05/03/21

13. Saudades

O amor foi feito só para quem ama de verdade.  E eu nunca senti por ninguém o que sinto por você. Te amo de verdade. De seu pai para Rubens.  

Está frase está numa plaquinha que papai trouxe do Canindé.

Papai era assim nos pegava no amor nos simples gestos.

Seus presentes jenuinos enchiam nossos espíritos de maravilhosos sentimentos.

Hoje recebeu seu amigo Amós aí onde estiver.

Saudades.

12. Sentido

 Ainda é muito viva a presença de papai na minha vida. Faz quase três mês que ele partiu, mas ainda sinto

 intensamente sua presença. Ouço sua voz. Vejo seus gestos. Lembro de nossas conversas. Lembro de tudo.

Dói muito saber que não terei mais sua presença não compartilharei mais nada.

Quando adoeceu foi a pior parte de nossas vidas, pois adoecemos juntos. Entramos em desespero.

Fui correndo cuidar dele. Ele falou assim. Cansado, sem esperança. Era um domingo a noite.

A vida não faz mais sentido.

Não faz sentido.

Então começamos a cuidar dele com o maior do mundo.

E ele ganhou um sentido. Ganhou uma sobrevida.

Viveu um pouco a mais.

O amor pode mudar a maneira de ver o mundo.

Podemos mudar o mundo com amor.

Podemos dar sentido a tudo e principalmente a vida.

A doença venceu a carne, mas não o espírito.

Toda noite papai rezava...

Estava do seu lado o tempo todo.

Enchia ele de beijo, de carinho...

E meu maior medo era da tua partida.

Não sei expressar o que sinto.

E quando não sei expressar.

Esse sentimento externa em lágrimas.

Tenho que reavaliar tudo.

Os anos que vivi ao teu lado papai.

Tudo que aprendi com o senhor sobre a vida,

Coisas grandes e coisas pequenas.

O respeito a vida, aos seres, as pessoas...

E sempre que lembro de seus momentos de fragilidade meu coração se comprime.

Na fragilidade ajudou a mamãe cuidar de mim.

Na fragilidade todos nos cuidamos de ti.

Cuidamos da maneira que podemos até o fim.

Na minha parede agora tem uma imagem sua.

Na minha mente tem o teu espirito.

Amor infinito.

04/03/21

8. Ausência

Quando alguém deixa este mundo,

E é gente  por nós muito amada,

Fica a ausência algo profundo,

Fica aquela atmosfera destroçada


Parece que tudo chegou ao fim 

Fica faltando uma parte,

E demora pra se acostumar

Então a gente pensa no ser 


A gente pensa no tempo

A gente pensa mais

Pensa no que aconteceu

E enfim um dia aceita 

Embora a dor nunca mais acabe.

Outras coisas ocupam o lugar

A ausência dói.







11. A Vinícius

 Não há nada mais sublime que segurar seu filho enquanto dorme na mais perfeita paz.

Seu corpinho frágil, macio, sua respiração, sua vida aos teus cuidados. A impressão que temos é que

 nossos corações vão explodir de tanto amor.

A gente fica olhando, assistindo cada coisinha no corpinho.

Sentimos seu cheirinho, sua cândida existência.

Até dois meses atrás desconhecia todas essas sensações.

Até dois meses atrás quando meu filho nasceu,

Certamente eu me transformei, houve uma catarse amorosa.

Noites e noites mau dormidas,

E aquela preocupação na mente está tudo bem?

Está tudo bem...

Mesmo estando tudo bem a gente não acredita e fica acordado olhando até a exaustão.

E quando o dia nasce

E quando aqueles olhinhos se abrem,

Parece que deram uma supercarga de energia,

Porque agora nossa felicidade não é nossa é algo compartilhado.

A mamãe amamenta e o papai colabora cuidando de cada coisinha.

E ai surgem novas conversas, surge aquela empatia de quem é pai...

Nossos exemplos compartilhados.

Não sei se sou mais bobo, mas rio à toa com as coisas de meu bebê,

E a proporção que vou sendo reconhecido, a proporção que ganho um sorriso,

Descubro que o amor é infinito.

Ser pai é uma grande dádiva.

Poder falar ouça o papai, venha pro papai, o papai vai te ajudar.

Pegar aquele serzinho e dizer "Te amo".

Você é o meu maior tesouro...

A gente fala sem saber se ele vai entender.

Sabe aquela manhã que você acorda bem e percebe o mundo,

As flores em frente as casas, na campina,

Você ama está vivo, ama ser quem é.

Pois é a sensação de ser pai é muito superior.

Então enquanto lindamente ele dorme ali no carrinho,

Ouço Schubert para bebês

E dedico este pequeno texto aquele que mais amo no mundo,

Vinícius meu bebezinho.

10. Um instante

 A tarde caiu nublada e chuvosa,

Chove, dá um tempo, chove,

Fecha a janela e abre a janela,

Toma um chá,

Faz calor,

Abre a janela,

Faz frio,

Uma música,

O cuidar das coisas,

Cuidar do bebê,

Cuidar da esposa,

Cuidar dos irmãos,

Da família...

E a fé.


9. Enquanto isso

 A noite me acordou com seu calor

E me entregou a madrugada estrelada

Entregou-me em silêncio,

Meu menino acordou  e mamou 

Discretamente dormiu.

Dormiu no meu peito  e nos meus braços

Sua cabecinha perfumada incensou minhas  narinas,

Se mexia, respirava 

Era quente seu corpinho, tão gordinho.

O galo cantou, ouço o teco-teco do ventilador da vizinha de baixo,

Também ouço o canto mudo dos grilos,

Olho pro céu parece que o piscar das estrelas imitam o ciciar dos grilos.

