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30/09/26

Face dos anos 80

 Ontem numa livraria,  vi várias versões da bíblia, então pensei que poderia me isolar e ter uma vida em paz. No mesmo instante recordei de uma casa que existia na curva que chegava no nosso povoado. Era uma casa de taipa. Era uma casa muito deteriorada, não haviam casas de taipa no povoado, senão aquela. As paredes de barro e madeira. E quem morava ali era uma família de pobres, casa de Maria e João e sete filhos. João era barbeiro e Maria cuidava de tudo. Aparentemente tudo era escasso. Não havia nenhum programa do estado e eles sofriam, não tinham nem um jegue que era essencial para pegar água. Que vida dura a de Maria e seus filhos. Mas Maria tinha fé em Deus. Na casa não tinha móveis, não tinha banheiro... Ali havia uma bíblia que Maria lia com muita fé. Os filhos cresceram e João e Maria se foram e já não existe casa. Maria era Evangélica, mas não frequentava a  igreja do lugar. Pobre Maria, pobre família.

A bíblia foi sua consolação.

O que é a vida.

 Em setembro, 

Na minha terra natal, 

A mata fica despida,

O vento sopra do nordeste,


Em setembro,

Lá em Serrinha,

Podemos ouvir 

Quando a difusora anuncia,

Um chamado para a festa,

Festa da padroeira,

Festa de Nossa senhora da Salete...


Posso ouvir, 

Mesmo morando em outro lugar.

Em setembro,

Nosso sítio cheira a flor de cajueiro,

As mangueiras também floram...


A esperança de boa safra já me faz sentir feliz.

Em setembro,

A gente espera pelo outubro,

Pelo dia das crianças,

Pelo dia de são Francisco,

Pelo aniversário de mamãe...

Que continuará eternamente sendo minha mãe,

E aniversariando no dia dez do dez...


Em setembro,

É tão quente e radiante,

Longe canta o joão de barro,

A casaca de couro...


O vento sopra entre os garranchos cinzas da caatinga...

É tão lindo ver a aroeira florida,

Imperosa aroeira,

De onde o sabiá costuma cantar.


A carnaúba suas folhas ao vento saculeja,

O angico se cobre de flores...

Estamos em setembro na grande estação do verão.

É tão bom,

É tão bonito...

E outubro segue o mesmo rítmo,

E em novembro,

Celebramos nossa união com a eternidade,

Vamos visitar nossos finados,

E vemos a missa do cemitério,

Onde o sol se põe ali,

Rodeado ao norte por chapada...

Logo chega dezembro,

E a gente percebe...

O que é importante,

O que é belo,

O que é finito,

O que é a vida.

10/09/26

A baixa, o tempo e a esperança

 Em meio as baixas de capim,

Conservavam o verde.

Costumava olhar a baixa de campim

De João de Janoca,

Sempre verde,

Um pedaço do inverno 

No ano todo.

Olhava para aquele verde,

Achava tão lindo,

Parecia que ali havia um reino mágico.

Talvez animais fantásticos.

Havia um veio de água,

Revença do açude do Alívio...

Deveras o verde era um alívio a vista,

Da cinza que tudo dominava,

Ou era o sol com toda sua energia,

Ou era o calor,

Ou era a falta de água.

A baixa me dava esperança.

O tempo hoje seria minha baixa?

09/09/26

Setembro sertanejo

 Setembro chegou, 

No sertão a mata perdeu a folha,

Os campos ficam abertos,

O pasto se acabando,

A água escaceando,

As rolinhas capoeira e branca

Fazem seus ninhos entre a mata pranca,

Mata nua,

Caatinga...

Voam rolinhas cinzentas,

Cantam rolinhas cinzentas...

O sertão fica tão lindo seco,

As noites mais estreladas,

As belas noites infinitas

Com incontáveis estrelas...

Mesmo adulto,

O mistério divino continua.

