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02/06/26

Noite enluarada

 Antes podia desfrutar às noites de lua cheia em família. Papai, mamãe e meus cinco irmãos.

Eu olhava para o céu com um olhar ingênuo. Era todo esperança, amor e instinto.

Após nossa farta janta de Xerém com leite. De bucho cheio, um pouco de leite gelado refrescava nossa alma.

A gente se sentava à frente de casa. 

Contentes e unidos.

E assim a vida foi tecendo nossas histórias. A gente era tão feliz e aquilo era tão pleno.

A lua prateada,

Coração pulsando forte.

Vitalidade de leite com Xerém.

As vezes rezava baixinho.

A lua cheia enchia o mundo de sua luz prateada.

Hoje, agora, eu olho pra lua só e longe de meus irmãos.

A lua se tornou o ser mais próximo e amigo de minha existência a noite.

Papai e mamãe se uniram a Maria e a lua. São só essência agora.

Olho pra lua como olhei naquele tempo. Sabe estava morando o hoje... Diz um ditado persa que a lua é um espelho do tempo... Então ao olhar a lua vejo todas as minhas gerações.

Agora olho para a lua e sinto que aquele tempo está eternamente em mim.


E a lua continuará a nós encantar...

Somos percepção,

Somos intuição,

Somos humanos 

E a lua é a testemunha de toda nossa história.

Até agora.

29/05/26

Sonhei ta sonhado

 Dei um mergulho no passado.

Sai andando na nossa terra Serrinha do Canto.

Fui visitar nosso sítio de areias brancas.

Vi os cajueiros em cima das ramas,

e cobertos de Jitirana,

De ramas pilosas e flores alvinhas.

Vi as pinheiras carregadas de pinhas

Cada uma enchendo uma mão, de vez e maduras.

Tão alvinha e docinha.

Nas pinheiras ativos os sanhaçus,

Setas azuis buscando o doce branco  

Revelando as sementes pretas,

Visitei as goiabeiras,

As cajaraneiras com cajaranas

para todo lado, nos ramos dependurado,

no chão entapetado, de esferas amarelas,

E seu cheiro acre-doce, tão docinhas.

Passei na cajazeira.

Andei pelos caminhos caçando calango, os teiús

E não estava sozinho, 

Vinha comigo os cachorros leão vermelho,

dogue branco e negão Pretão.

Observava os passarinhos cantando e saltitando

cabeça-vermelho, corró, joao-de-barro,

Casaca-de-couro e azulão.

Fui na casa de Elita de Palmira chupar umbu e cajarana

E acabei quebrando uns cocos-catolés...

Ali tinha tanta macaxeira, cultivada por Joãozinho de Licor.

Tinha ali uma casa velha e abandonada,

Tantas cenas ali se passou... No fim só era lugar de colocar forragem seca e ninho de abelha caboquinha

Com uma frase marcante...

"Viva e deixe eu viver".

Fui ao tanque de Chico Neco, onde vi o tanque de águas escuras

E nele martelilhos (girinos) a nadar .

Fui ao córrego de Zezinho de Luiz de águas claras com piaba e cará.

Fui ao açude de Juvenal onde aprendi a nadar

Tinha água barrenta à danar.

Fui a pitombeira de Bonifácio Raulino

Onde chupei doces pitombas.

Fui a condessa de Adelson Vieira só para admirar.

Fui casa de tio Jussieu ver o peru valente, a porta estava aberta

Acabara de chegar, um gato novo miou pedindo comida,

Senti o cheiro do óleo queimado do motor.

 Fiquei com medo quando passei em frente a Zé de Julho com aquele cachorro quatro olhos.

Ouvi dali o som 3 em um de Jailton de dadá, vindo da capital paulista. 

Passei na palhoça de Chicão onde vi Jailton de Artur partir e não voltar de São Paulo.

Desci passei na velha escola onde fui alfabetizado.

Achei interessante a casa de Antônio de Chiquinho com um xadrez na frente. 

