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03/06/26

Retrato do sertão

 Na terra seca das Vertentes 

Profundamente dorme a vegetação  

No período seco do verão,

Ali sopra o vento contente.

Do chão se assanha a poeira,

Da mata faz soar um doce cantar,


As tardes tão encarnadas,

As manhãs todas douradas,

De dia o sol arde intensamente,

Canta a cigarra alegremente.


Na manta cinzenta maiado o gado,

Rumina, respira e calorosamente.

Relaxando, sentindo o mundo.


Ali naquela pequena matinha 

Se ver catingueira e marmeleiro,

Destiorados e desfolhados,

Vê-se ainda bem ali, junto aquele lajedo

O Xique-Xique e o facheiro,

Carregando o verde esperança 

Armados da base ao alto.

Ali, bem no mufumbo ouvi um trinado.

O mais lindo corrochiado.

Imediatamente fiquei encantado.

Era o canto de um golinho.

E trouxe para sempre aprisionado em minha mente,

Faz parte de minha alma.

Essa beleza sonora.

Aprendi de imediato o nome deste passarinho.

Seu ser,

Sua forma,

Suas cores,

Seu canto e seu espírito que passou a ser parte de mim.

Seu bico amarelinho,

Seu papinho bem alvinho,

Com uma gola escurinha,

Costas bem cinzentinha.

Senti a beleza...

Em tudo, nas vertentes,

Na mata e nas plantas,

E no golinho cantando lindamente.

10/05/26

Notas da semente do amor

 A vida é uma dádiva.

Felizes os que vivem e conhecem a sabedoria,

Felizes aqueles que sente todas as fazes da vida,

Felizes os que chegam a ter cabelos brancos, abraçarem seus netos.

Estou rompendo a idade adulta.

E com Deus tudo fica mais suave. Os anos vêem me ensinando essas sabedorias.

Quando era menino! Ah, nesta época Deus me deu um lar, pais e irmãos.

Eu sabia que era amado pelos afagos de minha mãe, pelo carinho de meu pai, pelas amizades de meus irmãos.

O mundo refletia em mim bomdade...

Eu sentia felicidade com as coisas mais simples,

Corrida descalço na areia fria,

O cheiro da flor do caju indicando fartura,

O encontro com as frutas maduras no pé,

As goiabeiras, as pinheiras, as cirigueleiras, os coqueiros...

Papai a prover a casa com seu trabalho,

Mamãe na árdua tarefa de educar, de cuidar de cinco filhos...

Além de cuidar e se preocupar com meus avós Zé e Sinhá.

As galinhas no terreiro pondo ovos para mamãe vender e fazer uma arrumação,

Um chinelo, uma roupa para cada um...

O dinheiro era pouco, mas as necessidades também...

O importante é que nunca ficamos um dia sem ter o comer,

A comida era pouca, mas a natureza ajudava...

Aos poucos  vida vai se revelando dura... mas meus pais amenizavam com seu cuidado e amor...

A seca de 1993, me revelou a natureza da natureza de nosso lugar...

Bichos morrendo, água reduzida...

Bem antes, em 1986 as coisas ficaram tão difíceis que as pessoas não podiam comprar café...

E a criatividade imperou, café de milho, café de canavalia...

Mas papai não deixava faltar o café que eu gostava...

Papai não tinha medo de trabalhar, tinha confiança comprava em Chico de Pocídio.

Vendia as castanhas a Ítalo de Sales.

Entendíamos tudo, pois ouvíamos papai com mamãe conversar.

Nossa casa baixa de paredes vazadas...

A noite na cama eles conversavam parece que queriam nos ensinar e a gente escutava e entendia.

E veio as escolas, os colegas e as relações sociais... Aos poucos fui perdendo a ingenuidade,

Aos poucos fui perdendo a felicidade...

As chuvas de inverno...

Os verões secos e falta de água,

As plantas e os bichos ficando escasso...

A descoberta da morte...

A perda da ingenuidade me deram medo de viver.

Mas viver é preciso...

O velório de vovó Chico... 

Marcou muito em minha vida...

Papai chegou em casa num taxi chevete amarelo chegou em nossa casa numa tarde de chuva.

Ver papai chorando derreteu meu coração... Tive medo da morte. Fui ao seputamento...

Não vi nada. Lembro do cortejo, o carro de conduzir o corpo... o caixão azul de pano.

A dor cravada em meu coração...

Naquele cortejo vi pela primeira vez o açude de Serrinha grande, Vi uma canoa...

Tive profundo medo daquela que separa a vida.

São fazes da vida...

Depois veio a escola... Dona Livani...

Minha segunda professora Dona Lenita,

Minha terceira professora dona Ceição.

Serrinha do Canto,

Serrinha Grande...

O medo de professora Rivete que me ensinou ciências.

O carinho pelo professor Ledimar,

As histórias maravilhosas do professor Chaguinha...

A ciência enervada na educação foi dando cálcio ao meu entendimento...

As enfermidades de minha mãe pobre sempre com dores...

O coração mole de Rosângela minha irmã amada.

