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13/04/26

O eu na chuva

 O vento,

A tarde chuvosa...

Tarde de domingo,

Sol sobre nuvens,

O canto da chuva,

O vento ondulando,

Oras acelerado,

Oras desacelerado,

Dois cataventos 

Dando pelo vento

Um verde e um azul.

Sanhaçu voando 

O verde escuro da mata...

O eu.

09/04/26

Tempo

 O silêncio frio da mata

aguardando a água da chuva.

A terra enxombrada,

Mole de tanta água.

Sementes germinando,

Fungos esporulando.

O sol, sobre as nuvens.

O tempo mudado.

08/04/26

Demora

 O sol acenou de manhã,

Mas logo desapareceu,

Choveu, choveu, choveu,

Nuvens escuras, luz branca.


A luz do fogo,

A luz de vela,

A luz...


Em outra forma,

Que não luz do sol.


A chuva,

A água escorrendo,

Cantando em toda calha,

Cantando na bica...


Água fria.


Um chá faz bem.

E o dia escorre,

E o dia molhado,

Demora a secar,

Demora a passar...


Demora

07/04/26

Com meu amado filho

 No mês de abril,

Após as grandes chuvas, 

pude no mato andar.

É gostoso sentir 

O perfumado cheiro da flor,

O amarelo doce do cajá provar.


Ver o feijão no campo de espalhando,

Nas hastes longas 

As flores roxas desabrochar.


E o agricultor com a campinadeira,

Dando ordens e o boi obedecendo 

Na carreira subindo e descendo.


A vista cheia de beleza, o cheiro 

Da terra arada,

O canto da passarada.


Andar no meio do mato,

Com cuidado pra uma cobra não encontrar,

Vendo a copa da mata fechada.

O cuidado pra não se estrepar.


Ver o açude de água nova barrenta,

O som da água na pedra escorrendo...


E o peito cheio de alegria...


A alma que é uma poesia...


Essas coisas bonitas 

Que a gente leva pra vida.

31/03/26

Catarse

 Pink Floyd e a tarde

Não conhecia Pink Floyd.

Era algo tão distante de minha realidade.

Era algo tão distante de minha vida.

Que nunca ouvira falar.

Eu um garoto do interior que só conhecia as rádios AMs e depois FMs.

Em sua maioria essas rádio tocavam rock romântico, embora Pink Floyd seja uma banda neste estilo.

Nunca havia conhecido.

Uma tarde, ouvi e senti Pink Floyd.


O ano era 2005, estava na ESEC- Seridó. Fazendo coletas botânicas para o mestrado.

Era uma fim de tarde.

Não estava sozinho no alojamento.

Quem estava lá eram amigos e meu saudoso e amigo professor Adalberto Varela Freire.

Adalberto era, para mim, um gênio, um bruxo, um ser humano extraordinário real que dominava o mundo das ideias. Sim ali, sabia nome de plantas e bichos e geologia e nuvens...

E era um grande contador de história e meu professor.

Era um ser humano além do normal.

E ele gostava de rock.

Longa exposição do mestre porque merecia.


Então ou vi a musica "Coming back to life".

Estava no laboratório quando ouvi.

Parei, algo catartico.

A janela do laboratório que dá para o poente estava aberto.

O sol se punha...

O segundo crepúsculo era pleno, 

O céu era azul...

A luz do sol tingia de dourado a paisagem seca da caatinga.

A luz enchia o mundo de beleza,

A luz era refletida no açude.

Eu senti eternidade naquele momento.

Eu senti eternidade naquele momento.

Eu senti a eternidade ali.

Eu sabia que nunca mais iria me esquecer aquele momento, aquele lugar.

Eu senti que podia viver aquele momento pela eternidade.

Momentos fugazes.

A música acabou.

O sol se apagou no poente.

E uma noite se foi.


Dá pra sentir o calor daquele espaço,

A textura da cor,

As curvas daquele som.

Produzido tão longe...

Afetando um ser ignorante na língua que estava sendo cantada a música.

Ignorando o significado.

Senti beleza.

Uma conexão divina.

E tudo passou...

Mas ficou na minha memória.

Deveras uma sensação impar.

