17/03/21

36. Mucuna

 Mucunã cipó calibroso,

Que cresce nós lajeiros 

Sobre a vegetação

Vai se enovelando,

Formando ramada,

Quando em florada,

Fica toda roxeada,

Intensamente perfumada,

De longe se ouve o zzzzz

Da mamangava abelha avantajada,

As Folhas trifolioladas são caducas

Se desprendendo na seca,

Fica só o estirão,

Com suas Vargens macias e veludosas 

Que espocam atirando as sementes

Que parece encoraçada

Essa é minha toada.


34. Pensar inútil

O mundo tem barulhos que não conseguimos decifrar, mas que gostamos de ouvir, pois parece nos dizer que estamos vivos. Estamos vivos. Qual é a grandiosidade de tudo isso? Só a dor da perda nos orienta. Uma catarse negativa digamos assim. Fico ouvindo o oco do mundo. Como um ovo maltine denso, saboroso com peguenos grão crocantes de chocolate. Conseguimos sentir mais com o gosto que com a visão e com os ouvidos. O coração pode ser o mais intenso de todos os sentidos. Se são cinco sentidos. Qual é o sentido que sente a dor? A dor é algo muito intenso como o orgasmo, mas ao reverso. A dor parece ser multisomatica e o orgasmo algo localizado. Estranho não. Orgasmo nas regiões excretoras... O oco do mundo nos faz pensar tanta coisa inútil.

34. O morto

Ando pensando torto, Um corpo sem vida, Um ser o morto, Um corpo é e não é, Foi e deixou de ser. Algo se perdeu, Foi o corpo? Foi a vida? A morfologia e a anatomia é a mesma, A vida é o espirito? A vida é a alma? A vida é a respiração? Simplesmente um corpo, Que pulsa, Que repulsa, Com vida, Sem vida, Morto, Perdeu num átino O princípio de ordem, O calor o respirar, Um corpo é um corpo, Com vida é Sem vida não é. Deixou de ser Sem vir a ser. O trabalho é a categoria fundante já dizia Marx. O prazer também é a categoria fundante Até surgir a inseminação artificial. O agora é eterno. Cremos ser imortais, O tempo é relativo já dizia Eisntein. Tenho estado doente da vista segundo pessoa, Pois tenho pensado demais. Agora que a tarde cai. Que importa mais. O coletivo passa na rua, O bem-ti-vi anuncia o fim de tarde, Poderia ser o sanhaçu-de-coqueiro. Ou qualquer coisa. Porque se não estamos presentes, Fomos ultrapassados, Não viemos a ser mais. E onde está o sentido de tudo isso? Em Eclesiastes, já anunciava que nada fazia sentido. Jás um morto, Jás noite.

16/03/21

Anjico

 Árvore enorme

E Sombra rala 

Miúdas folhas

Armado tronco 

Casca encarnada,

Feito couro curtido,

Mandeira forte e dura,

Usada no carvão,

Na porta e janela,

Na cangaia...


Perfume de verão,

Alimentar a fauna 

Plataforma de pouso 

Mata frouxa 

É o anjico 













Mata atrofiada

 Manhã plena ensolarada,

Céu azul, oceano céu a brilhar

Então saio a pedalar,

Cruzo ruas olho os jardins 

Vou seguindo até a mata 

Que vigor viridescente,

Flores amarelas,

Flores alvas perfumadas

Perfume de angélica 

Perfume de guabiroba,

Perfume de mutamba,

Eita mata perfumada,

Até o feijão bravo tá florido

Nesta faixa tão estreita,

Cada vez mais esmagada,

Pela construção civil,

Já não sobra quase nada,

E o que sobra ainda descartam lixo,

Pobres árvores esmagadas,

Pobrezinhas perfumadas

Mutamba,

Guabiroba,

Angélica,

E o que sobrar no futuro

Nada nada nada,

Só o luxo 

Só o lixo,

A mata tá condenada,

Pobrezinhas esmagadas,

Porém floridas e perfumadas.










15/03/21

33. Metafísica

 A noite escura

O céu estrelado,

Estrelas brilhando,

Nuvens passando,

Um dejavour,

Faltou o relinchar 

De um jegue 

Besouros ciciando,

Minha mente está perdida,

Divagando sobre o não ser

A brisa sopra

Os olhos se cansam,

E a ordem lógica não foi achada,

Nenhuma ideia,

Cadê o entendimento?

Como sempre atrasado,

Como sempre acanalhado

Muito querendo e pouco comendo.

E a sextilha?

Não sei ainda,

Mas vou aprender 

Estou tentando aprender a aprender.

Mais nada.




30. Imburana

Árvore torta e armada,

Romos abertos e difusos 

Casca castanho avermelhada,

Quase sempre esfoliada,

Suas folhas imparipinadas,

Perfumada se rasgada,

As flores reduzidas 

Diclinas e tetrameras,

Os frutos cápsulas 

Com sementes ariladas,


Na cultura popular,

Se usa a madeira

Pra fazer artesanato,

Porta, bichos, objetos,

Nasce muito na Paraíba,

Mas dá em toda caatinga,

Embeleza nosso lugar.






32. Sabor da vida

 A janela aberta,

Quadro na parede,

A brisa fria que entra,

O canto do sanhaçu-palmeira,

O sanhaçu-cinza,

O papa-capim,

O chiado do computador,

A vida é sublime sobre tudo,

Mas lembrar que está vivo,

Pensar nisto tudo,

Pode tornar tudo mais gostoso.

Nosso nenem

 O meu amor nasceu contigo,

Seu primeiro choro derreteu meu coração,

Ao te pegar no braço, fui tomado de amor,

Ao te ver sorrir, fui tomado de amor,

Ao te ver respirar, fui tomado de amor,

Ao te ver chorar, fui tomado de dor,

Seu choro é seu código que aprendemos a decifrar,

Tudo fazemos para sentir que estás bem,

Estás bem...

Se dorme te amamos,

Se brincas te amamos,

Contigo nasceu uma nova forma de viver.


Descoberta

 A madrugada encantada,

A corroira cantando calma,

O bem-te-vi de sobrancelhas,

Dizia que tinha me visto

Som belo, som perfeito

Nem vi a madrugada

Agora canário corrochiam

Há uma grande beleza

Em tudo isso

A celebração do ser.