Minha esposa ressona,

Vinícius no berço em busca de se acomodar

Uma corroira canta 

Um galo canta,

E penso que ainda me surpreende ter galinha em algumas ruas desse cidade.

Olho a x brilhando e penso em pai.

Até o calor refresca na madrugada,

Enquanto Vinícius mamava 

Peguei um livro  de Neruda 

As uvas e o vento e li o prólogo em um poema.

Pensei em Vô José...

Em mamãe...

Vinícius dormia em meu peito.

Agora lá fora ouço

Siriririririri...

Uma brisa fria atravessa a janela.

O sono já chega...







03/03/21

7. Um ponto

 Andamos perdidos em nossos pensamentos.

Somos infantis?

Sempre em busca de algo que nos preencha.

Parece que o vazio é nossa maior parte. 

Somos balões?

Não percebemos a nossa realidade seja qual for.

Somos míopes?

Temos medo de perder algo o tempo inteiro.

Nem vivemos intensamente o presente, o aqui e o agora.

E quando perdemos nem tomamos conta que precisamos nos ater ao presente ao agora.

Parece que a vida é um punhado de areia em nossas mãos

Que vai perdendo grão em grão.

...

6. Mozart

 Mozart sem dúvida é meu compositor favorito. Se me perguntar por que? Não tenho uma resposta. Como não tenho respostas para a maior parte das coisas que existe ao meu redor. Todavia, gosto pois sinto sua música. Bem todos podem sentir, mas por que não sente ou aprecia, como não apreciava. Cuidando agora de meu filho passo entender e racionalizar muita coisa. Ele não entende coisas que para mim são óbvias. Coisas que o irrita para mim são maravilhosas, mas não é sobre mim. É sobre o outro, sobre você. Quando me perguntas porque Mozart direi porque sinto, porque vejo alegria, felicidade... Sabe a gente tem uma coisa chamada consciência. Que por definição seria a apreensão de um sentido. Desde que a gente passa a ter consciência a vida fica muito mais complicada, porque passamos a nos basear nos outros. Estava sozinho em meus pensamentos e perguntei a mim mesmo. O que poderia ser bom neste momento. Liguei o computador e ouvi Mozart. Não entendi nada. A primeira vista as coisas nos desnorteiam, são apenas impressões. Na segunda vez que ouvi, já me familiarizei um pouco e fui tomando consciência, passei a ter percepção, depois mais um pouco me interessou saber quem foi o compositor, o que o fez compor tal e tal peça... Bom esse é meu modo de ser. Veja que arrodeio muito para falar algo. Gosto de Mozart porque descobri que podia gostar. Então fique em paz que vou ouvir aqui. 


https://www.youtube.com/watch?v=FZ1mj9IaczQ

5. Nuvem

 O mundo essa soma de tudo que existe

 É a pluralidade além de nossas impressões,

Por certo objetiva, mas que é sem emoções,

Existe a sensação de está alegre ou triste.


Meu mundo o que seria representações

Ou seria o que é pura matéria 

Ou um produto do trabalho de reflexões,

Ou coisa descabida de explicações.


Versos, estrofes, rimas frases com migalhas de perguntas.

Uma tentativa de organizar o universo humano.

Talvez algo se consiga entender,


Talvez seja tudo vaidade,

Talvez seja uma busca da verdade,

Ou tudo é ilusão.



02/03/21

4. Graça

 Na antena

Pousou um sanhaçu

Ficou ali plinçando 

Ficou ali cantando,

O frescor da manhã,

O céu infinito,

A liberdade em suas asas,

A liberdade em seu canto,

A beleza dessa realidade 

A beleza da simplicidade,

Se perde em nossos pensamentos,

Por vezes se encontra no agora,

Em estado de graça.





3. Alicerce

 Lá fora está fresco.

A manhã nasceu agradável.

Nublada, mas com campos de azul do céu.

Canta sem parar,

Canta em todo lugar,

O bem-te-vi,

A corroira,

A patativa,

O sanhaçu...

O que dizem não sei,

Mas é uma beleza de ouvir.

São as coisas deste mundo,

São as coisas desta vida,

Particularidades de uma totalidade.

Onde a consciência não consegue tocar

Apenas contemplar.

Uma manhã qualquer

Em qualquer lugar que seja.

A base de tudo é subjetiva.

2. Papai

 Papai meu papaizinho querido,

É pena que tenhas partido,

Deixando meu coração fendido

Em dor e muita saudade


Logo você minha maior alegria,

Meu alicerce, meu pilar, minha poesia 

Meu confessor e amigo mais antigo,

Como dói a sua ausência a noite ou de dia


Me faz falta sua grande Alegria

Forte e intensa que me contagia.


Ah papai que intensa foi a dor,

Como foi triste sua partida

Achei que ia perder a vida

De tanto sofrer de amor


Não tenho mais o que fazer

Só me resta agora é sofrer,


Tá cheia minha lembrança,

De todo o tempo vivido

Em sua presenças ouvido

A vida cheia de bonança


Mas aí, mas aí

O tempo cruel vai

Levar que a gente ama

A gente imóvel na cama


Neste triste momento

A gente se questiona

Por que a vida se vai

Por que levou meu pai?


Cadê você papai

Cadê você papai


Não falas

Não ouves

Não és


Continuar aqui a sofrer

Quem sabe um dia ao morrer

Venha te encontrar


Eis maior mistério

Que o senhor me perdoe

Mas é a dor quem me fala

É a dor que não cala

De alguém que um dia foi


Agora é só memória

Nada mais.








