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02/06/26

Seguindo em frente

 Quando minha mãe partiu, ficou um grande vazio.

Vazio da palavra, da voz, dos conselhos, do carinho.

Quando mamãe se foi eu fiquei sem chão, não sabia como ia ser.

Mas ai, eu tinha o meu filho, a minha esposa e os meus irmãos.

Perdera uma pessoa importantíssima, mas não estava só.

Precisava lutar. E lutei. E tentei e consegui dissolver a dor.

Com amor, fui construindo uma ponte.

E transpus essa dor.

O tempo, e aqueles que estão ao meu redor me ajudaram.

E segui a vida.

01/06/26

Realidade?

 Amanhã será um novo dia.

Ontem foi um excelente dia.

Um dia estava em casa com meus pais.

E recebemos a certeza que um começo pode ser começo do fim.


Nossa vizinha teve um AVC.

Ela que teve uma vida inteira de labuta.

A vida toda na labuta.

A esperança força que nos move nos impulsiona a lutar,

Lutar pela recuperação.

Perdemos o que banalizamos e muitas vezes não valorizamos.

A luta começou... Outra luta.


Não mais aquela labuta que eram os cuidados com a filha e com o marido, com as irmãs, com os vizinhos.

A luta que é a vida.

Chegara ao fim.

A luta agora era pela sobrevivência.

As idas para a igreja.

As idas ao mercado,

As faxinas em casa,

A conversa com os vizinhos.

Acabou...

Ficou inválida. 

Não conseguia andar, falar ou comer.

Se recuperou,  mas a morte a ceifou.

Ficou a casa, o marido e a filha.

Ficou o vazio na casa, no banco da igreja, no caixa do banco, naquela calçada. E foi desaparecendo 

E o povo foi se esquecendo...

Hoje quando passo por ali, desperta fica minha lembrança a  amizade pelo céu levada.

Saudade 1001

 Só tem saudades quem viveu intensamente, 

Só tem saudades quem viveu amavelmente,

A saudade é uma resposta a vida 

É uma expressão de amor,

É uma felicidade aquele que tem saudade...

A saudade é tão intensa é um mistério do criador,

Saudades de quem muito nos amou,

Saudades de quem nos deu a vida, nos manteve a vida,

E nos ensinou o que é o amor...

Com o peito apertado, 

Busco palavras bonitas,

Que alivie essa dor,

Não encontro palavras dignas de tamanha expressão...

Amor, amor, amor...

A vida é um dia lindo,

Dia lindo que passa e que passou,

E neste dia, nestes anos...

Pode ter faltado algo,

Mas nunca faltou o essencial,

O amor, o amor, o amor...

Essa saudade tão boa,

Não é uma saudade atoa...

Muitas vezes expressei em palavras 

“Eu te amo”, “Eu te amo”, “Eu te amo”

Expressei em gestos, em carinho...

Tudo isso em mim ficou...

Aprendi a amar vendo vocês amarem e de seus pais cuidarem...

Como doí o meu peito...

Sei eu agora,

Sei eu nesta hora,

Que abracei essa tarefa da paternidade...

Ah! Saudade se vai, se vai e se vai...

Saudade esse sentimento,

Pode ser lida de diversas formas,

Na forma de sofrimento,

Na forma de agradecimento,

Saudade é a semente que nos permite jamais 

Deixar quem tanto nos amou no esquecimento.

É a semente que germina a cada momento,

E a gente fala e rir. E diz mamãe dizia isso... Papai dizia aquilo.

E quando menos espera somos nossos pais.

E a saudade atravessa o tempo e o espaço e é parte da essência humana.

Nada mais.

28/05/26

Moinho de tempo

 O tempo redemoinho,

E nós no seu caminho,

Gira e gira e gira,

A energia vinda do vento,

Como a lua no céu e suas faces,

Quatro quadrantes equidistantes,

Gira e gira e gira.

O tempo redemoinho,

Vai nos moendo,

A matéria consumindo,

A matéria envelhecendo.

Gira e gira e gira.

O tempo imediato tempo,

O tempo intuitivo tempo.

Ora rápido e ora lento

Gira e gira e gira.

Se parar tudo acabou.

25/05/26

Retrato vivo

 O brilho dourado do sol desponta na parede.

Faz do cinza o dourado,

A luz tornas folhas verde clado.

A mata estática não se ver uma folha mover.

Rutilantes estão os pingos de chuva preso as folhas.

Na mata o sabiá afugenta algum bicho.

Canta a garrinchinha.