Uma percepção que pode se propagar...

Adalberto se foi.

Há anos não voltei na ESEC.

Mas ela está dentro de mim.

Pouco ouço essa música, mas já é parte de mim.

Será que foi o por do sol apenas?

30/03/26

Recife primeira impressão

 Quando cheguei lá,

Tomei um susto

Um susto de realidade.

Casas trepadas nas barreiras,

Casas de tábua,

Casas de lonas...

Casas...

A minha casa pareceu um palácio.


E ninguém ali, imaginava,

O que em minha mente passava.


A gente anestesiada,

A quela gente acostumada,

A chuva e ao sol,

As casas onde morava,

As casas que ali estavam.

Eram casas.

Eram pessoas como eu,

Vivendo sua vida,

Vivendo sua realidade,


A mim uma triste realidade.

Irreal a minha realidade...


Tudo bem, ali era ali.


Bem distante daqui.


Quem se preocupava

Com aquela pobre gente,

Com nome, com voto...


Seu valor,

Nitidamente marginalizada.


Recife...


Grande Recife.

A capital da cultura,

A capital do Pernambuco...


É real,

Em sua entrada não mostra maquiagem

´

É tudo gente e verdade...


Fiquei afetado,

Fiquei impactado...


Mas descobri naquela gente,

Amizade, bondade.

Gente real...

24/03/26

Farinhada

 A mandioca arrancada,

Em caçuas carregada,

Na casa de farinha,

Derramada e arrumada,

Descascada.

Mão ligeira,

Conversa frouxa,

O alvo amido,

Cheiro da raiz limpa,

Motor ligado,

A batata cevada,

A maça branca,

Vai ser prensada,

Espremendo a manipoeira...

Agora a hora da lavadeira,

Lavadeira nova,

Roupa ajustada,

A rede dançando,

Pra lá e pra cá.

A goma decantada na gamela,

A massa lavada vai ser assada,

O cheiro da manipoeira fora casa,

Lenha acesa,

Rodo a posto,

Massa espalhada,

Começa a torrada,

O assador a dançar,

Pra lá e pra cá.

É Paté?

É. 

E o cheiro da farinha incensa a casa.

Depois o beiju e a tapioca.

E a novena de graça.

Vida boa foi a minha.

21/03/26

Uno particular

Manhã prima,

Sol sobre a nuvens,

O bafo da chuva ainda se desprende da terra molhada.

A sensação de calor é do tempo

Ou do chá que tomo?

Os quero-quero voam cantando,

Como quem dança,

Como quem agradece a chuva.

Venho testemunhando essa cena em tantos lugares...

Soa como um reflexo no tempo.

Quando percebi pela primeira vez não sei,

Mas onde sim. Posso afirmar que foi na minha terra mãe.

Meu berço materno.

Um dia, creio quando criança percebi...

Deveras foi no primeiro trimestre do ano.

As ervas germinadas no campo.

O carvão enxuto dormindo no chão molhado.

A semente de mucunã germinando lentamente,

Se hidratando na cama de folha da mata,

Mirada pelos caules cinzentos ou marrons...

As vezes, ninadas pelos sapos a dançar e namorar nos tanques sobre xistos.

Uma chave... uma breve memória que renasce enquanto há vida neste corpo, neste ser.

Enquanto existir...

E veja a existência faz sentido em sua história,

Em sua imanência... para além de tudo isso a transcendência.

13/03/26

Transição

 Vi a aurora nascendo;

Não sei qual o momento,

Mas vi a aurora despertar,

Tal qual brasa na cinza,

Soprada pelo vento,

A brasa acendendo.

Estava muito escuro!

Em pouco tempo,

A luz foi se acendendo,

Rubra, encarnada.

Fraca, tênue...

Foi se acendendo,

Um convite a reflexão,

Um convite a contemplação,

Um despertar de memória,

Um convite a ver o passado...

Feliz...

Aurora, naquela hora.

Hora ensurdecedora,

Silenciosa...

Fez me olhar no fundo de minha alma,

Em meio e imerso em calma...

Fui fazer o café,

Então o gás acabou.


