O vento sopra,
Tem soprado um sopro frio.
Até me sinto mais contente.
Mas o que me aperta o peito
É a saudade de mamãe.
E ver que Vinícius vai crescer sem ela.
Que saudade de mamãe
Que saudade de papai.
E o mundo continua girando.
O vento sopra,
Tem soprado um sopro frio.
Até me sinto mais contente.
Mas o que me aperta o peito
É a saudade de mamãe.
E ver que Vinícius vai crescer sem ela.
Que saudade de mamãe
Que saudade de papai.
E o mundo continua girando.
A tarde está nublada e fria,
Silenciosa.
Só ouço uns bem-ti-vis.
Logo as chuvas cairão.
Preparo um tereré.
Então vou ouvi Chopin,
Lembro de papai e de mamãe.
Hoje é um dia especial,
Sua neta entrou na USP,
História.
Estou feliz...
Com saudades deles.
Agora ouço andorinhas e saíras lá fora.
Volto a leitura.
Madrugada escura,
Acordo!
Saio fora do quarto,
Ali está a plenitude do universo,
Um céu tão escuro
E tão estrelado.
Penso na existência,
Ouço o ronco de mamãe e de papai.
Tudo está bem,
Acordamos e tomamos um café juntos.
Que coisa linda.
Passei na rua e fiquei impressionado,
Com o cheiro não sei se era de uma flor.
Procurei por todos os lados, não reconheci tal odor,
Olhei, olhei e nada.
Que estranho e delicioso aroma.
Depois cai no esquecimento.
Mamãe,
Ontem fez dois meses que a senhora se foi,
Significa que nunca fiquei tanto tempo sem te ouvir,
Brincar, me aconselhar, me chamar a atenção.
Nunca estivemos tão distante,
Nem quando viajei para tão longe.
Sinto muito sua falta mamãe.
Às vezes choro, pensando em ti,
Choro de saudades.
Mamão onde estiver saiba que te amo eternamente,
Não me esqueço da senhora...
Se sou tudo que sou porque a senhora me deu a vida, me educou e me ensinou tantas coisas.
Sei que estas palavras não ouvirás,
Devia ter dito antes,
Todavia sempre te disse que te amava.
Várias vezes... isso me enche o coração de paz e amor.
E a senhora respondia que me amava.
Sempre fomos tão próximos.
Que saudades de você.
As dores em ti eram grandes,
Se Deus te levou foi para suavizar,
A existência estava sendo muito dura como sempre foi com a senhora.
Nunca vou me esquecer de ti mamãe,
Nem do papai que foi antes.
Nossa que vazio ficou na minha vida.
Minha sorte é que tem o Vinícius e Dayane e os irmãos.
Quando vejo e brinco com ele me lembro tanto de ti.
É assim a vida.
Assim são as coisas.
Ontem rezei para ti.
Tenho que rezar mais.
Assim a vida vai passando,
Um dia nos reencontraremos mamãe na eternidade.
Muito obrigado por tudo.
Te amo,
Beijos e abraços.
Tarde que cai,
Tarde que vai,
Não volta jamais,
Não torna jamais,
Tarde que esfria,
Tarde fim de dia,
Tarde parte do dia.
Cata um bem-ti-vi.
Oca soa a existência.
Oca soa a existência.
Resumo do dia,
Tarde.
Os momentos podem deixar marcas duradouras.
Os momentos em que estivemos juntos foram tão intensos.
Durante a vida...
Em teu seio fui gerado,
E por ti alimentado,
Tu me ensinaste a andar, falar.
Minha seta direta.
Que saudades de ti.
Onde estarás agora?
A chuva quando chove é tão bonito.
Pingo a pingo vai molhando o chão,
Amolecendo o barro e o torrão,
E água se dar na terra se acumula,
Tomando qualquer forma que a desejar,
Aos poucos vai brotando nos ramos,
Vai moldando gemas formando folhas e flores,
A semente faz germinar da potencia aristotélica, um ato se transformar,
E o embrião adormecido a vida acordar.
A chuva tão amada por meus avós por meus pais e por mim e por todos nós.
Água é fonte de vida.
A chuva é fonte de água,
Que maravilha perceber a beleza da chuva.
Entender a importância da chuva.
A gente precisa da chuva pra plantar o que comer.
Feijão, milho, abóbora, melancia e tantas frutas peculiares.
