


Senti uma profunda empatia.


O que para uns é fonte de alegria,

Para outros é fonte de preocupação,

Medo e de dor.


Até mesmo uma chuva

revela os dramas da vida.


Os dramas da vida são assim cotidianos.

Os dramas da vida são diretos, intuitivos.

A vida em si é uma luta com a realidade,

Um choque com afetos e desafetos.


Sai de casa, fui ao quarto,

Meu filho e minha esposa dormiam profundamente.

A chuva não os incomodava.


Dei um beijo e um cheiro na cabeça dos dois,

Pra guardar na minha alma,

Meu maior tesouro...


Gostaria que todos pudessem guardar

Bem seus tesouros...


Chuva não seja cruel com os pobrezinhos,

Vida ajude-os.

Deus fortaleça-os.

Chuva...

27/04/26

Mila ou Milla

Sábado levamos Sassá a Bica. Estava ansioso para ver a nova membro dali, a loba-guará, de nome Mila. Então o passeio foi avesso. Entramos e fomos ao recinto. No entanto, bicho é bicho. Ali estava Mila, distante entocada, podia ser vista, mas de longe. Fomos uma vez, duas vezes, três vezes. Assim como nós, muitas pessoas foram ver Mila, mas conseguiram ver o mesmo que nós. Só a cabeça orelhuda à sombra de umas plantas. Deixe está, fomos ao tanque dos peixes, onde vimos duas carpas, numerosas piadas, a tilápia boca mole e criptus o cágado de barbicha despudorado. Isso mesmo, como quem começa a pedir, mostra um pudor, depois fica descarado. Bom, demos o nome de criptus a ele porque ele mau aparecia, andava se arrastando pelo fundo. Agora! basta dar um agrado e ele chega querendo comida. Está pior que os tambaquis. É nem ligueirinho o cagado de barbicha faminto apareceu. Olhamos as aves. Mobdique, a siriema, que observando bem seu nome deve ser capitão harab, pois ela não tem pé. Mobdique é a baleia... Mas enfim, vimos a codorna, norma... Voltamos ao recinto Mila, parecia gloria a coruja, nem tchum pra gente. Choveu... Os jacarés apareceram, nem vimos cheirosa a longa... E Mila nada. É assim mesmo. aprendi o nome científico dela Chrysocyon brachyurus. Que traduzindo do grego para o portuques é cão dourado de calda curta. Foi isso.

Saudade de papai

 Vi a roça de milho,

Estava todo pendoado,

Bonecas de cabelo rosado,

O cheiro da florada,

O som do milho,

Som do vento cantando na folha...

As raízes adventícias.

Senti a presença de meu pai...

E a saudade preencheu o meu peito.

A gente junto na roça...

Foram tantas vezes maravilhosas...

Só felicidade!

Inverno, pasto, leite, milho, pamonha...

Só coisa boa.

Milharal

 Andei no roçado,

O milho pendoado,

O cheiro da floração,

O milho viçoso...

Meu coração

Ficou bem apertado,

Saudade de meu agricultor,

Que de botas brancas

Me mostrava com orgulho,

O produto de seu trabalho...

Explicava cada momento,

Que trabalhava em silêncio...

Nosso encontro no roçado,

Era algo sagrado...

Quanto amor...

Entre nós...

E os milharais.

Meu pai,

Me ensinou a cultivar a vida.

Como sinto sua partida.

E o milharal, e a mata

E o inverno,

E nossa terra...

Nosso eterno laço.

Amaria te dar um abraço...

Mas, ai...

São só saudades.


26/04/26

Dia memorável

 Um domingo no passado, estava muito feliz. Meus avós eram velhinhos. Meu tio Raimundo havia vindo de Natal. Estava feliz porque ia ver ele, sua esposa Tereza e seu filho Aquiles. A gente sentia felicidade em conhecer aqueles parentes que não conhecemos. Só o conhecia pelos retratos. Nem lembro de muita coisa. Lembro de uma câmera fotográfica e um carro, acho que era um gol GTI. Lembro da felicidade que estava naquela casa. A casa onde minha mãe cresceu. Era época de inverno. Lembro da alegria de meu avó. Lembro da felicidade dos vizinhos que passavam falando do doutor Teixeira. Zequinha, Antônio de Chiquinho... A dificuldade que vovô passava, Meire ajudando a vovô. Mamãe De Assis feliz conversando com Terezinha. As coisas trancadas no quarto intocável de vovô Sinhá. Então, ali na frente tio fez algumas fotos nossas. E contando histórias...

Contou de uma disputa entre dois cantadores.

Tio tinha uma voz muito forte, orgulhosa e rompante. Falava alto para ser ouvido ou para se mostrar.

Então ele contou que dois cantadores cantaram assun:


A. Eu sou jiquitiranaboia,

Besouro do piauí,

Quando prego meu ferrão,

O sangue começa a cair.


B. Tu não és juiquitiranaboia,

Besouro do piauí,

Tu és um rola-bosta qualquer

Besouro besta daqui...


Rimos muito e aquele dia foi memorável.

Além das memórias

 Amanheceu,

Uma influenza me influencia.

O corre reage,

O corpo responde.

A luz é quente,

O vento é frio.

Uma sensação toma conta de mim.

Uma janela fica aberta...

Deixando entrar algo que me faz matutante, 

Sobre coisas tristes...

Mostrando a outra face de viver 

Além das memórias.

A realidade mostra que a chuva traz

Muita vida,

E os vírus vem junto...

E a vida se mostra real cada dia...

É preciso ser forte e lutar.

Mas...

 Um dia desperto,

Desperto para o mundo.

A realidade trata de negar minha vontade.

Por defeito ou não de ser quero a eternidade, quero o infinito.

O tempo vai se desvelando,

E um dia desperto.

A natureza me ensinou a amar o belo e o bom,

Não me explicou que há um absoluto,

Que e há o feio e o ruim...

Entretanto a raiz estava ali...

Só há belo porque há feio... é uma escala?

Só existe bom porque há ruim...

Não seria algo totalmente subjetivo?

Não seria a raiz do ego, do eu, do self?

Tantos conceitos, tantas palavras para a mesma coisa.

Ai mora a humanidade?

A humanidade é racional?

Produto da memória?

Não sei, mas...

24/04/26

Natureza se ordenar

 A chuva,

A chuva molha a mata,

A chuva molha o solo.

A chuva desperta a vida,

A chuva enxarca tudo,

Faz os ramos brotar,

Faz a semente e esporo germinar.

A chuva faz os ovos eclodirem,

Os bichos aparecerem...

Insetos voarem,

Sapos cantarem...

A chuva passageira,

Uma breve estação,

Faz a vida reproduzir...

E a natureza continuar.

Desvelar

 Enquanto chove lá fora,

Aqui dentro uma vela acendo,

E ouço a chuva chovendo,

Perco então a noção da hora.


A luz laranja da vela,

Alumia com calma,

Preenchendo a minha alma,

A branca cera dela,


E o branco cordão,

Alumia clareando,

E o sol vai imitando...


O espaço aqui,

A hora agora,

O eu e essa mistura de coisas.

23/04/26

Na Salambaia

 Ontem na fazenda, antes de voltar a rotina. Acordei Sassá. Então a mãe queria que ele tomasse leite da vaca no curral. Seu Dedé arreou Realiza e tirou uma caneca de leite quentinho que Sassá passou pra dentro. Tomou meia caneca. Depois tomou outra. Sassá adora leite, desde que seja natural. Enquanto estávamos na fazenda ele tomava quase um litro todos os dias. Se divertiu muito com a galega Ana Alice. Pularam, correram, brincaram, dançaram e muito mais. Foi excelente esses dias na fazenda. Vimos mais aves que bichos. Viu e manuseou um pequeno sapinho. Perdeu o medo e brincou com a cachorrinha nina. Brincou com a gata grete... Essas coisas.

Hiula de Dequin

22.4.2026 - 8-3-1946 

Nossa vizinha Hiula de Dequin partiu ontem. A voz de Hiula era muito peculiar, meio rouca mas muito forte. Moravam em Serrinha do Canto. Ali, do lado de Mudinho e Zuleide sua irmã. A gente passava e as vezes ela parava a gente para conversar. Casada com Dequinho. Os vi pela última vez na casa onde eles viveram a vida toda. Papai era muito amigo de Dequinho. Então as vezes passava lá e conversava até perder o tempo. Hiula era irmã de Odalea de Chico de Vicente Joana  e de Zuleide de totô. Eram filhas de Vicente de Arcanja.  Era evangélica.

Serrinha do Canto daquele tempo não é mais.


22/04/26

Memorável

 Acordei e não dormi mais na madruga. O escuro, o calor do quarto e o frio do ventilador, a muriçoca... Minha mente desgovernada.

Pensa poesia, versos... Belos versos, achados no escuro da madrugada, nascido do dia anterior vivido.

A estrada de terra branca. A vegetação enramada. As Sennas e catingueiras amarelas. As baraúnas mortas, os abrejos com água e aguapé. As rochas escoradas na beira da estrada. A sensação de eternidade.

A siriema cantando, o papagaio gritando, o cheiro do marmeleiro.

Vinícius, Ana Alice e Daniel. A interação, a curiosidade no mundo desconhecido da mata verde. Um emboar... Risos de felicidade. A tarde caindo... Memorável momento. Subir e passar a cancela azul francesa... Recomeço.

O momento de início e fim.