O que se passa no mundo. Sabe lá.

Aqui reina a paz.

13/05/26

Vida que segue

 Manhã serenosa e fria,

Pela transparente janela,

Vejo nuvens cinzentas,

Na calçada molhada

Flores alvas de jasmim,

Ixoras encarnadas nos jardins.

Paredes alvas de prédios,

Pombos alvos se coçando.


Aqui dentro sinto,

Um reflexo desse tempo,

Algo em mim fica saudoso,

Algo em mim quer reagir...


A vida que segue...

Uma xícara de café para esquentar as ideias.


Devir e deveio.

Ser assim e ser ai.

É mês de maio,

Mês das mães.

Sem a minha para ouvir.


A vida fica cinza e silenciosa como essa manhã.

A vida que segue.

Vou trabalhar,

Tenho um filho pra criar.

12/05/26

Chuva trabalhando

 A chuva trabalhando o dia inteiro,

Manhã, tarde e noite,

Ora fraca, ora forte,

Quase pára,

Acelera...

O sol nem apareceu.

As aves emplumadas descansam silenciosas.

Sabem que o fruto do trabalho da chuva é delicioso,

As plantas pagam pelo seu trabalho

Chuva.

Pode chuver.

As aves ficam caladas,

São elas quem mais desfrutam das flores e dos frutos.

Chove chuva de maio,

Abriu já partiu...

A chuva trabalha feliz,

Trabalha cantando.

Vai enchendo o lençol freático,

Vai enchendo os rios,

Vai regando as matas...

Vai distribuindo a essência da vida.

E nós que tal fazermos um café. 

Resistência

 Os rins faltaram,

Uma nova rotina na vida,

O sol ardente e o calor,

A mata seca e cinzenta,

As cigarras cantando,

Acordar e ter força para viver,

Sair de casa e partir para a clínica.

As curvas e retas da estrada,

As casas ao pé da estrada,

Os serrotes, a depressão,

O gado mago...

A palavra apesar da dor.

Um riso de compaixão...

A chegada a cidade,

A  vida sofrida.

Na clínica, a assinatura,

O reencontro,

As histórias,

As pessoas e suas histórias,

Seus lugares,

Suas marcas, suas dores...

As pessoas novas,

As pessoas partidas.

A dor dos dias contados...

Os sofrimentos e  a dor,

O fim...

Mamãe viveu tanto esses dias.

Dias de luta.

E no sertão se encantou.

Amada sertaneja.

11/05/26

Acumular

 Acumulo sobre a mesa sem querer,

Mas com desejo de possuir,

Sementes,

Livros,

Frutos,

Canetas frases,

Um ima,

Bicicletas,

Fotografias...

Quando vejo está uma desordem ordenada.

Coisas minhas.

08/05/26

Recortes do meu ser

 No terreiro da minha casa

Tinha pinheira e coqueiro,

Ciriguela e cajueiro...

Cresci vendo a importância da água

Para a produção das frutas maravilhosas.

O coqueiro usava a água do banheiro.

As outras plantas tinham que se virar.

Seca danada, inverno fraco,

Coitadas...

Os cajueiros morreram de sede.

As pinheiras e idosas

E as ciriguelas estão ai para contar história.

Esses seres foram meus amigos,

Confidentes e parceiros.

Deram-me seus frutos...

Deram-me sua beleza,

Deram-me o perfume de suas flores.

Coco com cuzcuz que delicia,

Coco com rapadura.

Caju e pinha docinhos...

Ciriguela verde e vermelhinha...

Estão tão sozinhas

Tadinhas...

A razão de ser as vezes se vai

Com o fim da vida...

Aparecer e perceber

 Uma vez lá na infância,

Quando morava em Serrinha do Canto,

Papai fez uma faxina para a hora,

Onde plantamos coentro e cebolinha.

Veio o inverno e do lado nasceu uma planta.

Não era qualquer planta era um pé de bucha.

Cresceu rápida e silenciosamente.

Cresceu e se pendurou nas varas da faxina.

Então daqueles ramos verdes

Uma flor grande e amarela apareceu...

E outra e outra... Ai vi pela primeira vez

Uma flor de bucha...

Depois vieram os frutos que usei para fazer bois e vacas.

Enchi meu curralzinho sob a pinheira de vacas.

Mamãe nem se incomodou.

Depois as buchas secaram.

O inverno se foi e usamos as buchas nos banhos.

Foi isso,

06/05/26

Emboás e a mente

 Emboás são cheio de pernas,

Emboás tem exoesqueleto,

Emboás são lineares.