A partida de meu irmão que nunca mais voltou a morar conosco.

A falta de apetite de Lidiana.

O retorno pra casa de Meirinha...

Roberto chegando em nossa casa.

A família de Eliene que saio do lado de nossa casa.

Sua mãe dona Eunice tão humana e generosa... a primeira vez que tomei danone foi ela quem trouxe de Natal.

As idas com mamãe onde ela ia. 

Estávamos sempre juntos com um caldeirão de ovos indo para Martins.

Indo ao Sampaio, indo ao Sítio de Fora, indo a Alexandria...

A triste partida para a capital uma felicidade imensa e uma infelicidade...

Doeu saber que papai e mamãe choraram muito.

E tudo isso se passou em nossa casa geminada.

A casa e a casa velha...

E tudo aconteceu em Serrinha do Canto...

Ali foi o palco de minha infância.

Ali tive o primeiro alicerce para vida que levo no peito até hoje.

A fé católica, o novo testamento...

O esforço e suas recompensas

E a principal coisa o amor a família

O amor a vida que renasceu de forma abrasadora com o nascimento de meu filho.

Amém.


07/04/26

Notas da existência

 A areia seca,

O solo molhado,

Sobre o solo a gitirana 

Cresce se esparramando.

Tão belo seu movimento,

De crescimento,

De vida efêmera.


A Pinheira verdinha.

Senhora Pinheira,

Amiga conhecida

De tantas safras,

Tantas visitas,

Sanhaçus,

Vem-vems...


O fruto verde gerado,

Crescente e maduro.

Do duro ao mole,

Só verde ao branco.


Dia e noite,

Verão e inverno.


Chuva e água.


Ser.


Ali ao lado,

Tantas vezes me sentei.


Tantas vezes me senti.


Sou uma Pinheira.

Que resiste se sequidão.

Que sofre calada,

As ervas daninhas nos meus galhos.


Sofre calada o calor, mas repleta de esperança 

Pelo tempo de bonança que sempre vem.


Para a terra.

O lugar.

A existência...


Sentado ali.

Foi confidente a Pinheira,

Minha de papai e de mamãe.


Quando eles participaram ela estava triste e desgalhada e assim me senti.


Ontem estava plena.


Eu também.

Mas havia um certo vazio no meu peito...

Que nunca vai passar...

É a autoconsciência.


Queria ser uma gitirana espalhando-se pelo chão.


Mas o tempo, a memória me fizeram Pinheira.

24/03/26

Até

 Carrego as memórias de minha vida,

Muitas alegrias e felicidades,

Também dores e ferida...

Carrego no peito muitas saudades


Saudade de meu lugar,

Saudade de meus parentes,

Saudades da minha vida,

Saudades, pois a vida parecia querer mais...

E não dava para ser plenamente vivida.


Foi embora no tempo,

Fui em busca deste invento

E perdi tudo,

E ganhei tudo...


Muito ficou em mim,

O que pude trazer...

Agora posso escolher o que devo levar

O que devo ensinar...

Aprendi muito sozinho só a observar...

E continuo a aprender...

Até.

15/03/26

Limiar

 O silêncio da madrugada me desperta.

A luz tênue da manhã começa a surgir.

Fora canta um sanhaçu,

Um som forte e próximo,

Vou até a sacada.

Voa e o silêncio reina.

Volto a cama sinto o calor da coberta,

Cheiro os cabelos e meu filho.

O tempo, esse pensamento que me perturba,

Vem a minha mente,

Então o espanto...

Vou a rede armada na sala.

Olho através da janela,

Olho meus quadros de uma casinha, mandacarus e macambiras,

Olho para ele e vejo meu sertão.

Um sertanejo no litoral tem que ter sementes de sua terra natal espalhadas na casa...

O tempo avança.

Um carcará pousa na antena do prédio a frente.

Majestoso, vocaliza e arqueia o pescoço.

Repete poucas vezes,

Depois voa...

Onde estou... Perdido no mar de ideias.

Então, vou preparar o café.

E tudo se conclui aqui.

20/02/26

Alma de poeta

 Um poeta se dispõe a pensar e o mais laborioso escrever.

Um poeta organiza suas ideias. Ele transforma o momento efêmero em beleza e substrato para o pensamento.

Poetas, acho que morrem de medo da morte. Descobriu que nas palavras pode se imortalizar.

Um poeta ver a beleza e a põe em palavras. Ele usa os sons para rimar. 

Tem poeta de todo jeito. Uns agricultores como patativa do assaré.

Os poetas eruditos não o entenderiam pois são se Capela.

Um poeta professor como Anacleto. Esse tem um pensamento cristão. Sua poesia é linda cristã e divertida.

Um poeta pintor como Vandembergue... só fez um livro, mas é maravilhoso. Sua poesia é visual?

Um poeta Lino Sapo que como o rio ao receber água nova ganha potência e vai levando o amor a frente.

Um poeta que canta como Ivanildo Vila Nova... Valdir Teles... 

Um poeta da serra um cancioneiro Eliseu Ventania foi o poeta que vi papai admirar.