A poeta do Sítio Bravo

Era um fim de manhã do dia 21 de abril de 2026 quando fomos a casa da poetisa Ritinha de Macedo. O lugar era no sítio Bravo, distrito de Boa Vista na Paraíba. Chegamos a casa amarela com área na frente e para o nascente. Paramos o carro sob um enorme algaroba. Saímos em direção a casa quando dois lindos cachorros vieram nos receber aos latidos. Era uma cachorra com listras de tigre pretas e pelo vermelho e um cachorro malhado de laranja com alvo. A poetisa se preparava arrumando as cadeiras. No nascente entre o curral e uma roça de palma crescia uma Bougainville, mais atrás uma enorme baraúna embelezava a paisagem. Levava o livro na mão um exemplar de seu livro. Logo atrás vinha minha esposa Dayane e Vinícius meu filho. Fomos muito bem recebidos. Meu filho foi brincar com sua neta Ana Alice e nós fomos palestrar. Saber como surgiu a construção do livro, da biografia e das maravilhosas histórias. Todas passadas ali entre Boa Vista e Cabaceiras.

A infância com os nove irmãos e o pai. As brincadeiras de disputa de queda. A alfabetização, o tornar-se professora. O amor pelo ensino. O trabalho. O namoro e o casamento. A lida de casa, do trabalho e dos filhos. As secas e os invernos. O brilho de plenitude e felicidade estava estampada no seu rosto. Com pouco chega seu Armando, e Clarice sua filha e a conversa ganha fôlego e logo termina pelo avançar do tempo. A hora do almoço chegou e nem vimos. A vontade era de se estender, mas a fome falou mais alto. Tivemos que concluir. Ganhei a assinatura do livro, guardei doces lembranças desta merorável manhã.

Tudo estava verde, choveu bastante. Quase sempre ali é tudo cinza excepto o amarelo da casa, o verde da baraúna é o dourado delicioso dos textos da poetiza Maria Rita de Macedo Araújo.




Ao ler o seu texto me chamou atenção para a consciência de ser escritora. A consciência de que escreve seus leitores.

Ao fim senti o cheiro alvo do jasmim de laranjeira que ali floria.... Vi naquela mãe a mãe feliz e realizada com livro publicado e material para o segundo livro. É isso.

Rita de Macedo

 Cresci numa terra seca,

De longos dias ensolarados.

De noites por vezes enluarada,

Por vezes estrelada,

Quase nunca nublada,

Cresci com o aboio do gado,

Sentindo o pelo a cavalo,

Cada vaca tinha seu nome,

Cada vaca tinha sua individualidade.

O curral ficava ao redor de casa.

Cresci com o meu cachorro leão,

Cresci com  bixano o meu gato.

No terreiro vivam as galinhas, 

Vermelhas, pretas, pedreses e pereocas,

O galo era cristado e esporado.

Cantava sempre pra manhã nascer.

Cresci e não dei conta de tudo isso.

Fui filha,

Fui moça,

Sou mulher,

Fui professora 

Sou mãe e poetisa.

Não tinha tempo vago.

Viver sempre foi trabalhar, na escola e no lar.

Meu marido é uma benção.

Sempre com um riso no rosto.

Meu companheiro, meu amigo, meu confidente e o pai dos meus filhos.

Um bom pai, um excelente avô.

A vida nunca foi fácil,

Mas foi maravilhosa.

Sol, chuva, dia e noite.

Um a um, os anos passaram e a vida 

Me fez forte e resistente.

Nasci num lugar seco.

Quase sempre estrelado,

Fui regada e dei flores.

Dividi o meu saber,

Multipliquei o amor.

Agora, depois de tanta coisa vivida.

Tenho saudades de tudo que vivi.

Mas a vida continua, meus filhos assumiram a lida da vida.

Cresci, reproduzi e dividi meu amor,

Multipliquei amizade.

Dei sentido a realidade.

E o resto não importa mais porque é resto,

Nove fora nada.

Onde está a beleza

 A beleza não é embelezada,

A beleza mesmo é sentida,
A beleza é uma coisa da vida,
A beleza natural é amada...
Só precisa contemplação
E ali vai encontrar a centelha divina.

Sensação no amanhecer do cariri

 A pálida luz fria da manhã,

A brisa fresca e perfumada,

O cantar da passarada.
Todos os dias intermitente,
Eternamente...
Um dia despertei,
Desde então me encantei,
E me encanto com o canto
Da madrugada, da passarada.
Da Alvorada...
Matutando e me perguntando...
Terá o mesmo gosto pela natureza
Esse gado?

Chão de cimento

 Chão frio de cimento,

Eis um grande invento,
No calor do sertão bruto,
Um refresco pro matuto.
As linhas de xadrez,
Cor de xadrez...
Minha mente se fez,
O que é o xadrez?
Tinta xadrez,
Um conjunto de quadrado,
Pedrez.
Preto e branco, branco e preto.
Vinho e branco branco e vinho...
Que é tudo isso?
Só um reboliço.
Mais nada.

Singela planta

 Na areia do riacho,

Uma semente germinou,
Resistiu à seca, ao calor
E ao tempo
E quando o tempo mudou,
Quando a nuvem chorou,
A água despertou os olhos
Dos ramos e a cena mudou,
Pois a planta era uma Senna,
E logo ela agradeceu,
E o mundo mais belo ficou,
Com o dourado da luz do sol
Suas pétalas ela ornou.

Curvas do tempo

 Tempo

Os currais do tempo dos nossos avós, do tempo dos nossos pais.
Os currais são tão iguais.
Boi, vaca, esterco e estaca.

O cheiro, a textura do pelo do boi
E da vaca.
A carícia áspera da língua do gado.

A escova e se abanar.
A respiração profunda...

O olhar generoso...
Chifres e cascos queratinoso.

Os olhos espelhos convexos e negros.

O ubre e os quatro peitos,
Esse mananciais fonte de vida.

O gado é amizade, é parceria,
É alegria, é fonte de alimento e é vida.

Não é boi ou vaca é leon, é baronesa, é mimosa, é careta...

Quem sabe sente...

Vozes da mata

 A mata não fala,

A mata não canta,

Mas a mata encanta,

E a mata é perfumada,

Oras inerme, ora armada.


Na mata mora 

Os grandes trovadores...

A bicharada empenada,


Que canta e canta de graça,

Não é uma graça...


As vozes da mata

São de tanta beleza,

Em ordem de cores,

Em ordem de sons,

Em ordem de alma

Que a gente fica encantado...

Sinfonia sertaneja

 Despertei de madrugada,

Ao cantar da passarada.

Meu peito bateu desperto,

Ao despertador divino,

Natural e perfeito...

Só Deus fez o mundo desse jeito...

Na baraúna canta o galo de campina,

No fio canta o canarinho,

Na cajaraneira canta o corrupião,

Na goiabeira o xexéu-de bananeira.


Que beleza é o despertar da natureza...

Na algaroba fez o ninho,

E agora de lá a cantar, 

De gibão e penacho,

Canta a casaca-de-couro macho.


Gritou pra avisar,

Que no chão ali está,

A coruja buraqueira.


O galo do chiqueiro em alerta,

Cantou o seu canto falcado.

Ou meu Deus abençoado,

Como é bom aqui estar,

Poder ouvir e decifrar quem vos canta e encanta...


O sanhaçu na pinheira, cantou,

O seu despertar...


Na estrada de terra fria canta a siriema...


Oh meu Deus que coisa linda,

Quanta alegria divina.


Não posso deixar de falar que agora despertou o sabiá...


... Sinfonia do sertão...


O canarinho cantou,

Galo de campina despertou,

O currupiu se juntou, 

Teteu na campina gritou,

O xexéu de bananeira, sanhaçu e sabiá...

A andorinha, a casaca de couro 

Canta lindo em estouro...

Desperto

 Despertei de madrugada 

Ao ouvir a passarada

Cantava o canarinho,

O tetéu e o galo de campina.

A manhã anunciava.

Quem despertou 

Essa passarada?

Nem precisam trabalhar,

Mas desperta pra cantar,

Desperta para amanhã 

O que a natureza ensina,

Como é linda e divina a vida com uma canção 

Faz bater o coração 

E a vida começar 

Antes do sol despertar...

Corrupião despertou também,

A coruja buraqueira, 

Pousada no chão 

Deu grito

Que bonito 

Que bonito

Que bonito.


A vida da bicharada,

Começa na madrugada...

18/04/26

Antônio Pereira

 O poeta da saudade

Semana passada ouvi o compositor Santana declamando um dos mais lindos versos sobre saudade.

Ele falou de Antônio Pereira...

Pesquisando na internet. Encontrei uma filmagem de um poeta Valdir Correia em sua casa.

Uma casa linda de alvenaria  com uma porta no meio e duas janelas.

A entrevista me fez fugir da realidade encontrando memória em outro tempo e em outro espaço.

O canto do tico-tico do campo, fez lembra o povoado das Vertentes onde ouvi essa ave cantar pela primeira vez.

Cantando ainda ali, tico-tico e golinho.


Antônio Pereira de Morais nascido no dia 07.set.1911, em Livramento - PB.

Morou a vida toda no sítio Jatobá em Itapetim, falecendo em 07.nov.1982.

O xadrez

 Minha irmã ama os bichos.

Seu nome é Francisca.

Antes da páscoa só tinha uma gata.

Uma gata alva como uma garça,

Alva como algodão,

Alva como goma de tapioca.

Na páscoa algo aconteceu.

Fomos a vacaria e por acaso,

E ou por alegria uma gatinha preta,

Preta como uma graúna,

Preta como um anum...

Nos seguiu da vizinhança

Até nossa casa...

Se enroscou e se enroscou 

nas pernas de Vinicius...

Só precisou de três voltas para amoleceu seu coração.

E nos seguiu.

E ali ficou.

E Francisca Lidiana a adotou.

Agora temos um xadrez...