Até conversei com Evaldo.

Desci peguei um dindin em Zuleide, passei na cajaraneira de dona Munda, 

Sentei um pouco lá em Diniz.

Passei em Irelda tão educada e doce, provei umas groselhas tão azedas que havia lá.

Ouvi a escopadeira de arroz funcionando 

Não lembro se era Vava ou Mourão 

Que estava lá.

Passei longe do jasmim de Eliza de Vicente de Joana.

Jasmim manga com cheiro de defunto.

Subi pela mata até o final de nossa terra.

Quando fui chegando ouvi o tirinete de tio Aldo conversando.

Mamãe concordando e papai escutando.

Nessa hora tio João ia passando.

Despertei e voltei cheio de saudades.

E entendi que a realidade é como se fosse o sonho 

E o sonho como se fosse uma realidade.

Tudo é passageiro.

Essas coisas.

27/05/26

Ficus elastica

 Quando era menino, a primeira vez com papai a casa de seu Eusébio, onde morava tio Míxico foi muito marcante. E você nem imagina o que marcou. Foram duas coisas. Primeiro numa área na lateral da calçada tinha uma estrutura de cano de ferro no formato de avião. Aquilo me impressionou, pois só tinha visto um modelo de avião nos ares do céu. Em Martins tinha um pastor que tinha um avião, então vez por outra a gente podia vê-lo sobrevoando a Serrinha Grande. A outra coisa foi uma árvore enorme com as pontas do ramo lanciforme e intensamente vermelha. Fiquei impressionado com o tamanho da folha e aquela estrutura. Nunca me esqueci. Muito tempo depois foi que descobri que aquela estrutura era uma estípula terminal de uma planta da família da jaca (Moraceae). Tratava-se de uma espécie exótica de Ficus elastica. Demorou muito até eu ver outra planta parecida. Acho que fui ver em São Paulo. Ficou marcado e está registrado.

26/05/26

Goiabas

 Sempre adorei comer goiaba, principalmente no pé.

Goiabas amarelas por fora e vermelha por dentro.

Na minha infância lá em casa havia muitas goiabeiras. 

Algumas ficavam sob cajueiros outras isoladas no sítio.

Nossas goiabeiras davam goiabas sadias, sem bicho ou insetos e muito doces.

Tive uma experiência diferente com goiabeiras e goiabas.

Então lembro que foi na casa da minha avó Sinhá onde primeiro vi goiabas brancas.

Como assim goiabas brancas e não vermelhas!? Pensei.

Como pode.

Mamãe disse que era goiaba da china.

Aquelas goiabas brancas tinham muito bicho e não eram tão docinhas.

Fiquei muito impressionado.

Bateu aquela sensação que as nossas goiabas eram melhores.

Nunca mais esqueci.

Na casa da vovó tudo tinha uma atmosfera de velho.

Não entendia o sentimento de mamãe pelos meus avós.

Mamãe era minha e de meus irmãos...

Não tive a oportunidade de levar meu filho para ir a casa dos avós idosos.

O infante é assim, apaixonado pelo universo que conhece.

20/05/26

Plantar

 Papai trabalhava como sabia de maneira simples e eficaz. Para as cercas de arame usa madeira de cajaraneira que logo enraizava e uma árvore nova nascia. Deixou várias árvores plantadas. Estas árvores são mourões, fazem sombra e dão frutos. Papai e eu combinávamos e deixávamos as árvores crescerem. Aprendi o amor a natureza com meu pai.

19/05/26

Ecos na concha do tempo

 Serrinha minha terrinha,

De onde de hoje e sempre.

Ontem podia ouvir,

O eco das bombas e foguetões,

Ecoando nos grotões,

No pé da chapada,

Sons avisando viva...

Viva ao santo do dia.

Eram meus parentes,

Felizes e contentes,

Com uma promessa atendida,

Coisas lindas da vida.


Eu menino ouvia na mata

Esse ribumbar e ficava maravilhado,

O que era aquilo...