Que nos alimenta e nos sustenta.
Papai amava a chuva, morria de medo do trovão e do relâmpago.
Mamãe se divertia com o medo de papai.
Tempo bom aquele.
Nas chuvas da tarde a gente se abraçava
Com o olhar.
A gente se banhava na bica,
Se secava junto ao fogão
Enquanto o Xerém borbulhava cozinhando,
Papai num tamborete bem sentado
Contava alguma graça.
A gente contente, feliz com a água em abundância escorrendo da bica,
Baldes, potes e tanque cheio,
A cisterna cheia.
O ronco barulhento do trovão,
O flash do relâmpago...
A chuva demorada até a noitinha,
Papai saia para o curral engurujado feito frango molhado,
Ia alimentar o gado.
A galinha com os pontos sob as asas dormia na casa velha, na área pequena da cozinha
Se virava como podia dog o cachorro de longa data.
Após a chuva cantavam os cururus.
A noite silenciosa chegava,
A gente se alimentava,
Na cama amada sob cobertas de algodão
Se esquentava,
Mamãe nos enrolava e mandava a gente rezar.
A a chuva chovia a noite inteira.
Parece um sonho de inverno...
Será a vida um longo sonho?
Será a chuva um despertar?
Que saudades da minha mãe.
Mamãe tu partiu e me deixou.
Meu coração está tão machucado,
Tão sofrido sem a senhora para me aconselhar.
A gente combinava as coisas.
Tínhamos tantas ideias semelhantes.
Mamãe. Mamãezinha.
Porque as mães não são eternas.
Ainda ontem te dava os remédios,
Massageava suas pernas e pés.
E você se foi.
Nunca imaginei.
Parece que estou vivendo um pesadelo.
Mãezinha ainda bem que sempre te disse
Te amo.
Pude ouvir de ti que me amava.
Saudades de você mamãe
Saudades do papai.
Saudades.
Uma cruz no meio do caminho.
O que significava aqui?
Pensava quando criança.
Que coisa mais mística.
Abalava minha alma inteira.
Perguntei para papai o que era aquilo.
Ele me respondeu uma cruz.
Mas para que serve?
Para marcar que ali morreu uma pessoa.
Morreu?
O que é morrer?
Por muito tempo desconheci a morte.
Quando descobri o que era morte.
Fiquei com medo.
Perdi minha inocência.
Chorei desesperado.
Já que a morte diziam era uma coisa para todos.
Chorei porque pensei em perder os meus pais para a morte.
A morte se revelou... acho que aos nove anos.
Perdi meu primeiro avó.
A luz de lamparina e velas
Era alumiado aquele corpo idoso.
Um caixão simples de pano azul celeste.
Mamãe e papai choraram.
Doeu meu coração.
Nada fazia muito sentido.
Outro dia sai correndo para trás da casa velha que era germinada a nossa.
Sob o cajueiro, olhando o poleiro das galinhas que ali se faziam.
Chorei... chorei que só.
Era a consciência se estabelecendo em mim.
Era ela expulsando a minha inocência.
Quantas coisas não aconteceram depois ali em nossa casa.
O mundo se desvelou.
Conheci um poema profundamente de Bandeira.
Quando o li, me entristeci.
Hoje papai e mamãe são quem dormem.
Como dói.
Dói no fundo da alma.
A cruz... a morte... o ser.
Nada fica.
Nada é em si.
O tempo tudo dissolve.
Aquela planta ali, é um jasmim-manga.
Veja suas folhas são semelhantes as de manga.
Veja quão alvas são suas flores e amarela sua fauce.
Tem também flores rosas.
Suas flores são tão perfumadas.
Meu primeiro contato com esta planta foi traumático.
A primeira vez que vi.
Vi flores que enfeitavam e perfumavam um corpo frio.
Um corpo numa urna de pano, um caixão.
Um defunto, do latim defunctus aquele que deixou de existir.
Um cadáver, do latim "carne data vermem", carne dada aos vermes.
De qualquer forma tudo associado a morte me parece estranha.
Enfim, aquele odor, e aquela forma pentâmera cravou em minha mente a associação com a morte.
Criou em mim uma marca profunda que só a botânica conseguiu extrair.
Enfim,
Aquela planta que conheci na infância como jasmim.
Continua a ser jasmim.