13/03/21

29. Xique-xique

Xique-xique 

Linda planta sertaneja,
De forma candelabriforme,
Colunada e costelada,
Areolada e armada,
Com fibras alvas,

Tronco carnoso,
Epiderme clorofilada,
Folhas ausentes,
Flor vistosa séssil,
Fruto rosado, carnoso,

Raiz fasciculada.
Cresce nas fraturas rochosas,
Pacientemente cresce,
Pacientemente produz espinhos,
Essa coluna estrelada,

De semente de testa negra,
Pequena docemente arilada,
Está em todo lugar,
A todos os tempos.

Cactácea,
Pilososcereus gounellei.

28. Entendimento

 A gente vive como sabe, como foi ensinado a viver. 

E como a gente sabe?

Porque viver é ser.

E o que é ser?

Está ai?

Ensinaram-me tudo que sei.

Aprendi o que que me ensinaram.

Aprendi o que entendi e o que busquei aprender, além do que sinto, além do que percebo.

Como se nortear sem uma direção a seguir?

Olho no espelho,

Encaro-me olho no olho. Penso quem sou?

E me perco ainda mais na consciência.

Se o fim é único para que tanto esforço?

Sou e uma aranha na teia é,

Uma mosca presa a teia é,

Uma jurema é.

A coisa em si e a coisa para si.

Até quando é e enquanto é.

Qual o valor de cada coisa?

Tudo isso me custa o entendimento.

Mais nada.

27. Infância

 Que saudade da infância

Que foi toda vida campestre

Em tudo só via e sentia,

Em nada pensava,

Só existia, só ria,

Mamãe pensava por mim,

Papai fazia o que podia,

Riso era alegria,

Alegria igual a confeitos,

Por isso ficava ansioso,

Pelo sábado quando papai ia pra feira,

E trazia sempre em saquinho de papel,

Um punhado de confeito,

E distribuía pra gente,

Trouxe um caminhão amarelo de botijão,

Trouxe um caminhão azul de cavalos.

Mamãe me mimava,

Rosangela me cuidava,

Nas terras arenosas desconhecidas,

Fui vivendo minha vida,

Nossas vidas,

Chupando caju e umbu,

Envergonhado, sonso,

Dentre outras variações

A infância traçou minha existência,

As orações guardaram o medo,

A fé o norte...

A vida uma essência...

Momentos doces de infância.



11/03/21

26. Memória botânica

Na infância memórias são cristalizadas,

Memórias maravilhosas de serem rememoradas,

Até parecem fluir no momento que são acessadas,

Vou agora contar uma memórias visualizadas,

Memória que de certo não serve para nada,

Só para que não esquecer de uma vida passada,


As paisagens constantemente são transformadas,

Porém essas jamais serão esquecidas,

Passaram do nada para a existência amada,

Por isso aqui vou compartilhar,

Minhas primeiras memórias botânicas,

Sinal de já sabia o que queria quando nem imaginava,

Eram estas paisagens com seus elementos 

Que enchiam a minha infância de lindo espaço,

E alegram o meu presente ao matutar.


Tinham plantas ornamentais que admirava...

A mumguba de Lídia de Severino

Um tanto perfumada com filetes alvo e vinho

O ipezinho de jardim de Elita de Joãozinho, Antônio de Chiquinho e da Primeira igreja batista.

O Jasmim de Elisa de Vicente Joana e de Maria de Vicentin,

Os híbiscos de Loló de Assis,

As mutambas de Vicente de Paulo,

O bico de papagaio de Dorinha de Luiz de Bonifácio,

A figueira de João Cosme, linda árvore abandonada ao pé da ruina da velha casa.


As plantas medicinais

Um lindo eucalipto na casa de Zé de Júlio e na casa de Banifácio,

A romã na casa de Irelda,


Com as plantas alimentícias a gente olhava e se deliciavam

A condessa de Nelope e Adelso,

As pitombeiras de Bonifácio e Chico Franco,

As jaqueiras de Dezu, de Loló Laercio, de Bonifácio, e de tio Jessie,

Os umbuzeiros de Elita de João de Lico, Zezim de Tica, Joana Rosendo, Loló de Assis, Antônio de Chiquinho do canto, 

As cajaraneiras de Laurita, Munda e Mariana e Mindinnho.

A baixa de coqueiro de Dudé,

A mangueira espada de Bunina,

A mangueira de Leoni,

A ciriguela de Antônia de Nelson,

A pimenta de macaco e mangericão de vovó Chiquinha,

As groselhas de Irelda,

A gravioleira de Loló de Diniz,

A laranjeira de Elita de João de Lico,

O linheiro catolé de Eunice,


As plantas nativas sua natureza se expressava,

O feijão bravo de Iula de Dequin

Os angicos de Rita das urupembas,

Os catolés de Vicente Paulo,

A Timbaúba de Toto de João Corme,

A embiratanha de Chico de Vicente Joana,

O coração de negro de Nelope,

A aroeira de Juvenal,


Os odores das flores de cipós de Bignoniaceae...

Odores de cor rosa ou amarela das tecomas.

Os odores doces alvos das mimosas, unhas de gatos e espinheiros.

As flores estreladas das Jitirana,

Flores multicolores rosas, azuis, alvas e amarelas,

A rama prurida das urtigas,

O amarelo ovo das senas,

O cheiro violeta das mucunas,

A azeda fruta da imburana,

O cheiro doce do cumarú,

O amargo da Marcela,

O baboso do juá,

O azedo do cajá,

O travoso  da maniçoba,

A torteza do Jucá,


São lições botânicas

Fortemente afetivas,

De pessoas muito amadas,

Algumas já partidas...

Assim é viva está minha 

Meu canto em Serrinha do Canto.



10/03/21

25. Cerrador

 Apesar de ser armada com unhas de gato

Eram bonitas  e perfumadas suas flores,

Um pompom bem rosadinho que fica alvinho,

De tanto abelha visitar e assim realizar

A famosa polinização que é a condução

De pólen de flor em flor por meio de um vetor o agente polinizador,

A flor ao ser fecundada vai se desvanecendo 

E o fruto a ser formado vai logo se desenvolvendo

Dos estames  o pólen é formado, 

É nas anteras gerado.

