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29/08/26

Algum dia em minha infância

 Eu amanhecia,

Queria ver o novo dia,

O chão molhado da chuva,

O cheiro da terra encharcada,

O canto da passarada.

Ali tudo mudava num instante,

Parecia um grande milagre,

Tanajuras a voar,

Formigas ativas.

O tempo ficava fresco.

O mundo sorria,

A esperança ganhava força em meu peito

Eu pensava, 

Não eu sentia 

Agora tudo vai melhorar.

Quando a coisa chega ao extremo 

Qualquer coisa dá uma sensação de alívio.

A chuva fazia isso,

Castigava a seca,

Botava moral,

Era só uma chuva,

Mas a gente sentia a mudança.

Aliás, lá em casa tinha uma bica de frande que unia as duas casas,

Quando ouvia o primeiro, o segundo e o terceiro pingos de chuva,

Logo sentia o cheiro da chuva,

A terra sedenta,

Agradecia aromatizando o mundo...

Na cama, acordado, 

Sentia que todos 

Percebiam o mesmo que eu...

Ouvia mamãe dizendo sei lá o que para meu pai,

Meu coração sentia que estava tudo bem.

Porque o mundo é assim, bom.

Tem horas pra tudo...

Foi tão bom viver a vida na casa dos meus pais,

Dividir a vida com meus irmãos...

A gente aprende tanto da vida.

A gente divide as coisas boas e ruins...

A gente brinca, briga e faz as pazes porque a gente sabe que é uma família.

E o rei era papai e a rainha mamãe...

Naquele reino criei a minha imaginação...

E quando a chuva chovia de noite...

O outro dia seria perfeito.

Gurdo essa sensação comigo até hoje.

25/08/26

Como literatura

 Ontem, em frente ao HU, da UFPB, vi um lindo chevrolet D60, branco, potente e cara de mal. Fiquei muito contente. D60 me arremete a Martins, cidade natal. Onde na minha infância eu via o D60 gerimum coletando lixo pelas ruas. Quem dirigia era Babu. O barulho do motor inconfundível, o sol ardente, sob o frio da serra fez aqueles momentos se eternizarem e em minha vida. Certamente, estava com a mamãe. Nunca tinha visto um D60 Branco... Lindo demais. Os mais comuns que conheci eram cor de goiabada como o de Ivin, um comerciante que comprava pinha e ceriguela lá no nosso sítio. Os D60 eram comuns na década de 80 e 90 só perdiam para os tromba de porca da Mercedes. Tempos bons... Somos produtos de nosso tempo e lugar. Com o tempo estas memórias não serão compartilhadas, apenas aparecerão como invenção, como literatura.

24/08/26

Consciência

 Meu primeiro mundo era vasto e surpreendente,

Mamãe e papai,

Meus manos e vizinhos,

Nosso sítio,

Nossas galinhas,

Nossa vaquinha,

Nosso cão e nosso gato,

Nosso sítio.

Tanta coisa pra explorar as formigas e formigueiros,

As vésperas e seus ninhos,

Os besouros,

Os sapos e girinos,

As plantas, suas flores e frutos...

Tudo para descobrir,

Tudo para nomear.

Minha mãe foi minha primeira educadora,

Meu pai foi o meu herói., 

Quando aprendi essas coisas,

tinha a seca com caju e manga 

E inverno com milho e feijão....

Assim floresceu minha consciência...

19/08/26

Ziná

 Esse mês mais duas pessoas partiram de Serrinha do Canto Ci de Damião e Donina e Ziná de Severino Lopes. Hoje, recebi a notícia com tristeza. Ziná foi merendeira da Escola Isolada Serrinha do Canto. Era funcionária da prefeitura. Era quem fazia a merenda entre os anos 1980 e 1990. Foi casada com Antônio de Doquinha muito amigo de papai. Na minha infância convivi muito com a família de Ziná. Conheci toda sua gente, Seu pai, sua mãe, suas filhas. Descanse em paz.

Ci foi o primeiro motorista de ônibus que fazia a linha Martins - Pau dos Ferros.

Se foi também.

Flores de laranjeira

 Olhando fotografia de flores,

Flores de laranjeira,

Recordei aquele janeiro,

Aquele janeiro quente de 2019.