Era a fé sendo externada.


Naquele universo tentava entender o mundo,

Tentava saber quem sou...

Eu tinha tudo,

Eu tinha quem me amava,

Tinha quem cuidava de mim...


Ontem...


Hoje, já não ouço mais bombas,

Nem ecos...

O mundo perdeu a magia de infante.

Os mistérios a ciência revelou,

A vida revelou o resto.

Restou apenas a fé.

E é o suficiente.

18/05/26

Casaca de couro

 A tarde vai caindo,

O sol saindo do prumo,

O calor arde na paisagem.

No alto do cajueiro,

Canta a construtora casaca de couro.

Construindo o seu ninho,

Usando galhos com espinhos.

Canta emparelhado,

Feito contadores de viola,

Com o penacho armado.

Se olhinho amarelado,

Com olhar mal encarado,

Canta e dança..

Voa e traz os gravetos e tece com o bico

Um ninho.

Papai escuta e admira.

Papai diz que canto lindo.

Concordo com a palavra e o coração.

E a tarde se enverga bela...

E me sinto feliz...

A seca, a tarde quente e o canto da ave vaqueira.

Mundo oco

Morei a minha infância e adolescência num sítio. Nele tinha uma parte que cultivávamos fruteiras e uma parte de plantas nativas onde fazíamos os roçados e colocávamos o gado para pastar. À tarde, após o almoço, descia para soltar as vacas do cercado e trazê-los para o curral. Ali no caminho, as vezes ouvia estrondos de bombas de festejos na Serrinha Grande. Era quando percebia que o mundo era oco. Havia algo transcendente que não assumimos quanto ser. Achava bonito e sentia ora alegria ora aflição. Não sei explicar. Eu sentia a falta de âncora da vida? Eu sentia a infinitude e a eternidade em que somos postos quando tomamos consciência. Naquela época, tinha minhas referências que originaram o meu eu; meus avós paternos e maternos, meus pais, meus irmãos e meus vizinhos. A consciência foi se expandindo e o tempo passando, então fui entendendo que a gente vive e ao viver só vai perdendo... Meus avós..., tios... e tudo vai acontecendo de forma natural. Eu já intuía que o mundo é oco. As bombas explodiam e eu ouvia... E sentia o mesmo que sinto hoje. Qual é o limite do som o que não é difícil fisicamente de se saber. Sentia um aperto no peito. Ali já sentia a transcendência da existência... Olhava o cinzento das catingueiras, o gado magro, sentia o calor do sol na luz e nos entes no meu entorno... Sabe, parecia que eu sentia o que sinto hoje. A ausência de meus pais amados. Naquele tempo eu podia ao voltar pra casa sentir sua proteção e o seu carinho e o esforço para que nos sentíssemos bem. Sentia a potência do amor. Bem... Na certa era trabalho feito pelos fogueteiros e encomendados e explodidos pelos romeiros. A fé acenava no meu coração. O chão seco, o estalo dos frutos de catingueira. O mundo é oco e o que sou neste mundo tão profundo? No meu torrão, comendo cuzcuz eu entendi a dureza da vida... Eu não entendi o outro... Minha infância, será eternamente minha. Marcou profundamente quem sou. O eco das explosões.. Ora volto lá pra sentir meu pai e minha mãe. Sem eco, sem explosões. A mata, a seca o tempo. Todavia hoje tenho um motivo... Um motivo superior que é o meu inestimável e amado filho. Seguro a tocha da vida. Sabendo que o amor é o que manterá a vida viva e eterna. Naquele tempo parece que meu de hoje estava lá. E oras sinto que meu eu de ontem está aqui. Coisas que se sente sem explicar.


10/05/26

Notas da semente do amor

 A vida é uma dádiva.

Felizes os que vivem e conhecem a sabedoria,

Felizes aqueles que sente todas as fazes da vida,

Felizes os que chegam a ter cabelos brancos, abraçarem seus netos.

Estou rompendo a idade adulta.