O pistilo por estames é rodiado,

Essa estrutura feminina por estigma

Estilete e ovário é formado,

No estigma o pólen é recepcionado 

Pelo estilete encaminhado,

Onde tubo polínico se desenvolve,

Sendo no ovário recepcionado

Pela micropila o tubo se  rompe 

E os microgametofito e megagametofito se encontram se fundindo,

Assim um embrião é formado,

A micropila aí se fecha,

Dos integumentos a testa é formada,

Da dupla fecundação o endosperma seminal 

Assim a semente é formada 

E concomitante a está o fruto do ovário se origina.

Fruto seco achatado de craspedio é chamado

Sendo autodispersado,

A semente é tão pequena e dura

De cor castanha pela testa envolvida

Com uma forma de ferradura ornada

Pelo nome de pleurograma é chamado

Na terra fértil é germinada.

As folhas são todas miudinhas de invermo

De dia se aberta e a noite se fecha

Se desprendendo no verão

É um pé de cerrador planta bela do sertão,

Mimosa paraibana é batizada

Pela taxonomia classificada.

Assim chego ao breve fim 

Creio ser a botânica assim.







09/03/21

24 Festinha

Não tive uma festa aniversário quando crianças, Não me fez falta... Hoje sei disso, Mas já sabia que não tinha dinheiro, A mamãe sempre fazia uma galinha, fazia também um bolo, E tinha um brinquedo de presente, Mas velas nunca apaguei Nem por isso deixei de ser feliz, Bem que podia ter feito umas fotos. Faltou recurso... Nunca faltou amor, carinho e atenção. A infância passou depois tive festa de aniversário Não mais com os amigos da infância...

08/03/21

23. A caixa de ferramenta

A lembrança tem seu encanto,

Por vezes, nos causa espanto,

Na infância era tudo diferente

Em casa pouca coisa tinha a gente


Para nossa pequena lida tinha 

Enxada, enxadeco e chibanca, 

Até uma velha campinadeira

Para o mato da roça campinar

 


Roçadeira,  facão, foice e machado,

Para tirar forragem e madeira

E o gado alimentar e o curral cercar

Um velho morão de pegar e vacinar


Na casa velha havia uma caixa de madeira

Cheia de traquitanas como pregos, 

Alicate, troques e martelo, suvela,

Serrote, pua e plana gostava de chafurdava


Então foi num ano pela tarde

 A uma escola fui pra lá levado

Todo mundo em fila estava sentado

Me deram um caderno e um lápis


Num quadro verda a professora 

Explicava que riscos eram sons

A - E - I - O - U   e A, B, C...

Vogais e alfabeto

Um caderno e um lápis


E a incompreensão e insubordinação

Tinha como punição um puxão 

De orelha... Ardia e queimava,

Acho que não ligava pois sempre repetia a ação


Ah lição complicada,

Do ABCD chegar a entender o mundo

Que paciência e perseverança,

Largar a infância e se abraçar a responsabilidade

De ler e entender o mundo pelas palavras


As ferramentas de casa eram muito mais simples,

Mas a coragem faz o guerreiro,

Aos trancos e barrancos passava de ano 

E ouvia um elogio e um livramento passar de ano,

Ouvia com prazer que ao menos era inteligente,


Ouvia dizer das aparências com Françuar 

Comparado até nas astúcias assim cultivava 

Minha inteligência pequeno era o mundo

E grande a imaginação...


E ouvi dizer que Dona Lenita era mais rígida,

Mais valente, então o medo me adestrou,

Tomei de primeira as lições, aprendi o que achava

E pontuava as escola, passei por média,


Entre ditongos e tritongos... a Bahia e o Paraguai,

Algo era uma luz e deixara de ser cruz,

Na Serrinha Grande foi a vez de Conceição,


Professora do sertão

Que chegava a serrinha,

E rezava toda manhã,

Agora mais liberdade,

Agora mais responsabilidade,


Três litros de leite e a sala de aula,

Na vergonha vendia aqueles litros,

E o dinheiro a mamãe dava,


Na escola sempre passava...

Quinta série essa foi um destroço

Era muito o alvoroço,

Estudar com professores,


Esperar aula de educação sexual,

Fui expulso da aula de religião,

Fui para quarta avaliação em matemática,

E em ciências, quase reprovei,


Ainda lembro do olhar de severo

De dona Rivete,

Lembro de Cleiton e Primo Valdene...

Edineia, Cileuda, Alessandra e Joesilha,


Sexta série Chaguinha de Viriato me salvou,

Como ave em arapuca,

Fugi de um bagunça nas últimas,

E Chaguinha professor de matemática e ciências

Me salvou da matemática,

Nas ciências me apeguei,


Adivinhe o por quê,

Ali descobri minha inteligência

O livro cheio de imagem,

De bichos e sistemas,

E Chaguinha contava as histórias do Colégio Agrícola de Jundiaí...


Muito obrigado professor,

Na sétima série não esqueço

Aula de geografia,

O mestre José Silva descrevendo as ilhas Polinésias e Melanésias...

Tomava a lição,

Naquela grande inverno,

Para a estrada ia o gado pastorar,

Com o caderno na mão

Aprendia geografia, 

Virando as pedras brancas do Barroso

Em busca de escorpião,

Ai veio o professor Luiz Silva também da geografia,

Tomei gosto pelas boas notas.

Na oitava série o destaque foi Ledimar,


Professora Perpétua e Genilda,

Desculpe mas português não era minha praia...

Lembro da tarde que Drummond morreu,

A professora Genilda falou com muita tristeza.


Essa dificuldade da língua ainda carrego,


Em Martins teve a fabulosa Janildes de biologia,

O fantástico Pedro de matemática,

Oneide e Fátima de Português,

O que dizer da generosidade de drs. Moacir e Luizinho,

Josineide de inglês,

A professora de literatura que me fez pela primeira vez ler o mulato

Dona Marta esta apostou na gente...


Me divertia mesmo era na biblioteca

Ali onde ficava dona Bebeta...

Lia os livros de contos...

Fernando Sabino...


Naquelas noites frias da serra,

Não estava só tinha minhas irmãs

Nossos vizinhos e vizinhas...