01/03/21

Umbuzeiro

 Umbuzeiro

Árvore intrincada e retorcida,

De copa muito fechada

Conhecida como árvore da vida,

Madeira mole, quebradiça e alva

Nuas na seca se tornado cinza,


Floresce quando o clima muda,

Seus cachinhos são alvinhos 

Miudinhas flores estreladas 

Que planta amável






1. Intangível

Onde podes encontrar minha mente?
É muito fácil. Está longe.
Está lá onde cresci em Serrinha.
Está contemplando a natureza.
Está sentindo o cheiro da terra molhada,
Está sentindo o frio pós chuva,
Está vendo as tanajuras a voar,
Vendo tronco limpos das árvores,
Está ouvindo os sapos coachar,
Está ouvindo o sabiá cantar,
Está sentindo a terra molhada,
Está vendo a tarde nublada,
Ou a tarde ensolarada depois da noite chuvosa.
Sabe há um ar de mistério,
Algo muito místico,
Sinto que sinto sozinho essa sensação de solidão.
Algo indescritível, surreal.
Não sei, mas algo mudou.
Agora essa atmosfera se faz mais mística
Agora que papai ocupa esse cosmo.
Sempre estive preso a tudo isso.
Não sei me expressar.
Nenhuma palavra será capaz de explicar.
É algo que se sente.
Como sentirás?
Não sou capaz de dar-lhe este presente.
Sentir essa emoção.
Então pareço ilógico.
A luz da totalidade não sou.
Nunca provarei nem despertarei em tua consciência.
Contínuo oculto com minha sensação.
Aqui me encontrar.
Entre a mata seca e intrincada...
Algo intangível.

28/02/21

56. Chuva

 Já chove três dias seguidos aqui em João Pessoa.

Vários alagamentos ocorreram nas ruas mais baixas.

As pessoas estão reclusas em casa.

Esperando esta chuva parar.

Já choveu mais que chove nesta época.

Segundo jornal a 30 anos não Chovia tanto na mesma época.

Segue chovendo muito.

Canta o sabiá e o bem-te-vi.

E tudo está acontecendo como sempre.



27/02/21

55. Juca

 Juca

Esta planta marrenta 

De crescimento lento,

De tronco liso bicolor 

Tronco forte e enroscado,


Cresce feito espeto

Ramo inerme e lenticelado,

De copa muito fechada,

Reune toda passarada,


Tem folhas o ano inteiro,

De inverno a verão,

E quando floresce,

Seus cacho amarelos,

A copa embelezada,


Por abelhas visitada,

Após forma fruto duro,







26/02/21

54. Mulungu

 Mulungu

Belas flores encarnadas

Assim tem sua florada

A copa aberta enfeitada,

De flores naviculadas


Nela aparece o beija-flor,

Buscando néctar de flor em flor

Aparece o sofreu 

Aparece o sanhaçu,


E após polinizada

Tem as flores fecundada,

Da vagem moniliforme

Semente vermelha é dispersada,


E na beira do riacho,

Germina e a semente,

É a natureza moira

Que determina a geração


Essa prima do feijão

De madeira mole 

Só encanta a natureza

Só é fonte de beleza 


É uma planta invocada

Sempre encontra-se armada

Na seca perde as folhas e fulora

No inverno se enrama e cresce


Assim é o mulungu

Planta viva do sertão.


Nela aparece 


Que bela e imensa árvore,

Que cresce em beira d'água

Tronco armado e estriado,,,



53. Doce passado

Cajus maduros suculentos,

Cajueiros inteiros carregados,

O ambiente todo perfumado,

A graça divina na terra,

Fartura madura acridoce,

Que infância de relevância,

De um passado acabado,

Restam apenas lembranças,

Nem algo com semelhança...

Delícia, deliciosa, passada.


Maniçoba

 Maniçoba

Arvore estiolada,

Lenha mole e alvinha,

Tronco escuro,

Ceiva alva leitosa

Casca esfoliante,

Ramos angulados,

Odor intenso

Folha lobadas,

lisa, de haste avermelhada,

Flores diclinas,

Fruto cápsulas

Espocam no verão,

Atirando suas sementes,





25/02/21

53. Juazeiro

Juazeiro

Juazeiro, 

Essa árvore tão frondosa,

De copa imensa e fechada,

Sombra fresca e generosa,

Até na seca enfolharada,


Nasce muito no baixio,

Cresce de forma lenta e torta,

De ramos sempre armados,

Demora a frutificar,


Oculta é sua florada,

De flores pequenas,

Verdes e estreladas,

Só por abelhas anunciada,


Então no fim da estação,

Aparecem os frutos ásperos,

De cor amarela e quiabenta,

Só os bichos apreciam,


Comem as folhas e os frutos,

E dispersam no cercado,


Há quem use sua casca

Para higiene bucal,

Juá na cachaça,

Creme dental melhor não há,


Deus o livre se sua estrepada,

Que fura até alpercata de pneu,


E lá está o juazeiro,

No meio do tabuleiro,

Verde esperança,

No meio da seca,

No meio do sertão.


De tronco áspero e duro,

Alva madeira e casca amarga,

Os ramos armados,


Com a casca muito amarga,

A madeira é alva

Tua madeira alva e dura,

A casca é muito amarga,


A casca 

Com sua casca escova  os dentes,

Suas flores tão miúdas,

Teu fruto áspero e quiabento,






52. Coexistencia

 O tempo,

O espaço,

A existência

Coexistem,

Se convergem entre si,

Numa impressão

Chamada ser,

Que é e deixa de ser,

No mesmo instante,

No devir!!!