E com Deus tudo fica mais suave. Os anos vêem me ensinando essas sabedorias.

Quando era menino! Ah, nesta época Deus me deu um lar, pais e irmãos.

Eu sabia que era amado pelos afagos de minha mãe, pelo carinho de meu pai, pelas amizades de meus irmãos.

O mundo refletia em mim bomdade...

Eu sentia felicidade com as coisas mais simples,

Corrida descalço na areia fria,

O cheiro da flor do caju indicando fartura,

O encontro com as frutas maduras no pé,

As goiabeiras, as pinheiras, as cirigueleiras, os coqueiros...

Papai a prover a casa com seu trabalho,

Mamãe na árdua tarefa de educar, de cuidar de cinco filhos...

Além de cuidar e se preocupar com meus avós Zé e Sinhá.

As galinhas no terreiro pondo ovos para mamãe vender e fazer uma arrumação,

Um chinelo, uma roupa para cada um...

O dinheiro era pouco, mas as necessidades também...

O importante é que nunca ficamos um dia sem ter o comer,

A comida era pouca, mas a natureza ajudava...

Aos poucos  vida vai se revelando dura... mas meus pais amenizavam com seu cuidado e amor...

A seca de 1993, me revelou a natureza da natureza de nosso lugar...

Bichos morrendo, água reduzida...

Bem antes, em 1986 as coisas ficaram tão difíceis que as pessoas não podiam comprar café...

E a criatividade imperou, café de milho, café de canavalia...

Mas papai não deixava faltar o café que eu gostava...

Papai não tinha medo de trabalhar, tinha confiança comprava em Chico de Pocídio.

Vendia as castanhas a Ítalo de Sales.

Entendíamos tudo, pois ouvíamos papai com mamãe conversar.

Nossa casa baixa de paredes vazadas...

A noite na cama eles conversavam parece que queriam nos ensinar e a gente escutava e entendia.

E veio as escolas, os colegas e as relações sociais... Aos poucos fui perdendo a ingenuidade,

Aos poucos fui perdendo a felicidade...

As chuvas de inverno...

Os verões secos e falta de água,

As plantas e os bichos ficando escasso...

A descoberta da morte...

A perda da ingenuidade me deram medo de viver.

Mas viver é preciso...

O velório de vovó Chico... 

Marcou muito em minha vida...

Papai chegou em casa num taxi chevete amarelo chegou em nossa casa numa tarde de chuva.

Ver papai chorando derreteu meu coração... Tive medo da morte. Fui ao seputamento...

Não vi nada. Lembro do cortejo, o carro de conduzir o corpo... o caixão azul de pano.

A dor cravada em meu coração...

Naquele cortejo vi pela primeira vez o açude de Serrinha grande, Vi uma canoa...

Tive profundo medo daquela que separa a vida.

São fazes da vida...

Depois veio a escola... Dona Livani...

Minha segunda professora Dona Lenita,

Minha terceira professora dona Ceição.

Serrinha do Canto,

Serrinha Grande...

O medo de professora Rivete que me ensinou ciências.

O carinho pelo professor Ledimar,

As histórias maravilhosas do professor Chaguinha...

A ciência enervada na educação foi dando cálcio ao meu entendimento...

As enfermidades de minha mãe pobre sempre com dores...

O coração mole de Rosângela minha irmã amada.

A partida de meu irmão que nunca mais voltou a morar conosco.

A falta de apetite de Lidiana.

O retorno pra casa de Meirinha...

Roberto chegando em nossa casa.

A família de Eliene que saio do lado de nossa casa.

Sua mãe dona Eunice tão humana e generosa... a primeira vez que tomei danone foi ela quem trouxe de Natal.

As idas com mamãe onde ela ia. 

Estávamos sempre juntos com um caldeirão de ovos indo para Martins.

Indo ao Sampaio, indo ao Sítio de Fora, indo a Alexandria...

A triste partida para a capital uma felicidade imensa e uma infelicidade...

Doeu saber que papai e mamãe choraram muito.