Sabe os caminhos foram tortusos,

Mas descobri a caixa de ferramenta de Foucualt muito cedo,

E não teve um dia em minha vida

Que não tivesse um aprendizado,


Agradeço a todos que me ajudaram

E principalmente aqueles que me apoiaram,

Aqueles que vieram e se foram,

Seria impossível descrever...

Dedico tudo que sou a mamãe e a papai.

E fico por aqui.


22. Para além

 Às vezes, a gente fica concentrado,

Fazendo atividades cotidianas,

E ouve sons de coisas humanas,

Som de longe distinto e perturbado,


Parece que ouvimos o eco do tempo,

Parece que nos perdemos no espaço,

A gente sente intensa nossa individualidade,

Sente o quanto somos solitários


Talvez tenha tido essa sensação

No estalado a queimar a maravalha,

No ferver do café com água que borbulha,

No chiado da chuva longe que vem chegando,


Na solidão noturna ouvindo um roncar...


Coisas humanas,

Coisas humanas,

Coisas humanas,


Pulsações da vida,

Que renega até a morte a morte,

Esse medo do desconhecido,

Aprendido desde o ser um bebê.


Agora ouço longe

Roncos de motores,

Ecoando nas ruas,


Longe muito longo vou,

Estou no meio do mato,

Ouvindo roncos de motores

Ecoando nas gargantas das serras,

Ecoando entre as caatingas...


Quem desconhece a cinza

Que se faz ao apagar crepuscular

De cada dia, o cantar da ave maria

Na voz de Gonzaga...


Esse profundo eco

Espelho do tempo,

Eternidade momentânea,

Num ponto é fiado é tecido

O presente e o passado

No ser...


Agora a compreensão que o entendimento está para além da experiência.


21. Paternidade

 O tempo em conta gota

Sendo o sono fracionado 

A noite que antes fora oculta

 agora está sendo desvelada


Entre horas se ouve seu chamado

Um gemido, uma virada, uma tosse

Quando a gente olha e ver 

Tanta beleza condensada


Fica hipnotizado cansado 

E feliz sem perceber a noite

E seus fenômenos revelados


Frágil Belo e delicado

Necessita de atenção,

Precisa de cuidado 

A paternidade é assim revelada.




07/03/21

20. Escreve

Um dia esses versos

Serão  empoeirados

Serão esquecidos,

Não desaparecidos 


Terá sempre uma chave 

A quem quiser acessar,

A quem poderia interessar,

São imaturos e pobres


Nem sabem o que expressar,

Falta métrica e rima e emoção,

Amorfos buscam uma classificação,

Querem em um gênero se encontrar


Desejam ser objeto do pensar,

Buscam nas palavras enunciação

Buscam alguma participação

Mas como um um habitat encontrar?


O tempo e o espaço hão de se encarregar

O que vos escreve desconhece a arte

Desconhece os paradigmas e toda parte,

Sabe apenas que o oriente ama a lógica.


Matutar a palavra encaixa-la feito dominó 

Encontrar a beleza na organização rimada

Me trás uma reflexão pouco embasada

Que os espaços são ocos e podem ser um só


Ocupado, limitado ou ilimitado,

Pois agora é a melhor hora 

De quebrar o paradigma

O protocolo, e aqui intuir

Criar uma quimera 


Que seja mesmo independente,

Particular ou universal 

Que seja livre 

E apesar de tudo original


Que tenha fim imediato.

















19. Serrinha do Canto

 Serrinha do canto

Meu amado encanto,

Meu centro espiritual,

Meus referenciais,

Em linhas gerais

Aqui sempre estou,


Serrinha do Canto

Foi onde eu cresci,

Foi onde vivi

Vivi protegido,

Vivi amado,

Papai e mamãe,

Meus irmãos e irmãs,

Nossa casinha,


Serrinha do Canto

Onde tudo começou,

As primeiras brincadeiras,

As primeiras amizades,

As primeiras orações,


Serrinha do Canto

Meu ponto de dormida,

Meu ponto de comida,

Meu sentir plena a vida,


Serrinha do Canto

Os nossos vizinhos,

Nossas famílias escolhida,

Elita e Joãozinho,

Du Carmo e João Lusso,

Chico Neco e Arlete,

Artur e Eliza,

Ribamar e Lena,

Airton e Eliene,

Zezin e Tica,

Dudé e Zé de Geremias

Hélio e Paulinha,

Crejo e Josa,

Loló e Dezu,

Seu Mundinho e Luiz,

Dequinho e Iola,

Totó e Zuleide,

Nelson e Antônia,

Raimundo Vieira e Cacau,

Antonio de Doquinha e Ziná

Diã e Neta,

Joquinha e Nena,

Juvenal e Iraide,

Adelson e Antônia,

Nelope e Luzia,

Livani e Evandro

Chiquinho do Canto e Socorro, 

Bonifácio e Loide,

Tirite e Lenita,

Leci e Laurita,

Maria de Cajumba,

Tio Juice

Zé Vieira,

Miguel e Tereza,

Mané de Branca e 

Dadá e Preta

Dinarte e Doraci

Deo, Nazareno, Gorete, Régia,

Zé Paulo e Elita

Jaíme e Luiza,

Chico de Joana e Daleia,

Minino e Ieda,

Vavá e Elieuza,

Neto e Júlia

Diniz e Loló,

Josimá e Elenita,

Elias e Loló...


Serrinha do canto

Minha alfabetização

Dona Livani e dona Lenita,


Não não podes imaginar

Nossas distintas relações...


As brincadeiras de criança

Fazenda, dinheiro moeda de carteira de cigarro,

Carro de madeira,

Caçada de baladeira

Caçada de cachorro,

Pegar passarim...


No inverno os banhos de cachoeira no porção

No verão o fotebol no porção e no marocão,


A biclicleta barra circular e a escola,

Nossa monareta azul,


A luz elétrica...

A televisão

Show da Xuxa,

Leandro e Leonardo


Serrinha do Canto

Um ponto entre os avós

Chico e Chica

José e Sinhá,

Tio Aldo e Tia Nevinha,


Esse meu imaginário...


Serrinha do Canto

Nossas vacas magras,

Nossos cachorros,

Nossos gatos,


Serrinha do Canto

É meu alicerce

Meu tempo e meu espaço...