Uma gata alva, belinha.

Uma gata preta, beleza negra.

Flores

 Amarela, vermelha e branca.

Uma chanana, uma ixora e um jasmim.

Uma erva, um arbusto e uma árvore.

Dispostas vejo através de minha janela.

Flores numerosas.

Flores radiadas.

Flores que florescem porque florescem.

Eu as uno nestes versos.

As abelhas quiçá 

Podem mais que eu.

A existência é em si...

Nós criamos, unimos e o fazemos...

Para se eternizar de qualquer forma.

Para preencher o vazio de nossa existência...

As flores só dão um tom...

Meu amigo jasmim,

Minha amiga ixora 

E agora a chanana.

Mais nada.

Madrugada

 Enche o peito do ar frio da madrugada.

O silêncio é sua companhia.

O escuro te envolve 

Aos poucos a barra vai quebrando 

E a luz se acendendo.

Uma ave pia.

Esperança e fé.

Reza uma oração.

Aquece o coração.

E se prepara com fé que coisas boas virão.

Nena Gonçalves

 Ontem, conheci a poetisa Nena Gonçalves.

Li um poema seu num cordel que ganhei na praia de Cabo Branco.

Pesquisei na internet e descobri que ela mora em Monteiro

E que é se São João do Tigre.

Podes ouvir sua voz declamando

Suas lindas poesias.

Aqui

Cortina

 Nas sombras frias e silenciosas da noite desperto,

O sol lenta e silenciosamente nasce e vai revelando o mundo,

Vai aquecendo as cores, vai iluminando as formas.

Matéria e forma, formas e matéria.

A substância de tudo isso!

Formas coloridas, formas aquecidas.

As horas despertas e vivas.

Caem, caem, caem enquanto o tempo passa.

E a noite chega...

As sombras frias e silenciosas caem como uma

Cortina no teatro de minha vida.


17/04/26

Amanhece

 Enche o peito do ar frio da madrugada.

Traz em si um cheiro particular,

Cheiro das chuvas de abril,

Cheiro da mata molhada.


O silêncio é sua companhia.

O escuro te envolve 

Aos poucos a barra vai quebrando 

Lá no horizonte,

A noite se dando ao dia,

E a luz se acendendo.

Uma ave pia.

Esperança e fé.

Reza uma oração.

Aquece o coração.

E se prepara com fé que coisas boas virão.

Como

 Ontem Sassá foi para a natação e deu duro. Fez inúmeras atividades. Está quase nadando também. Assim como está quase lendo. Estou organizando um livrinho com os desenhos dele. Como fez muita atividade, gastou muita energia. Assim se alimentou bem. O cansaço  o fez mais irritado. Ao irmos para escola conversou pouco, disse que estava ouvindo a música. De fato quando chegamos no estacionamento ele voltou a falar feito um pacum. Tenho que terminar o livro. Ele quer desenhar, mas está sem estímulo, sem saber o que desenhar. Eu entendo bem essa sensação. Bom depois da janta que comeu muito bem. Dei banho e fomos para a cama. Ele quis que eu andasse com ele como se carrega um porco. Não sei como ele gosta. Ri horrores. Como se carrega um porco? Pega o porco e coloca no ombro e anda. Andamos muito.

Oco da mata

 Tempo que tempo.

Na natureza, o verde da mata.

A intensa luz do sol.

O canto distante da patativa.


O eu pensa no eu.

Desperto da realidade,

O eu deseja boas sensações.

Não tem ideia do limite da intensidade da sensação...


Sensação boa que se intensifique.

Sensação ruim que se acabe.


Sem nenhuma noção da realidade.

O que importa é a sensação.


Ah inocência...


Como é belo o som da patativa,

no oco do silêncio do mato.

Canção do sabiá

 A esta hora da manhã,

Pousou na ali aroeira,

E começou a cantar,

Que linda canção

Que linda canção Sabiá,

Mestre exímio em cantar,


Parei tudo só para escutar,

A beleza do canto do sabiá...

Canta sabiá canta sabiá.


Queria saber quem te ensinou a cantar,

Queria saber quem compôs esta canção?

Canta lindo sabiá...

E enche e preenche meus momentos

De paz, e de beleza.


Pois tu és parte da natureza,

Seu canto é de beleza,

Seu canto é de alegria,

Seu canto dá sentido a esta poesia.


Depois o tempo se vai...

E este momento eterno momento...

Tu me fez guardar no coração.

Mais nada

16/04/26

Raizes do ser

 Quantas vezes me aventurei nadar em águas profundas. Quase me afoguei, mas enfim aprendi a nadar.

Um dos oceanos que me aventurei foi na música. Isso mesmo, música erudita. Não entendia como agradável ou desagradável. As primeiras vezes que ouvi foi na rádio Vida da cidade vizinha a minha. A rádio era da igreja e nela o páraco era o Padre Walter Colini, um italiano. Então A música erudita tina um viez para o sacro. Ah. Não! Lembrei... Se usava a música erudita nas notas de falecimento.  Acho que isso marcou negativamente muita gente de minha cidade. Papai mesmo não suportava. 

Enfim, um dia decidi vou ouvir até onde der. E acabei me acostumando e acabei amando.

Quando comecei a dar aula, tive a sorte de ter um computador com internet e com caixa de sonde, dai passei a dar aula ao som de música erudita. Hoje já não consigo, porque me concentro na música.

Quando morei em São Paulo, amava porque tinha a rádio cultura onde era só passava praticamente música erudita.

Então passei a conhecer muitos compositores além de Bach, Mozart e Bethoveen.

Ouço muito Mozart... aconteceu que estava ouvindo este compositor quando minha mãe faleceu. Então passei a só ouvi-lo como forma de recordação.

Bom, Schopenhauer e Nietzsche também amavam esse estílo. No Brasil sei de Ruben Alves.

Aqui na Paraíba o grande pintor Flávio Tavares sempre pinta ao som de música e um dos gêneros é o erudito.

Bom, esse foi o nado que quase me afundou...

Muita gente gosta. Eu gosto muito. 

Sempre quando chego em casa para o almoço coloco na rádio Classic music de Londres... 

Agora, estou quase me afogando no cordel.

Desconfiado

 Ontem Sassá ficou calado enquanto o deixava no carro. Depois começou a falar. Normalmente ele fala muito. Estava pensando em algo. Não me contou. Só estava calado. Falei para ele por o cinto. Olhei para trás e vi que não estava usando. Então reclamei. E então me respondeu dizendo que eu não podia olhar para trás porque estava dirigindo. Disse que tinha olhado pelo retrovisor. É bom ficar esperto e não confiar. Embora ande bem devagar. Serviu de lição. 

Será um sonho

 No roçado, papai só queria planta milho, fava e feijão. 

Era mamãe que guardava as sementes de jerimum e melancia.

A gente semeava onde tia um buraco de uma planta grande queimada.

Se a chuva continuasse a fartura era garantida.


O gado mago, passava a comer rama.

O leite já era mais a vontade.

Tinha água pra beber e mato para comer o gado.


Nuvens de insetos apareciam.

Cururu não dava conta.

Cachorro corria feliz.

O gato ficava esperto em casa.


Dogue meu cachorro branco.

Era bom de pegar tejo.

Um vira-lata tão amado.

Até choramos quando ele se foi.


Comia pinha e coco.


Tudo isso terá sido um sonho?

As vezes me pergunto...


O que gerou tudo isso?

15/04/26

Sabe lá

 A gente se sente feliz, sem saber porque,

 basta ser sertanejo e ver que vai chover,

 E perceber que o inverno vai pegar. 

A gente se sente feliz sem saber.

 Chuva é sinal de água, de trabalho e de fartura... 

O sertanejo ama tudo isso e nem sabe donde veio esse amor. 

São neurônios especulares... É sua raiz de existência? 

Aprendeu que chuva é abundância... Chuva é esperança... 

Ouvir a bica bicando a gotejar,

 perceber na cara de quem a gente ama e respeita um sorrido dali brotar...

 uma oração a debulhar, um café a tomar. 

O clarão do relâmpago, na noite escura,

O estalido do trovão... 

Perceber que da cinza ergue verde,

do seco o molhado, do sol o nublado...

 Esperança... 

Deste peito de criança que cresce e nunca cresce, 

porque ama sua terra... 

E não entendo o crescer.

invernada pegada, 

feijão florido, milho pendoando, 

o cheiro da rama do marmeleiro,

 um porco feliz no chiqueiro,

 o cheiro da esperança...

Guardando a boa lembrança.

As noites escuras e molhadas 

a  revoada da insetada, cururus gordos, se fartando de bichos... 

A melancia partida na roça, 

o leite alvo levado na carroça,

 o carão cantando no banhado... 

Meu Deus quero morrer nordestino, sim esse é meu destino... 

E quando tudo passar, o corpo estiver velhinho

 e ainda assim ama e tem esperança na chuva, na bonança... 

Depois deitar e dormir neste chão... 

Esse é nosso lindo destino. Crescer de um menino... do alfa ao ômega.


Ao meu amigo sertanejo Silvano Araújo

Sala

 Abro a porta da sala,

O corredor vazio,

O corredor frio,

Não se ouve fala.


Tudo é silêncio!


Um  agradável odor de molhado,

É cheiro de chuva chovida.

A luz branca ilumina sua profundidade,

É fim de período...

Pra já já recomeçar...


Abro a sala nove.

E é mais um dia,

Ou menos um dia.

Sabe lá.