Porém agora sei que pertencia a família das apocináceas,
Ao gênero Plumeria.
Espécie Plumeria rubra.
E o que muda? Sua forma de conhecê-la.
Nossas orações,
Nossos santos,
Nossos terços,
Nossos oratórios.
Uma vela acesa,
Luz a vibrar,
Fogo é matéria sendo consumida,
Vida é como fogo,
Mente como tempestade.
Nossas crenças,
Nossa fé.
Constitui uma parte de quem somos.
Ou de quem nos ensinaram
E que assumimos ser.
Há dois anos meu carnaval foi completo.
Papai e mamãe estavam comigo.
Ano atrasado papai se foi,
Este ano foi mamãe.
São tantas as saudades.
São tantas as memórias.
O silêncio nos faz pensar.
O silêncio é a ausência de ruído.
Se há silêncio, as vezes há uma reflexão.
Falamos conosco tentando entender o que acontece e nos incomoda.
No geral o que nos incomoda nos faz pensar,
Nos faz agir, nos faz errar.
Então o silêncio é algo sábio e necessário.
Quem domina a língua se domina.
Já que ela quebra o silêncio.
Silencioso o vento passa e não deixa rastro.
Tem dias que a saudade é maior.
É quando a gente lembra
E descobre que a felicidade mora bem nos pequenos momentos.
É quando a gente se ver sem aquele que nos amava.
Fica um vazio...
Da palavra, do carinho só o que sobrevive é o amor.
A gente às vezes tem memórias doces.
Como agora mesmo tive.
Lembrei que em casa tinha uns livros de inglês.
Eram livros de quinta ou sexta séries.
Lembro que sentava no corredor
E ficava estudando.
E me sentia muito feliz por está aprendendo
E achando fácil.
Como aprender me fazia bem.
Assim como as cadeiras de balanço,
O corredor de nossa casa.
Parece que foi a tanto tempo.
Às vezes, parece que foi um sonho.
A realidade se confundindo.
Agora fazendo uma lição de francês
Me veio a memória.
Então resolvi cultivar e colher essa memória doce.
A terra que tudo fecunda e alimenta.
Do seio da terra tiramos tudo que nos alimentamos direta ou indiretamente.
A terra essa grande mãe.
Mamãe amava a terra, adorava plantar e cuidar.
Gostava de ver as coisas em ordens,
Gostava de ver as plantas regadas,
Adorava os animais que agradassem,
Galinhas, porcos e o louro,
Cachorros e gatos era na bengala.
Tinha lá seus momentos de carinho, mas não gostava de demonstrar
Para não mudar a pose.
Mamãe gostava da vida simples, sem dor.
Adorava varrer os terreiros,
Passear.
Engraçado como a gente ver sinais de nossos pais nos nossos filhos.
Vinícius mostra muita coisa de mamãe.
Adora passear e fica irritado quando cruza a rampa.
Tanta coisa de mamãe disseminada entre os netos
E os filhos.
Só com o tempo entendi que somos terra.
Tudo que comemos de saldável vem da terra,
De mamãe herdo muita coisa,
De papai a pena de matar galinhas e tantas outras coisas.
Ave Maria como somos como nossos pais.
Tento matar o tempo
Enquanto o tempo me mata.
Tento esquecer por um momento,
A grande a grande saudades que me deixou.
Esse vazio é tão frio.
Com hálito de eternidade.
Entre as dormes dormidas,
Dormes tu,
Entre as estrelas brilhantes,
Brilhas tu,
Num céu azul,
Onde verdes palmeiras são monumentais,
Aqui estou lembrando de ti,
Minha amada mãe
Parece que foi ontem,
Quando ouvi o tico-tico do campo
Foi aquela a primeira vez,
De certo não me esqueci,
Das catingueiras de flores amarelas,
Das folhas pata de onça com flor vermelha,
Do campo de feijão florido,
Cheio de pés de melancia,
Parece que foi ontem,
Sentado numa Cangaia,
Ouvindo vovó, vovô e mamãe
A cozinha entirnada,
A forquilha com o alguidar de coalhada,
Os perus no chiqueiro,
A cacimba na cozinha,
A forquilha segurando a parede,
Parece que foi ontem
Que ouvi o tico-tico do campo cantar,
A água no corredor,
Cheio de piaba,
O cheiro de velame e mufumbo,
O juá sem graça.