E a beleza,

A beleza daquele lugar,

Ecoa no meu peito,

Que quer voltar...


29/08/26

Algum dia em minha infância

 Eu amanhecia,

Queria ver o novo dia,

O chão molhado da chuva,

O cheiro da terra encharcada,

O canto da passarada.

Ali tudo mudava num instante,

Parecia um grande milagre,

Tanajuras a voar,

Formigas ativas.

O tempo ficava fresco.

O mundo sorria,

A esperança ganhava força em meu peito

Eu pensava, 

Não eu sentia 

Agora tudo vai melhorar.

Quando a coisa chega ao extremo 

Qualquer coisa dá uma sensação de alívio.

A chuva fazia isso,

Castigava a seca,

Botava moral,

Era só uma chuva,

Mas a gente sentia a mudança.

Aliás, lá em casa tinha uma bica de frande que unia as duas casas,

Quando ouvia o primeiro, o segundo e o terceiro pingos de chuva,

Logo sentia o cheiro da chuva,

A terra sedenta,

Agradecia aromatizando o mundo...

Na cama, acordado, 

Sentia que todos 

Percebiam o mesmo que eu...

Ouvia mamãe dizendo sei lá o que para meu pai,

Meu coração sentia que estava tudo bem.

Porque o mundo é assim, bom.

Tem horas pra tudo...

Foi tão bom viver a vida na casa dos meus pais,

Dividir a vida com meus irmãos...

A gente aprende tanto da vida.

A gente divide as coisas boas e ruins...

A gente brinca, briga e faz as pazes porque a gente sabe que é uma família.

E o rei era papai e a rainha mamãe...

Naquele reino criei a minha imaginação...

E quando a chuva chovia de noite...

O outro dia seria perfeito.

Gurdo essa sensação comigo até hoje.

28/08/26

Berço

 Minha primeira paixão foi a natureza.

Nasci filho de agricultor e domestica,

Cresci numa pequena terra,

Minha família era de sete pessoas.

A gente plantava e criava na terra.

Papai cuidava da terra,

Mamãe cuidava da casa.

Papai era forte,

Mamãe era mãe...

Papai me ensinou as coisas necessárias para um homem de bem.

Mamãe me ensinou as coisas para ser um homem de bem.

Na primeira infância foi a natureza que me deu saber,

Aprendi nome de planta, nome de bicho... 

Aprendi o que tinha de aprender o essencial,

E ficava um vazio.

O vazio existencial...

Eu enxergava o finito no infinito...

O céu azul,

O sol quente,

Início e fim da vida...

Com os sapos aprendi a cadeia alimentar,

Com as galinhas o frenezi,

Com o cachorro a amizade,

Com o gato a desconfiança,

Com o gado a bondade.

Com as fruteiras a generosidade.

É temos mais o que aprender com as plantas...

Assim é.

27/08/26

Poucas memórias

 Certo dia,

Era outubro, dia da criança.

Mamãe me deu dinheiro e fui a rua onde comprei um trator.

Era vermelho, rodinhas pretas, carroceria azul e branca.

Foi tão maravilhoso poder ter aquele brinquedo.

Fiquei tão feliz, tão grato a mamãe.

A melhor sensação foi de poder tocar,

Contemplar e brincar.

A sensação e o desejo do ter...

O tocar,

O usar,

Se foi quando passei a possuí-lo...

Nem sei se continuei a brincar.

O vermelho, as rodas pequenas da frente,

As rodas grandes de trás.

Queria ter um trator, mesmo que de plástico,

Mesmo que de plástico fraquinho, sem muito detalhe.

Vejo hoje tanto brinquedo...

Sinto que as crianças são como fui, desejavam ter...

Depois de possuir se foi o desejo.

Mamãe era tão maravilhosa,

Gostava de me ver feliz...

Nesse reflexo, eu penso...

Como uma criança pode ser feliz com coisas tão simples...