Tchau

Ontem Sassá ficou muito feliz. Levei-o na escola. Chegando lá, comprei um casa para ele usar em sala. Não estava querendo usar na hora, mas o convenci que seria bom usá-lo. Na saída estava muito radiante. Ele e Ravi seu amiguinho gostam de gritar um para o outro dando chaus e outras coisas mais. Ontem demoraram gritando. Tchau cabeça de jaca. Tchau cabeça de jaca.  A noite, jantou bem, dei banho nele e fomos brincar, mas nem vi quando ele dormiu. Dormi primeiro como sempre.

14/04/26

Águas no sertão

 Depois que caia a chuva,

A coisa melhorava,

A terra bem molhada,

Despertava as sementes,


A mata logo acordava,

A passada cantava,

Era grande a alegria,

Tanajura aparecia,


Cururu do sono despertava,

Nos tanque fazia logo cantava...

A roupa suada ia ser lavada,

No tanque da imburana.


Ali morava o cardeiro,

Ali morava o xique-xique,

Ali minha alma era plena.


Já em maio havia a novena,

Feijão verde, maxixe e muito leite.

O tanque agora perfumado,

De flores de mucunã,

De flores de cerrador,

A mãe lavava com amor,

A roupa do trabalho suada,

Era bom de ver,

Girino com cauda e perna,

A água escorrendo no riacho,


Ah, meu Deus...

Quanta alegria,

O doce da cajarana,

Do milho assado no carvão,

Da alva pinha madura no pé,

Da amarela e velho doce goiaba...


A gente vivia plenamente,

Feliz muito mais que contente,

Por isso foram guardadas na memória...

Cantar a invernada...

Roxa, rosa, amarela flor...

Minha vida guarda amor,

Da terra, da água e do sol...

Porque o amor é a eterna inocência,

É não saber o que se ama.


Adeus tudo isso.

Foi maravilhoso enquanto durou.



Florada do mufumbo

 O mufumbo floresceu

Perfumando estradas 

E veredas.

Voa apressado o cavalo do cão,

Não quer perder uma gota de néctar.


O riacho lá em baixo,

Está escorrendo de lado a lado,

Água azulzinha.


O cheiro doce as flores de mufumbo,

Enfeitou tanto o mundo,

Meu Deus.

Que pena que o inverno dura tão pouco.


Com o inverno as coisas são mais bonitas.


Sinto no fundo da minha alma.

A beleza é alegria.


Sabe!

Com a água da chuva do inverno...

A vida acorda...

Acorda da sementes até o embuá.

Acorda os ramos secos da mata.


E a vida se enche de graça,

Aparece folha, flor e lagarta.

Á água caindo do céu,

O cheiro da vida...


O tremor do trovão,

Enche o coração de alegria...


De cinza perde o tom do tronco da catingueira,

Amarelas flores brotam,

A água do riacho escorre cantando.


O zunido da abelha é doce como o  mel que ela esconde...

Um dia vou me encantar

Que seja lá na caatinga,

No sertão...

Não sei de onde vi,

Mas tenho certeza que se morrer,

E se pudesse reviver...

Queria poder viver eternamente nordestino.


Só pra poder cheirar a florada do mufumbo...

O cheiro do sabão na água de chuva,

Lavando a coberta dormida.

Como é boa a vida.

Beleza negra a gata

 Beleza negra foi o nome que demos a gata preta que encontramos na vacaria. Estávamos na casa da tia Li, em Serrinha na páscoa e em uma manhã saímos para explorar a mata. Papai levou a câmara e fomos caminhando no meio do mato. Vimos o milharal, andamos pelas veredas e fomos a matinha do vovô Chico. Lá tem duas bromélias que o papai gosta de apreciar. A mata é velha e conservada, por isso elas existem lá. Então entramos na mata, vimos a primeira bromélia. Em seguida, andamos na mata porque é composta de árvores e é fácil de andar lá. Fomos ver como estava o açude de vovô Chico, orozinho como ele chamava. Estava cheio e sangrando. Vimos ali do lado uma grande lasiodora, linda. Ficamos contemplando. Depois seguimos para ver a segunda bromélia e andar na mata. Vimos sob as caatingueiras uma linda arácea nem sabemos o que é... Em seguida vimos a bromélia, a embiratanha. Seguimos e fomos ao açude de Dedé, dono da vacaria. Atiramos algumas pedras, vimos a pequena cachoeira. E fomos voltando pelo caminho. O córrego estava escorrendo uma água bem azuzinha. Se diz que é por causa do Carbonato de Cálcio que ela fica assim azul. Então fomos indo em direção a vacaria. O cajazeiro estava com frutos então quis provar e o papai pegou um. Sob o cajazeiro tinham frutas, mas estavam furadas. O cheiro era bom. Vimos Josimar passando a campinadeira no campo de feijão... Vimos uma burra branca que Sassá chemou de Leonardo Crispim. pelo brando que conhecemos do cavalo que pasta na praia de cabo Branco. Então vimos os porcos no chiqueiro em três recintos, um, duas porcas e um barrão, e sete filhotes. Quando chegamos a casa da vacaria apareceu uma gata preta. Sassá quis ver se tinha sapo no tanque e a gata nos seguiu. Foi se alisando nas pernas de Sassá. Nos seguiu até o tanque... E se alisava em Sassá. Chamamos diamante negro, mas Sassá disse Beleza Negra e ficou. Fomos voltando, e iamos pelo milharal. Beleza negra nos seguiu. Foi indo... terreiro, estrada... a enxotamos, mas ela veio... veio e quando percebemos estava na casa da tia li. E ali ficou... Tia li é Francisca não resistiu e alimentou a gata e ali mesmo ela ficou. E ainda está na casa da tia li. A gata de Sassá.

Tempo para tudo

 O sol rasgou as nuvens,

Nuvens de chuva.

A luz dourada 

Bate pra todo lado...

Um intenso calor aquece as paredes e telhas frias.

Aquece as folhas das plantas.

O vento chega e faz a árvore dançar.

Refresca a luz intensa do sol.

Quanto durará a bravura do sol?

O dia inteiro,

A manhã inteira,

Alguns instantes?

Há tempo para tudo...

Olhos dos gatos

Vítreos olhos atentos,

Olhos de ires azuis

Sobre braços e pernas deitados,

Miram o mundo.


Pupilas dilatadas,

Veem na pouca luz,

De um dia que se acende.


Logo que chega a luz,

Negras fendas elípticas se faz,

Bigode e sobrancelhas,

longas...


O silêncio e a solidão contemplam...

Que seres mais individuais...


Miram o mundo,

Miram o dia,

Veem o mundo,

Veem a alma.


Tudo é instinto.


Assim são os gatos,

Com olhos azuis,

Melados e outros mais.

13/04/26

Lugares e as vogais

 Onde TauÁ?

Tá no gambá,

No guaraná,

No araribá

No tamanduá,

No taperebá,

Errou Tauá está no Estado do Ceará.



Onde PiauÍ

No guaraní,

No macuxi,

Na sucuri,

No curucuturi


Onde ParaU

No uirapuru,

Na murucututu

Na Murucutuca,

No Jucurutu,

No mulumgu,

No Urubu,

Errou para no Rio Grande do Norte...


Boca

 A boca que cantava,

Cantava que encantava.

A boca era bonita,

Não se via os dentes.


Não era mole,

Não era desdentada,

Era elíptica,

Era viva...


A boca subia e baixava o som,

Meu Deus que som.


A boca expressa a alma,

A boca expressa o pensamento,

A boca alinhada.


Lábios, dentes e língua.


Não era boca nojenta...

Não sei se cheirava,

Não sei se fedia...


Encantava por saber ser usada.

Cantando,

Contando...


A boca, que sugou sozinha,

A boca que alimenta

A boca que alimentou a alma.


Essas coisas


O eu na chuva

 O vento,

A tarde chuvosa...

Tarde de domingo,

Sol sobre nuvens,

O canto da chuva,

O vento ondulando,

Oras acelerado,

Oras desacelerado,

Dois cataventos 

Dando pelo vento

Um verde e um azul.

Sanhaçu voando 

O verde escuro da mata...

O eu.

Um sentido

 Sentir o mundo,

Encontrar um sentido...

Na cor,

Na harmonia do som,

No cheiro da flor,

O do calor da flor,

No gosto amarelo da manga,

No gosto rosado do beijo quente

E molhado,

Num olhar não procurado e achado,

Achar um sentido,

Em tudo que se passou,

Em tudo que se passa,


Achar e por isso de graça,

É uma verdadeira graça.


Achar um sentido,

Pelos sentidos,

Uma emoção, 

Uma percepção,

Um sentimento,

Pra vingar precisa ser criado,

Precisa ser cultivado...


Às vezes parece que será eterno,

Mas é inexperiência...


Às vezes, a gente até aposta...


Outras vezes até se ilude 

E nessa ilusão,

A vida tem até sentido,

Além de um sentido,


A ilusão até nos anestesia,

Faz suportar a dor,

Ah...

O sentido de tudo 

É o sentido da vida...

Vida que a gente cultiva 

Até que a vida se enfraquece,

O tempo e a experiência machuca demais 

Se são tantos desenganos,

Os sentidos e os sentimentos...

Há de aprender a cultiva-los senão 

A desilusão o mata cedo.

Onde começa o eu

 A gente sempre volta ao pote, 

porque tem sede.

A gente sempre volta à mesa,

Porque tem fome.

A gente sempre volta à igreja,

Porque crê no eterno.

A gente mesmo que demore volta a pensamentos,

Porque não sabe como deles fugir.

A gente sempre deseja o que quer,

Por achou bom,

A gente sempre quer fugir da dor,

Porque achou ruim.

Ah! Um riso, um olhar nos encanta,

Um riso e um olhar nos espanta.

Porque achou belo?

Porque achou feio?

Porque foi sincero?

Porque nos assustou...