51. Catingueria 2

 A catingueira madeira torta 

Na seca até parece morta,

Tronco forte e acinzentado,

As vezes oco e habitado,


Seu crescimento lento,

E longa é sua vida,

Hiberna maior parte da lida,

Se chove desperta,


Brotam das gemas as folhas,

Das folhas o intenso odor,

Depois aparece a flor,

E com elas as abelhas


Que visitam sem parar,

O dia inteiro vem e vai,

Mamangava vem abelha sai,

O polém e néctar a explorar


Após a polinização

Ocorre a fecundação,

E a semente a crescer,

Em vagens duras de roer,


Vem o verão,

Fim da estação,

A vagem explode,

E atira a semente,


Em um distante lugar,

Caminhando na mata

Só se ouve o estalar,

Espoca, pra cá e pra lá,


Quando cai a chuva,

Germina a semente,

E a vida renova,

Sem precisar de cova,


A natureza,

Mostra sua beleza,

Independência humana,

Cresce forte a catingueira.

24/02/21

50. Papai

Olhar amoroso para cada ser.
Se apegava com facilidade,
Tinha amor de sobra dar.
O silêncio se comunicava
Entre ele e os animais,
Um afago, um colo
Uma palavra.
Generosidade.

Boceja...

49. jitirana

 Jitirana Jitirana,

Uma corda enroscada 

Forma uma latada,

E linda florada,


Cresce no campo 

Cresce na mata

Cresce até florar,

Cresce a se enroscar


Jitirana Jitirana,


Flores coloridas

Flores estreladas,

Flores visitadas,


Flores amarelas,

Flores rosas,

Flores azuis,

Flores alvas,


E quando é seca,

Dorme no chão,

Dormente a semente,

Espera o outro inverno.



48. Pinhão

 O pinhão manso

Cresce no bem em tabuleiro,

E em qualquer lugar,

Seu crescimento é ligeiro


Seu caule é esfoliante,

 Ramos moles espessados

Látex abundante e transparente 


Suas folhas são lobadas,

Nervação radiada,

Copa bem aberta espigada,


Estípulas fimbriadas,


As inflorescências determinadas 

Todas flores unissexuadas,

Flor pistilada e estaminada

Por borboleta visitada

Após polinização e fecundada


A tricoca é formada

Vai crescendo devagar

Pra três sementes formar

Após amadurecida

É bem desidratada

E explode a espalhar

As sementes carunculadas,


Planta bela,

Planta forte

A seca e o verão.

Viva por muitas estações.

















23/02/21

47. O que ha

Grandes granitos,
A paisagem compõe,
Rochas ígneas,
Intrusivas
Feldspato,
Quartzo,
Mica

Grandes granitos
Que linda paisagem,
Mata intrincada,

Xilosma!
Paudarco,
Maria preta.

46. Saudades

 Como sinto sua ausência,

 Penso em ti contantemente,

Nem acredito nessa experiência,

Saudades de tudo entre nós.




 



45. Amanhecer

 Do alto da noite nasce um novo dia,

Quando a noite vira madrugada,

Profundo silêncio em todo lugar,

No curral, o gado a ruminar...


O chocalho a badalar,

Blim... blim... blim... Tong... tong... tong...

O aroma perfumado,

Do esterco processado,


O mourão cumpre sua função,

Vigilante e pronto está

Pra segurar alguma brabeza,

Ou de camarada coçar algumas costas.


O vento sopra de acoite,

E traz o aroma da mata seca,

Ecoa entre ramos secos,

Chia, levanta poeira e passa,


Canta o galo na pinheira,

Cocorococooooooo...

Alguém desperta dentro de casa,

Lamparina acesa,

Pela fresta se acompanha,


Na cozinha estala o graveto de marmeleiro,

Uma chama se faz

Agua na chaleira de barro,

Se ouve o pipocar da água fervendo,

Adicionado o café,

O aroma faz a barra se quebrar...


Mais tarde nasce a manhã.

E os personagens noturnos saem de cena.





44. Poesia dia

 A noite desperta,

Aurora anuncia

A chegada do dia

Ave pia esperta 


Voa no espaço,

Com alegria

Grande é a folia

Lindo sanhaçu


Bem-te-vi,

Corroira,

Sabiá


Desperta

Alerta,

Já é dia

Finda a poesia





  





22/02/21

43. Até o fim

A tarde partindo,

Luz se diluindo,

Corpos quentes,

Emitindo calor,

Sombra fresca,

Enfadado corpo,

E as memórias,

Lugares conhecidos,

Diferentes estações,

Paisagens,

Por fim 

O melhor lugar,

Numa cadeira

De balanço,

Na calçada,

Até o final,

A última tarde,

Desta não se pode passar.


41. Caatingueira

Caatingueira, 

Caatingueira,

Do sertão,

No carrasco,

Sobre o seixo,

Sobre a areia,

Sobre o barro,

Limite do campo,

Inicio da mata

Na seca perde folha 

No inverno se enrama.


Caatingueira

Caatingueira

Casca cinza,

Torta e dura madeira,

Ramos jovem glutinoso,

de forte odor exalado,

Desarmada, a ramada,

Folhas grandes fracionadas,

chamadas de bipinadas.


Caatingueira

Caatingueira

Suas flores amarelas

São singelas e belas,

Se percebe a florada,

O odor no mundo se espalha,

O zumbido de motor,

É zumbido de mamangava,


Zuuuzzzzzzzzzzzzzuuzzzzzzzzzzzz


Zuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu


Zuzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz


Uma flor,

Outra flor,

Uma inflorescência,

Outra inflorescência,

Uma árvore outra árvore,


A grande abelha pesada,

Amando a delicada flor,

Tomando doce néctar,

A manhã inteira...