Parece que foi ontem.
Espere será que foi um sonho?
Não sei.
Só sei que essa paisagem
Encanta minha mente
Como uma tarde que se some no poente.
Acho que nada vale a pena ser dito.
Ninguém se importa.
Tanto faz.
Cada um só se importa com aquilo que lhe convém,
Que lhe satisfaz.
Generosos são os que falam com amor,
E não para aparecer.
Quem e onde estão eles.
Céu azul,
Sol brilhando,
A gente passeando,
A senhora no banco da frente
Falando e falando... Feliz.
Aqui e acolá.
Falando de tudo e sobre nada.
Gosta de música animada.
Que felicidade tê-la como mãe.
Muito obrigado pelo carinho,
Pela amizade,
Por todo tempo que se dedicou a mim.
Não tenho palavra para agradecer,
Só um coração cheio de amor
Que muito sente sua falta.
Te amo mamãe.
Minha amiga me falou uma coisa que achei interessante.
Ela falou do mundo dos espíritos.
Achei bonito.
Achei coerente.
A muito que gosto de Chico Xavier.
Mamãe está no mundo dos espíritos.
Papai foi mais cedo.
Sinto uma saudade tremenda de mamãe.
Como amava brincar com ela.
Suas histórias.
Mamãe quando sentava no banco do carro da frente parecia uma jandaia.
Desembanhava a conversar.
Falava, falava e falava.
Só o que ela sabia.
Era bom vê-la ali feliz na nossa companhia.
A casa de Cledina ficou tão boa.
Vamos passear lá.
Mamãe, Rosangela, Gabriela, Pedro e eu.
Fiquei ali olhando as transformações que a chuva faz.
Mamãe, Rosangela e Cledina ficaram na cozinha cozendo.
Pedro e Laura no tablete e no celular.
Foi um dia muito agradável.
Comi muito no almoço, guiné.
À tarde, após o almoço deitamos na rede na área de fora.
Ficamos olhando o mundo e conversando.
Até entardecer.
Foi meu último dia com a mamãe.
Dia 31 de dezembro de 2021.
A tarde caiu cinzenta.
A tarde de domingo.
Achei que tardes de domingos não poderiam ser mais tristes.
Estava enganado, foram duas mais as tristes tardes de domingo.
A primeira quando papai se foi e a segunda quando a mamãe se foi.
Quão subjetivo é isso.
Todavia a dor da perda é algo universal.
Só quem perdeu pode me entender.
Pode ser como um poeta divagando
Ou realidade no fel.
Sabe lá.
Pensa...
Pensa.
Não sabia que o domingo me reservava tal realidade.
Nem saberei mais o que virá.
Sonhei conversando com Jorge Luis Borges,
Que pretensão a minha a de conversar com Borges.
Que maravilha.
Ouço Borges semanalmente e sempre acho que temos tanta coisa em comum.
É impressionante nossa simpatia para com aqueles que gostam das mesmas coisas que a gente.
Fiquei encantado ao ouvir Eduardo Galeano e Facundo Cabral.
Tanta elegância e conhecimento nos enamoram.
Com Borges a relação é antiga começou com flerte de um livro numa livraria no Don Pedro.
Fiz uma leitura analítica e desde então não me afastei desse bruxo das palavras...
Vieram os livros, biografias e por fim a fase de ouvinte.
É impressionante o quanto tenho a aprender com Borges.
Ouvi-lo é está pronto para se surpreender o tempo todo.
Às vezes, mesmo indispostos é bom de ouvi-lo.
Aprendo, concordo e me surpreendo sempre que me disponho a receber suas preciosas palavras.
É maravilhoso a forma como define as coisas.
Quanto tempo matutando os textos, os livros...
Ouvindo Lili Kraus... até me perco em tudo.
Até perdi o foco do sonho.
A vida se ressignifica com a morte.
A morte o limite da vida é inerente ao viver.
A experiência de morte é a última de quem a experiencia.
A dor é de quem fica.
Após a morte tudo são fatos.
Um corpo é conduzido a sepultura.
Para onde vai o espírito? Geist?
Depois da morte apenas restam memórias.
E como uma chuva que não dura para sempre,
O sol em pouco faz tudo secar.
Será o sol o tempo?
As impressões, as sensações, as percepções e os pensamentos cozinham minha mente.