Onde tudo começou?

Lara a suindara

 Após o banho, Sassá foi por mim enrolado e fomos para o calçadão. Ficamos ali aguardando sua mamãe. E vendo as pessoas passarem conversando, fofocando ou sabe lá o que. O calçadão é um pequeno retrato do Brasil. Muitos turistas, muitos pessoenses que vão e que vem. Felizes, preocupados. Não importa ou quem importa. O que importa. Só somos nós sentados ali. Sassá se secando. A mamãe vindo...

Quando mamãe já trocou eis que no coqueiro se opondo ao calçadão e a rua na folha mais aberta pousa uma coruja. Uma coruja de igreja, uma rasga-mortalha, uma suindara... Tantos nomes para o mesmo bicho, tantos nomes para a mesma ave que resolvemos chamar de "Lara" a suindara.

Lara estava curiosa com algo que estava ali. Enquanto nós estávamos atento a cada movimento. Tinha um grupo ao nosso lado que também percebeu Lara... mas logo perdeu o foco. Nós ficamos absorvidos por lara. 

Vira e mexe... hipóteses surgem. É o seu ninho. Pensei sei não. Um ninho tão amostra. E não sei como ela se enfiou ali na base da folha e meio que desapareceu... É um ninho. Mas não era. Lara estava era caçando. De repente apareceu com um ratão preso as garras... Voou para as casuarinas. E nós ficamos só na curiosidade.

A peteca

Sassá já sabia o que era uma peteca. Tinha o conceito e já havíamos brincado ontem. Entretanto ontem ele pegou folhas grandes que a mamãe ia por no lixo e dobrou, dobrou, amassou e amassou e saiu uma coisa abacaxiforme... E foi ai que nasceu a peteca. Bom, só de papel era mole, então adicionou um plástico e a mamãe adicionou uma fitacrep. E voilá uma peteca. A peteca que o Sassá criou e confeccionou salvou milagre. Fomos brincar. Pulava, sorria, gritava de tanta felicidade. Estávamos brincando com um instrumento que ele mesmo construiu. Bebeu, água e chegou o momento que se cansou. Então fui dar um banho. E jaz a peteca sem função. Assim é. Depois do banho fomos para cama e eu dormi.

10/04/26

Labirinto temporal

 A tarde surda,

Tudo é silêncio,

O calor muda

A voz da natureza,

Numa sombra,

Pia um bem-ti-vi.

Desperto para essa realidade.

E por minha memória,

Resgato a eternidade.

Em que tempo estou,

Como uma imagem de espelho,

Me pergunto,

Sou eterno,

Sou atemporal.

Não sei...

Ontem

 Ontem Sassá estava com muita energia. Comeu um grande jantar e ainda comeu o ovo de páscoa que ganhou de seu amigo Ravi. Pulou, brincou, andou, lugou... Fez tanta coisa que nem me lembro que horas ele dormiu. Fez a lição de casa com a mamãe. Coisa muito importante para ele e para nós.

Açucena

 Suave e doce cheiro de açucena,

Delicada e grande flor,

Longas pétalas

Alvo-vinácea.


Pendula umbela,

As vezes deitada no chão.

Cada encontro

É aconchegante,


Doce sensação,

Eterna sensação.

Que é mais belo?

 A luz dourada 

refletindo  nas jovens folhas,

Folhas molhadas

Dão um lindo tom

Amarelo limão,

Amarelo claro

Desfia uma suave neblina.

E o brilho

sem expande,

se multiplica

E o sol parece acender,

E a novem parece andar...

O que é tão belo?

Salada sem fruta

 Minha forma de ver o mundo será sempre a mesma?

Fui progressista e progredi.

Foi apaixonado pela filosofia, mas só li.

Não vinguei?

Li quando devia ter estudado.

Nietzsche e Neruda!

Este último me inspirou.

O primeiro pôs combustível nas minhas revoltas.

Não ri, não entendi.

Um amigo meu erudito. Suspirava ao ler Nietzsche.

Antes li Machado que rachou a minha cuca de tanto usar o dicionário.

Aluízio Azevedo... Os Azevedos. Acho que foi o melhor que li.

Na época se encaixava tão bem...

O tempo passou...

Tantos livros folhiei.

Li u tomei o meu tempo.

Será se ficou algo?

Escrevi tanta coisa.

Escrevi a mesma coisa...

Notas do Eu...

Temas que me amedrontavam e amedrontam

O envelhecimento e a morte.

Temas que me empolgam.

Balela.

A fama.

No final de tudo.

É só uma salada sem fruta.

09/04/26

Seus pensamentos

 Ontem Sassá conversou tanto.

Sobre repteis,

Sobre dragões,

Sobre serpentes.

Ele se empolga.

Ele mistura imaginação,

Com historia natural,

Com suas ideias.

E cria o mais lindo dos mundos.

O mundo de seus pensamentos.

Seria um labirinto

 Neste lindo céu azul,

Céu fresco de sol claro,

Onde bando de carneirinhos

Espalhados no campo ciano,

Campo azul do céu...


Tarde de céu azul,

Tarde fresca dá chuva

do dia que passou.


Miro este céu,

E vejo uma ave voando tão alto,

Duas aves,

Três aves,

Cinco aves,


Voam em espiral,

Em bando 

Ou sozinha...


É urubu,

São urubus?


Sem identidade,

Quem já fez amizade com urubu?

Tadinha são nogificadas 

Por seus hábitos catárticos.


Não há quem não olhe para o urubu com um ar de superioridade.


Ehh. que nojo, você come carniça....

Anda desajeitado,

Cabeça de peru...


Que importa.


Olho para essa bendita ave e penso,

Quanta liberdade...


Os urubus são ideologos,

São nefelibatas...

Eles veem além e pagam por isso.


Sabe todas as tardes são eternas,

mas algumas mais que outras.


Ao menos é o que parece.


Feito fumaça,

Vai pensamento,

Evapora de graça.


Que fique a beleza da tarde,

A liberdade do urubu,

E o saber da eternidade.

O seria um labirinto?

Canto encantado

 A garrincha canta,

Cadenciadamente,

Canta uma,

Canta duas,

Canta três...

Canta várias vezes.

É inverno.

Ela só canta no inverno.

Será papinho cheio?

Garrincha que amar,

Quer uma companheirinha.

Faz o seu ninho

E canta,

Até me encantou seu canto.

Parece um canto encantado.

Água no seio da terra

 A terra seca e dura,

A água da chuva tudo munda.

O cheiro da chuva caindo,

A chuva trazendo frescor...

Tanajuras no céu.

O mundo molhado,

Os troncos e cupins.

A lama escorrida da água da chuva,

Argila vermelha.

Areia escura.

O homem e a terra tratada,

A terra arada, fofa, macia e fria.

A cova cavada,

Semente semeada...

A babugem no campo,

A mata brolhando,

Catingueira se pinta de vinho

Depois se enverdece...

Folha molhada,

Cheiro das plantas.

Agudo espinho de cacto...

Tanque cheio,

Despertar e cantar do sapo.

Tudo isso é felicidade,

Tudo isso é prosperidade,

Trazida pela chuva,

Água fonte de vida,

No Seio da mãe terra.

Seus filhos agradecem.

Tempo

 O silêncio frio da mata

aguardando a água da chuva.

A terra enxombrada,

Mole de tanta água.

Sementes germinando,

Fungos esporulando.

O sol, sobre as nuvens.

O tempo mudado.

08/04/26

Demora

 O sol acenou de manhã,

Mas logo desapareceu,

Choveu, choveu, choveu,

Nuvens escuras, luz branca.


A luz do fogo,

A luz de vela,

A luz...


Em outra forma,

Que não luz do sol.


A chuva,

A água escorrendo,

Cantando em toda calha,

Cantando na bica...


Água fria.


Um chá faz bem.

E o dia escorre,

E o dia molhado,

Demora a secar,

Demora a passar...


Demora

Eons

 Um dia mamãe e papai estaremos juntos.

Não da forma como estivemos.

Não!

Quando estivemos juntos,

Vocês foram os melhores pais do mundo.

Alimentaram-me da melhor maneira,

Educaram-me da melhor forma.

Vocês me ensinaram o essencial para viver em harmonia,

Vocês me deram segurança, amor e paz.

Foi maravilhoso vivermos juntos.

Mas um dia nos encontraremos na eternidade.

Um dia seremos só uma data.

Cairemos no esquecimento...

Será se nos encontramos em vidas passadas?

Não sei!

Sou mamãe você e papai.

Estou tentando ser o que vocês foram para mim.

Para o meu filho.

Tem dias que sinto falta...

Tudo vira essência.

Sabe.

Tudo termina em essência.

Meu peito não queria isso,

mas é egoísmo meu ou orgulho.

Somos eons do criador...


Consciência

 Ontem, estávamos muito cansados. A mãe de Sassá exausta e doente. Bom, parece que sabia, por isso nem deu muito trabalho. Depois do banho dele. Nos deitamos na cama. Acho que dormi ou quase dormi. Então ele me despertou e rezamos o pai nosso e a ave maria e logo em seguida dormimos. Nem sei quem apagou a luz. Ontem foi aquele dia de chuva, frio e tudo molhado. Enfim. Sassá entendeu. 

Despertar de um sonho

 Sonhei que era fim de inverno.

O campo de cajueiro que nosso vizinho plantou

Estava todo florido.

Uma paisagem tão bela.

Então dei por falta de mamãe e papai.

E perguntei quando mamãe e papai

Vão voltar de São Paulo.

Então senti o abismo da realidade.

Eles se foram,

Partiram para eternidade.

Tornaram ao ser.

Concluíram a existência.