Afinal quem somos nós

Parte de onde partimos,

Parte de onde saímos,

Parte do que ouvimos,

Parte do que repetimos

Aquilo que queremos repetir,

Agora é hora de matutar

Maturar,

Digerir e representar...

Serrinha do Canto.

18. Metamorfose cega do sertão

Quem conhece o sertão

Reconhece seus odores

E suas diferentes cores,

Quem conhece o sertão


Odores fortes de plantas,

Odores forte de carniça,

Odores fortes de lixo,

Quem conhece o sertão

Conhece a caatinga cinza,

Conhece o vinho do mourão de aroeira,

E o laranja ou a alva da poeira,


Conhecer o sertão

Faz parte da existência sertaneja,

é gostar de caldo de cana e rapadura

Gostar de melão e melancia,

Gostar de feijão verde,

Gostar de pamonha,


Gostar de pescar no açude,

Gostar de ouvir cantoria...

Gostar de se encontrar em festa de padroeira,

Gostar de vida simples,


Mas o sertão mudou,

Criança não come coalhada só yogurt,

Criança não brinca correndo,

Criança tem tablet até aprende inglês,


O sertão mudou,

Agora a caatinga é cheia de lixo,

Agora a caatinga é pobre de bicho,


Muita coisa mudou no sertão,

Cemitério tem telhado,

Adulto vive no celular,

Ninguém mais quer trabalhar,


Mudaram as tradições...

Quem vê o sertão de hoje,

Nem imagina como foi,


Tudo evolui

Que se adapta sobrevive

Que não se adapta morre,


Corre corre corre...

Foi o sertão que mudou ou foi sertanejo?




17. Morte

 A morte é o não ser,

A morte mata todos,

A morte é o ponto final

Não da frase, mas do texto.

A gente se pergunta 

O que é a morte 

Quando nos cerca,

Quando nos leva 

Alguém muito querido 

Pensamos sem parar

Por que isso aconteceu?

A morte é caixão 

É paixão,

É dor 

É diluição

Desaparecer 

E por fim 

Adeus poesia

Morte.








16. Madrugada

 Na madrugada, canta marrom a corroira 

Canta, cantando vai pulando pra lá e pra cá,

Grita amarelo o bem-te-vi perto de seu ninho,

Canta laranja o sabiá que parece assobiá.

A passarada anuncia um novo dia,

Um lindo dia de março de 2021,

Um novo dia de ação dia de ser.





06/03/21

15. Estória

 Numa manhã domingueira,

Segui com mamãe até o sertão,

Fomos de jegue se bem me lembro,

Lá pra casa de vovó Sinhá,

A estrada era apertada,

Com areia alva 

E seixos rolados,

A gente ia caminhando

E o mundo descobrindo,

Cada árvore mais linda,

De certo era inverno,

A água escorria na terra úmida,

Era perfumada a estrada,

Um cheiro de marmeleiro,

Cheiro de velame,

A certo momento num novo lugar,

Ouvia a rolinha cantar,

Fogo-pago, fogo-pago, fogo pago...

E ao voar ouvi o som de chocalho,

Ouvi um canto lá no campo,

Era um canto maravilhoso,

Era o tico-tico do campo.

Chegando na casa de vó,

O mundo era tão amplo

E nós tão pequenos,

Ali se via serras

Eram outras terras,

Serras no nascente,

Serras no norte e no poente,

Só o sul era profundo.

Vovó nos recebeu,

Vovô também estava lá

Vimos a mana Lera

Vimos o primo Magi,

Vimos a alegria de mamãe,

Ao chegar lá se sentia em casa,

A maravaia queimava no fogão de lenha,

Queimava acabando de cozer o feijão,

Tomamos uma coisa mole e alva,

Feita de leite chamada de coalhada,

Rasparam a rapadura

Misturaram e comemos,

O que me chamou atenção

Foi o lugar onde guardava 

Tal manja a coalhada,

Descansada numa forquilha,

Teve a noite dormida

E agora era comida...

Eu criança curiosa,

Achava aquilo esquisito,

Casa de taipa,

Vovó idosa,

Vovô pigarreando,

Entre eles conversando

E eu viajando,

Apenas nas formas,

Da vida nada entendia,

Só vivia,

Foi um dia maravilhoso,

Que volta sempre a minha memória,

Parece uma estória,

Mais um dia foi realidade,

Seria a realidade um sonho?

Penso agora risonho...

A casa,

A paisagem,

Meus avós são estórias e sonhos,

Coisas de minha  memória,

Que compõe esta estória.

E é só.

14. Metafísica poética

 Agora é tempo...

Quase meia noite é

Desperto deitado,

Ouço o som

Que vem lá de fora,

Fora é espaço,

A chuva que chora...

A chuva chorando,

Num átino,

 Vejo o que não mais existe  

Memórias o são essas coisas,

Sei que estou triste 

Sinto é tristeza...

Tristeza é reflexo de memória?

A tristeza tem a mesma matéria da memória?

Então penso e escrevo meu pensamento,

Materializando assim tanto a memória

Quanto a tristeza que existe,

Se é que existe...

Só sei porque me disseram,

Você está triste,

Então esse sentimento 

Ganhou uma palavra na língua portuguesa.

Se fosse inglesa seria Sad 

Ou ainda BLUE...

Esse sentimento existe na natureza?

Duvido que exista fora de mim 

Fora de ti!?

Então o que existe fora de mim 

Precisa ter substância?

Qual é a substância da memória?

E a substância da tristeza?

A tristeza pode ser controlada

Via medicamentosa

Regulando bem os hormônios,

Endorfina...

A contemporaneidade e a ciência

Juntas numa só mataram a melancolia,

 Enterrando as trevas,

Superando os ciclos de Danti.

Parou de chover,

Tudo é silêncio  

Mas ouço um som 

Um som não é só memória,

A prosa me fez esquecer a tristeza

Ou acabei de ficar triste

Não contente...

Ouço um ruído

Parece som de mangangá

Zuummmm

Zummmmm zeeeeeeee.

Aquela abelha gorda 

Sobre a flor papilionácea

Flor violeta da mucuna 

Do olho de boi,

Até na sobra da ignorância

Me encantava a natureza das plantas,

Em suas flores,  frutos e sementes.

Espere perdi o foco 

Ganhei o sono,

Uns versos

Melhor não adiar 

Em casa com criança

Sono é artigo de luxo...