Sigo perdido num caos cru.
Estou numa busca sem saber o que vou encontrar.
Não estou colocando nada no sistema.
Estou quase enlouquecendo.
Vivendo dias difíceis.
Um dia de cada vez.
Esta tarde está caindo nublada e quente.
Os pássaros piam e chamam.
Ouço o bem-ti-vi longe.
O bem-ti-vi é um som da tarde aqui em casa.
A um ano as tardes se tornaram diferentes com a chegada de Vinícius.
Com a pandemia, faz quase dois anos e meio que ouvimos a tarde de casa.
Trabalho remoto.
As coisas estão diferente em minha mente.
Muita coisa mudou.
Não é novidade que as coisas mudam o tempo todo.
As vezes, não damos por conta disso, tendo em vista que algumas mudanças são
bruscas.
Como a partida de papai e de mamãe.
Fico aqui sentado pensando,
Enquanto Vinícius deixa...
Faz tempo que não fotografo,
Que falta essa atividade.
Estou curtindo Mozart ao piano por Lili Kraus.
Por enquanto o que me incomoda é a desordem da casa,
Então, sempre ajudo a arrumar.
Sabe algumas coisas vão sendo resignificadas.
Ainda sinto falta do contado diário com a mamãe.
Pena que isso o tempo apaga.
As vezes que sentávamos juntos para ver a tarde passar...
Papai, sempre saia para comprar pão à tarde,
A gente comia um e falava sobre a vida
Sem método, sem arte...
A tarde nua e crua e a gente.
Certa vez, mamãe me presenteou com uma camisa.
Não deu muito certo. Então fomos lá em Ritinha trocar.
Mamãe era cliente de Ritinha casada com um primo dela.
Depois ela ficou freguesa de Bruna.
No dia que fomos trocar a camisa ela ganhou uma muda de murta.
Que ficou encruada por muito tempo.
Até que ela cresceu.
Esse ano passado fui passar dezembro com mamãe.
Ai aguei todas as plantas do terreiro.
Eram Vincas do papai, uma moringa, uma açucena, um pinhão, um sapatinho e uma murta.
Todas floresceram bem, não só porque aguei, mas porque choveu.
No dia da partida de mamãe a murta estava toda florida e perfumada.
Anunciando a chegada de mamãe ao céu.
Tarde triste ver a murta florida.
Saudades da mamãe.
Entre tantas as flores existe aquela que de gera,
Aquela que a ti acha entre todas a mais bela.
As flores viram frutos e com os frutos as sementes.
Mamãe, sou parte de ti.
Muito obrigado por tudo.
Gira gira gira...
Gira sem parar,
Para lá e para cá,
Como as ondas do mar,
A onda se quebra na praia,
Gira gira gira...
Uma lâmpada encaracolada,
A luz amarela é uma luz muito bela.
Vamos balançar até que venha a sonhar.
Um fato,
Adeus sertão,
Adeus servidão,
Adeus dia,
Adeus noite,
Adeus,
Adeus...
No adeus não viu nada.
Adeus.
Anos felizes,
Tão felizes que nem percebia a grandiosidade de tudo.
Com uma câmera na mão
E o coração cheio de amor,
Mirava as flores e clicava,
A noite ouvia mamãe e papai a dormir,
Um sono profundo,
Sono de experiência,
As vezes uma gemido de dor,
A gente vivia na simplicidade
A gente vivia com alegria,
E ia conduzindo a vida,
Contornando as dificuldades,
A gente estava vivo,
A gente era envolvido por amor,
Um amor bom, por vezes ciumento,
A gente vivia como sabia,
Com intensidade talvez.
Meus pais minha maior vaidade,
Minha fonte de amor e felicidade.
Deus assim o quis,
Os pôs a descansar.
Velho que saudade de papai,
Que saudade de mamãe,
Chega a doer tão profundamente que só hoje
Sei que existe essa dor.
Painho não conheceu meu filho,
Mainha sim...
O que fazer para contornar tudo isso que sinto...
Um conforto,
Está no meu amor Vinícius...
Como atar essa teia da existência?
Só Deus para nos olhar.
Só Deus para nos acalmar.
Acalma!
Acalma!
Como encontrar ordem no caos?
O desejo de ordem é preciso preexistir.
O desejo vai movê-lo a agir,
Agir sobre o simples,
Até se complexificar,
Certamente só no caos pode se encontrar ordem.