07/04/26

A aroeira e o tempo

 Em algum lugar bem distante,

A beira da estrada, um fruto caiu,

Dali, num inverno nasceu uma aroeira,

Os anos foram passando e lentamente,

Bem suavemente ela cresceu.


Continua crescendo.

Um dia ela floresceu,

Um dia frutificou...


No verão caíram as folhas,

Uma a uma ficaram o tronco e os ramos,

Depois cheia de vassorinhas,

Floresceu, frutificou...


Mas veio a chuva e ela regou,

Então de folhas todinha se vestiu.

As aves adoram nela pousar,

As aves adoram nela cantar...


Às vezes a tarde vai lá o sabiá,

Canta, alumiado pela dourada luz da tarde.

Canta o cabeça-vermelha,

Canta o papa-arroz.


Nela nasce e se põe o sol.

Nela se avista primeiro o dia,

Nela se escurece por último.


A noite esta desaparece...


Milhares de flores e frutos já dispersou.

Oh aroeira.

Como te admiro,

Faça chuva ou faça sol.

Impávida ali está.

Seguimos nossos dias,


Você de lá e eu de cá...

Notas da existência

 A areia seca,

O solo molhado,

Sobre o solo a gitirana 

Cresce se esparramando.

Tão belo seu movimento,

De crescimento,

De vida efêmera.


A Pinheira verdinha.

Senhora Pinheira,

Amiga conhecida

De tantas safras,

Tantas visitas,

Sanhaçus,

Vem-vems...


O fruto verde gerado,

Crescente e maduro.

Do duro ao mole,

Só verde ao branco.


Dia e noite,

Verão e inverno.


Chuva e água.


Ser.


Ali ao lado,

Tantas vezes me sentei.


Tantas vezes me senti.


Sou uma Pinheira.

Que resiste se sequidão.

Que sofre calada,

As ervas daninhas nos meus galhos.


Sofre calada o calor, mas repleta de esperança 

Pelo tempo de bonança que sempre vem.


Para a terra.

O lugar.

A existência...


Sentado ali.

Foi confidente a Pinheira,

Minha de papai e de mamãe.


Quando eles participaram ela estava triste e desgalhada e assim me senti.


Ontem estava plena.


Eu também.

Mas havia um certo vazio no meu peito...

Que nunca vai passar...

É a autoconsciência.


Queria ser uma gitirana espalhando-se pelo chão.


Mas o tempo, a memória me fizeram Pinheira.

Francisco Chagas Neto

 Ontem domingo de páscoa em Serrinha dos Pintos fui à missa e ao sepultamento do padre daquela terra Francisco das Chagas Neto.

A igreja estava repleta de gente. Durante a serimonia da missa choveu. 

Houve o cortejo fúnebre onde encontrei e cumprimentei meus amados professores e amigos.

Luiz Preá, Ledimar, Rivete, Berg, Glicério, Eudes.

Vânia, Herbenia e Francisco meu primo.

Fui ao túmulo de meus pais.

A noite caiu.

Padres cantando e um colega enterrando.

O bispo e Nil o coveiro.

O dia e a noite.

Os últimos Franciscos estão sendo enterrados.

Só sobrarão os evangelistas Lucas, Marcos e Mateus.


É o espírito do tempo.

Notas do eu dois

 Agora fim de páscoa.

Sou o que fui.

Sou o que sou.

Deveio e devir.


Minhas ilusões.

Minhas desilusões.


Estou onde mais estive neste época.


Estou sem quem mais estive.


Ainda sim na balança da existência,

Vivi mas com eles...

É a vez do meu filho.


O tempo escorre.


Sempre escorreu em espiral...


O cheiro do mato,

A brisa fria da tarde.


Algo anormal.


Cadê mamãe.

Cadê papai.


Onde foram?

Onde estão.


Seguirei pela eternidade sem resposta...


Me apoiando em algo que me encanta.


...

Notas do eu

 Sinto minha alma viva.

Sinto intensa presença da eternidade.

Sinto que sou este lugar.

Este lugar sou eu.

O cumaru cultivado por papai,

As Pinheiras, as palmas.

A erva com sua rama

Que pinta tudo de verde e formas,

Formas cordadas,

Formas radiadas,

Formas ternadas.


Ouço fora e em mim o som da passarada...

A Garrincha no oitão,

O sanhaçu nas pinheiras, 

O vem-vem no encheique,

O sabiá na aroeira,

O encanto de ouro no catolé.

O pacum voando,

A rolinha no terreiro comendo.


O cheiro alvo da flor do araçá, do mororó,

Do jasmim.


Esse lugar sou eu,

Minha alma é esse lugar.

Parte da existência, o ser

 Após o café, o caminhar...

A manhã metade ida.

O corpo quer um descanso.

A gente senta na área.

Nessa área eterna.

Área que sentei toda a infância.

Área que sentei na adolescência,

Área que papai sentava pela manhã 

E pela tarde.

Área que mamãe despertava 

Após o cochilo vespertino.

Área de recepção,

Área de despedida...

Nunca estava vazia nestes momentos...


Esta área foi testemunha das nossas visitas 

Vovô sinhá,

O amigo Dadá,

Meu tio Aldo,

João de Licor,

João de Lourival...


Quantas vezes Bege, as meninas 

E eu chegamos 

E quantas vezes demos adeus.


Esta área eterna.


Hoje vive vazia,

Tendo um cachorro 

Por companhia.


O sol

E a lua

Alumiaram

E alumiam.


Papai deixou plantado em sua frente 

Um espada de São Jorge,

As vincas,

Mamãe aqui deixou a açucena 

E o jasmim laranjeira...


Área que me ensinou sobre paciência.


Aqui li Gandi,

Machado de Assis,

Aluízio Azevedo...


Encarei a biologia,

A química as ciências naturais.


Aqui esperei o inverno e as chuvas.


Os resultados das provas que fiz.


O triste dia da partida de papai,

De mamãe...


Aqui foi o palco de alegria e tristeza.


Não se sabe,

Não se percebe 

Porque se vive sempre 

No presente...

O passado são memórias 

E o futuro são desejos.


Essas coisas são particulares 

Está cultivada em cada um de nós.


Aqui papai envelheceu, cochilou e partiu.


Mamãe tantas vezes renasceu 

E a morte venceu.


Hoje tudo é só memória,

Parte de uma memória...


Se está área falasse.

Se ao menos existisse,


Porém é apenas um vazio entre três  portas.


Só isso.

Tudo e nada.

Com meu amado filho

 No mês de abril,

Após as grandes chuvas, 

pude no mato andar.

É gostoso sentir 

O perfumado cheiro da flor,

O amarelo doce do cajá provar.


Ver o feijão no campo de espalhando,

Nas hastes longas 

As flores roxas desabrochar.


E o agricultor com a campinadeira,

Dando ordens e o boi obedecendo 

Na carreira subindo e descendo.


A vista cheia de beleza, o cheiro 

Da terra arada,

O canto da passarada.


Andar no meio do mato,

Com cuidado pra uma cobra não encontrar,

Vendo a copa da mata fechada.

O cuidado pra não se estrepar.


Ver o açude de água nova barrenta,

O som da água na pedra escorrendo...


E o peito cheio de alegria...


A alma que é uma poesia...


Essas coisas bonitas 

Que a gente leva pra vida.

Lugar seu

 Às vezes a área estava ensolarada e quente,

Às vezes escura e fria,

O que ele não gostava,

Papai era friorento.

Quanta coisa pensou?

Nesta área...

Por nós aqui rezou.

Rezou até o fim.

E por fim se encantou.

Como Deus quis assim se foi.

Neste lugar eterno, 

No seu tempo eterno...

Papai e o ser

 Aqui tudo é eterno 😍 

Da área onde me sento para onde olho tudo é rico em memórias.


Sentado onde meu pai sentava.

Sentado onde meu pai pensava.

Às vezes sozinho,

Às vezes acompanhado,

Só Deus sabe no que pensava,

Pensava o que vivia,

Pensava o que passava.


Sentia amor,

Pedia proteção

Viver, reviver... eternidade

 Ontem tive o maior presente do criador,

Estando em minha terra natal

E foi como um sonho renovador.

Acordei enquanto chovia

Meu peito cheio de alegria...

Foi um sonho vivido,

Foi um sonho revivido.


Vivi duas coisas numa só.


A natureza eterna e profunda 

Numa face maravilhosa,

Verde, fresca e molhada.


Quantas vivi essa face em minha vida 


Não foram muitas.


As maravilhas divinas sentimos 

E amamos mesmo 

Que seja a primeira vez.


A esperança forte batendo no peito.


E a já sente a eternidade.


A chuva, o verde e a fé que isso é bom 

É verdadeiro e efêmero.


O cantar alegre das aves...

O cantar harmônico das aves.

O cantar feliz das aves

 nos transmite felicidade.


Foi o que senti ainda criança 

E reafirma sempre que ouço...


Tá guardado na memória.


Ver pela janela a fora

Enchendo a vista de forma, de cor, de profundidade...


Sentir o ar fresco,

A brisa fria, o cheiro de mato molhado, o cheiro da terra enxombrada.


Sentir a realidade da ausência de pai e mãe materializada em saúde.


Aí está.

O coqueiro morreu.

A graviola está quase morta.

Foi papai que plantou.


A realidade do tempo que se foi.

A realidade do tempo que é.


Esse posso viver,

Aquele não mais

Em totalidade.


Tenho um filho pra criar,

Um filho pra ensinar como é a vida aqui...

Na ausência de meus manos e meus pais.


Aqui as mesmas sensações terá.


O ontem foi pra isso.


O café aquecendo o frio da manhã.


A manhã de chuva.