Senti todas as manhãs o cheiro doce das flores brancas de laranjeira.

A vida estava tão boa.

Mal sabia que alvorecia a pandemia.

A humanidade enfrentaria uma tragédia mundial.

Ainda bem que não sabia de nada.

Vivia cada alvorecer,

Cada primeiro crepúsculo

Como se fosse único.

Caminhava olhando a caatinga...

É tão bom não saber a luta que nos espera...

Aquelas flores alvas,

Coroadas de amarelo...

Marcava o fim de uma vida,

Minha primeira tragédia pessoal.

Aquela que a gente descobre e fica com medo...

A fé foi fundamental para está aqui,

Escrevendo estas linhas...

Que se perderão no tempo e no espaço...

Até que alguém encontre e se identifique...

É a vida.

18/08/26

Gerânios

Haviam gerânios de enfeite em casa.

Eram feitos de plástico.

Descobri que eram gerânios 

Num livro de morfologia vegetal de Vidal.

Interessante que cheguei a ver Gerânio em São Paulo,

E vi gerânios nas janelas de Paris.

Nunca me imaginei em Paris,

Não imaginei que aquela imitação,

Seria a luz de conhecer

Gerânios...


Luz da alma

 Na minha casa descobri o mundo,

Papai e mamãe e meus irmãos 

Auxiliaram-me nesta empreitada,

Cuidaram de mim.

Na nossa casa simples não tinha riquezas,

Mas não faltava amor, carinho e amizade.

Minha mãe tão natural.

Meu pai tão sentimental.

Na minha casa havia um quarto de São Francisco de Assis 

Comprado no Canindé 

E eu mirava com misticismo, medo e admiração,

A moldura barroca.

Tinha um quadro de papai, begue e mamãe.

Por que eu não estava lá?

Já me questionava?

Eu me balançava na rede olhando através da janela,

Sentindo a emoção do ir e vir 

Subir e descer,

Eu olhava para o infinito do céu...

Aquela vastidão me amedrontava e me encantava.

O meu mundo era minha família,

A poesia era bruta e não soava ainda...

Eu vivia,

Contemplando minha existência,

Vivendo minhas primeiras experiências...

O mundo se revelava infinito....

A finitude estava em mim 

E parece que eu sentia isso,

E descobri a finitude me deixava triste...

Era natural que se descobrisse,

A razão apontava,

A emoção indicava...

Mas algo em mim 

Queria a eternidade...

Todo ser quer se conservar eternamente.

A minha casa é a mesma.

Os cômodos, as paredes são o mesmo...

O tempo muda todo dia e nos seus cômodos,

Cada dia tem uma história 

Que guardamos em nossas memórias.

A casa e meus pais foram o feixe que me formaram e me firmaram

Quem me fizeram quem sou...

Sou como os meus pais em carne, osso e alma,

Mas com direito a liberdade e a individualidade....

Sou o fui,

Sou o que sou,

No começo tinha meus pais,

Agora tenho a casa,

E as experiências,

E os ensinamentos...

Tenho o que sou.

Sou o que aprendi 

E nada mais.

14/08/26

Descoberta do irracional, conhecimento

 A tanto tempo,

Tão distante do agora,

Numa estação de preservação,

Eu ouvia o canto do carão,

Ouvia aquele belo canto,

Que vinha de uma fazenda vizinha,

E não sabia que ave era aquela,

Percebia, ouvia, mas não distinguia,

Mais de vinte anos depois,

Que era o canto do carão...

As coisas as vezes se demoram a serem conhecidas.

12/08/26

A outra estação

 Céu azul da tarde,

Um plano infinito.

Atento vejo urubus a planar,

Voa deslisando sobre o vento...


A mata assanhada do vento,

Refresca com sua sombra,

A tarde que o sol faz arder...

Folhas em diferentes tons,

Vermelhas, amarelas e marrons,

O verde se dissolve aos poucos,

O vinho tinge as novas folhas,

Folhas jovens...

Formigas ativas...

Após almoçar,

A gente não sabe nem pensar,

Então contempla,

Contemple,

A mudança da estação.

.

10/08/26

Agosto

 Em agosto,

Vô José, meus irmãos Rosdemberg e Rosemeire nasceram,

Em agosto,

Nasceu também Jorge Luiz Borges, 

Em agosto,

Vô Chico faleceu,

Em agosto,

Mudei da casa paterna.