Parou de chover.

Chega me calei.








05/03/21

13. Saudades

O amor foi feito só para quem ama de verdade.  E eu nunca senti por ninguém o que sinto por você. Te amo de verdade. De seu pai para Rubens.  

Está frase está numa plaquinha que papai trouxe do Canindé.

Papai era assim nos pegava no amor nos simples gestos.

Seus presentes jenuinos enchiam nossos espíritos de maravilhosos sentimentos.

Hoje recebeu seu amigo Amós aí onde estiver.

Saudades.

12. Sentido

 Ainda é muito viva a presença de papai na minha vida. Faz quase três mês que ele partiu, mas ainda sinto

 intensamente sua presença. Ouço sua voz. Vejo seus gestos. Lembro de nossas conversas. Lembro de tudo.

Dói muito saber que não terei mais sua presença não compartilharei mais nada.

Quando adoeceu foi a pior parte de nossas vidas, pois adoecemos juntos. Entramos em desespero.

Fui correndo cuidar dele. Ele falou assim. Cansado, sem esperança. Era um domingo a noite.

A vida não faz mais sentido.

Não faz sentido.

Então começamos a cuidar dele com o maior do mundo.

E ele ganhou um sentido. Ganhou uma sobrevida.

Viveu um pouco a mais.

O amor pode mudar a maneira de ver o mundo.

Podemos mudar o mundo com amor.

Podemos dar sentido a tudo e principalmente a vida.

A doença venceu a carne, mas não o espírito.

Toda noite papai rezava...

Estava do seu lado o tempo todo.

Enchia ele de beijo, de carinho...

E meu maior medo era da tua partida.

Não sei expressar o que sinto.

E quando não sei expressar.

Esse sentimento externa em lágrimas.

Tenho que reavaliar tudo.

Os anos que vivi ao teu lado papai.

Tudo que aprendi com o senhor sobre a vida,

Coisas grandes e coisas pequenas.

O respeito a vida, aos seres, as pessoas...

E sempre que lembro de seus momentos de fragilidade meu coração se comprime.

Na fragilidade ajudou a mamãe cuidar de mim.

Na fragilidade todos nos cuidamos de ti.

Cuidamos da maneira que podemos até o fim.

Na minha parede agora tem uma imagem sua.

Na minha mente tem o teu espirito.

Amor infinito.

04/03/21

8. Ausência

Quando alguém deixa este mundo,

E é gente  por nós muito amada,

Fica a ausência algo profundo,

Fica aquela atmosfera destroçada


Parece que tudo chegou ao fim 

Fica faltando uma parte,

E demora pra se acostumar

Então a gente pensa no ser 


A gente pensa no tempo

A gente pensa mais

Pensa no que aconteceu

E enfim um dia aceita 

Embora a dor nunca mais acabe.

Outras coisas ocupam o lugar

A ausência dói.







11. A Vinícius

 Não há nada mais sublime que segurar seu filho enquanto dorme na mais perfeita paz.

Seu corpinho frágil, macio, sua respiração, sua vida aos teus cuidados. A impressão que temos é que

 nossos corações vão explodir de tanto amor.

A gente fica olhando, assistindo cada coisinha no corpinho.

Sentimos seu cheirinho, sua cândida existência.

Até dois meses atrás desconhecia todas essas sensações.

Até dois meses atrás quando meu filho nasceu,

Certamente eu me transformei, houve uma catarse amorosa.

Noites e noites mau dormidas,

E aquela preocupação na mente está tudo bem?

Está tudo bem...

Mesmo estando tudo bem a gente não acredita e fica acordado olhando até a exaustão.

E quando o dia nasce

E quando aqueles olhinhos se abrem,

Parece que deram uma supercarga de energia,

Porque agora nossa felicidade não é nossa é algo compartilhado.

A mamãe amamenta e o papai colabora cuidando de cada coisinha.

E ai surgem novas conversas, surge aquela empatia de quem é pai...

Nossos exemplos compartilhados.

Não sei se sou mais bobo, mas rio à toa com as coisas de meu bebê,

E a proporção que vou sendo reconhecido, a proporção que ganho um sorriso,

Descubro que o amor é infinito.

Ser pai é uma grande dádiva.

Poder falar ouça o papai, venha pro papai, o papai vai te ajudar.

Pegar aquele serzinho e dizer "Te amo".

Você é o meu maior tesouro...

A gente fala sem saber se ele vai entender.

Sabe aquela manhã que você acorda bem e percebe o mundo,

As flores em frente as casas, na campina,

Você ama está vivo, ama ser quem é.

Pois é a sensação de ser pai é muito superior.

Então enquanto lindamente ele dorme ali no carrinho,

Ouço Schubert para bebês

E dedico este pequeno texto aquele que mais amo no mundo,

Vinícius meu bebezinho.

10. Um instante

 A tarde caiu nublada e chuvosa,

Chove, dá um tempo, chove,

Fecha a janela e abre a janela,

Toma um chá,

Faz calor,

Abre a janela,

Faz frio,

Uma música,

O cuidar das coisas,

Cuidar do bebê,

Cuidar da esposa,

Cuidar dos irmãos,

Da família...

E a fé.


9. Enquanto isso

 A noite me acordou com seu calor

E me entregou a madrugada estrelada

Entregou-me em silêncio,

Meu menino acordou  e mamou 

Discretamente dormiu.

Dormiu no meu peito  e nos meus braços

Sua cabecinha perfumada incensou minhas  narinas,

Se mexia, respirava 

Era quente seu corpinho, tão gordinho.

O galo cantou, ouço o teco-teco do ventilador da vizinha de baixo,

Também ouço o canto mudo dos grilos,

Olho pro céu parece que o piscar das estrelas imitam o ciciar dos grilos.

Minha esposa ressona,

Vinícius no berço em busca de se acomodar

Uma corroira canta 

Um galo canta,

E penso que ainda me surpreende ter galinha em algumas ruas desse cidade.

Olho a x brilhando e penso em pai.

Até o calor refresca na madrugada,

Enquanto Vinícius mamava 

Peguei um livro  de Neruda 

As uvas e o vento e li o prólogo em um poema.

Pensei em Vô José...

Em mamãe...

Vinícius dormia em meu peito.