Caatingueira

Caatingueira,

Após tantas visitas,

Ocorre a polinização,

Suas vagens vão crescer,

Pequenas bainhas,

A copa  vão  enfeitar,


Então no final da estação,

Seca vagem espoca,

Explode expulsando

Plana semente,


Que em solo fértil vai cair,

E logo que chove germina,

E a vida continua,


Caatingueira 

Caatingueira

esse nome popular

Cenostigma pyramidalis na Bahia,

Cenostigma nordestinum na Paraiba,

Cenostigma bracteosum no Rio Grande do Norte,

Coisa de botânico estudado,

Sua família é Fabácea...

Chega de versos e estrofe,

Que o poeta é limitado.





41.Quintilha

 Saudades de ti,

Saudades de nós,

Ficou o  vazio,

E as memórias,

Doces estórias,

Tudo abstrato,

Continua a fé,

A esperança,

Aprendida

A vida é ser.

21/02/21

40. Catolé

Palmeirinha, palmeirinha
Sois um pé de catolé,
Numa touceira pequenininha,
Na infância veio a ser
No barreiro do curral
Está localizada,
Na sombra do cajueiro doce.

Sempre que podia
Sob tua sombra ficava
Olhando o mundo
Seco e quente 

Se um coquinho achava
Com a pedra quebrava
Para deliciar de sua deliciosa amendua,

E então cresceu
E o sítio povoou,
São muito teus filhos,
Muita a alegria,
Encerrando essa poesia 
Na ilusão de esperança

Estapalhando sua prole,
Até o dia que Deus quiser.

39. Agora

 É preciso paciência na vida.

Saber onde está e aonde ir.

Sentimentos sem juízo,

Razão.

Esse momento agora

Que se faz um vácuo.

Quando as palavras se desnorteiam,

Pondo fora o texto inteiro

Particularidade de uma totalidade...

Fração de uma tarde,

Parte de um dia,

Momento que as palavras não conversam.

Uma ideia que não se faz,

Não segue um curso.

Um quadro desfocado.

Deixa acontecer.

Como o dia que se vai,

E o que sobra é anoitecer.

38. Poemarana

Em matéria de grafia,

Vamos fazer uma poesia,

Usando tupi,

Usando botânica,

Usando três palavras

Imburana,

Cajarana,

Jitirana,

O matuto entenderá,

E também aprenderá,

Essas três plantas

Têm origem caatinguícola,

De importância cultural

E alimentar,

Duas são arbóreas e uma trepadeira,

A primeira tem caule esfoleante

E madeira quebradiça,

Pode ser vista nas portas de pobres casas,

Em papeiros como colheres de papa,

Ou ornamentando casas.

A segunda quando madura tem grande altura,

Tem madeira vidrenta,

Muito fácil de quebrar,

Nela não vá se pendurar,

Sua fruta é saborosa,

De amarela doçura,

E suas flores inconspícuas,

São alvinhas estrelinhas,

Seus cachinhos bonitinhos

Por abelhas visitados.

E a terceira cresce como cordão,

Se enrolando na madeira das maiores copadas árvores,

formando latada,

Tem quando floresce é bela florada,

Não é planta perfumada, 

Mas  bela descomunal,

Alimenta a abelhada,

Com muitos tipos e diferentes cores suas flores,

De diferentes nomes... tipos de jititanas...

Deixando de lado a as particularidades,

Que compreende suas propriedades,

Vamos nos aprofundar,

Vamos a ortografia,

São palavras tupi,

Que termina com as sílabas rana,

Como a gramática diz o sufixo rana,

Imbu-rana é um falso umbu,

Caja-rana é um falso cajá,

Jiti-rana é um falso batata-doce,

Que gostosinha essa lição,

Obrigado pelo poemarana.






20/02/21

37. Aroeira

 No alto da cumieira,

Dorme a linha de aroeira,

Dorme e sonha no passado,

Num longo tempo já ido,


Quando na mata crescia,

Mundo acima até o céu,

Da fartura de inverno,

Da agonia do verão,


Da sede que quase mata,

Da folha imparipinada,

Folha de odor apimentado,

De casca encarnada perfumada 


Sua existência imponente,

E extremamente importante,

Para as aves se alimentar,

De sua flor come néctar a abelha,


Dos frutos come o louro são José,

Em sua copa ave que modifica

Bem-te-vi, nei-nei e pirrite,

Em sua sombra fresca corria frouxa a brisa,

Na base havia uma loje


Onde vivia sempre preá

Sonhou vendo seus frutos girando

Pelo mundo dispersando,

E a terra povoando de tudo que é aroeira,


Então a luz se acende 

Acorda linha de aroeira 

E acabei a brincadeira




36. Aprender

Não importa o que aconteça,

No ano temos seca e inverno,

Uma estação sucedendo a outra,

Feito cobra querendo engolir o rabo,

Nunca muda a cada ano,

Apenas uma é maior que a outra,

E assim a natureza se encanta,

Cada ano uma paisagem,

A semente germinando,

A planta florindo,

A planta morrendo,

Tudo coocorrendo,

Numa só totalidade,

Brava e a natureza da vida

Que a tudo resiste,

E a gente humildemente só aprende.

35. Filosofia de vida

 Uma boa pergunta pode ser matéria para pensar a vida inteira.

E a gente vive tentando encontrar essa pergunta, esse motivo para viver.

Por não saber onde encontrar andamos perdidos anos a finco e as vezes passamos a vida inteira.

Se encontrei minha matéria para pensar.

Confesso que ando cansado de buscar.

Os anos tem me ensinado a ver a totalidade.

Acho que não encontrarei esse pensar na particularidade.

Não tenho a ilusão de que irei encontrar.