Em agosto,

Coisas aconteceram que me marcam ainda hoje.

Agora mesmo...

Hoje, 10 de agosto nasceu, em Caxias Aluízio Azevedo que escreveu o primeiro livro que li o Cortiço.

Agosto...

Agosto.

07/08/26

C10

 Um dia, fui visitar meus avós. Fomos à tarde, cedo da tarde. Meus avós moravam nas Vertentes, distrito de Serrinha dos Pintos que já quase desapareceu. Fomos uma caminhote C10, da chevrolet. Era a caminhonete de Zé da Cancela. Nunca esqueci disso,,, Fomos em cima. Nem imagino quem ia. Mas sei que estava com a minha mãe. Lembro de descermos perto da curva do juazeiro. Só isso.

04/08/26

Cair de uma tarde

 Cai a tarde escura,

Nuvens que oras chovem,

Oras deixam o sol clarear,

Ruas molhadas e enxutas...

Definitivamente,

Caiu à tarde,

Caiu à tarde!

A noite vai crescendo,

Crescendo,

E o dia...

Já se foi.

Agora,

Jás eterna tarde,,,

Alguém partiu junto.

03/08/26

Primeiro dia de aula

 Aristotelino meu primeiro professor de ecologia me fez querer ser igual. Foi uma aula magistral.

Quebrando os protocolos e sentando no bureau.

Sem um livro na mão e sem usar o quadro,

Com sotaque carioca deu uma aula magnífica.

Sabia o odum de ponta a ponta.

Faltou sobre entropia.

Uma das três leis da termodinâmica.

Lei que diz que tudo tende ao caos exceto a vida...

Naquele dia por teoria descobri o que já sabia por intuição.

A sala era igual a da escola onde estudei, mas as ideias eram mais amplas e profundas.

Naquela noite, sabia que aquele era o caminho que devia seguir.

Não sei se por acaso ou não me tornei professor...

Foi na aula de campo de Tot que vislumbrei uma direção de conhecimento. Em Equador no Río Grande do Norte vi uma Jurema com o nome científico e pensei será esse meu destino? Saber o nome de todos as plantas?

Hoje é sábado, manhã ensolarado, quase 26 anos depois...

Tomando um pouco de consciência.

Uma segunda

 Segunda-feira, primeira de agosto,

Já começa assim, nublada, neblinando.

Só a corroira cantando.

As árvores gotejando.

Aquela indisposição!

Querendo cama,

E já no batente.,

Nesta cadeira,

Pronto para iniciar o dia.

30/07/26

Casa paterna

 Aquela casinha teve tantas cores.

Nela fui amamentando, balbuciei as primeiras palavras,

Nela percebi o mundo sem palavras,

Tudo era tão absoluto,

Nela descobri o amor, nela descobri meus desejos...

Nela descobri realidade da vida 

Via razão...

Nela senti meu coração dilacerado,

Nela, tantas vezes comemoramos juntos.

Nela descobri a realidade da vida via experiência...

O tempo passou...

Casinha e tive que te dar adeus.

Sempre volto e mato sua saudade.

Agora tão longe 

Fecho os olhos e posso andar no seu interior.

Somos um só.

Posso ir nos três quartos, usar o banheiro,

Ir a cozinha e a área.

Posso sair fora e ver o céu estrelado...

Somos um só.

O tempo nos distanciam,

E saber que o tempo passa e que

as memórias se apagam...

Apesar de tudo casinha.

Vale a pena, 

Só tenho graça,

Pela sombra do sol e da chuva,

Pelo calor retido

O frio cedido...

Casinha compartilho esse momento 

Nosso. Só nosso momento.

Meu infante momento.

Porque é bom sem um contigo. Conosco... Amém.

Reminiscências de um sertanejo

 À tarde caia,

A caatinga ia esfriando,

A luz se encerrando no poente,

Saia de casa em direção a mata branca, no poente,

Podia ver a mata nua, 

Caminhando 

Ouvia os últimos cantos das aves,

Via os ramos intrincados,

A silhueta da mata na frente do sol.

Ali sentia o cheiro do mato, marmeleiro, Jurema, mussambé...