E o tempo passou,

Como um fim de tarde,

Tento lembrar o que aconteceu de manhã...

Restam apenas memórias.

25/08/26

Como literatura

 Ontem, em frente ao HU, da UFPB, vi um lindo chevrolet D60, branco, potente e cara de mal. Fiquei muito contente. D60 me arremete a Martins, cidade natal. Onde na minha infância eu via o D60 gerimum coletando lixo pelas ruas. Quem dirigia era Babu. O barulho do motor inconfundível, o sol ardente, sob o frio da serra fez aqueles momentos se eternizarem e em minha vida. Certamente, estava com a mamãe. Nunca tinha visto um D60 Branco... Lindo demais. Os mais comuns que conheci eram cor de goiabada como o de Ivin, um comerciante que comprava pinha e ceriguela lá no nosso sítio. Os D60 eram comuns na década de 80 e 90 só perdiam para os tromba de porca da Mercedes. Tempos bons... Somos produtos de nosso tempo e lugar. Com o tempo estas memórias não serão compartilhadas, apenas aparecerão como invenção, como literatura.

24/08/26

Alfabeto

 Giz, quadro negro, carteira e cadeira, caderno de espiral, um lápis e uma borracha.

A, é, i, o, u.

Vogais e

A, b, c...

Fui a escola aprender,

Ler e escrever 

E o mundo 

Descobrir 

E o mundo 

Inventar.

Promeira escola

 No meu lugar tinha uma escola,

E só.

A escolinha era branca,

E nela tinha uma sala, dois banheiros, uma cozinha, uma dispensa, e a sala de aula,

Na sala 37 carteiras e um quadro,

O quadro negro era verde e estava virado para o sul,

As carteiras voltadas para o quadro,

Tinham cinco janelas voltadas para o nascente e a porta para o poente.

A mestra, minha primeira professora 

Foi Livani Raulino.

Foi ela que me ensinou a ler e escrever.

Foi ela minha aurora.

A zeladora e merendeira era Dudé de Zé Baliza.

Em frente a escola a estrada era de barro.

Não tinha eletricidade.

O meu primeiro ano foi à tarde.

No ano de 1986.

Hoje 2026... 

Lá se foram 40 anos.

Eu mudei 

E a escola morreu.


Saudade...

Ser sertanejo

 O gado come o pasto,

Sol quente,

O pasto fica escasso,

O calor, a sombra, a água...

A poeira no oitão,

O pau do curral,

O cheiro do gato,

O calor do gado,

O leite quente na manhã fria,

O vento frio,

Nessa oscilação,

O tempo vai passando,

O tempo vai contando,

A vaca estrela,

O boi bumbar,

O queijo feito,

O radialista,

O rádio,

O verão ao pino...

A vaca caçando pasto,

A gente andando na caatinga,

Se sente bicho...

Se sente bem com os bichos.

A gente entende e se sente bicho...

O cão parceiro,

A casaca de couro,

A catingueira cinza,

O juazeiro...

Meu Deus,

Amo ser sertanejo,

Do início ao fim.

19/08/26

Ziná

 Esse mês mais duas pessoas partiram de Serrinha do Canto Ci de Damião e Donina e Ziná de Severino Lopes. Hoje, recebi a notícia com tristeza. Ziná foi merendeira da Escola Isolada Serrinha do Canto. Era funcionária da prefeitura. Era quem fazia a merenda entre os anos 1980 e 1990. Foi casada com Antônio de Doquinha muito amigo de papai. Na minha infância convivi muito com a família de Ziná. Conheci toda sua gente, Seu pai, sua mãe, suas filhas. Descanse em paz.

Ci foi o primeiro motorista de ônibus que fazia a linha Martins - Pau dos Ferros.

Se foi também.

Flores de laranjeira

 Olhando fotografia de flores,

Flores de laranjeira,

Recordei aquele janeiro,

Aquele janeiro quente de 2019.