E tudo isso se passou em nossa casa geminada.

A casa e a casa velha...

E tudo aconteceu em Serrinha do Canto...

Ali foi o palco de minha infância.

Ali tive o primeiro alicerce para vida que levo no peito até hoje.

A fé católica, o novo testamento...

O esforço e suas recompensas

E a principal coisa o amor a família

O amor a vida que renasceu de forma abrasadora com o nascimento de meu filho.

Amém.


08/05/26

Encruzilhada

 Martins e serrinha dos Pintos hoje são municípios diferentes. Antes de 1993 Serrinha era um distrito de Martins e Serrinha do Canto pertencia a Martins, agora com a divisão parte de Serrinha do Canto pertence a Martins e a outra parte pertence a Serrinha dos Pintos. Serrinha do Canto Virou Bairro. Ali um povoado que existia e ainda existe é o chamado Parieiro.

O Parieiro era onde estava a primeira igreja de Serrinha do Canto a Igreja Batista. Ali existia e ainda existe uma bifuração, uma encruzilhada que seguindo pela direita chega ao Barro Vermelho, a Grugueia, ao Sampaio e a Serrinha Grande como era chamada a cidade antes; já seguindo pela esquerda ia para Serrinha do Canto, Vertentes e Serrinha Grande.

Naquela encruzilhada havia uma venda... uma budega. A bodega de Laércio Raulino. Sem dúvida ali, foi o palco de diversos acontecimentos importantes, pois era a única venda de Serrinha do Canto.   Lugares onde agrupam pessoas são palcos de diferentes eventos.

Na budega se davam vários encontros.

Tinham aqueles que vinha comprar mantimentos, aqueles que passavam para tomar uma cachaça, tinham aqueles que iam conversar com seu Laércio. 


Aparecer e perceber

 Uma vez lá na infância,

Quando morava em Serrinha do Canto,

Papai fez uma faxina para a hora,

Onde plantamos coentro e cebolinha.

Veio o inverno e do lado nasceu uma planta.

Não era qualquer planta era um pé de bucha.

Cresceu rápida e silenciosamente.

Cresceu e se pendurou nas varas da faxina.

Então daqueles ramos verdes

Uma flor grande e amarela apareceu...

E outra e outra... Ai vi pela primeira vez

Uma flor de bucha...

Depois vieram os frutos que usei para fazer bois e vacas.

Enchi meu curralzinho sob a pinheira de vacas.

Mamãe nem se incomodou.

Depois as buchas secaram.

O inverno se foi e usamos as buchas nos banhos.

Foi isso,

27/04/26

Milharal

 Andei no roçado,

O milho pendoado,

O cheiro da floração,

O milho viçoso...

Meu coração

Ficou bem apertado,

Saudade de meu agricultor,

Que de botas brancas

Me mostrava com orgulho,

O produto de seu trabalho...

Explicava cada momento,

Que trabalhava em silêncio...

Nosso encontro no roçado,

Era algo sagrado...

Quanto amor...

Entre nós...

E os milharais.

Meu pai,

Me ensinou a cultivar a vida.

Como sinto sua partida.

E o milharal, e a mata

E o inverno,

E nossa terra...

Nosso eterno laço.

Amaria te dar um abraço...

Mas, ai...

São só saudades.


16/04/26

Será um sonho

 No roçado, papai só queria planta milho, fava e feijão. 

Era mamãe que guardava as sementes de jerimum e melancia.

A gente semeava onde tia um buraco de uma planta grande queimada.

Se a chuva continuasse a fartura era garantida.


O gado mago, passava a comer rama.

O leite já era mais a vontade.

Tinha água pra beber e mato para comer o gado.


Nuvens de insetos apareciam.

Cururu não dava conta.

Cachorro corria feliz.

O gato ficava esperto em casa.


Dogue meu cachorro branco.

Era bom de pegar tejo.

Um vira-lata tão amado.

Até choramos quando ele se foi.


Comia pinha e coco.


