Às vezes, sentir a vida dói.
Pois a dor é a forma mais traumática de aprendizagem.
Sentir é tudo.
Perceber é tudo.
E as vezes nosso cérebro se desespera,
Mas tudo vai ficar bem depois.
Tudo vai ficar bem.
Às vezes, sentir a vida dói.
Pois a dor é a forma mais traumática de aprendizagem.
Sentir é tudo.
Perceber é tudo.
E as vezes nosso cérebro se desespera,
Mas tudo vai ficar bem depois.
Tudo vai ficar bem.
Alguns pensamentos tem me assustado ultimamente.
É que certezas viraram realidade.
Potência se transformou em ato.
Perdi meus pais.
O inimaginável se fez e desfez.
Quem sou eu passou a ser mais profundo.
Muito mais.
Sou além da matéria?
Sou energia pura e simplesmente.
O kaos e o cosmos me compõe?
Quem sou eu?
Não sei.
Talvez saiba o que não sou.
De onde vim e para onde vou?
Porque ninguém sabe o que é.
Porque se imagina que se é o que se é.
Que se veio de onde veio.
Até pode ser,
Mas como compreender?
Acho que estou aqui é procrasatinando.
Thcau?
Não me acostumei a usar o passado quando falo de mamãe.
Doí muito.
Mas agora a noite vivi um momento tão nosso.
Uma coisa que mamãe sabia fazer era um bom doce.
Qualquer doce que mamãe fizesse ficava gostoso.
No nosso sítio tinha fruteiras cujos frutos usávamos para fazer doce.
Goiaba, mamão e caju.
O doce de caju era sua especialidade.
Era uma mão na roda para ela.
Antes do almoço tirava as extremidades do caju
E colocava no fogo,
Tirava um cochilo e quando acordava o caju está quase cozido.
Depois mexia até cozinhar ficando vermelho acaju.
Botava o açúcar e cozinhava mais.
E logo estava deliciosamente pronto.
Roberto meu irmão, agora na páscoa fez o que papai sempre fazia para nós.
Uma caixa de guloseimas.
Um queijo, doce de mamão, de leite e de caju...
O de mamão me faz lembrar papai, vovó Chico,
O de caju mamãe amada.
Doces lembranças mamãe.
Doces lembranças.
Tarde de domingo,
Há tanto me faz pensar na vida.
Há tanto sedes um espelho do céu
Que a gente olha o infinito e ver apenas um plano.
Temos noção, mas não temos dimensão que tudo está ai.
A vida e seus limites.
Os dias que nos são dados,
São todos eles contados,
Inclusive dias de domingo.
Pensar aqui é está doente dos olhos como dizia Pessoa.
Resta a saudade de mamãe e de papai,
Sobra a alegria de Vinícius meu talismã.
Bem ele não me deixa mais pensar,
Me chama pra brincar.
Tchau.
Às vezes, vejo com os ouvidos.
Eu vejo as aves em seu canto.
Ver as aves com o canto é magnífico,
É preciso!
Ver as aves por seu canto leva tempo...
Tem que aprender a escutar para se ver bem.
Só se escuta bem no silêncio.
Só se escuta bem na paz.
Só se escuta bem quando se busca ouvir o nada.
Contemplar...
No vazio da tarde.
Sabe as vezes a gente aprende a ver com os ouvidos.
Por acaso...
A percepção se dar por acaso.
Naquele cansaço faqueiro,
Um som perturba sua ouça.
Do nada você é perturbado.
E você ver.
E você reconhece um som que passava desapercebido.
Quando se está acostumado a ouvir cantos,
O diferente nos espanta.
Certa vez me espantou o canto de uma ave na madrugada...
Outra vez no fim de tarde.
A gente distingue por exemplo voo de magangá, voo de cavalo do cão, de barata de coqueiro.
A gente ver morcegos no escuro, feito morcego a se orientar.
A gente acaba se apegando a vida...
Porque a gente sabe que nela pode conhecer.
