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08/07/26

Podoi

 Certo dia, ali onde a serra se inclina.

Onde o barro vira pó,

Onde as pedras são cor de vinho.

Sobre aquele barro uma semente caiu.

Era uma semente preta e grande.

Ninguém viu.

Isso se passou no final do inverno.

Por longos meses a semente dormiu ao relento.

Em Dezembro na festa de nossa senhora da Conceição choveu muito.


O povo que vinha do sertão, da serrinha grande passou pertinho da semente e nem viu.


A semente então se inchou e sua casca se rompeu.

Aquele embrião grande com cotilêdones grossos e rosados,

Alimentou aquele ser,

até que ela crescesse.

A planta foi crescendo oculta no verde do mato.

A planta virou árvore,

E o lugar ganhou seu nome.

A planta se chamava pau-de-óleo, mas passou a ser chamada de PODOI...

O Podoi virou um lugar,

Um ponto de encontro.

Todo mundo de Martins que não era da cidade conhecia o Podoi.

Eu que nasci em 79 conhecia muito bem.

Conhecer planta era uma coisa comum.

Todo mundo era agricultor e todo mundo ali naquele lugar sabia o nome das plantas.

Por isso, sabia onde se estava porque o nome do lugar era o nome das plantas.

Bom os leitores, meus leitores, a quem faço referências estão vivos.

Se disser para eles que temos tínhamos em Martins as cajazeiras... vão dizer depois da Água-de-maroca.

Pois bem....

Sob o Podoi, muitas coisas aconteceram.

As pessoas usavam sua sombra para esperar seus companheiros para descer a serra. 

Indo para a Pintada, Morcego, Sossego, Serrinha Grande, Serrinha do Canto, Grugeia, Sampaio, Lajes, Boa Vista, Porção, Sítio de Fora...

Todo muno passava por este gargalo. A noite deveria ser assustadora aquela árvore...

Será se prestaram atenção nas suas flores, nas suas sementes?

Contavam que antes as pessoas eram enterradas em redes.

Depois de subida a ladeira paravam ali para descansar...

O podoi viu muita gente sub sua sombra, gente morta em redes fracas.

Gente viva.

O podoi vi as mamães subindo para parir na maternidade e descer com seus bebezinhos.

De dia e a noite, registrava tudo que ali passava. 

Vitória de José Fernandes, Manuel Barreto, Marcos Fernandes.

Viu os carros de Serrinha subirem cheio de gente doente.

E nos fins de ano, as pessoas virem ver as festas de fim de ano.

Chinela, pé empoeirado... Papai passou ali, meus tios e tias.

Por ali viu minhas tias e tios indo se casar e voltarem casada.

Ontem crianças, hoje idosas.

O tempo contou também a vida do podoi.

Ele foi morto.

Queimado... sem o mínimo de respeito.

Acabou-se.

Acabou-se.

E esse texto, não tem serventia alguma...

Não terá por falta de materialidade, por falta de testemunho.

Tudo que falei é verdade. 

Ninguém vai julgar ser verdade, mas minha família os Teixeira e os Queiroz...

Os troncos familiares, sabem que falo a verdade.

Lugar é um lugar.

Lugar é infinito e eterno.

A história é humana...

E isso é uma gota caída no oceano da história humana.




07/07/26

Tempo implacável, evidências e consciência

 O tempo não para,

O tempo é implacável.

A gente se ilude buscando nas lembranças uma felicidade.

A gente busca naquilo que passou.

Passou está passado.

De que adianta revirar no passado?

Somos anacrônicos,

Assim é a natureza humana.

Quando voltava a minha casa para visitar meus pais,

Saia em busca de memórias, coisa que não existe mais.

Ia buscar materialidade, ia buscar evidências de minhas memórias

Voltando aos meus lugares primeiros, 

Casas velhas de nossos avós.

Com tantas histórias vividas, alegres ou sofridas.

O tempo não cansa e tudo alcança.

Na moto azul, 1997 montava e na garupa papai ia comigo.

Em busca de evidências de um passado perfeito e ideal.

A mente seleciona só o bom...

O lugar não pode opinar.

O lugar é ponto, é gatilho para uma memória.

Papai não gostava de ir a casa na Grugéuia e eu não entendia...

Agora entendo, quando vou a casa paterna e esta parece tão vazia.

Dá aquele nó na garganta...

O que era pequeno de repente fica grande...

