08/07/26

Podoi

 Certo dia, ali onde a serra se inclina.

Onde o barro vira pó,

Onde as pedras são cor de vinho.

Sobre aquele barro uma semente caiu.

Era uma semente preta e grande.

Ninguém viu.

Isso se passou no final do inverno.

Por longos meses a semente dormiu ao relento.

Em Dezembro na festa de nossa senhora da Conceição choveu muito.


O povo que vinha do sertão, da serrinha grande passou pertinho da semente e nem viu.


A semente então se inchou e sua casca se rompeu.

Aquele embrião grande com cotilêdones grossos e rosados,

Alimentou aquele ser,

até que ela crescesse.

A planta foi crescendo oculta no verde do mato.

A planta virou árvore,

E o lugar ganhou seu nome.

A planta se chamava pau-de-óleo, mas passou a ser chamada de PODOI...

O Podoi virou um lugar,

Um ponto de encontro.

Todo mundo de Martins que não era da cidade conhecia o Podoi.

Eu que nasci em 79 conhecia muito bem.

Conhecer planta era uma coisa comum.

Todo mundo era agricultor e todo mundo ali naquele lugar sabia o nome das plantas.

Por isso, sabia onde se estava porque o nome do lugar era o nome das plantas.

Bom os leitores, meus leitores, a quem faço referências estão vivos.

Se disser para eles que temos tínhamos em Martins as cajazeiras... vão dizer depois da Água-de-maroca.

Pois bem....

Sob o Podoi, muitas coisas aconteceram.

As pessoas usavam sua sombra para esperar seus companheiros para descer a serra. 

Indo para a Pintada, Morcego, Sossego, Serrinha Grande, Serrinha do Canto, Grugeia, Sampaio, Lajes, Boa Vista, Porção, Sítio de Fora...

Todo muno passava por este gargalo. A noite deveria ser assustadora aquela árvore...

Será se prestaram atenção nas suas flores, nas suas sementes?

Contavam que antes as pessoas eram enterradas em redes.

Depois de subida a ladeira paravam ali para descansar...

O podoi viu muita gente sub sua sombra, gente morta em redes fracas.

Gente viva.

O podoi vi as mamães subindo para parir na maternidade e descer com seus bebezinhos.

De dia e a noite, registrava tudo que ali passava. 

Vitória de José Fernandes, Manuel Barreto, Marcos Fernandes.

Viu os carros de Serrinha subirem cheio de gente doente.

E nos fins de ano, as pessoas virem ver as festas de fim de ano.

Chinela, pé empoeirado... Papai passou ali, meus tios e tias.

Por ali viu minhas tias e tios indo se casar e voltarem casada.

Ontem crianças, hoje idosas.

O tempo contou também a vida do podoi.

Ele foi morto.

Queimado... sem o mínimo de respeito.

Acabou-se.

Acabou-se.

E esse texto, não tem serventia alguma...

Não terá por falta de materialidade, por falta de testemunho.

Tudo que falei é verdade. 

Ninguém vai julgar ser verdade, mas minha família os Teixeira e os Queiroz...

Os troncos familiares, sabem que falo a verdade.

Lugar é um lugar.

Lugar é infinito e eterno.

A história é humana...

E isso é uma gota caída no oceano da história humana.




Artista

 Ontem, fomos a praia. Sassá pediu uma folha de coqueiro e fez uma arte. Uma medusa, uma cobra engolindo uma cobra? Ele sabia que era uma ar...

Gogh

Gogh