Tudo isso terá sido um sonho?

As vezes me pergunto...


O que gerou tudo isso?

15/04/26

Sabe lá

 A gente se sente feliz, sem saber porque,

 basta ser sertanejo e ver que vai chover,

 E perceber que o inverno vai pegar. 

A gente se sente feliz sem saber.

 Chuva é sinal de água, de trabalho e de fartura... 

O sertanejo ama tudo isso e nem sabe donde veio esse amor. 

São neurônios especulares... É sua raiz de existência? 

Aprendeu que chuva é abundância... Chuva é esperança... 

Ouvir a bica bicando a gotejar,

 perceber na cara de quem a gente ama e respeita um sorrido dali brotar...

 uma oração a debulhar, um café a tomar. 

O clarão do relâmpago, na noite escura,

O estalido do trovão... 

Perceber que da cinza ergue verde,

do seco o molhado, do sol o nublado...

 Esperança... 

Deste peito de criança que cresce e nunca cresce, 

porque ama sua terra... 

E não entendo o crescer.

invernada pegada, 

feijão florido, milho pendoando, 

o cheiro da rama do marmeleiro,

 um porco feliz no chiqueiro,

 o cheiro da esperança...

Guardando a boa lembrança.

As noites escuras e molhadas 

a  revoada da insetada, cururus gordos, se fartando de bichos... 

A melancia partida na roça, 

o leite alvo levado na carroça,

 o carão cantando no banhado... 

Meu Deus quero morrer nordestino, sim esse é meu destino... 

E quando tudo passar, o corpo estiver velhinho

 e ainda assim ama e tem esperança na chuva, na bonança... 

Depois deitar e dormir neste chão... 

Esse é nosso lindo destino. Crescer de um menino... do alfa ao ômega.


Ao meu amigo sertanejo Silvano Araújo

14/04/26

Águas no sertão

 Depois que caia a chuva,

A coisa melhorava,

A terra bem molhada,

Despertava as sementes,


A mata logo acordava,

A passada cantava,

Era grande a alegria,

Tanajura aparecia,


Cururu do sono despertava,

Nos tanque fazia logo cantava...

A roupa suada ia ser lavada,

No tanque da imburana.


Ali morava o cardeiro,

Ali morava o xique-xique,

Ali minha alma era plena.


Já em maio havia a novena,

Feijão verde, maxixe e muito leite.

O tanque agora perfumado,

De flores de mucunã,

De flores de cerrador,

A mãe lavava com amor,

A roupa do trabalho suada,

Era bom de ver,

Girino com cauda e perna,

A água escorrendo no riacho,


Ah, meu Deus...

Quanta alegria,

O doce da cajarana,

Do milho assado no carvão,

Da alva pinha madura no pé,

Da amarela e velho doce goiaba...


A gente vivia plenamente,

Feliz muito mais que contente,

Por isso foram guardadas na memória...

Cantar a invernada...

Roxa, rosa, amarela flor...

Minha vida guarda amor,

Da terra, da água e do sol...

Porque o amor é a eterna inocência,

É não saber o que se ama.


Adeus tudo isso.

Foi maravilhoso enquanto durou.



07/04/26

Francisco Chagas Neto

 Ontem domingo de páscoa em Serrinha dos Pintos fui à missa e ao sepultamento do padre daquela terra Francisco das Chagas Neto.

A igreja estava repleta de gente. Durante a serimonia da missa choveu. 

Houve o cortejo fúnebre onde encontrei e cumprimentei meus amados professores e amigos.

Luiz Preá, Ledimar, Rivete, Berg, Glicério, Eudes.

Vânia, Herbenia e Francisco meu primo.

Fui ao túmulo de meus pais.

A noite caiu.

Padres cantando e um colega enterrando.

O bispo e Nil o coveiro.

O dia e a noite.

Os últimos Franciscos estão sendo enterrados.

Só sobrarão os evangelistas Lucas, Marcos e Mateus.


É o espírito do tempo.