Ir a este lugares gera angústia porque temos consciência que o tempo passou sem que a gente percebesse.

O tempo, sentido interno, não tem materialidade só é uma sucessão.

A matéria, parte daquilo que somos formados se consome, feito lenha na fornalha,

Se consome feito vela... E nem percebemos.

A gente é uma cópia daquilo que a gente conviveu,

Porque aprendeu sem perceber a ser como nossos pais foram,

Nossos pais que aprenderam com os nossos avós e com os pais deles...

A gente nem percebe como tudo mudou...

Voltar aquele lugar onde havia vida e trabalho e esperança e não encontrar nada.

É se deparar com a realidade dura da vida.

E nosso cérebro aprendeu a se iludir com a vida...

Será se não é mais feliz aquele que morreu na sua ilusão.

Essa mania de passado, 

Vai extratando nos dissecando, exaurindo nossas forças lentamente.

Essa carne que vai amolecendo,

Vai se engordurando, e secando...

Vil realidade.

Calma!

Em algum momento, algum parente meu muito distante 

Aprendeu a rezar...

Aprendeu que a fé salva a vida...

Salva a vida do medo da realidade.

Sábios livros de Salomão -  Eclesiastes e Provérbios -

Calmos de Davi...

Salve a fé de homens que creram até o fim como Jesus Cristo,

De homens que devotaram a vida a bomdade como Francisco de Assis,

Como Padre Cicero e frei Damião...

Este que a história marcou...

Mas nós a humanidade somos mais que isso...

Nós vamos além disso.

Na fé e na devoção...

Aprendi com mamãe e papai e meus avós, tios, primos e vizinhos.

E os amigos que a vida me deu.

Com o tempo todos vão indo,

E nossos laços se estreitam,

E a gente sente a dor até mesmo de quem nem gostava....

Porque entende que nossa hora está chegando...

Que o tempo é implacável.

Mais nada.


Água, cinza e sertão

 Na capoeira roçada,

Coivara foi queimada,

Após a neblina caída,

Ali canta o tetéu a vida,

Na cama ainda deitado,

Meu coração bate animado,

Com o ronco do trovão,

Meu peito pula de emoção,

E a promessa que há

É que tudo vai mudar,

As cinzas se apagam,

Natureza muda de cor,

Do chão nasce as sementes,

Dos ramos brota a rama,

Das nuvens água se derrama,

O cheiro da chuva aquece a alma...

A promessa da mudança,

Me envolve em esperança

E a vida vai bem mais um dia...

Com a chegada da alegria,

A chuva traz essa sintonia.

30/06/26

Notas do sujeito

 Um dia maravilhoso.

Acordei e orei.

Ouvi as aves cantar.

Levantei e tomei café.

Catei pinha.

Comi pinha madura no pé.

Me despedi dos meus amigos.

Me despedi da mata.

Choveu muito,

Choveu pouco.

Choveu.

Visitei meu tio Itamar.

Visitei a casa de vovô.

Vi que tinha goiaba china.

A noite já chegou.

E o dia se foi.

E junho se vai.

E as festas juninas se vão junto.

Passei na baixa

E lembrei que meu tio não pode mais explorar a baixa 

A idade chega e nem vemos.

Um dia eterno.

Semana junina

 Nesta manhã cedinha,

O sol nem apareceu,

Após a noite chuvosa

O céu nublado 

Alonga a noite.

O galo de campina 

Canta em todo lugar e seu canto magistral 

É tão belo

É belíssimo.

Os pacuns passam voando e

Grosnando.

Bem-ti-vis cantam e respondem.

Sob a coberta

Ouço tudo, penso e processo,

Minha alma está tão contente neste momento.

Lembro do tempo que não volta mais.

No mesmo lugar que mamãe dormia,

Deito e penso nela.

Mamãe amada.

Logo cedo um canto de ouro cantou na soca

De catolé...

Senti mamãe 

Já que muito ela

Admirava seu canto encantado 

Naquelas folhas copadas.

Também me veio a mente o que pensei ontem.

Ao fazer fotos das Jitiranas dei por mim

Que cada ano é diferente a beleza das floradas...

Quão passageiros são os dias.

Aqui sempre foi assim belo.

Um dia vim bebê,

Um dia descobri o mundo aqui,

Um dia quis conhecer o mundo fora daqui.

Conheci e hoje

O melhor mundo está aqui.

E a manhã vai crescendo...

Eterna noite de São João

 O rito,

Fogueira feita,

Fogueira acesa.

