As cinzas da fogueira de São João
abrigam calor e brasas de uma fogueira da noite passada.
Cinzas das chamas que aqueceram e alegram a noite passada.
Cinzas de uma fogueira feita às pressas,
Feita de improviso, com madeira velha e madeira verde, pra
não queimar e acabar com a festa cedo.
Certas habilidades que papai tinha.
Coisas de papai...
Quando chegava
junho que alegria se sentia.
Começava logo no
dia 12 que era festa de Santo Antônio, não sabia que era também dia dos namorados, só sabia das experiências
do santo casamenteiro.
Tantas
superstições engraças e ingênuas. Papai não fazia fogueira, pois nos
preparávamos para o São João. E contava a dedos os dias que se passavam,
esperando o grande dia. O dia dos bolos de milho, fogos que chamávamos de
traques, das bombas, da queima de bombril. Eis que chegara o grande dia.
Acordava feliz, pulava da cama e fazia tudo que papai e mamãe mandassem, pois
tinha que ganhar traques no mínimo vinte estouros a gente ganhava. Botava água
de ancoreta, cortava palmatória pro gado. A gente ia moer o milho para os
bolos, para as broas. Mamãe sempre fazia dois ou três bolos. Um nós comíamos à
noite mesmo e o outro ficava pra manhã, lógico que o melhor né. Pela raridade
das coisas os bolos eram maios gostosos. Então papai quebrava milho verde para assar
na fogueira à noite. Fazer a fogueira isso sim era um ritual. Eu tinha prazer e
ajudava papai a escolher a madeira e carregá-la até o terreiro. Para isso, saíamos
sítio a dentro em busca de madeira seca, dos galhos ou cajueiros secos, papai
cortava madeira de cajarana, que não é uma madeira boa quando seca. Nós usávamos
essa madeira verde para que a fogueira não queimasse tão rapidamente e assim a
fogueira durava a noite toda. Fogueira feita era tão bonita. Papai e eu
orgulhosos e felizes com o são João. Nem todo mundo fazia fogueira muitos dos
nossos vizinhos eram evangélicos. Então trazíamos o balseiro de lenha para o
terreiro e antes das cinco horas estava pronta a fogueira, grande e linda. Às
seis horas íamos todos para o terreiro ver papai acender a fogueira. Primeiro
era aquele fogo tímido saído da lamparina tomava conta da lenha. Os crentes
passavam para a igreja e davam boa noite. Às vezes, tínhamos visitas Heleno
vinha com Maria e Fernando, Raimundo de Lulu e Neta e os meninos todos vinham
lá pra casa. Então soltava o primeiro traque para animar a festa. Pouuuuuuu.
Lidiana minha irmã mais nova tinha medo de estouro, coitada e começava a
chorar, pra ela creio que era um pavor a festa, acho que pra ela só prestava
quando acabavam os estouros. um, dois, três... pou, pou, pou... Respondia longe
lá pra frente nas bandas de Antônio Martins. Ouvíamos o som do forró longe.
Vinha o milho assado, o café feito na fogueira e o bolo. Que alegria, que
festa. Viva São João!!!!
Eram sempre
felizes as festas juninas.
De manhã cedo
mamãe já acordava para varrer o terreiro e as cinzas eram postas na valeta da
frente. Sempre ficava a marca de queimado no chão que só era apagada com as
últimas chuvas do ano. E a assim foram minhas festas juninas felizes,
divertidas e abençoadas.