29/03/26

Um novo amanhã

 No final do inverso uma área foi desmatada,

na seca a broca foi queimada,

Ficou cinzenta e ficou escura,

A cinza pelo vento foi levada.


Tanto suor, tanto esforço,

Acordado desde a madrugada,

Ao raia da barra vermelha,

A foice amolada, o maravalha queimada,

A água fervida, o café cozido,

No saco coado...

O cheiro preencheu a cozinha de taipa,

E acendeu na alva aquela desejo do doce cozido do acúcar...

A garrafa amarronzada de uso.


Um pensamento no trabalho,

É aceso na mente,

Como brasa acesa pelo vento que passa,

Um pensamento na vida...

Pensa nos filhos,

Pensa no gado,

Pensa no ano que começa,

Pensa na mãe...

Então as galinhas

aparecem animadas no terreiro,

O porco berra no chiqueiro,


O terreiro alvo de terra varrida,

O cheiro do marmeleiro,

O cheiro da catingueira,

A escura sombra do joaezeiro,

No branco campo no sul,

O peru estufa o peito e dá um glugluglu...


Sua sinhazinha, companheira já desperta,

Arruma o café preto,

A tapioca alva e fria,

Exala um gostoso cheiro 

Quando é deitada na fregideira quente,

A bolacha redonda e seca,

A alva e fria coalhada,

O reco-reco doce da rapadura

Sendo raspada,

A alva coalhada no prato deitada,

A doce marrom raspadura rapada,

Agitada em espiral,

Gira, gira se agita, se mistura.

A primeira colherada...

Para uma vida dura,

O doce até que anima avida,

Suaviza as ideias duras e áridas.


Sabe aquela  amizade, a cumplicidade,

Palavras de realidade,

Nada de carinho,

A realidade...


O pensamento materializado,

Falado...

Um ouvido dando atenção.

-A roça vai ser boa,

A terra é nova,

No pé do serrote.


A madeira vou mandar os meninos trazer,

Esse jumento preto é perigoso,

Se ouve a voz da avó.

Vão dois meninos... pegar


Se Deus quiser o inverno vai ser bom.

A turina berra no chiqueiro.

Um vento sopra trazendo frescor e cheiro de pau...

Nem se percebe, mas se gosta desse cheiro...


Nem tudo é tornado consciente de imediato... mas estamos vivos.


Cheiro do sertão, cheiro da vida.

As vacas ainda deitadas, badalam o chocalho quando rumina,

Malhada se levanta, se estira, mija e caga...

Magi solta o bezerro,

Miguel arreia a vaca,

Limpa o ubre e a teta com a escova do rabo,

Bota o balde entre as pernas,

E com carinho aperta a teta,

Um jato alvo, morno e leitoso,

Vai enchendo o balde...

Espumado o leite morno,

Exala um cheiro de fé, de alimento, de vida.


Pega a foice seu zé e segue para a lida...


No dia três de janeiro no sul a barra se faz,

A manhã nasce fria e azulada.

O dia é quente e escaldante...

A noite o tempo se fecha,

Relâmpagos clareiam o céu...

O peito de Zé se enche de alegria,

Sinhá reza a ave maria...

Lera se entretem com a chama da lamparina,

Magi só observa a cena.


Zé pigarreia e reza em silêncio.

E o silêncio continua...

Luz apagada, escuro e silêncio...

Pelas frestas da telha,

Uma luz tudo clareia

A meia noite, então noite dento,

Sinhá se acorda com o som dos pingos na telha,

Seus lábios o pai nosso começa a balbuciar.

E uma grande chuva se inicia...

O cheiro do barro molhado vai crescendo,

Lera dorme na rede, Sinha ao sair faz a rede balançar,

Então Zé se levanta,

Abre a janela e olha pro nascente é tudo escuro,

Nada de estrela,

Um raio acende a natureza,

brilha do nascente ao poente.

Um truvão arrojado,

Ecoa no serrote...