O forró tocando,

A noite chegou.

Fogos, estouro e cores.

Vizinhos felizes.

O milho cozido,

O milho produzido,

Canjica, pamonha, broa...

Viva o São João!

Viva nossa Senhora.

Anunciação...

E a gente vive 

Tudo novamente

Renovando as esperanças...

Revivendo a infância.

O descompasso 

Do tempo e da existência.

A infância a inconsciência.

Viva a fogueira,

O fogo e sua luz...

Viva São João.

Dia de São João

 A bela alvorada 

Teve o canto da passarada.

Amanheci feliz.

Tão fresca a manhã.

Tão pleno dia.

Hoje é noite de São João.

Hoje é noite de São João.

A noite mais feliz do ano,

Tem fogueira,

Tem fogos,

Tem comida de milho.

Tem família reunida...

Viva a vida,

Viva a fé,

Viva o amor,

Viva Cristo,

Viva são João...

Cantou o galo de campina,

Cantou a rixinó...

Vivos vivemos contentes 

Contando contos,

Contando os dias,

Contando as coisas.

Tchau passado,

Excelente presente.

Hoje a fogueira 

Clareara acendendo a imaginação,

De um futuro iminente.

Tudo no peito 

Tudo na mente...

Nada mais

22/06/26

Eu caburé

 Acordei de madrugada,

O silêncio imperava.

Um caburé deu início uma toada,

No escuro este cantava.


O Caburé nem imaginava 

Que de longe eu escutava.

Na rede eu deitado,

No ramo ele pousado...

Ele cantava e silenciava,

Eu aqui imaginava...

Eu sabia que ele existia,

Ele por mim não nem sonhava..

A minha existência,

Nossa existência 

Num mesmo lugar.

Eu aqui e ele lá.

Ele cantou e eu ouvi.

Cantava para outro escutar,

Cantava pra demarcar,

Cantava para atrair,

Cantava por que existia...

O caburé que foi ovo,

O caburé num ninho gerado,

O caburé que foi cuidado,

O caburé aprendeu a voar,

O caburé aprendeu a caçar,

O caburé aprendeu a cantar na noite.


O caburé conhece a lua, mas não sabe falar lua,

O caburé canta pra lua...

Caburé...


Vim conhecer o caburé a pouco tempo.


Conhecia a palavra caburé.


Ouvia papai dizer que vovó falava olhe o caburé de orelha,

Mas nem dava por ele.

Então um dia o vi 

E não sabia quem era.

Sabia que era uma coruja e só.


Seus olhos grandes,

Sua pena rajada,

Seu bico curvado,

Seus dois dedos pra frente e dois para trás.


Um dia ouvi seu canto 

E foi aquele espanto,


Pois pra minha surpresa,

Conhecia aquela beleza

Aquele canto 

Já ouvira tanto

Mas não sabia de quem era...


Era o caburé 

Cantando no tempo 

Ecoando em minha mente...


No tempo compassado,

No presente 

E no passado.


Memórias da alma.


E nessa madrugada 

Ouvi um cantar

Era você caburé...


Eu que fui tantos,

Tonto, voltei a ser quem fui...

No dia que primeiro te ouvi

Caburé.

Interior e tradições

 Aqui na minha terra natal

Meu corpo é feliz.

Ele entende a natureza,

Pois se sente também natureza.

Aqui não precisa pensar 

Ele sente a existência.

Ele entende a natureza

A natureza é sentimento.

Fica encantado pois as aves despertam o dia.

As aves cantam para o sol despertar.

E quando o sol desperta toda a natureza desperta.

O frio e a sombra da noite se dissolvem na luz,

As flores desabrocham sorrindo,

As flores colorem e perfumam as matas,

Os calumbis e as jitiranas e os espinheiros bordam coxas de flores cobrindo a mata... São coxas alvas, azuis, rosadas e amareladas.

O vento quando sopra é frio e perfumado...

Nos roçados o milho seco e marrom é preenchido por fava 

De folhas triangulares, e flores alvas,

As jitaranas bordam folhas cordadas...

Sob a cajaraneira doces esferas amareladas exalam um cheiro acredoce tão perfumado...

Na baixa o arroz de verde fica marrom e chia quando o vento passa.

Sanhaçu canta feliz no talo da pinha madura alva como pipoca e doce sem igual.

Aqui minha alma é plena.

Aqui meu corpo é pleno e minha alma é serena.