11/03/26

O grande encontro

 Na mata nasceu a sucupira,

Desmataram a mata e deixaram a sucupira,

Ali virou um estacionamento,

A sucupira ficou na curva de uma via,

Por isso a via se chama curva da sucupira,

A mata virou uma universidade...

A sucupira continua a crescer.

Todos os dias posso contemplar a sucupira imponente,

Seu tronco grosso e casca áspera,

Porta folhes pequenas,

Uma vez por ano fica roxa de flores...

Hoje, um sanhaçu a escolheu para cantar,

Voou até  os ramos dela,

Se preparou e cantou...

Cantou um canto belo,

Como é seu canto.

Cantou como se cantasse pela última vez,

Cantou para si?

Cantou para uma amada?

Cantou para mim?

Cantou.

A sucupira se sentiu até feliz.

E o dia seguiu normalmente.


10/03/26

Em silêncio

 O lugar respeita a manhã.

Tudo é paz e silêncio.

Aos poucos o lugar desperta,

As aves são as primeiras

a despertarem.

Umas gritam,

Outras pulam...

Os grilos cantam no balceiro de ervas.

Silêncio.

As máquinas funcionam sem cansaço,

Piscam cores verdes, vermelhas,

Zunem...

As folhas das árvores parada,

Despertam...

E um novo dia chega.

Em silêncio.

05/03/26

Chico Firmino

 Ontem partiu em Martins no RN Chico Firmino. O último dos Firminos dos troncos primeiros.


Tive a oportunidade de conversar com ele ano passado. Com 97 anos falava com uma lucidez impressionante.  Gostava muito de prosear. Foi conhecido antigo de meu avô José e meu pai e nossa família. 

Proseando, perguntei se ainda tomava uma!

A boca sorrindo com apenas um dente respondeu que adorava.

Perguntei se conhecia Eliseu Ventania e me respondeu que desde criança.

Fiquei impressionado com a lucidez.

Sempre que ia a Martins o via ali depois do posto de gasolina, depois de Yula de Chica Piula.

Na frente da casa dele tinha um pé de abacate.

Sempre que ia na casa de minha tia o via.

Cego de um olho, magro e alto...

Viveu uma vida longa e cheia de lutas e graças.

Dormiu no senhor.

Vá em paz Chico.

04/03/26

Herbário um labirinto

 Armários em ordem alfabética,

Armários com livros,

Armários com exsicatas,

Famílias, gêneros e espécies,

Quase tudo determinada,

Mas há coisas indeterminadas,

Muitas coisas conhecidas

A maior parte desconhecida.

Um labirinto,

Que contem municípios,

Regiões, estados...

Uma fotografia da flora,

Um recorte da vegetação...

Feijões, cafés, cajás...

Á tarde de quarta,

Gosto de está no labirinto!

Sinto que estou vivo

Entre coisas mortas,

Peças, ramos, flores e frutos secos.

Através da janela o subosque verde,

Com heliconias, singoniuns,

O verde e a tarde que cai mais depessa

Quando estou no labirinto.

Gosto da companhia de Satier,

Suas gimnopédias,

Seu piano.

E a imaginação me levando pro futuro,

As exsicatas para o passado.

Me fazendo pensar...

02/03/26

Tudo vai bem

 Abro a janela de minha sala.

Sinto o frescor frio entrar,

A mata molhada se cala,

Avisto um sabiá de papo branco,

Ele me olha como quem me ver,

Depois me ignora...

É sua casa fernanda a aroeira.

Abre suas asas, estufa o peito e canta.

Sou apenas um espectador 

Deste singelo cantor...

É tão bom quando ignoramos o devir,

Quando cremos em Deus.

Tudo vai bem.

24/02/26

Memória uma fonte

 Memórias guardadas como despertadas?

Vi aquela visão de muito tempo atrás. A gente tinha umas vacas. E vez por outra mudava de currais. Ai a gente plantava nesses currais. Veio agora de imediato do nada os embuás encontrados de baixo da paus deitados no solo onde estavam o milharal. A sensação de calor, luz intensa, presença de vida. Papai e eu trabalhando. O embuá preto com pontos amarelos. Embuá casco-de-peba. A terra molhada e macia. A enxada. Minha conexão com o bicho. Com a vida. A tentativa de entender o mundo no meu entorno.