Se o principio de tudo é o caos,
Mas o cosmos existe mais ou menos tempo.
Olhamos para os mesmos lugares,
Tivemos as mesmas ideias.
Fomos um só,
Ao longo de nove meses me gerou,
Ao longo de uma vida cuidou de meu bem estar.
Agora se despede partes deixando um oceano de saudade.
Um vasto universo entre a gente adormece em ti,
Em mim continua vivo.
Nem encontro palavras para expressar.
Então irei falar muito de ti...
Sempre disse que te amava.
E te amo...
Mamãe.
As coisas acontecem como deve ser.
De cá pra lá.
Acho que me perdi.
Perdi um pouco de mim.
Perdi um pouco de tudo no universo.
Acho que o universo é tão grande,
Que sou um grão de areia numa duna,
Mas com um valor.
Agora mesmo solto estou ao vento.
Um dia me prendo.
Aqui estou,
Onde sempre estive.
O tempo passou
E muita coisa mudou,
Eu mudei,
As paisagens mudaram,
Mesmo está aqui da frente de casa.
Elas estão aí por tanto tempo
O engraçado é que nem assim
Nós as retemos.
A tarde vai.
E o que vejo nem sei.
O sanhaçu canta
O saci canta...
A vida passa.
Os sabiás anunciaram,
Vai chover,
Vai chover,
Vai chover,
Ontem neblinou,
Hoje o dia foi todo nublado,
E a tarde choveu e não parou de chover.
Uma chuva suave,
Uma chuva gostosa.
A manhã foi tão cantada.
O sabia a dias que canta na aroeira.
É uma sabiá de papo branco.
Ela canta de manhã
Ela canta de tarde,
Canta no alto da aroeira,
Canta muito alegre.
Hoje a noite choveu
Será se amanhã cantará.
Oh sabiá.
Como é bom caminhar a te escutar,
Ou até mesmo a te admirar.
A gente tem que aprender a ver os lugares de diversas formas.
Pelas formas,
Pelos sons,
Pela temperatura,
Pelos odores...
Tem lugares que são marcantes,
E outros nem tanto,
Talvez porque não acessamos o sentido correto.
É dezembro daqui a pouco tudo zera.
A tardinha caia,
Andando no meio do mato,
Vinícius, eu sherlock e chaquira,
Andando vimos um pica-pau voando,
Como uma seta caindo e subindo.
Subindo e Caindo...
Era um bichão grande preto,
Linda seta,
Gritou cricrirooo.
Pela janela do banheiro,
Vi um lindo passarinho,
Ele era azulzinho.
Seu movimento era tão ligeiro,
Era um lindo sanhaçu,
Então ouvi o outro chamar,
Algo como venha pra cá.
Vou e desapareceu de minha minha vista.
Paciência é a chave para tudo.
Difícil é encontrá-la,
Cativá-la.
Paciência e bom humor salva tudo.
Tudo que há.
Paciência.
Árida caatinga,
Seco sertão,
O solo exposto alvo,
Sedoso e amarelado capim,
Garranchos de árvores,
Verdes algarobas,
Quentes seixos,
Sol a pino,
Treme o peito do calango,
Na loca está o preá, a lagartixa,
No serrote está o urubu,
Ou planando no ar,
Por aqui só vejo aqueles de cabeça vermelha,
A brisa aqui arde de calor,
A natureza parece morta,
Mas dorme,
O pau-mocó já despertou,
Será se já despertei...
Caatinga...
A paz está aqui.
No meu querido sertão.
A tarde cai dourada,
O canto das aves nas árvores.
O som dos carros que passam.
Uma composição de Mozart.
Meus pensamentos se perdem
No tempo e no espaço...
Onde estou?
Em qualquer lugar do meu passado.
Cheio de saudades inspiro.
Dai lembro de Vinícius meu porto seguro.
Então tenho a certeza que não queria esta em lugar nenhum senão perto de meu filho.
Meu amor inteiro.
Cada riso que ele dá me preenche completamente.
Mais uma tarde,
Mais um dia,
E como tudo mudou com o meu lindo filho.
Meu amado Quinquinho.
Enche o peito do ar frio da madrugada. Traz em si um cheiro particular, Cheiro das chuvas de abril, Cheiro da mata molhada. O silêncio é su...