E entendo que quando tudo está tão lindo e pleno o vento sopra trazendo a mudança,

Abelhas entendem isso pois guardam o mel no favo,

As formigas em seu ninho.

O cururu fica gordinho,

Arribação em nuvens se enxamam

Põe seus ovos e tem filhotes para logo viajar.

A vegetação fica amarelada,

Guarda tudo que produziu no caule e na raiz,

A vida vai se  ocultando,

A natureza se transformando...

Eu entendo isso tudo intuitivamente...

A fogueira do são João é uma luz de esperança.

A fogueira do São João e os fogos que explodimos é uma forma de agradecer 

E pedir pelo ano que virá.


A fogueira é uma chama que consome a madeira e dela sai a luz e o calor... Contém em se alegria e dor...


Queima fogueira tudo que for de ruim.


Ilumina o que for de bom em mim e queima o que for de ruim.


Um pai nosso e as ave Marias...

O forro, a roupa de chita.


Logo virá provação.


A cinza da fogueira mudará a estação e com a própria essência tingirá com sua essência toda a natureza 

Que suportará viva

Até o ano novo, até as novas chuvas e o novo recomeço.


Meu corpo entende tudo isso aqui na minha terra natal e minha alma responde com amém.

Casa velha casa

 À tarde,

Cheguei à minha velha casa.

Senti intensa a saudade no peito.

O céu estava azul com frouxas nuvens.

A rama verde da mata, enfeitando compondo uma face das árvores.

A rama florida da Jitirana com flores rosadas e alvas.

A folha vinho enfeitando os cajueiros...

O silêncio que o tempo impôs.

Sem a voz de vovó,  de papai e de mamãe.

O tilinidar dos grilos,

O grasnar do galo de campina.

O chão encontrado.

As vincas alvas e rosas de meu pai,

O jasmim de minha mãe.

O araçá com frutas maduras, doce-amarelado.

Os catolés que transplantei com meu pai.

As palmas do meu pai.

A açucena da minha mãe.

Esse lugar que sempre foi o que é, antes, agora e será depois de mim.

Tomo consciência que sou apenas consciência.

Autoconsciência...

Essa ideia é só minha.

Essa ideia é nossa.

Essa ideia se esfacelará no tempo tomando a proporção de um sonho.

Uma narração onírica...


Paro o texto...

Pausa...


Um anum gritou ao longe... Anum branco.

Pacuns passam voando, vejo no seu grasnido.

Um anum preto canta na rama do poente.

Um pendão de capim parece um fogo de artifício.

A lua crescente está no cimo da casa.

Na cajarana grosna um periquito.

Um bate-estaca aparece tziuu.

Dissolvo tudo apurando 

Os sentidos

E me desfaço dos sentimentos negativos.

A vida que segue.

Venha o São João.

19/06/26

Canjica e memória

O mês é junho, o ano 2026.

O lugar João pessoa.

 Ontem à noite,

Estava no shop, onde vi numa quitanda canjica para vender.

Aquela canjica amarelinha com pó perfumado de doce de canela.

Comprei um copinho.

Na primeira colherada minha memória foi longe no tempo.

Senti o gosto da casa paterna,

Deu para ver a nossa cozinha amarela,

Deu para ouvir a nossa voz conversando.

Deu para sentir o gosto da canjica com leite gelado.

A ordem com que comíamos,

Sendo a canjica primeiro

Na sequência a pamonha.

Vivi sensações vividas,

Percebi a distância que separa aquele tempo

No espaço e no tempo.

Percebi que tudo passou,

Cada um sua vida tomou.

Nem imaginava nada disso quando comia canjica

Naquela cozinha de telhas fumegadas,

Só sentia o doce do açúcar,

Só sentia a textura do leite do milho cozido.

Eu achava que aquele tempo era eterno.

Hoje, no alto do futuro e no raso do presente,

No profundo passado.

Uma simples colher de canjica,

Dá chão a quem fui,

E me faz despertar quem eu sou.

Quanto tempo se passou...

Quanto tempo ainda a divindade me dará.

Não importa.

Prova Vinícius, prova meu filho, prova mamãe de Vinicius.

Prova que essa canjica tem história minha

Que quero compartilhar como compartilho a canjica.

15/06/26

O riacho

 No terreno de papai,

Corria um riacho,

Corre, corre, corre riacho.

Água azul leitosa,

De manhã tão friazinha.