Agora lá fora ouço

Siriririririri...

Uma brisa fria atravessa a janela.

O sono já chega...







03/03/21

7. Um ponto

 Andamos perdidos em nossos pensamentos.

Somos infantis?

Sempre em busca de algo que nos preencha.

Parece que o vazio é nossa maior parte. 

Somos balões?

Não percebemos a nossa realidade seja qual for.

Somos míopes?

Temos medo de perder algo o tempo inteiro.

Nem vivemos intensamente o presente, o aqui e o agora.

E quando perdemos nem tomamos conta que precisamos nos ater ao presente ao agora.

Parece que a vida é um punhado de areia em nossas mãos

Que vai perdendo grão em grão.

...

6. Mozart

 Mozart sem dúvida é meu compositor favorito. Se me perguntar por que? Não tenho uma resposta. Como não tenho respostas para a maior parte das coisas que existe ao meu redor. Todavia, gosto pois sinto sua música. Bem todos podem sentir, mas por que não sente ou aprecia, como não apreciava. Cuidando agora de meu filho passo entender e racionalizar muita coisa. Ele não entende coisas que para mim são óbvias. Coisas que o irrita para mim são maravilhosas, mas não é sobre mim. É sobre o outro, sobre você. Quando me perguntas porque Mozart direi porque sinto, porque vejo alegria, felicidade... Sabe a gente tem uma coisa chamada consciência. Que por definição seria a apreensão de um sentido. Desde que a gente passa a ter consciência a vida fica muito mais complicada, porque passamos a nos basear nos outros. Estava sozinho em meus pensamentos e perguntei a mim mesmo. O que poderia ser bom neste momento. Liguei o computador e ouvi Mozart. Não entendi nada. A primeira vista as coisas nos desnorteiam, são apenas impressões. Na segunda vez que ouvi, já me familiarizei um pouco e fui tomando consciência, passei a ter percepção, depois mais um pouco me interessou saber quem foi o compositor, o que o fez compor tal e tal peça... Bom esse é meu modo de ser. Veja que arrodeio muito para falar algo. Gosto de Mozart porque descobri que podia gostar. Então fique em paz que vou ouvir aqui. 


https://www.youtube.com/watch?v=FZ1mj9IaczQ

5. Nuvem

 O mundo essa soma de tudo que existe

 É a pluralidade além de nossas impressões,

Por certo objetiva, mas que é sem emoções,

Existe a sensação de está alegre ou triste.


Meu mundo o que seria representações

Ou seria o que é pura matéria 

Ou um produto do trabalho de reflexões,

Ou coisa descabida de explicações.


Versos, estrofes, rimas frases com migalhas de perguntas.

Uma tentativa de organizar o universo humano.

Talvez algo se consiga entender,


Talvez seja tudo vaidade,

Talvez seja uma busca da verdade,

Ou tudo é ilusão.



02/03/21

4. Graça

 Na antena

Pousou um sanhaçu

Ficou ali plinçando 

Ficou ali cantando,

O frescor da manhã,

O céu infinito,

A liberdade em suas asas,

A liberdade em seu canto,

A beleza dessa realidade 

A beleza da simplicidade,

Se perde em nossos pensamentos,

Por vezes se encontra no agora,

Em estado de graça.





3. Alicerce

 Lá fora está fresco.

A manhã nasceu agradável.

Nublada, mas com campos de azul do céu.

Canta sem parar,

Canta em todo lugar,

O bem-te-vi,

A corroira,

A patativa,

O sanhaçu...

O que dizem não sei,

Mas é uma beleza de ouvir.

São as coisas deste mundo,

São as coisas desta vida,

Particularidades de uma totalidade.

Onde a consciência não consegue tocar

Apenas contemplar.

Uma manhã qualquer

Em qualquer lugar que seja.

A base de tudo é subjetiva.

2. Papai

 Papai meu papaizinho querido,

É pena que tenhas partido,

Deixando meu coração fendido

Em dor e muita saudade


Logo você minha maior alegria,

Meu alicerce, meu pilar, minha poesia 

Meu confessor e amigo mais antigo,

Como dói a sua ausência a noite ou de dia


Me faz falta sua grande Alegria

Forte e intensa que me contagia.


Ah papai que intensa foi a dor,

Como foi triste sua partida

Achei que ia perder a vida

De tanto sofrer de amor


Não tenho mais o que fazer

Só me resta agora é sofrer,


Tá cheia minha lembrança,

De todo o tempo vivido

Em sua presenças ouvido

A vida cheia de bonança


Mas aí, mas aí

O tempo cruel vai

Levar que a gente ama

A gente imóvel na cama


Neste triste momento

A gente se questiona

Por que a vida se vai

Por que levou meu pai?


Cadê você papai

Cadê você papai


Não falas

Não ouves

Não és


Continuar aqui a sofrer

Quem sabe um dia ao morrer

Venha te encontrar


Eis maior mistério

Que o senhor me perdoe

Mas é a dor quem me fala

É a dor que não cala

De alguém que um dia foi


Agora é só memória

Nada mais.








01/03/21

Umbuzeiro

 Umbuzeiro

Árvore intrincada e retorcida,

De copa muito fechada

Conhecida como árvore da vida,

Madeira mole, quebradiça e alva

Nuas na seca se tornado cinza,


Floresce quando o clima muda,

Seus cachinhos são alvinhos 

Miudinhas flores estreladas 

Que planta amável






1. Intangível

Onde podes encontrar minha mente?
É muito fácil. Está longe.
Está lá onde cresci em Serrinha.
Está contemplando a natureza.
Está sentindo o cheiro da terra molhada,
Está sentindo o frio pós chuva,
Está vendo as tanajuras a voar,
Vendo tronco limpos das árvores,
Está ouvindo os sapos coachar,
Está ouvindo o sabiá cantar,
Está sentindo a terra molhada,
Está vendo a tarde nublada,
Ou a tarde ensolarada depois da noite chuvosa.
Sabe há um ar de mistério,
Algo muito místico,
Sinto que sinto sozinho essa sensação de solidão.
Algo indescritível, surreal.
Não sei, mas algo mudou.
Agora essa atmosfera se faz mais mística
Agora que papai ocupa esse cosmo.
Sempre estive preso a tudo isso.
Não sei me expressar.
Nenhuma palavra será capaz de explicar.
É algo que se sente.
Como sentirás?
Não sou capaz de dar-lhe este presente.
Sentir essa emoção.
Então pareço ilógico.
A luz da totalidade não sou.
Nunca provarei nem despertarei em tua consciência.
Contínuo oculto com minha sensação.
Aqui me encontrar.
Entre a mata seca e intrincada...
Algo intangível.