Aprendi um punhado de coisas,

Sistemas de classificações,

Entendimentos racionais,

Uma certa lógica do pensar.

De maneira que quando acho que cheguei a algum lugar,

Se olho a totalidade percebo que cheguei apenas a mais uma célula da existência.

Foi só uma mudança de esfera.

A dor nos ensina da pior forma,

Sabe quando percebemos que algo passou e ficamos atordoados sem perceber qual foi o lado.

Ainda alimento certas ilusões...

Não sou intenso como foi Cristo, Mozart, Gogh, Nietzsche ou Borges.

Se comparado sou um pequeno caramujo diante de mangas largas de corrida.

Não encontrei a pergunta,

Mas as reflexões se fazem mais rasas.

Se me perco nelas, talvez porque me deem prazer na vida.

34. Isso tudo é ilusão

 Para além da necessidade

O que sobra é tudo vaidade

Imagine você na vida pretender

Escrever poesia,

Poesia metrificada,

Que ilusão...

Patativa teve sua catarse nos versos de um cordel,

Borges na madeira de imburana,

Eliseu nas cordas de uma viola,

Padin Cícero no sermão,

Lampião na coronha do fuzil,

Isso tudo é ilusão,

Tentar se eternizar em qualquer forma de expressão,

O destino é um só,

Carne dura, crânio rocha e caixão,

A terra frouxa quem come,

Essa carne que agora pulsa,

Isso tudo é ilusão,

Lutar em excesso por algo,

Ser o melhor,

Melhor fazer,

Feito os faraós egípticios,

Feito a filosofia socrática,

Feito o império de Alexandre,

A matemática de Euclides,

A genialidade de Eistein

Isso tudo é ilusão,

O joão-de-barro constrói sua casa sem pretensão,

Sabiá canta seu canto sem a mínima ilusão,

Um jumento quando rincha embeleza uma noite,

E o vento de açoite é sinal de bem está,

Quem não se refresca na água do açude na caatinga,

Bobagem e vaidade,

Isso tudo é ilusão,

Tem gente que se dana a poupar,

Comprar propriedade, casa, carro  e até avião,

Gente que fala em riqueza

Gente que se aliena falando no que não sabe

Isso tudo é vaidade,

Não merece atenção,

Quem se importa com Mozart, Gogh ou Pessoa,

Tem algo para gostar,

Mas tem gente que gosta mesmo é de coisa simples

Feito caldo de cana,

Uma res gorda,

O apurado da safra...

Porque tudo é ilusão,

Já cantou o sábio Salomão,

Na vida tudo é ilusão,

Alguma coisa ameniza,

No final nada muda a equação,

Isso tudo é ilusão,

Nem mesmo vemos cerrar o caixão,

A melhor coisa é achar o meio termo,

E viver da melhor forma,

Acumular qualquer maneira,

Porra merda,

É tudo ilusão,

Deixe de procrastinação...

Viva a realidade,

Viva sua intuição,

Porque a perfeição é ilusão.

19/02/21

33. Marmeleiro

Marmeleiro que mato ligeiro,

Nasce e cresce em qualquer lugar,

De beira de estrada a tabuleiro,

Não precisa nem plantar.


Essa planta é pioneira,

A caatinga é seu lar,

Na seca se encontra nua cor de poeira,

No inverno fica verde ao se enramar,


A rama é boa de cheirar,

também flores e madeira,

A madeira é boa de usar,

Por ser fina e lenheira,


Com esta se pode cozinhar,

Se faz faxina e chiqueiro,

Ao jegue faz andar,

Serve de pau de galinheiro,


Com suas folhas macias

Muita gente se asseia,

Folhas veludas, discolores,

São simples laminada,


Com poucas folhas na ramada,

Tem início sua florada,

Com inflorescência pendulada,

De flores bissexuadas,


As Flores primeiras são pistiladas,

As segundas flores estaminadas,

Se quiser simplificar 

Primeiro as flores femininas,

Segundo as flores masculinas,


Em diacronia estas são apresentadas,

Evitando de serem autofecundadas,

E assim nessa jornada por insetos são visitadas,

Besouros, moscas e abelhas voam alimentadas,


Garantindo que as flores sejam fecundadas,

Ah! pequenas flores pequenas e perfumadas,

Flores efêmeras logo em fruto transformadas,

Essas pequenas tricocas formadas


Explodem ao serem desidratadas,

Sendo a semente dispersada,

No chão fica desaparecida,

Fechando um ciclo de vida,


O marmeleiro é um nome popular,

Para a ciência é Croton blanchetianus

Croton palavra grega quer dizer carrapato,

Blanchetianus nome do suiço que coletou tipo,


Lá pras bandas do velho chico,

Nas caatingas da Bahia.


Na categoria familiar se trata de uma euforbiácea,

A mesma da mandioca, do velame, da maniçoba...

Mas ai é outra vertente,

Agora só quero acabar esse poema.








32. Euforbiaceas de caatinga

O marmeleiro,

O velame,

O pinhão brabo,

A maniçoba,

A urtiga,

A favela,

A burra leiteira,

São todas euforbiáceas

Seus nomes esquisitos

São todos muito bonitos,

Croton blanchetianus,

Croton heliotropifolius,

Jatropha molissima,

Manihot cartaginensis,

Cnidosculos urens,

Cnidoscolus quercifolius,

Sapium glandulosum,

Palavra de origem grega ou latinizada,

Para quem se importa na ciência,

Para quem quer conhecer,

Sabedoria de academia,

Sabedoria da vida,

Só com sua morfologia,

Se constrói uma poesia,

Arbustivas ou arbóreas,

Estípulas se fazem presente,

Seus ramos são perfumados,

Com tricomas dourados,

Ou glabros com glândulas presente,

Folhas simples, inteira ou lobada,

Concolores ou discolores, 

Finas e peludas,

Tem filotaxia alterna,

Com folhas arranjadas em espiral,

Tem forte odor,

Tem leite com e sem cor,

As inflorescências cimosas ou racemosas

Com flores são unissexuais,

Seu fruto é tricoca,

Para a rima tome taboca,

Tem semente dura

De testa marmorada,

Tem carúncula para ser por formiga levada.