O riacho era perfumado

De flores rosas de mimosa,

De flores roxas de mucunã.

Corria para lá para birncar.

Fazia uma parece...

Mexia no barro molhado,

Construía o meu açude.

Via na água leitosa

A beleza mineral.

O silêncio da mata,

Assanhada pelo vento...

Tudo ficou para trás.

Tudo ficou para trás.

O mato fechou tudo.

Mato fechado.

Tudo ficou para trás.

Minha infância,

Meus sonhos,

O leito do riacho está lá.

E na minha mente.


Era tão bom,

Depois me banhar na água,

Ouvir mamãe gritar,

E saia correndo,

Com fome...

Chegava em casa

E comia feijão verde.

E a vida era mais linda do mundo.

Um canto de memórias

 Ouvindo o som da rixinó.

Posso sentir o tempo em minha existência.

Tudo começa na nossa casa velha...

Bem menino vi pela primeira vez uma rixinó fazer um ninho.

O ninho ficava na soleira da casa velha vizinha a nossa.

Quantas vezes ela não fez um ninho ali.

Nem mexiámos.

Era um animal sagrado.

Cantava durante todo o inverno.

Depois que seus filhotes cresciam iam embora,

Agora só no próximo inverno...

Foram tantas vezes.

Hoje estou muito distante de casa.

Quando ouço seu canto.

Sinto bem.

Sinto que estou em casa.



12/06/26

Lua

Voltei meu olhar para o céu noturno.
Ontem estava nublado e não vi nada.
Anteontem vi Vênus e Júpiter,
Enquanto nasciam no poente.
Hoje de madrugada vi a lua.
A lua está crescente.
Pensei como pode a gente passa a vida vendo a lua
E mesmo assim se admira todas as vezes que mira nela.
Olhar para lua parece ser atemporal,
Olhar para lua parece ser transpacial.
Olhar para lua deve ser universal.

A gente se encantou com a lua,
A gente cantou para a lua,
A gente se encanta com a lua,
Sempre!
Desde a primeira vez que tive consciência de lua.
Nem me lembro mais, mas sei que foi lá na casinha onde vivi minha infância.
Lá descobri a noite e com ela a lua...
A sombra ascendeu meus medos.
A lua era um claro que embelezava a noite.
A lua amenizava o escuro,
Não revelava,
Mas clareava...
Lua esse espelho do sol.
Essa poesia pronta.
Só isso.

10/06/26

Manto divino

 Após as chuvas de maio

Quanto os campos ficam coberto de flores,

Quando o milho secou a palha

E o feijão de corda se enrola 

No colmo do milho. 

As flores de feijão passam a enfeitar os pés de milho.

É a hora de dobrar o milharal.

É logo nas primeiras chuvas de junho,

Um espetáculo acontece.

Os freijós ficam floridos,

Parecem se cobrirem com um manto alvo divino.

Um manto perfumado e alvo.

Flores estrelas,

Estrelas flores.

Os dias frios floridos,

Os dias frios estrelados de alvo,

A noite o céu é uma coxa negra de algodão,

Estrelada...

A existência é tão plena e infinita.

Chegamos a sentir a eternidade,

Chegamos a sentirmos a divindade.

O espetáculo do freijó.

Nos sítios e nas matas.

Chega parecer poesia.

E a vida expressa que vale a pena ser vivida.


Freijó ou linharé - Cordiaceae - Cordia trichotoma.

Na intimidade com o divino.

 A tarde caia deixando a barra acesa por um bom tempo.

Depois o céu limpo, ficava quarado de estrelas.

Mas vênus era a primeira a aparecer,

Selando a união do dia com a noite.

Eu, sem entender do mundo, 

Eu, sem entender de mim

Via tudo com  tanta ternura...

Contemplava a imensidão do mundo,

Pois diante do firmamento me sentia uma formiga.

O céu pleno, escuro peneirado de estrela.

O céu pleno tingido de estrelas

Vivas estrelas pulsantes.

Tamanha beleza me abraçava,

Sentia a transcendência da minha existência.

Mamãe, Papai e minhas irmãs estavam em casa

Preparando o jantar, tomando banho...

Enquanto a noite dissolvia a luz.

As vacas no pequeno curral cominam

Restos de palha,

Só se ouvia o tilinitar do chocalho.


Só de bermuda, pés empoeirado, 

Sandálias velhas...

Sentia a intimidade do mundo.

Mudas as árvores me faziam companhia.