Aos poucos a noite caia,

Uma estrela despontava,

E eu era pura consciência.

Sentir-me natureza.

Cansado contemplava a natureza,

Pensando no passado,

Pensando no futuro.

E quando a noite caia,

Chegava em casa

Cheio de pensamentos,

E todos ali tinham seus pensamentos,

Suas identidades, Seus sonhos.

 Pensavam na vida como eu...

E agora só memórias.

Tudo maia, tudo ilusão, tudo deveio e devir.

Agora longe no espaço e no tempo.

No fim da tarde sou pura recordação.

Mais nada.

29/07/26

Espiral emocional

 São tantos momentos num dia.

Tantas coisas acontecem.

Algumas prevemos,

Outras são imprevisíveis;

As previsíveis gosto de regar com a leitura,

As imprevisíveis aceito e reajo.

O sol nasce,

O sol se põe.

A lua nem sempre nasce,

Quando nasce sempre me espanta.

Ontem estava tão bela.

Vi lá na estação de Cabo Branco.

Foi um espetáculo.

De um lado a cidade, do outro o oceano,

Acima a lua,

No meio de tanta beleza...

Minha alma pediu um momento para contemplação.

A vida é tão indescritível...

Cansaço e descanso,

Dor e alívio.

Viver e sentir a vida é uma poesia

Sem palavras,

Meu Deus como pode ser assim.

A morte até nos assusta nestes momentos.

Deixa pra lá...

Este momento é tudo.

28/07/26

Fatos do sertão

 Certo dia, na Salambaia que fica no Cariri paraibano. Acordei cedo e sai para caminhar e fazer fotos. Enquanto caminhava vi e fotografei inúmeras formas vegetais, entrei e sai do mato. A certas horas subi um afloramento, um enorme batólito. No afloramento haviam muitas cactáceas e bromeliáceas. Foi incrível porque encontrei ali uma samambaia que nunca tinha visto pessoalmente um Ophyoglossum, e bem ali. Vi algo extremamente interessante. Após parece mentira, mas não é. Se for foi alucinação. Vi três beija-flores rabo de tesoura se travarem numa briga na soca de um xique-xique. Foi uma briga feroz e barulhenta. Parecia que havia razão ali. Os três bichos se bicavam em meio aos ramos armados dos espinhos. Demorou mas dois deles abriram voando bem alto.

Andando mais para a frente encontrei um teiu se aquecendo. Eu o vi e vi que ele me viu, mas ele me ignorou. Sentei  na rocha, posicionei a câmera e fiz algumas fotos. Ele não teve medo de mim. Eu tive medo dele. Bichão daqueles. Pensei em descrever uma conversa, mas não saiu o diálogo. Dai fui embora e ele ficou ali. Ignorou-me completamente.

27/07/26

Araçá e sua existência

 O velho pé de araçá,

Que cresceu no pé da pinheira,

Tem tantos anos conosco.

Já foram tantos anos de existência,

Já foram tantas flores alvas floridas,

Seu crescimento marcava o tempo,

A gente sempre o mirava nas tardes de descanso.


Agora, julho de 2026, 

Tinha sob sua sombra,

Deitados no solo vermelho,

Amarelos e doces araçás.

Muitos docinhos araçás.

Primeiro se encheu de flor

O velho aracazeiro,

Vieram as abelhas,

Visitarem as flores alvas e docemente perfumadas,

Depois nos ramos

Verdades os araçás cresceram 

E agora no fim amadureceram...

E se fecha mais um ciclo,

Uma safra,

Um momento no tempo.

E aqui estou por testemunha

Desse grande companheiro 

Mais nada

Ser você

 Tudo que vivi reflete vez em quando em minha mente. 

A isto chamamos de memórias que levaremos por toda nossa existência.

Quantas manhãs estive com mamãe.

Parecia que sempre estaríamos juntos.

Com a descoberta do mundo, com as vontades.

Vieram as frustrações e a angústia;

Não sem como me lavar de tudo isso.

A existência certos dias parece um peso.

Será físico, químico ou psíquico?

Fica essa dúvida.

Nos passos da peosia

 Na poesia a realidade é moldada, Na poesia uma mente é concentrada, Na poesia uma chave é encontrada, Na poesia uma fechadura é aberta pela...

Gogh

Gogh