Certo dia, ali onde a serra se inclina.
Onde o barro vira pó,
Onde as pedras são cor de vinho.
Sobre aquele barro uma semente caiu.
Era uma semente preta e grande.
Ninguém viu.
Isso se passou no final do inverno.
Por longos meses a semente dormiu ao relento.
Em Dezembro na festa de nossa senhora da Conceição choveu muito.
O povo que vinha do sertão, da serrinha grande passou pertinho da semente e nem viu.
A semente então se inchou e sua casca se rompeu.
Aquele embrião grande com cotilêdones grossos e rosados,
Alimentou aquele ser,
até que ela crescesse.
A planta foi crescendo oculta no verde do mato.
A planta virou árvore,
E o lugar ganhou seu nome.
A planta se chamava pau-de-óleo, mas passou a ser chamada de PODOI...
O Podoi virou um lugar,
Um ponto de encontro.
Todo mundo de Martins que não era da cidade conhecia o Podoi.
Eu que nasci em 79 conhecia muito bem.
Conhecer planta era uma coisa comum.
Todo mundo era agricultor e todo mundo ali naquele lugar sabia o nome das plantas.
Por isso, sabia onde se estava porque o nome do lugar era o nome das plantas.
Bom os leitores, meus leitores, a quem faço referências estão vivos.
Se disser para eles que temos tínhamos em Martins as cajazeiras... vão dizer depois da Água-de-maroca.
Pois bem....
Sob o Podoi, muitas coisas aconteceram.
As pessoas usavam sua sombra para esperar seus companheiros para descer a serra.
Indo para a Pintada, Morcego, Sossego, Serrinha Grande, Serrinha do Canto, Grugeia, Sampaio, Lajes, Boa Vista, Porção, Sítio de Fora...
Todo muno passava por este gargalo. A noite deveria ser assustadora aquela árvore...
Será se prestaram atenção nas suas flores, nas suas sementes?
Contavam que antes as pessoas eram enterradas em redes.
Depois de subida a ladeira paravam ali para descansar...
O podoi viu muita gente sub sua sombra, gente morta em redes fracas.
Gente viva.
O podoi vi as mamães subindo para parir na maternidade e descer com seus bebezinhos.
De dia e a noite, registrava tudo que ali passava.
Vitória de José Fernandes, Manuel Barreto, Marcos Fernandes.
Viu os carros de Serrinha subirem cheio de gente doente.
E nos fins de ano, as pessoas virem ver as festas de fim de ano.
Chinela, pé empoeirado... Papai passou ali, meus tios e tias.
Por ali viu minhas tias e tios indo se casar e voltarem casada.
Ontem crianças, hoje idosas.
O tempo contou também a vida do podoi.
Ele foi morto.
Queimado... sem o mínimo de respeito.
Acabou-se.
Acabou-se.
E esse texto, não tem serventia alguma...
Não terá por falta de materialidade, por falta de testemunho.
Tudo que falei é verdade.
Ninguém vai julgar ser verdade, mas minha família os Teixeira e os Queiroz...
Os troncos familiares, sabem que falo a verdade.
Lugar é um lugar.
Lugar é infinito e eterno.
A história é humana...
E isso é uma gota caída no oceano da história humana.