Nesse poema tudo se inclui,

Conhecimento é a base de tudo,

Marmeleiro de madeira mole e perfumada,

Quanto queima tem fogo vivo e aromatizado,

Velame de corpo velado,

Que odor mais perfumado,

O pinhão point do sertão,

Não tem verruga que não caia,

Tejo usa seu veneno pra vencer a cascavel,

A maniçoba prima da macaxeira,

Cede sua madeira para fazer colher de pau,

Mas cuidado mata gado se comer as folhas quentes,

Cianetos estão presentes.

Tem a peste da cansanção,

Que queima e arde como o cão,

Tem a faveleira, na bahia chamam de cocão.

Tem a burra leiteira,

Planta arbórea das serras,

De madeira alvinha,

Não sei pra que serve não.

Chega de alucinação,

Botânica não é brincadeira,

É cultura de academia e saber popular,

Respeite os mateiros, poetas e artesões,

E construa um maior conhecimento,

As euforbiáceas de caatinga aqui te apresento.







31. Palmatória

Palmatórea é como chamamos as cactáceas
Que usamos para alimentar o gado.
É um recurso fantástico para nutrição animal. 
A palma fornece água, minerais e ferro.
Nunca exploramos completamente a palma,
Pois só se usa a raquete e se despreza o fruto.
A palma tem vida muito longa, na nossa casa tem uns pés que viraram tronco e cada indivíduo tem mais de 40 anos.
A palma tem espinhos inconspícuos conhecido como gloquídios.
Essa espécie é introduzida acho que do Peru.
As flores são amarelas chamativas. Serve de recursos para pássaro, besouros e insetos. Ofertam pólen e néctar. Os frutos são dulcíssimos e servem para alimentar os pássaros.
As raízes são muito superficiais para aproveitar ao máximo a água da chuva.
O caule é chamado de filocladio e popularmente de raquete.
Se desenvolve bem em todo tipo de solo.


31. Velhos tempos pescador

 O peixe no sertão é uma fonte de proteína,

Aos pequenos pescadores uma fonte econômica.

Com sua vida simples de diaplanta batata na vazante.

A noite sai cedo para pescar.

Sua pescaria usa rede de linha ou uma varinha de anzol.

Sua alma se satisfaz com um boro de tabaco 

E uma xícara lavrada de café.

Passa segunda-feira... Sexta-feira

E no sábado feira lava a cara e as alpercatas,

Então sai para a cidade de bicicleta barra circular ou num jegue ocre-cinzento ou preto.

Vai só matutando como venderá suas patinhas com peixe tratado, seco e salgado.

Sua mente dialoga com a freguesa.

Caro!? Tá nada. A pesca tá difícil.

É muita gente no ramo minha dona.

Então perto do terreiro dá um grito envergonhado.

Oi o peixe!

E a resposta que recebe é tá de quanto.

Cada um querendo barganhar.

Então sai uma palha, duas e todas as palhas.

Aí como o vício sustenta alguns homens.

Fuma um boró e toma uma cana.

Cana boa que queima na entrada

Depois fica adocicada.

Com o dinheiro curto compra o que precisa para alimentar a alma.

Café, tabaco, sal, querosene, torcinho, arroz açúcar, rapadura e farinha.

Pega de volta o sol a pino.

E a semana começa outra vez.


18/02/21

29. Palavra

 Gostar das palavras é uma benção.

As vezes numa conversa falta a palavra certa. 

Então se usa a expressão "como é que se diz".

Esse lapso momentâneo, quase um branco.

Como é que se diz?

Mulher aquilo!

Pensando nas palavras me veio a mente 

O poeta da roça Patativa do Assaré

Que enquanto puxava a enxada,

Sua mente contava e aprumava os versos

E logo após uma carreira de lavoura

Os versos estavam metrificados 

Alinhados como uma bom aluno da escola

Com sua lição lida.

Patativa imperava na carreira e nos versos,

Nos versos não tinha para ninguém.

Agora como é que se diz.

Cadê a palavra,

Entretanto a fala tudo comunica.

 





Embriagado

 Quando chove em minha casa,

Vai pra longe o cancão,

A corroira logo chega vestida de franciscana

E passa a fazer parte das madrugadas,

Chega também o mosqueiro.

Quando chove em minha casa canta muito o saci.

Quando chove em minha casa

A primeira água é derramada,

As telhas precisam serem lavadas.

A água parada no lajeado é usada na lavagem da roupa.

Chove, chove, chove.

Porque a chuva, a chuva.

Cheeeeeeereerr. Broooooooooo


29. Lar

 Na algaroba do terreiro de casa sempre havia um ninho de tirite.

O vento soprava e a copa dançava enquanto os galhos iam e vinham.

Não era apenas uma eram quatro que a mamãe plantou certa manhã de um dia qualquer.

Elas cresceram dando boa sombra.

Eram sempre podadas, mas incomodava seus foliololos que enchiam as telhas de matéria orgânica.

Essa foi a justificativa para cortá-las.

Cortam as árvores por sua sombra.

Por mim tudo viraria mata cheia de aves e folhas e frutos e flores...