Senti todas as manhãs o cheiro doce das flores brancas de laranjeira.

A vida estava tão boa.

Mal sabia que alvorecia a pandemia.

A humanidade enfrentaria uma tragédia mundial.

Ainda bem que não sabia de nada.

Vivia cada alvorecer,

Cada primeiro crepúsculo

Como se fosse único.

Caminhava olhando a caatinga...

É tão bom não saber a luta que nos espera...

Aquelas flores alvas,

Coroadas de amarelo...

Marcava o fim de uma vida,

Minha primeira tragédia pessoal.

Aquela que a gente descobre e fica com medo...

A fé foi fundamental para está aqui,

Escrevendo estas linhas...

Que se perderão no tempo e no espaço...

Até que alguém encontre e se identifique...

É a vida.

18/08/26

Metafísica do joão-de-barro

 Quando a tarde caia no inverno,

Saia a caminhar,

Ouvia no fundo da mata,

Entre caminhos,

O joão-de~barro cantar.

Era tão bonito.

A mata verde,

Barro enxarcado,

O cheiro da flor branca do marmeleiro.

Algo além de mim cantava,

Se expressava,

Não como as plantas,

Mas algo vivo,

Marrom, a caminhar.

Eu tomava consciência da alteridade,

Era tão belo aquele canto,

A caminhar, forragear,

Pleno e eterno...

As vezes que me lembro,

Fico pleno.

Volto no tempo...

Se isso fosse possível!

Meu Deus!

Eu desperto uma memória...

Sabia onde estava,

Sabia qual era o tempo.

Só resta memória.

10/08/26

Pão doce

 Pão doce!

Papai gostava muito de pão e sabia que nós também gostávamos.

Onde morávamos tinha três tipos de pães, pão doce, pão carteira e pão francês.

À tarde, depois do café, lá pelas 15h, papai ia caminhando até a budega de Juninho de Chico Viola comprar pães. 

Saia caminhando devagar como caminha um idoso. Ia pensando, sentindo o calor da estrada, da tarde, cumprimentava os nossos vizinhos.

Naquela monótona Serrinha do Canto, os vizinhos veem papai passar era um  movimento, dali ocorriam relações amistosa, cultivadas pelo tempo.

Todos sabiam muito da história de papai e papai da história destes. Coabitação a longo tempo.

Depois voltava e eu contiguava ali na calçada da frente pensando.

Ele chegava e me oferecia um pão.

Eu escolhia o pão doce, ainda quentinho...

Era tão bom, ter alguém que sabia do que eu gostava e amava fazer esse gesto carinhoso.

Foi um momento que guardei no fundo da minha alma.

Meu pai, a tarde, o pão doce e aqueles momentos.

30/07/26

Casa paterna

 Aquela casinha teve tantas cores.

Nela fui amamentando, balbuciei as primeiras palavras,

Nela percebi o mundo sem palavras,

Tudo era tão absoluto,

Nela descobri o amor, nela descobri meus desejos...

Nela descobri realidade da vida 

Via razão...

Nela senti meu coração dilacerado,

Nela, tantas vezes comemoramos juntos.

Nela descobri a realidade da vida via experiência...

O tempo passou...

Casinha e tive que te dar adeus.

Sempre volto e mato sua saudade.

Agora tão longe 

Fecho os olhos e posso andar no seu interior.

Somos um só.

Posso ir nos três quartos, usar o banheiro,

Ir a cozinha e a área.

Posso sair fora e ver o céu estrelado...

Somos um só.

O tempo nos distanciam,

E saber que o tempo passa e que

as memórias se apagam...

Apesar de tudo casinha.

Vale a pena, 

Só tenho graça,

Pela sombra do sol e da chuva,

Pelo calor retido

O frio cedido...

Casinha compartilho esse momento 

Nosso. Só nosso momento.

Meu infante momento.

Porque é bom sem um contigo. Conosco... Amém.