Ver com os ouvidos.
As vezes a gente ama nosso lugarzinho porque vemos de tudo.
A gente é assim...
Mas precisamos sempre de mais, para não morrer de cérebro acomodado.
"Pensar é está doente dos olhos" F. Pessoa.
Tanta coisa a ser pensada.
Tanta coisa a ser vivida.
A coisa se perde no sujeito.
Coisa não tem forma como uma mente.
Tudo se trata de energia.
As palavras são representações que dão sentido a vida...
As palavras são elementos que alimentam o pensamento.
A gente vai consumindo abstração,
Vai se acostumando com a linguagem.
Vai se acostumando o que cremos ser a realidade.
Esse misto de imaginação com o concreto.
A gente na maior parte das vezes se esquece que somos meros seres vivos.
Há quem acredite que o homem não é um animal.
Em crença não se mexe. É um elemento psicossocial.
Sabe lá o que!
Essa abstração fruto da experiência
Que é a substância do saber.
O que é o saber?
Senão um dos frutos do pensar.
Pensar é estar doente dos olhos.
Acho que isso está presente no tao te ting.
No primeiro poema...
Ou não... Talvez.
Aos quarenta a gente começa a repetir os pensamentos.
Tenta digerir o que lemos.
A gente tenta digerir experiências catárticas como a morte!
A morte nos apresenta como real.
E como não pensar?
Como não ficar doente dos olhos.
Sei lá...
Pessoa dizia que Navegar é preciso
Que viver não é preciso.
Quanta coisa enigmática numa cabeça fabulosa.
Uma tempestade humana.
Será se ele leu Nietzsche?
Não sei.
Sei que a Kant sim...
E pensou... Como pensou.
Acho que era o mais doente de todos os homens.
Tudo aqui é passageiro,
Tudo aqui é ilusão.
A existência requer tempo, espaço e matéria.
A matéria é extensão consequência do tempo e do espaço.
Tudo ser tem duração longa ou curta.
Passagem.
Se é, um dia deixará de ser.
Ilusão.
Só a ideia é eterna.
A chuva começou a cair,
E veio de mansinho,
Pingo a pingo suave,
Tocava a terra e sumia,
Tocava as folhas que caiam
Caiam amarelas.
Que belas;
Logo parou.
Foi um suspiro divino?
A plantas tem seus ramos imóveis.
Lua crescente,
Em noite nublada não se vê.
É preciso luz.
É preciso luz.
O silêncio da manhã.
Certas manhãs são silenciosas.
A gente chega ouvir seu silêncio.
O silêncio que está no céu
Que não está azul, mas nublado.
O vendo não veio.
As árvores estão em silêncio,
Ramos, galhos e frutos calados.
A gente ouve algumas o canto de sanhaçus coqueiro,
As hélices do ventilador,
O barulho do computador,
E da lâmpada.
O silêncio está por toda parte.
Dizem que com concentração e habilidade
Se ouve até o pulsar do coração,
O sangue correndo pelas veias.
Plasmado no espelho,
Reflito a refletir.
Neste momento, não sei o que sou.
Apenas tento ouvir a manhã.
Sinto cede!
Ouço um pio de sabiar
Repentinamente fugo do mundo...
Então o silêncio desaparece.
Aqui e agora.
Chove lá fora.
Portas e janelas fechadas.
O som da chuva chovendo.
Marcando o compasso do tempo.
Que coisa mais efêmera que a chuva.
Um dia...
Uma poesia.
Aqui estou!
Sábado.
Aqui permaneço mais um pouco.
A um ano tinha minha mãe.
Há dois anos minha mãe e meu pai.
Aqui estou,
Aqui permaneço.
Não sei quanto tempo.
Passado e futuro margeiam o presente.
Papai e mamãe que me conceberam,
Me geraram me criaram.
Partiram.
Viveram suas vidas.
Seguir é o que me resta.
Sábados existiram com meus avós,
Se fizeram neles e nos meus pais.
Agora é uma representação minha.