O banho de chuva.


O passeio na mata.

O almoço com arroz de leite e peixe frito.


A tarde de chuva...

Chuva a tarde todinha...


A noite escura e fria.

O angu com leite...

O chá.


A vida.

Quinta-feira santa

Hoje foi um dia ímpar. 
Choveu e está chovendo muito.
Pude reviver tanta coisa aqui.
A quanto não acordava aqui em serrinha ao som da chuva.
Ver o dia chovendo como aqui vi tantas vezes.
Reviver,
Rememorar,
Agora como pai.
É muito diferente.
Agora como órfão.
É muito diferente.
Feliz e triste ao mesmo tempo.

Páscoa

 Passamos a páscoa na Serrinha dos Pintos-RN, terra natal do papai e dos avós de Sassá. Lá nós pudemos contemplar como está tudo bonito após as chuvas. A mata toda crescendo, as ervas fechando tudo. Tudo é verde. Uma imensidão de insetos. Teve um dia que choveu o fim da manhã e a tarde e Sassá pode tomar muito banho de chuva. Como ficou feliz. Pulou na caixa dágua e foi muito banho. Saímos para explorar a mata, vendo os insetos e fazendo fotografia. Fomos na mata grande, nos açudes de papai e Dedé. A gente chupou cajá. contamos os porcos. Encontramos uma gata preta que ele seu o nome de beleza negra... A gatinha amou Sassá e ele adorou ela. Ela se enrolava nas pernas dele. Ela foi conosco até os tanques para ver se via sapos. Depois veio conosco para a casa da tia Li. Acredita. Acho que a tia vai adotar beleza negra. Bom, fomos a casa do Davi onde Sassá comeu goiaba no pé. Fomos ainda na casa de seu primo Nicolas. Fomos a missa da páscoa. Corremos muito. Ele já saia da cama atordoado querendo ir para o mato. Teve um dia que fomos com a foice limpar as juremas brancas e o calumbi e as mimosas do terreno. Sassá me ajudou muito. Se divertiu muito. Só não se divertiu mais por causa do tempo. Enfim foi maravilhosa nossa páscoa. 

Insônia

 Ruídos

Minha mente se perde em pensamentos dendromorfos.

A noite fica longa.

O escuro,

O silêncio

A tornam enorme.

A mente se perde numa espiral de pensamentos.

O que ocupa minha mente.

Meus desejos...

A mente é um labirinto,

Um cubo mágico...

Inalcançavel de se contemplar.

Meu corpo precisa dormir.

E essa mente não deixa.

Pensamentos pipocam, purulam...

E os ruidos,

E a luz...

Ainda vão me enlouquecer.


Chuva chovendo

 A chuva choveu a noite inteira,

Desfiava fina, mas incessante e contínua.

Acordei na madrugada

E a chuva não parava.

Trovejou.

E continua chovendo.

O sol nem teve vez.

Está tudo sob sombras.

E a chuva continua chovendo.

Neste sete de abril.

Aqui dizemos que é inverno.

São as chuvas chovendo.

31/03/26

Eterno momento

 Ontem após a aula. Foi gostoso como sempre é pegar Sassá. A coordenadora não disse quero falar com você. Só isso já é um alívio. Depois de Vera chamar... Sassá infantil agora é 5... Lá para 5 minutos depois aparece. Cabelo grande, cobrindo os olhos cm a bolsa, a garrafa e a pasta na mão. Abraço-o, cheiro-o e beijo. Não tem preço. A gente ver o brilho e o riso na cara dos pais, avós que creio está também na minha. Então a gente sai. E Seu Zé pega o Ravi. Então os dois saem empolgados. Tchao cabeça de limão... Vamos para o outro lado e eles saem correndo e se divertindo. Então se junta ao grupo Maia e José. Risos e correria e felicidade... A felicidade é um momento de esquecimento dizia o grande Guimarães Rosa. Ali a felicidade é plena, eterna... Ah! meu filho. Vou sentir saudades quando você crescer... Amo tudo isso, mesmo cansado. Você me mostrou que o amor existe. E eu creio nisso. Te amo.

Catarse

 Pink Floyd e a tarde

Não conhecia Pink Floyd.

Era algo tão distante de minha realidade.

Era algo tão distante de minha vida.

Que nunca ouvira falar.

Eu um garoto do interior que só conhecia as rádios AMs e depois FMs.

Em sua maioria essas rádio tocavam rock romântico, embora Pink Floyd seja uma banda neste estilo.

Nunca havia conhecido.

Uma tarde, ouvi e senti Pink Floyd.


O ano era 2005, estava na ESEC- Seridó. Fazendo coletas botânicas para o mestrado.

Era uma fim de tarde.

Não estava sozinho no alojamento.

Quem estava lá eram amigos e meu saudoso e amigo professor Adalberto Varela Freire.

Adalberto era, para mim, um gênio, um bruxo, um ser humano extraordinário real que dominava o mundo das ideias. Sim ali, sabia nome de plantas e bichos e geologia e nuvens...

E era um grande contador de história e meu professor.

Era um ser humano além do normal.

E ele gostava de rock.

Longa exposição do mestre porque merecia.


Então ou vi a musica "Coming back to life".

Estava no laboratório quando ouvi.

Parei, algo catartico.

A janela do laboratório que dá para o poente estava aberto.

O sol se punha...

O segundo crepúsculo era pleno, 

O céu era azul...

A luz do sol tingia de dourado a paisagem seca da caatinga.

A luz enchia o mundo de beleza,

A luz era refletida no açude.

Eu senti eternidade naquele momento.

Eu senti eternidade naquele momento.

Eu senti a eternidade ali.

Eu sabia que nunca mais iria me esquecer aquele momento, aquele lugar.

Eu senti que podia viver aquele momento pela eternidade.

Momentos fugazes.

A música acabou.

O sol se apagou no poente.

E uma noite se foi.


Dá pra sentir o calor daquele espaço,

A textura da cor,

As curvas daquele som.

Produzido tão longe...

Afetando um ser ignorante na língua que estava sendo cantada a música.

Ignorando o significado.

Senti beleza.

Uma conexão divina.

E tudo passou...

Mas ficou na minha memória.

Deveras uma sensação impar.

Uma percepção que pode se propagar...

Adalberto se foi.

Há anos não voltei na ESEC.

Mas ela está dentro de mim.

Pouco ouço essa música, mas já é parte de mim.

Será que foi o por do sol apenas?

30/03/26

Recife primeira impressão

 Quando cheguei lá,

Tomei um susto

Um susto de realidade.

Casas trepadas nas barreiras,

Casas de tábua,

Casas de lonas...

Casas...

A minha casa pareceu um palácio.


E ninguém ali, imaginava,

O que em minha mente passava.


A gente anestesiada,

A quela gente acostumada,

A chuva e ao sol,

As casas onde morava,

As casas que ali estavam.

Eram casas.

Eram pessoas como eu,

Vivendo sua vida,

Vivendo sua realidade,


A mim uma triste realidade.

Irreal a minha realidade...


Tudo bem, ali era ali.


Bem distante daqui.


Quem se preocupava

Com aquela pobre gente,

Com nome, com voto...


Seu valor,

Nitidamente marginalizada.


Recife...


Grande Recife.

A capital da cultura,

A capital do Pernambuco...


É real,

Em sua entrada não mostra maquiagem

´

É tudo gente e verdade...


Fiquei afetado,

Fiquei impactado...


Mas descobri naquela gente,

Amizade, bondade.

Gente real...

Cegueira

 O silêncio era seu companheiro.

Acordava e ia dormir nas sombras. 

O mundo era sempre próximo e distante.

Nada enxergava.

Só sentia o mundo quando ouvia,  quando cheirava.

Sentia o vento, o sol e a chuva.

Não sabia que era dia,

Não sabia que era noite 

Só sabia quando Maria dizia.


Já quase não sentia sede nem fome.

Onde estava?

Sua vida era sua memória.

E o presente ou passado.

Assim era sua vida simplesmente.


Quando acordava e um copo de leite morno o esperava, 

Umas bolachas.

Sem fome comia... 

A vida se reduzia ao silêncio.

Levantava e sentia o cheiro do mundo de forma inconsciente.

Sentia o calor do verão e o frio do inverno.


Que imagens em sua mente aparecia?


O que era sua vida?


No quintal crescia um Jasmin-manga.

com flor de estrela ornamentada,

De cor de prata pintada.

Dona de um cheiro doce.


Foi ali que percebi pela primeira vez o pé de jasmim.

Não as flores.


Vi suas flores num defunto, pela primeira vez.


Por isso o condenei papa-defunto coitado do jasmim,

Dos corpos mortos com suas flores eram perfumadas e ornamentadas.


Estava sempre florido.

Seu cheiro por sempre está presente desaparecera de sua mente 

E na minha de menino ficou sempre gravada.

Um dia tomei ciência, deste senhor, 

Do meu amigo avô.

Deve ter sido no mesmo dia que tomei ciência do jasmim.


Fui tomado de compaixão,

Descobri uma forma de vida com uma triste deficiência, 

Não poder ver luz, cor ou forma...


Mas Deus sabe o que faz que quem nasce cego não sabe o que é luz ou cor? Pensei.


Aquele que perde a luz, carrega isso como quem leva a cruz. 

De perdido um mundo que não se encontra jamais.


E as coisas são só treva pra quem no peito não leva a fé pregada cruz.

Isso mesmo falo de Jesus...


Seu Antônio se foi da terra se despediu.


Mas nunca esqueci do que é a cegueira e o jasmim manga.