08/07/26

Podoi

 Certo dia, ali onde a serra se inclina.

Onde o barro vira pó,

Onde as pedras são cor de vinho.

Sobre aquele barro uma semente caiu.

Era uma semente preta e grande.

Ninguém viu.

Isso se passou no final do inverno.

Por longos meses a semente dormiu ao relento.

Em Dezembro na festa de nossa senhora da Conceição choveu muito.


O povo que vinha do sertão, da serrinha grande passou pertinho da semente e nem viu.


A semente então se inchou e sua casca se rompeu.

Aquele embrião grande com cotilêdones grossos e rosados,

Alimentou aquele ser,

até que ela crescesse.

A planta foi crescendo oculta no verde do mato.

A planta virou árvore,

E o lugar ganhou seu nome.

A planta se chamava pau-de-óleo, mas passou a ser chamada de PODOI...

O Podoi virou um lugar,

Um ponto de encontro.

Todo mundo de Martins que não era da cidade conhecia o Podoi.

Eu que nasci em 79 conhecia muito bem.

Conhecer planta era uma coisa comum.

Todo mundo era agricultor e todo mundo ali naquele lugar sabia o nome das plantas.

Por isso, sabia onde se estava porque o nome do lugar era o nome das plantas.

Bom os leitores, meus leitores, a quem faço referências estão vivos.

Se disser para eles que temos tínhamos em Martins as cajazeiras... vão dizer depois da Água-de-maroca.

Pois bem....

Sob o Podoi, muitas coisas aconteceram.

As pessoas usavam sua sombra para esperar seus companheiros para descer a serra. 

Indo para a Pintada, Morcego, Sossego, Serrinha Grande, Serrinha do Canto, Grugeia, Sampaio, Lajes, Boa Vista, Porção, Sítio de Fora...

Todo muno passava por este gargalo. A noite deveria ser assustadora aquela árvore...

Será se prestaram atenção nas suas flores, nas suas sementes?

Contavam que antes as pessoas eram enterradas em redes.

Depois de subida a ladeira paravam ali para descansar...

O podoi viu muita gente sub sua sombra, gente morta em redes fracas.

Gente viva.

O podoi vi as mamães subindo para parir na maternidade e descer com seus bebezinhos.

De dia e a noite, registrava tudo que ali passava. 

Vitória de José Fernandes, Manuel Barreto, Marcos Fernandes.

Viu os carros de Serrinha subirem cheio de gente doente.

E nos fins de ano, as pessoas virem ver as festas de fim de ano.

Chinela, pé empoeirado... Papai passou ali, meus tios e tias.

Por ali viu minhas tias e tios indo se casar e voltarem casada.

Ontem crianças, hoje idosas.

O tempo contou também a vida do podoi.

Ele foi morto.

Queimado... sem o mínimo de respeito.

Acabou-se.

Acabou-se.

E esse texto, não tem serventia alguma...

Não terá por falta de materialidade, por falta de testemunho.

Tudo que falei é verdade. 

Ninguém vai julgar ser verdade, mas minha família os Teixeira e os Queiroz...

Os troncos familiares, sabem que falo a verdade.

Lugar é um lugar.

Lugar é infinito e eterno.

A história é humana...

E isso é uma gota caída no oceano da história humana.




07/07/26

Tempo implacável, evidências e consciência

 O tempo não para,

O tempo é implacável.

A gente se ilude buscando nas lembranças uma felicidade.

A gente busca naquilo que passou.

Passou está passado.

De que adianta revirar no passado?

Somos anacrônicos,

Assim é a natureza humana.

Quando voltava a minha casa para visitar meus pais,

Saia em busca de memórias, coisa que não existe mais.

Ia buscar materialidade, ia buscar evidências de minhas memórias

Voltando aos meus lugares primeiros, 

Casas velhas de nossos avós.

Com tantas histórias vividas, alegres ou sofridas.

O tempo não cansa e tudo alcança.