A terra esfriando da luz do dia.

Eu, pleno eu.

Estava seguro.

Me sentia seguro...

Nem pensava em nada.

Só contemplava o anoitecer,

O céu estrelado.

E você?


09/06/26

O eu, a tarde e o mato

À tarde,

Andando na mata sob o sol e o calor.

O chiado da folha seca.

Árvores com ramos nus e cinzentos.

Na beira do açude 

As abelhas e aves matam sua sede.

O zunido do vôo das abelhas.

Aves cantando.

O cheiro da água misturada com barro.

O céu azul e sol ardendo.

As pedras quentes,

Preás espojando nas veredas.

A gente se sente um com a natureza.

Sensação de plenitude.

E o tempo passa.

E o tempo para.

O cancão pia.

O vento sopra assanhando o espelho da água.

Neste instante somos eternos.

É tão bom tudo isso.

08/06/26

Prima percepção

 Na terra seca das vertentes dorme a vegetação,

O marmeleiro e a catingueira,

O Xique-Xique e o facheiro 

Armados da base ao alto.

Bem ali no mufumbo ouço um trinado.

Ouço um corrochiado.

Imediatamente fico encantado.

É o canto de um golinho.

E levarei para sempre em minha alma.

Essa beleza sonora.

Aprendi de imediato o nome deste passarinho.

Seu ser,

Sua forma,

Suas cores,

Seu canto e seu espírito que passou a ser parte de mim.

03/06/26

Retrato do sertão

 Na terra seca das Vertentes 

Profundamente dorme a vegetação  

No período seco do verão,

Ali sopra o vento contente.

Do chão se assanha a poeira,

Da mata faz soar um doce cantar,


As tardes tão encarnadas,

As manhãs todas douradas,

De dia o sol arde intensamente,

Canta a cigarra alegremente.


Na manta cinzenta maiado o gado,

Rumina, respira e calorosamente.

Relaxando, sentindo o mundo.


Ali naquela pequena matinha 

Se ver catingueira e marmeleiro,

Destiorados e desfolhados,

Vê-se ainda bem ali, junto aquele lajedo

O Xique-Xique e o facheiro,

Carregando o verde esperança 

Armados da base ao alto.

Ali, bem no mufumbo ouvi um trinado.

O mais lindo corrochiado.

Imediatamente fiquei encantado.

Era o canto de um golinho.

E trouxe para sempre aprisionado em minha mente,

Faz parte de minha alma.

Essa beleza sonora.

Aprendi de imediato o nome deste passarinho.

Seu ser,

Sua forma,

Suas cores,

Seu canto e seu espírito que passou a ser parte de mim.

Seu bico amarelinho,

Seu papinho bem alvinho,

Com uma gola escurinha,

Costas bem cinzentinha.

Senti a beleza...

Em tudo, nas vertentes,

Na mata e nas plantas,

E no golinho cantando lindamente.

02/06/26

Noite enluarada

 Antes podia desfrutar às noites de lua cheia em família. Papai, mamãe e meus cinco irmãos.

Eu olhava para o céu com um olhar ingênuo. Era todo esperança, amor e instinto.

Após nossa farta janta de Xerém com leite. De bucho cheio, um pouco de leite gelado refrescava nossa alma.

A gente se sentava à frente de casa. 

Contentes e unidos.

E assim a vida foi tecendo nossas histórias. A gente era tão feliz e aquilo era tão pleno.

A lua prateada,

Coração pulsando forte.

Vitalidade de leite com Xerém.

As vezes rezava baixinho.

A lua cheia enchia o mundo de sua luz prateada.

Hoje, agora, eu olho pra lua só e longe de meus irmãos.

A lua se tornou o ser mais próximo e amigo de minha existência a noite.

Papai e mamãe se uniram a Maria e a lua. São só essência agora.

Olho pra lua como olhei naquele tempo. Sabe estava morando o hoje... Diz um ditado persa que a lua é um espelho do tempo... Então ao olhar a lua vejo todas as minhas gerações.

Agora olho para a lua e sinto que aquele tempo está eternamente em mim.


E a lua continuará a nós encantar...

Somos percepção,

Somos intuição,

Somos humanos 

E a lua é a testemunha de toda nossa história.

Até agora.

Cinema

 Ontem fomos ao cinema. Sassá adorou entrar no banheiro e encontrar um mictório infantil e pia para criança. Depois entramos entramos na sal...

Gogh

Gogh