Papa-sebo

 Ontem, Sassá acordou querendo dançar. Dançamos um pouco. Estava emotivo. Então mostrei para ele um texto que estava escrevendo, ou melhor quis ler, mas o que chamou a tenção dele foi um papa-sebo que fica na página. Então fomos ver e ouvir o papa-sebo. Ele até quis desenhar. Desenhou o papa-sebo, um sabiá de cabeça branca, um sofreo, uma arara e um periquito. Depois fomos brincar.

29/03/26

Diferentes percepções

 Hoje acordei com vontade de sentir

a maciez da terra molhada, 

o cheiro da flor de mufumbo..


Tive uma vontade danada

De encher a vista 

Da mata verde,

E do milho crescendo,

Na roça bem alinhada,

Do roxo do feijão florescendo

E cobrindo o chão.


Sabe aquela vontade de sentir o frescor da manhã,

Ver o azul das flor de gitirana,

Das flores de bomba d'água.


Ver o amarelo das flores de mandubim e de camará,

Da flores de canafístula.


Ver o branco das flores de mororó,

Da tenda de flor de gitirana de mocó,


Hoje acordei querendo sentir o cheiro de maravalha de marmeleiro,

Estalando e fervendo a água do café,

A goma sendo molhada,

A tapioca sendo assada...


Hoje só queria ouvir mamãe,

 papai e tio João na cozinha,

falando do sertão,

Outro dia,

Tio Aldo falando do Porção.

Outro dia de João de Licor,

Tinha um que de alegria nesses encontros,

Que me fazia se sentir bem o dia inteiro,


Essas vontades, vivem vivas em mim,

Na fé que estão todos bem,

Que sigo bem,

E as percepções são eternas,

Só as histórias diferentes.

Depois a vida continua como sempre,


Mas a memória meu amigo é minha raíz, meu entendimento é minha direção.


Bom dia.

Um novo amanhã

 No final do inverso uma área foi desmatada,

na seca a broca foi queimada,

Ficou cinzenta e ficou escura,

A cinza pelo vento foi levada.


Tanto suor, tanto esforço,

Acordado desde a madrugada,

Ao raia da barra vermelha,

A foice amolada, o maravalha queimada,

A água fervida, o café cozido,

No saco coado...

O cheiro preencheu a cozinha de taipa,

E acendeu na alva aquela desejo do doce cozido do acúcar...

A garrafa amarronzada de uso.


Um pensamento no trabalho,

É aceso na mente,

Como brasa acesa pelo vento que passa,

Um pensamento na vida...

Pensa nos filhos,

Pensa no gado,

Pensa no ano que começa,

Pensa na mãe...

Então as galinhas

aparecem animadas no terreiro,

O porco berra no chiqueiro,


O terreiro alvo de terra varrida,

O cheiro do marmeleiro,

O cheiro da catingueira,

A escura sombra do joaezeiro,

No branco campo no sul,

O peru estufa o peito e dá um glugluglu...


Sua sinhazinha, companheira já desperta,

Arruma o café preto,

A tapioca alva e fria,

Exala um gostoso cheiro 

Quando é deitada na fregideira quente,

A bolacha redonda e seca,

A alva e fria coalhada,

O reco-reco doce da rapadura

Sendo raspada,

A alva coalhada no prato deitada,

A doce marrom raspadura rapada,

Agitada em espiral,

Gira, gira se agita, se mistura.

A primeira colherada...

Para uma vida dura,

O doce até que anima avida,

Suaviza as ideias duras e áridas.


Sabe aquela  amizade, a cumplicidade,

Palavras de realidade,

Nada de carinho,

A realidade...


O pensamento materializado,

Falado...

Um ouvido dando atenção.

-A roça vai ser boa,

A terra é nova,

No pé do serrote.


A madeira vou mandar os meninos trazer,

Esse jumento preto é perigoso,

Se ouve a voz da avó.

Vão dois meninos... pegar


Se Deus quiser o inverno vai ser bom.

A turina berra no chiqueiro.

Um vento sopra trazendo frescor e cheiro de pau...

Nem se percebe, mas se gosta desse cheiro...


Nem tudo é tornado consciente de imediato... mas estamos vivos.


Cheiro do sertão, cheiro da vida.

As vacas ainda deitadas, badalam o chocalho quando rumina,

Malhada se levanta, se estira, mija e caga...

Magi solta o bezerro,

Miguel arreia a vaca,

Limpa o ubre e a teta com a escova do rabo,

Bota o balde entre as pernas,

E com carinho aperta a teta,

Um jato alvo, morno e leitoso,

Vai enchendo o balde...

Espumado o leite morno,

Exala um cheiro de fé, de alimento, de vida.


Pega a foice seu zé e segue para a lida...


No dia três de janeiro no sul a barra se faz,

A manhã nasce fria e azulada.

O dia é quente e escaldante...

A noite o tempo se fecha,

Relâmpagos clareiam o céu...

O peito de Zé se enche de alegria,

Sinhá reza a ave maria...

Lera se entretem com a chama da lamparina,

Magi só observa a cena.


Zé pigarreia e reza em silêncio.

E o silêncio continua...

Luz apagada, escuro e silêncio...

Pelas frestas da telha,

Uma luz tudo clareia

A meia noite, então noite dento,

Sinhá se acorda com o som dos pingos na telha,

Seus lábios o pai nosso começa a balbuciar.

E uma grande chuva se inicia...

O cheiro do barro molhado vai crescendo,

Lera dorme na rede, Sinha ao sair faz a rede balançar,

Então Zé se levanta,

Abre a janela e olha pro nascente é tudo escuro,

Nada de estrela,

Um raio acende a natureza,

brilha do nascente ao poente.

Um truvão arrojado,

Ecoa no serrote...

Corações e mentes palpitando de alegria,

é a chegada do inverno.

Lera acorda feliz,

Magi acorda feliz,

Sem saber porque,

Há um riso no rosto sisudo dos velhos avós...

A dor da vida fica para trás,


Chuva é água,

Chuva é vida,

Chuva é esperança...


A terra seca pobre terra,

Terra molhada, rica terra...

O trabalho é o divisor,

Trabalho, fé e amor.


A água escorrendo,

As goteiras cantando,

A cadencia da água na lata ao ser cheia,

Quanto mais veloz mais feliz...


O gado molhado, sente frio...

Se ouve o forte respirar...

Morcegos voam a piar...

Amanhã se tudo der certo,

Vamos plantar,

Guardou as sementes de gerimum?

Separarei o milho e o feijão,

Vamos plantar também algodão.


Na roça o cheiro do carvão molhado,

A terra enxarcada.


O sonho e a imaginação...

A felicidade de um novo amanhã.



27/03/26

Razão

 Agora sou.

Posso expressar isso.

Agora sou.

E vai sucedendo,

Venho a ser e deixo de ser.

Agora, aqui  e agora.

Um breve momento uma junção 

Espaço e tempo.

Onde.

Sei que serei outro em pouco tempo.

Ser e existir.

A autoconsciência.

O desejo.

A vontade,

A representação,

O objeto.

A consciência...

A balança divina.

O peso é seu...

O justo está em ti?

O justo está no outro?

A razão.

Mani

 Mani.

Maniçoba

Mandioca.

Encontrei variações na lingua tupi "mani ou mandi"

Os povos indígenas chamavam amendoim de mani. Certa vez, perto de casa estava fotografando um amendoim silvestre e aprendi de papai que aquela planta era mandubim...

Nós temos a palavra maniçoba - soba no tupi tem conotação para folha... folha de mani.

Temos ainda mandioca - tupi também, canta uma lenda sobre a origem da macaxeira.

Pois bem - oca para mim tem uma conotação de vazio, ou oco... Temos a palavra "oca" nome para casa indígena. Oco vazio. Ex.: tronco oco. ou tronco com sem cerne...

Já mani ou mandi - parece que pode ter uma conotação para algo que se usa na alimentação mas que está enterrado, vi num artigo "aquilo que se arranca.


Raridade

 Ontem, Sassá ficou inquieto quando falamos sobre a palavra "raro". Vendo vídeo de animais, ouviu o narrador falar de animais raros. Não sei direito como ele entendeu. E sei. Ele entendeu raro como algo difícil de se ver, Ele está tentando entender e estava argumentando sobre. Então eu disse que era raro. Ele respondeu que não porque ele me via o tempo todo. Disse para ele que raro é algo que tem pouco na natureza. Ele não gostou dessa definição. E argumentou raro é canguru que a gente pouco ver. Verdade só se ver canguru na Austrália, mas não é um bicho raro. Para os australianos por exemplo raro seria o cururu... Para nós é muito comum, se seguirmos essa lógica. Boa pois foi entendimento dele. Na ida para a escola ele perguntou sobre minerais raros. A cor destes o verde perguntou, respondi é esmeralda; o vermelho, respondi  rubi, o amarelo, respondi rutilo, o azul, respondi safira e o roxo respondi ametista...

E o diamante tem aqui. Respondi que tinha na África. Falei que diamantes são encontrados onde tem vulcões. Ai entrou em outra conversa.


Desvelar a poesia

 Aprendendo um pouco sobre literatura popular.

Observando a técnica dos escritores.

Juntei alguns livrinhos de cordel para entender um pouco.

O que separa um cordel de um livro de poesia?

Cordel não é poesia?

Neruda, Drummond, Pessoa escreveram poesia.

Ferreira Gular.

Pinto do Monteiro,

Patativa do Assaré,

Louro e Otacilio Batista...

Valdir Telez,

Ivanildo Vila nova.

Emboás e a mente

 Emboás são cheio de pernas, Emboás tem exoesqueleto, Emboás são lineares. Emboás são segmentados, Às vezes bicolores, Às vezes unicolores. ...

Gogh

Gogh