Emboás são segmentados,

Às vezes bicolores,

Às vezes unicolores.

Emboás tem duas antenas.

Quando enredados,

Os Emboás se envolvem em espiral.

Quando está seca a paisagem,

Emboás se escondem.

Acho que as vezes sou um emboá...

Ou minha mente me tornou um emboá.

Talvez...

26/04/26

Mas...

 Um dia desperto,

Desperto para o mundo.

A realidade trata de negar minha vontade.

Por defeito ou não de ser quero a eternidade, quero o infinito.

O tempo vai se desvelando,

E um dia desperto.

A natureza me ensinou a amar o belo e o bom,

Não me explicou que há um absoluto,

Que e há o feio e o ruim...

Entretanto a raiz estava ali...

Só há belo porque há feio... é uma escala?

Só existe bom porque há ruim...

Não seria algo totalmente subjetivo?

Não seria a raiz do ego, do eu, do self?

Tantos conceitos, tantas palavras para a mesma coisa.

Ai mora a humanidade?

A humanidade é racional?

Produto da memória?

Não sei, mas...

18/04/26

Cortina

 Nas sombras frias e silenciosas da noite desperto,

O sol lenta e silenciosamente nasce e vai revelando o mundo,

Vai aquecendo as cores, vai iluminando as formas.

Matéria e forma, formas e matéria.

A substância de tudo isso!

Formas coloridas, formas aquecidas.

As horas despertas e vivas.

Caem, caem, caem enquanto o tempo passa.

E a noite chega...

As sombras frias e silenciosas caem como uma

Cortina no teatro de minha vida.


13/04/26

Um sentido

 Sentir o mundo,

Encontrar um sentido...

Na cor,

Na harmonia do som,

No cheiro da flor,

O do calor da flor,

No gosto amarelo da manga,

No gosto rosado do beijo quente

E molhado,

Num olhar não procurado e achado,

Achar um sentido,

Em tudo que se passou,

Em tudo que se passa,


Achar e por isso de graça,

É uma verdadeira graça.


Achar um sentido,

Pelos sentidos,

Uma emoção, 

Uma percepção,

Um sentimento,

Pra vingar precisa ser criado,

Precisa ser cultivado...


Às vezes parece que será eterno,

Mas é inexperiência...


Às vezes, a gente até aposta...


Outras vezes até se ilude 

E nessa ilusão,

A vida tem até sentido,

Além de um sentido,


A ilusão até nos anestesia,

Faz suportar a dor,

Ah...

O sentido de tudo 

É o sentido da vida...

Vida que a gente cultiva 

Até que a vida se enfraquece,

O tempo e a experiência machuca demais 

Se são tantos desenganos,

Os sentidos e os sentimentos...

Há de aprender a cultiva-los senão 

A desilusão o mata cedo.

07/04/26

A aroeira e o tempo

 Em algum lugar bem distante,

A beira da estrada, um fruto caiu,

Dali, num inverno nasceu uma aroeira,

Os anos foram passando e lentamente,

Bem suavemente ela cresceu.


Continua crescendo.

Um dia ela floresceu,

Um dia frutificou...


No verão caíram as folhas,

Uma a uma ficaram o tronco e os ramos,

Depois cheia de vassorinhas,

Floresceu, frutificou...


Mas veio a chuva e ela regou,

Então de folhas todinha se vestiu.

As aves adoram nela pousar,

As aves adoram nela cantar...


Às vezes a tarde vai lá o sabiá,

Canta, alumiado pela dourada luz da tarde.

Canta o cabeça-vermelha,

Canta o papa-arroz.


Nela nasce e se põe o sol.

Nela se avista primeiro o dia,

Nela se escurece por último.


A noite esta desaparece...


Milhares de flores e frutos já dispersou.

Oh aroeira.

Como te admiro,

Faça chuva ou faça sol.

Impávida ali está.

Seguimos nossos dias,


Você de lá e eu de cá...

Notas do eu

 Sinto minha alma viva.

Sinto intensa presença da eternidade.

Sinto que sou este lugar.

Este lugar sou eu.

O cumaru cultivado por papai,

As Pinheiras, as palmas.

A erva com sua rama

Que pinta tudo de verde e formas,

Formas cordadas,

Formas radiadas,

Formas ternadas.


Ouço fora e em mim o som da passarada...

A Garrincha no oitão,

O sanhaçu nas pinheiras, 

O vem-vem no encheique,

O sabiá na aroeira,

O encanto de ouro no catolé.