28/02/21

56. Chuva

 Já chove três dias seguidos aqui em João Pessoa.

Vários alagamentos ocorreram nas ruas mais baixas.

As pessoas estão reclusas em casa.

Esperando esta chuva parar.

Já choveu mais que chove nesta época.

Segundo jornal a 30 anos não Chovia tanto na mesma época.

Segue chovendo muito.

Canta o sabiá e o bem-te-vi.

E tudo está acontecendo como sempre.



27/02/21

55. Juca

 Juca

Esta planta marrenta 

De crescimento lento,

De tronco liso bicolor 

Tronco forte e enroscado,


Cresce feito espeto

Ramo inerme e lenticelado,

De copa muito fechada,

Reune toda passarada,


Tem folhas o ano inteiro,

De inverno a verão,

E quando floresce,

Seus cacho amarelos,

A copa embelezada,


Por abelhas visitada,

Após forma fruto duro,







26/02/21

54. Mulungu

 Mulungu

Belas flores encarnadas

Assim tem sua florada

A copa aberta enfeitada,

De flores naviculadas


Nela aparece o beija-flor,

Buscando néctar de flor em flor

Aparece o sofreu 

Aparece o sanhaçu,


E após polinizada

Tem as flores fecundada,

Da vagem moniliforme

Semente vermelha é dispersada,


E na beira do riacho,

Germina e a semente,

É a natureza moira

Que determina a geração


Essa prima do feijão

De madeira mole 

Só encanta a natureza

Só é fonte de beleza 


É uma planta invocada

Sempre encontra-se armada

Na seca perde as folhas e fulora

No inverno se enrama e cresce


Assim é o mulungu

Planta viva do sertão.


Nela aparece 


Que bela e imensa árvore,

Que cresce em beira d'água

Tronco armado e estriado,,,



53. Doce passado

Cajus maduros suculentos,

Cajueiros inteiros carregados,

O ambiente todo perfumado,

A graça divina na terra,

Fartura madura acridoce,

Que infância de relevância,

De um passado acabado,

Restam apenas lembranças,

Nem algo com semelhança...

Delícia, deliciosa, passada.


Maniçoba

 Maniçoba

Arvore estiolada,

Lenha mole e alvinha,

Tronco escuro,

Ceiva alva leitosa

Casca esfoliante,

Ramos angulados,

Odor intenso

Folha lobadas,

lisa, de haste avermelhada,

Flores diclinas,

Fruto cápsulas

Espocam no verão,

Atirando suas sementes,





25/02/21

53. Juazeiro

Juazeiro

Juazeiro, 

Essa árvore tão frondosa,

De copa imensa e fechada,

Sombra fresca e generosa,

Até na seca enfolharada,


Nasce muito no baixio,

Cresce de forma lenta e torta,

De ramos sempre armados,

Demora a frutificar,


Oculta é sua florada,

De flores pequenas,

Verdes e estreladas,

Só por abelhas anunciada,


Então no fim da estação,

Aparecem os frutos ásperos,

De cor amarela e quiabenta,

Só os bichos apreciam,


Comem as folhas e os frutos,

E dispersam no cercado,


Há quem use sua casca

Para higiene bucal,

Juá na cachaça,

Creme dental melhor não há,


Deus o livre se sua estrepada,

Que fura até alpercata de pneu,


E lá está o juazeiro,

No meio do tabuleiro,

Verde esperança,

No meio da seca,

No meio do sertão.


De tronco áspero e duro,

Alva madeira e casca amarga,

Os ramos armados,


Com a casca muito amarga,

A madeira é alva

Tua madeira alva e dura,

A casca é muito amarga,


A casca 

Com sua casca escova  os dentes,

Suas flores tão miúdas,

Teu fruto áspero e quiabento,






52. Coexistencia

 O tempo,

O espaço,

A existência

Coexistem,

Se convergem entre si,

Numa impressão

Chamada ser,

Que é e deixa de ser,

No mesmo instante,

No devir!!!


51. Catingueria 2

 A catingueira madeira torta 

Na seca até parece morta,

Tronco forte e acinzentado,

As vezes oco e habitado,


Seu crescimento lento,

E longa é sua vida,

Hiberna maior parte da lida,

Se chove desperta,


Brotam das gemas as folhas,

Das folhas o intenso odor,

Depois aparece a flor,

E com elas as abelhas


Que visitam sem parar,

O dia inteiro vem e vai,

Mamangava vem abelha sai,

O polém e néctar a explorar


Após a polinização

Ocorre a fecundação,

E a semente a crescer,

Em vagens duras de roer,


Vem o verão,

Fim da estação,

A vagem explode,

E atira a semente,


Em um distante lugar,

Caminhando na mata

Só se ouve o estalar,

Espoca, pra cá e pra lá,


Quando cai a chuva,

Germina a semente,

E a vida renova,

Sem precisar de cova,


A natureza,

Mostra sua beleza,

Independência humana,

Cresce forte a catingueira.

24/02/21

50. Papai

Olhar amoroso para cada ser.
Se apegava com facilidade,
Tinha amor de sobra dar.
O silêncio se comunicava
Entre ele e os animais,
Um afago, um colo
Uma palavra.
Generosidade.

Boceja...

49. jitirana

 Jitirana Jitirana,

Uma corda enroscada 

Forma uma latada,

E linda florada,


Cresce no campo 

Cresce na mata

Cresce até florar,

Cresce a se enroscar


Jitirana Jitirana,


Flores coloridas

Flores estreladas,

Flores visitadas,


Flores amarelas,

Flores rosas,

Flores azuis,

Flores alvas,


E quando é seca,

Dorme no chão,

Dormente a semente,

Espera o outro inverno.



Amanhece

 Enche o peito do ar frio da madrugada. Traz em si um cheiro particular, Cheiro das chuvas de abril, Cheiro da mata molhada. O silêncio é su...

Gogh

Gogh