Foi árduo, virou memória e hoje uma doce memória e a presença de papai na minha alma.

15/02/26

O eu

 Olha o céu!

O que pode ver o firmamento azul e as nuvens alvas.

Nuvens de forma amorfa em constante movimento e transformação.

Tão inconstante é a atmosfera.

Assim é a mente humana.

O azul, o amarelo e o vermelho.

O triângulo.

Os números arábicos: um, dois e três.

A unidade divina.

O absoluto.

O movimento.

O dualismo.

O signo...

O som, as imagens, cores e formas.

A busca.

A razão.

O espaço eterno e o tempo seu testemunho.

O tempo a imagem da eternidade.

O eu...

12/02/26

A chuva, a manhã e eu

 Amanheceu chovendo,

A chuva suave e silenciosa,

A luz pouco difusa e silenciada pelas nuvens chuvosas.

Ali na mata as árvores estáticas a gotejar.

Silêncio total.

Vez por outra canta uma sabiá,

Uma garrincha, um gatuno...

O resto é silêncio!

Luzes apagadas, 

A calha começou a cantar...

A luz branca da sala,

Mostra nossa fotografia, 

Mamãe, Vinícius e eu,

Mostra brinquedos de Vinícius bebê,

Mostra sementes,

Mostra livros...

Círculos, cores,

Presentes, 

Ídolos...

A placa amarela da moto titan 1997 de papai...

NE 464 - Martins RN...

A luz, o som e o clima e minhas representações.

11/02/26

Sonho e amor

 Sonhei ser tanta coisa.

Sonhei com a grandeza.

Lutei pelos meus sonhos.

Amei as filosofias.

Hoje a vida vivida em parte.

Percebo que a vida vai ganhando sentido no viver.

Hoje o que mais amo não estava em meus sonhos,

Mas estava lá comigo em potência e em ato,

Minha família e meu filho.

Os meus sonhos foram a lenha 

Para sobreviver até aqui,

Foram importantes para ser o ser que sou,

A parte isso pulsa em mim a humanidade,

Sou igual a todos com todas as dificuldades e facilidades...

Sou a vida que entendeu que o tempo tudo consome,

Sou sentimento e esperança e o mais sublime amor.

06/02/26

2020-2025

 Quando mamãe partiu. Senti tanta saudade. Saudade dupla, pois papai havia partido um ano antes. O

de 2022 choveu muito. Tinha um maracujá no nosso terreiro da cozinha crescendo sobre a laranjeira, a mangueira e as pinheiras. 

Roberto não quis cortar.

Aquele maracujá ficou roxo de flor. E as flores continuavam abertas até a noite.

Com suas coronas lilases, pareciam está de luto comigo.

Minha única alegria era o meu filho.  Fomos todas as vezes que podemos naquele ano em casa.

Comemoramos a vitória de Lula. Neném de Teófilo estava lá. E em menos de dois meses partiria também.

Nós íamos a casa de Tia Nina, Vinícios adorava. Tia Nina foi no Ano seguinte...

Coisas muito tristes vivi entre 2020 e 2025.


Intensificando o momento

O sol ardente cozinha o céu azul. A caatinga treme ardendo num calor plúmbeo.

A casa de alpendre refrigera o mormaço.

Numa das linhas o juriti trabalhou,

De cisco em cisco construiu um ninho

De palha de capim.

Ora em silêncio ora a cantar chocando seus ovos alvinhos.

A Alamanda cresce no quintal ao lado do limoeiro dali, vemos flores e frutos amarelos...

O verde das folhas e as flores alvas das cajaraneiras, 

Os nós e entremos das canas, 

As folhas penadas dos coqueiros.

Os sons amorfos dos sábias, galos-de-campinas, patativas, o nariz ativo de boca preta o cachorro filhote,

O grasnido do Martim pescador,

A Garrincha marrom...

Essas coisas eternas que encantam.

Amanhece

 Enche o peito do ar frio da madrugada. Traz em si um cheiro particular, Cheiro das chuvas de abril, Cheiro da mata molhada. O silêncio é su...

Gogh

Gogh