O pacum voando,

A rolinha no terreiro comendo.


O cheiro alvo da flor do araçá, do mororó,

Do jasmim.


Esse lugar sou eu,

Minha alma é esse lugar.

Viver, reviver... eternidade

 Ontem tive o maior presente do criador,

Estando em minha terra natal

E foi como um sonho renovador.

Acordei enquanto chovia

Meu peito cheio de alegria...

Foi um sonho vivido,

Foi um sonho revivido.


Vivi duas coisas numa só.


A natureza eterna e profunda 

Numa face maravilhosa,

Verde, fresca e molhada.


Quantas vivi essa face em minha vida 


Não foram muitas.


As maravilhas divinas sentimos 

E amamos mesmo 

Que seja a primeira vez.


A esperança forte batendo no peito.


E a já sente a eternidade.


A chuva, o verde e a fé que isso é bom 

É verdadeiro e efêmero.


O cantar alegre das aves...

O cantar harmônico das aves.

O cantar feliz das aves

 nos transmite felicidade.


Foi o que senti ainda criança 

E reafirma sempre que ouço...


Tá guardado na memória.


Ver pela janela a fora

Enchendo a vista de forma, de cor, de profundidade...


Sentir o ar fresco,

A brisa fria, o cheiro de mato molhado, o cheiro da terra enxombrada.


Sentir a realidade da ausência de pai e mãe materializada em saúde.


Aí está.

O coqueiro morreu.

A graviola está quase morta.

Foi papai que plantou.


A realidade do tempo que se foi.

A realidade do tempo que é.


Esse posso viver,

Aquele não mais

Em totalidade.


Tenho um filho pra criar,

Um filho pra ensinar como é a vida aqui...

Na ausência de meus manos e meus pais.


Aqui as mesmas sensações terá.


O ontem foi pra isso.


O café aquecendo o frio da manhã.


A manhã de chuva.

O banho de chuva.


O passeio na mata.

O almoço com arroz de leite e peixe frito.


A tarde de chuva...

Chuva a tarde todinha...


A noite escura e fria.

O angu com leite...

O chá.


A vida.

25/03/26

Empatia

 Sinto que a vida está passando rápido.

Sinto que a vida está muito boa.

Sinto que sou.

Sinto e sei da existência.

Algo em mim me faz sentir tudo isso.

Algo em mim quer que saibas disso.

Sinto a vida na vida, na existência.

Sinto que tudo vai bem mesmo que por um breve momento,

E isto está bem.

Sinto felicidade nas crianças,

Sinto felicidade na arte por mais embrionária que seja...

Desde um jardim até um comigo ninguém pode numa lata.

Sinto felicidade na luta pela vida.

E tristeza no desprezo do corpo,

Dessa existência...

Nos abismos que podemos cair,

Nos abismos escuros que se caem...

Tantas pessoas por ai abandonadas...

Drogadas... 

Cadê a compaixão humana?

Cadê a empatia...

É preciso força e união para vencer tudo isso e sair do abismo.

Sinto que estou fazendo muito pouco,

Para mudar o que ai está.

Mas estou dando o meu melhor.


21/03/26

Uno particular

Manhã prima,

Sol sobre a nuvens,

O bafo da chuva ainda se desprende da terra molhada.

A sensação de calor é do tempo

Ou do chá que tomo?

Os quero-quero voam cantando,

Como quem dança,

Como quem agradece a chuva.

Venho testemunhando essa cena em tantos lugares...

Soa como um reflexo no tempo.

Quando percebi pela primeira vez não sei,

Mas onde sim. Posso afirmar que foi na minha terra mãe.

Meu berço materno.

Um dia, creio quando criança percebi...

Deveras foi no primeiro trimestre do ano.

As ervas germinadas no campo.

O carvão enxuto dormindo no chão molhado.

A semente de mucunã germinando lentamente,

Se hidratando na cama de folha da mata,

Mirada pelos caules cinzentos ou marrons...

As vezes, ninadas pelos sapos a dançar e namorar nos tanques sobre xistos.

Uma chave... uma breve memória que renasce enquanto há vida neste corpo, neste ser.

Enquanto existir...

E veja a existência faz sentido em sua história,

Em sua imanência... para além de tudo isso a transcendência.

Noite enluarada

 Antes podia desfrutar às noites de lua cheia em família. Papai, mamãe e meus cinco irmãos. Eu olhava para o céu com um olhar ingênuo. Era t...

Gogh

Gogh