Que ilusão definir os poetas...

Os primeiros que descobri e amei foi Bandeira e Drummond.

Sou pobre nesse quisito.

Aprecio o bonito e perceptível.

Tem um poeta maior Manuel de Barros...

Ah! Pantanal de juma minha primeira paixão...

As aves, as águas, os lagos e os rios. A imaginação dá um brilho a realidade...

Só desprendidos de nossos desejos podemos ver a realidade como se apresenta.

Ser poeta... uma vontade.

Mas ai...

23/12/25

Rio a fluir

 A noite de hoje caiu totalmente diferente de ontem.  Fresca, nublada e suave. O chão enxombrado, as folhas molhadas, o aroma de chuva...

E a sensação que sinto é de esperança e aconchego e paz.

Chuva chegando

 No ápice da seca, numa tarde de dezembro, depois do dia nascer nublado, uma neblina começou a se precipitar. O som dos primeiros pingos no telhado, o cheiro da água molhando a terra a sensação de frescor na pele.

A gente sente a intensidade da vida, a esperança, a plenitude e a felicidade da existência.

Vinícius feliz dentro dos cinco anos perdendo a ingenuidade do não saber ler.

Essas coisas plenas.

Sensação

 Céu nublado de nuvens de chuva.

O tempo está quente, mas o vento é fresco.

Sentei-me numa cadeira e ouço um caburé cantar longe.

Descalço saio da sala e vou à cozinha beber água.

O chão frio refresca o calor.

Encho um copo raso de água fresca. Enquanto bebo sinto o meu corpo refrigerar.

Olho lá fora na área onde está créo o louro e vejo um rixinó marrom, com listrinhas pretas está faltando em direção ao quarto.

Mudo a vista e vejo uma vasilha cheia de mangas amarelinhas

Então volto e sento na cadeira e isso é tudo.

29/07/19

Conhecer-se

O que acontece que às vezes a gente não sente vontade de levantar?
A gente levanta à força como se fosse pra forca.
Não queremos ver o dia nascer,
Não queremos que nada venha a acontecer,
Mesmo assim a gente levanta, porque é preciso levantar,
A gente faz esse sacrifício para nós mesmos.
Isso acontece especialmente às segundas-feiras.
Parece que nos falta motivação, café ou coisa parecida.
Mas tem ocasião que a gente só quer está nessa situação,
Quando estamos com uma doença séria.
E por isso, a gente precisa orar,
Precisa de fé,
Porque a razão e o saber não funcionam.
Infelizmente.

17/02/19

Sentido oculto

As manhãs de domingo com seus cafés,
As conversas entre adultos,
O céu essa eterna incógnita,
Os cantos e os quintais que não conseguia ocupar estando lá,
Os lugares vistos,
As pessoas que se revelavam e me permitiam conhecer o que queria que fosse conhecido,
As leituras lidas, palavras impalatáveis, frases, parágrafos,
O desejo de tudo saber, feito Fausto!
Esta construção inacabada que é ser,
E se perder sendo muito menos daquilo que se é.
Apelar para as memórias,
Essa vontade de saber,
Essa sinfonia inacabada,
Só sobram imagens desconexas numa memória,
E o eterno medo do fim.

15/10/17

O domingo em desespero

Meus pensamentos!

Certamente, entre os anos de 1980 e 1985 quando era criança, bem criança, pude conhecer pessoalmente meus tios, meus avós. Enquanto o mundo se apresentava como novo para mim, para meus avós o mundo já se apresentava em totalidade para eles. Infelizmente não poderei mais tê-los, talvez eles nem me compreenderiam.
Hoje entre 2014 e 2017 o mundo se revela a mim e é iniciante para meus sobrinhos.
Não tenho filhos, nem sei se os terei.
Me falta paciência para mim mesmo.
Busco nas memórias sentido para a vida...
Porque não vivo o presente?

As vezes é bom pensar e recontar nossa história.
Amanhã é segunda-feira um dia em que a realidade sempre bate a porta.

Tudo é volúvel e contínuo, mas não teremos as segundas-feiras para a eternidade,

Então tchau vou viver o domingo.

10/12/11

Senti

E quando a tarde caiu,
quando a noite quase
chegava.
A natureza em silêncio
me calou.
Olhei para o céu,
olhei para dentro de mim,
Me senti pequeno,
e olhei para a tarde,
e olhei para mim.
E a tarde partiu
e a noite chegou
silenciosa feito brisa.
E eu senti a noite
e eu senti a vida.

09/12/11

Sentir

A tarde toda é silêncio.
A rua está vazia e fria,
ainda molhada da chuva.
As aves gorjeiam.
Eu não sei, parece até que
morri.
Todo o meu ser é silêncio,
as vezes desilusão,
nenhum verso ou poesia.
Eu olho para o mundo
belo e colorido, sinto-me
escuro, taciturno,
macambuzio.

Bosque dos Namorados

 Fomos recentemente ao parque das Dunas.  Ir ao parque das Dunas é para mim um ponto importante de minha vida. A primeira vez que fui foi em...

Gogh

Gogh