Acordei de madrugada,
O silêncio imperava.
Um caburé deu início uma toada,
No escuro este cantava.
O Caburé nem imaginava
Que de longe eu escutava.
Na rede eu deitado,
No ramo ele pousado...
Ele cantava e silenciava,
Eu aqui imaginava...
Eu sabia que ele existia,
Ele por mim não nem sonhava..
A minha existência,
Nossa existência
Num mesmo lugar.
Eu aqui e ele lá.
Ele cantou e eu ouvi.
Cantava para outro escutar,
Cantava pra demarcar,
Cantava para atrair,
Cantava por que existia...
O caburé que foi ovo,
O caburé num ninho gerado,
O caburé que foi cuidado,
O caburé aprendeu a voar,
O caburé aprendeu a caçar,
O caburé aprendeu a cantar na noite.
O caburé conhece a lua, mas não sabe falar lua,
O caburé canta pra lua...
Caburé...
Vim conhecer o caburé a pouco tempo.
Conhecia a palavra caburé.
Ouvia papai dizer que vovó falava olhe o caburé de orelha,
Mas nem dava por ele.
Então um dia o vi
E não sabia quem era.
Sabia que era uma coruja e só.
Seus olhos grandes,
Sua pena rajada,
Seu bico curvado,
Seus dois dedos pra frente e dois para trás.
Um dia ouvi seu canto
E foi aquele espanto,
Pois pra minha surpresa,
Conhecia aquela beleza
Aquele canto
Já ouvira tanto
Mas não sabia de quem era...
Era o caburé
Cantando no tempo
Ecoando em minha mente...
No tempo compassado,
No presente
E no passado.
Memórias da alma.
E nessa madrugada
Ouvi um cantar
Era você caburé...
Eu que fui tantos,
Tonto, voltei a ser quem fui...
No dia que primeiro te ouvi
Caburé.