Corações e mentes palpitando de alegria,

é a chegada do inverno.

Lera acorda feliz,

Magi acorda feliz,

Sem saber porque,

Há um riso no rosto sisudo dos velhos avós...

A dor da vida fica para trás,


Chuva é água,

Chuva é vida,

Chuva é esperança...


A terra seca pobre terra,

Terra molhada, rica terra...

O trabalho é o divisor,

Trabalho, fé e amor.


A água escorrendo,

As goteiras cantando,

A cadencia da água na lata ao ser cheia,

Quanto mais veloz mais feliz...


O gado molhado, sente frio...

Se ouve o forte respirar...

Morcegos voam a piar...

Amanhã se tudo der certo,

Vamos plantar,

Guardou as sementes de gerimum?

Separarei o milho e o feijão,

Vamos plantar também algodão.


Na roça o cheiro do carvão molhado,

A terra enxarcada.


O sonho e a imaginação...

A felicidade de um novo amanhã.



26/03/26

Exodo

 Como ficou o Egito sem os escravos judeus?

Tanto trabalho, esforço e saber esvaziado.

Novas matérias, novos lugares, novas lutas.


Os judeus tiveram que se reinventar,

Seguindo a Moises numa jornada a algum lugar.

Ao deserto! Marchou aquele povo,


Cruzaram o mar vermelho...

O que sentiam as crianças?

O que diziam os idosos?


Inúmeros judeus...

Judeus que nasceram e viveram toda a vida no Egito.

Êxodo.


Também nós fugimos da seca...

Não foi José de Jacó.

Vendido por seus irmãos...


Não foi José ressentido...

No Egito José foi governador.

Foi a luz do faraó.


E o tempo passou...

Porque o povo não se misturou?


Eles lá e nós aqui, no nordeste, no sudeste...

Estamos voltando...


Eles foram em busca da terra prometida...

Será se encontraram?


O conforto de Deus é tudo.




24/03/26

Farinhada

 A mandioca arrancada,

Em caçuas carregada,

Na casa de farinha,

Derramada e arrumada,

Descascada.

Mão ligeira,

Conversa frouxa,

O alvo amido,

Cheiro da raiz limpa,

Motor ligado,

A batata cevada,

A maça branca,

Vai ser prensada,

Espremendo a manipoeira...

Agora a hora da lavadeira,

Lavadeira nova,

Roupa ajustada,

A rede dançando,

Pra lá e pra cá.

A goma decantada na gamela,

A massa lavada vai ser assada,

O cheiro da manipoeira fora casa,

Lenha acesa,

Rodo a posto,

Massa espalhada,

Começa a torrada,

O assador a dançar,

Pra lá e pra cá.

É Paté?

É. 

E o cheiro da farinha incensa a casa.

Depois o beiju e a tapioca.

E a novena de graça.

Vida boa foi a minha.

23/03/26

Barro vermelho

O barro vermelho é um lugar em Serrinha.

Hoje está muito reduzido.

Foi grande, Foi grande.

Hoje no barro vermelho não se sente mais os cheiros

Da manipueira ou da farinha sendo torrada.

Sumiram as casas de farinha de Zé Paulo, Das Dores e velho do Santos.

No Barro Vermelho já não tem mais nenhum som de viola.

Sim, Lorival Cearense casado com tia Raimunda sempre fazia as cantorias.

O que resta no barro Vermelho são as barreiras vermelhas,

As árvores de timbaúvas, os coqueiros-catolés; as pitombeiras...

O barro vermelho morreu.

Sabe lá o que vai se transformar.

Dona Nenem se foi, Ninguém se lembra de Tio Raimundo Souza...

O lugar não tem memória, as pessoas são as memórias.

Pude viver algumas dessas memórias,

Mas até eu mesmo já estou se indo.

Noite enluarada

 Antes podia desfrutar às noites de lua cheia em família. Papai, mamãe e meus cinco irmãos. Eu olhava para o céu com um olhar ingênuo. Era t...

Gogh

Gogh