Na moto azul, 1997 montava e na garupa papai ia comigo.

Em busca de evidências de um passado perfeito e ideal.

A mente seleciona só o bom...

O lugar não pode opinar.

O lugar é ponto, é gatilho para uma memória.

Papai não gostava de ir a casa na Grugéuia e eu não entendia...

Agora entendo, quando vou a casa paterna e esta parece tão vazia.

Dá aquele nó na garganta...

O que era pequeno de repente fica grande...

Ir a este lugares gera angústia porque temos consciência que o tempo passou sem que a gente percebesse.

O tempo, sentido interno, não tem materialidade só é uma sucessão.

A matéria, parte daquilo que somos formados se consome, feito lenha na fornalha,

Se consome feito vela... E nem percebemos.

A gente é uma cópia daquilo que a gente conviveu,

Porque aprendeu sem perceber a ser como nossos pais foram,

Nossos pais que aprenderam com os nossos avós e com os pais deles...

A gente nem percebe como tudo mudou...

Voltar aquele lugar onde havia vida e trabalho e esperança e não encontrar nada.

É se deparar com a realidade dura da vida.

E nosso cérebro aprendeu a se iludir com a vida...

Será se não é mais feliz aquele que morreu na sua ilusão.

Essa mania de passado, 

Vai extratando nos dissecando, exaurindo nossas forças lentamente.

Essa carne que vai amolecendo,

Vai se engordurando, e secando...

Vil realidade.

Calma!

Em algum momento, algum parente meu muito distante 

Aprendeu a rezar...

Aprendeu que a fé salva a vida...

Salva a vida do medo da realidade.

Sábios livros de Salomão -  Eclesiastes e Provérbios -

Calmos de Davi...

Salve a fé de homens que creram até o fim como Jesus Cristo,

De homens que devotaram a vida a bomdade como Francisco de Assis,

Como Padre Cicero e frei Damião...

Este que a história marcou...

Mas nós a humanidade somos mais que isso...

Nós vamos além disso.

Na fé e na devoção...

Aprendi com mamãe e papai e meus avós, tios, primos e vizinhos.

E os amigos que a vida me deu.

Com o tempo todos vão indo,

E nossos laços se estreitam,

E a gente sente a dor até mesmo de quem nem gostava....

Porque entende que nossa hora está chegando...

Que o tempo é implacável.

Mais nada.


Água, cinza e sertão

 Na capoeira roçada,

Coivara foi queimada,

Após a neblina caída,

Ali canta o tetéu a vida,

Na cama ainda deitado,

Meu coração bate animado,

Com o ronco do trovão,

Meu peito pula de emoção,

E a promessa que há

É que tudo vai mudar,

As cinzas se apagam,

Natureza muda de cor,

Do chão nasce as sementes,

Dos ramos brota a rama,

Das nuvens água se derrama,

O cheiro da chuva aquece a alma...

A promessa da mudança,

Me envolve em esperança

E a vida vai bem mais um dia...

Com a chegada da alegria,

A chuva traz essa sintonia.

30/06/26

Notas do sujeito

 Um dia maravilhoso.

Acordei e orei.

Ouvi as aves cantar.

Levantei e tomei café.

Catei pinha.

Comi pinha madura no pé.

Me despedi dos meus amigos.

Me despedi da mata.

Choveu muito,

Choveu pouco.

Choveu.

Visitei meu tio Itamar.

Visitei a casa de vovô.

Vi que tinha goiaba china.

A noite já chegou.

E o dia se foi.

E junho se vai.

E as festas juninas se vão junto.

Passei na baixa

E lembrei que meu tio não pode mais explorar a baixa 

A idade chega e nem vemos.

Um dia eterno.

O verão

 O calor, A mata parada Sem um sopro de vento... O arrastado da enxada, O canto das patativas, A sensação de incomodo, O desejo de  relaxame...

Gogh

Gogh