Mas esse sou eu sem autoridade.

Os tirites perderam sua morada,

O terreiro ficou mais quente,

E a paisagem ganhou uma nova forma.

29. Gosto

 A gente quando se interessa por plantas faz um jeito de cultivar.

No meu caso gosto de colecionar as formas, as cores através da fotografia.


28. Buscar mangas

 Mamãe mandou que fosse buscar mangas.

Mangas que forram o chão do sítio de vó Sinhá.

Bora lá Mera...

A cangalha já foi botada e os caixões também.

O jegue preguiçoso vai andando devagar.

Vai andando com suas quatro patas.

Vamos seguindo pela beira da estrada.

Já estamos em Zé de Júlio.

E avistamos as barreiras da terra de vovó.

O jegue marrento carrega o menino e a menina.

Vai andando sob a tutela dum cipó.

Para não dar bandeira vamos por tio Jessie.

Os caminhos de seixo rolado, o perfume das unhas de gatos e cipó preto encantam a caminhada.

Logo se ouve o som das águas do riacho do porção.

Logo se sente o aroma acridoce das cajaraneiras de tio Aldo.

A sobra de sua copa a terra fica coberta de esperas doces e amarelas.

Então já no porção passamos em frente a casa de Pedro Lião onde se ouve os gritos de tia Biluca.

Na casa de neta uma penca de meninos parecendo índio passam o tempo no terreiro da cozinha.

Passamos a escola e já perto de Zequinha de ver na entrada a casa de Paté.

Então chegamos a casa de vovó que não tem nenhum agrado para criança.

Vamos para o sítio da cacimba de Joel pegar as mangas.

Chegando lá até o jegue se delicia com uma delas doce e amarela.

Enchemos os caixões de mangas espadas e mangas buchas...

E voltamos pra casa em paz.

É de longe o gosto de mamãe por mangas.

A manhã se passa só nessa atividade.

A gente era rico e não sabia.

Com uma vó com um sítio de mangas.


27. Sonho de inverno

 A sabiá miou na sobra da cirigueleira,

Miu... Miu...

A terra de barro molhado,

Miu... miu...

A era florida de flores lilás,

Miu... Miu...

O capim flocado áspero mole,

Miuuuu.

Miu, miu, miu...

A Pimenta malagueta está rubra enfeitada. 

Pec... Pec... Pec... Pec...

A sabiá fez um ninho no pé de ciriguela.

Pec... Pec... Pec...

O girimum  com sua rama espalhada bota flores amarelas.

Miu... Miu...

As flores azuis da bomba d'água imitam o manto de nossa senhora de Conceição.

Miu... Miu...

Lá está ela a sabiá de papo laranja no chão. 

Miu... Miu...

No galho da cirigueleira.

Pec... Pec...

Olhe ali o ninho filhotes.

Pec... Pec...

Um tirrite estralou seu canto amarelo,

Tire... Tire... Tire...

Seu ninho um saquinho na algaroba.

Tire... Tire... Tire...

A roupa seca na cerca.

Tire... Tire... Tire...

A Pinheira está cheia de pinha.

Tire... Tire... Tire...

Os sanhaçus voam no espaço feito jato.

Iç... Iç... Iç..

O sanhaçu achou a pinha madura.

Iç... iç... Iç...

A pinha verde por fora e alva por dentro.

Iç... Iç... Iç...

O alvo mais doce que existe.

Iç... iç... Iç...

A fruta madura da palma.

Iç... Iç... Iç...

Cantou lá pra cima a patativa.

Tric... Tric... Tric...

De peito amarelo e sobrancelhas alvas tão maneira.

Tric... Tric... Tric...

Pousada não se põe parada parece uma agulha na mão de costureira.

Tric... Tric... Tric...

O umbuzeiro de Elite de Palmira tá que é só imbu no chão.

Pec... Pec... Pec...

Aquela calda verde agridoce da fruta que gostosura.

Pec... Pec... Pec...

O Juazeiro de folhas cartáceas amargas com  tá coberto de juá.

Quiro... Quiro... Quiro...

Na ceriguela mia o sabiá.

Pec... Pec... Pec...

Fruta amarelada babona a fruta do juá.

Tziu... Tziu... Tziu...

A frutinha vermelha da maria-reta.

Tziu... Tziu... Tziu.

Levanto e paro de pensar.

A realidade virou saudade.

Tziu... Tziu... Tziu...

A roupa já secou na cerca.

Acorda que o inverno mal começou.

 




17/02/21

25. Vinca

 Vincas

Roberto plantou vincas no nosso jardim,

Plantou vincas alvas e depois vincas rosas.

Tenho uma longa memória das vincas,

Será provável que foi o odor que se apegou ao meu cérebro?

Papai cuidava das vincas 

Quando ia lá eu cuidava dela,

Pensava um pouco de água por algumas flores.

Na terra arenosa e seca crescia e cresce a vinca,

Quando a gente coloca a água a terra chupa tudo e não deixa nada.

Em 2010 tinha água de sobra do porção,

Agora a gente fica racionando a água

Enquanto as vincas sedentas crescem nas beiras das calçadas,

Crescem aos montes no inverno nos monturos,

Algumas sobrevivem e outras não,

Adoro as vincas,

Adoro sua resistência,

Suas folhas brilhosas,

Seu odor esquisito,

Dizem que seu alcaloide cura até leucemia.

Por enquanto enfeita minha tristeza,

Me faz sentir em paz.

Amanhece

 Enche o peito do ar frio da madrugada. Traz em si um cheiro particular, Cheiro das chuvas de abril, Cheiro da mata molhada. O silêncio é su...

Gogh

Gogh