Minha vontade de perpetuar suas existências aqui expressando.
Papai, Francisco Raimundo de Queiroz,
Mamãe, Francisca de Assis Teixeira.
Por laços de matrimônio se casaram por toda a vida.
Por toda a vida.
Até o último dia de suas vidas.
E aqui estou.
E aqui estou.
Mais um sábado.
Rico em memória...
As historietas de papai...
O intenso amor no olhar de mamãe.
Nunca esquecerei de seus momentos de oração.
Até que eu seja esquecido.
Dia 1 de abril,
Dia da mentira,
Como mamãe gostava de brincar nesse dia.
Sempre fazia uma brincadeira com alguém.
Coisas que ficam para sempre.
Ontem, último domingo de março,
No fim da tarde, fomos a praia.
O céu estava azul de chuva.
Quinquinho ficou muito feliz.
Ele ama o mar.
Quando chegou na areia já deu a mão para caminhar.
Lá fomos nos andando na areia.
Pisando nas algas.
Olhando o chão esperando encontrar rochas e conchas.
O mar estava muito turvo, cheio de algas.
A água estava morninha, deliciosa.
Quinquinho quis até tomar banho, mas não deu, ventava muito
Fazia frio.
Avançava para as ondas, mas a gente voltava.
Ai veio a chuva, voltamos para o carro.
A chuva parou.
Então voltamos para a praia.
Ficamos mais um pouco.
No final, com granito e conchas voltamos para casa.
Quinquinho feliz, mas só até chegar na garagem onde ele faz um show.
Começa a chorar querendo voltar para a rua.
Ele adora ver o mundo, andar de carro.
Em casa, tomou banho, brincou.
Comeu pizza que ama e muito cedo dormiu.
Ontem à tarde,
Enquanto passeávamos nas ruas dos Bancários.
Encontramos um salão de cabeleireiro.
Estava vazio e por isso entramos.
Chegou a hora de perder os seus cachinhos.
Meu pequeno menininho.
Vinicinho cortou seus cachinhos.
Já não é mais banguelinho,
Já não pequenininho,
Foi cortar os seus cachinhos.
Chorou.
Perdendo a meninice?
Depois que cortou
Se contentou com os carrinhos e os brinquedos do salão.
Em poucos minutos com uma triton e uma ferrari nas mãos esqueceu de tudo.
E nem queria mais sair daquela sala de brinquedo.
Chorou até,
Mas logo esqueceu.
Trouxe o tufinho de cabelinho.
Meu minininho.
Nosso mininho...
Sem os cachinhos ganhou uma nova face.
Te amo meu Quinquinho.
Aquilo que vivi, pensando em vocês.
Vivo está.
Guardado em minha mente.
Divertimento 136 de Mozart,
Como não lembrar de Serrinha,
Como não lembrar de vocês,
E tantas cenas da natureza revelada.
Céu azul com nuvens de algodão.
Realidade ou sonho?
Realidade ou memória?
Aqui estou pensando,
Sentindo, imaginando ou refletindo?
Não sei.
Ontem e hoje...
Agora o que é a realidade para mim?
Hoje, agora, amanhã?
A realidade esse agora,
Só é possível no espaço e tempo simultâneo.
Predisse um filósofo alemão.
Aliás que síntese fabulosa heim Kant...
Filosofia que nenhum Kant pensou
Certa vez disse Pessoa.
Mas soltando pérolas assim não se faz um colar.
Talvez Nietzsche tenha conseguido.
Bem, mas só estou aqui apenas como quem
Se delícia com brigadeiros,
As vezes a gente come tanto doce que fica intoxicado...
Perdido no que se chama de realidade.
Bem, mas como é uma coisa caseira,
Meus pensamentos.
Risos.
Deixa eu matutar nessa tarde de domingo.
Só o que resta.
Acho que comer o Tao te Ting
Deve ser indigesto como celulose.
Nem ruminando a gente consegue digerir.
A menos que tenhamos associação com bactérias como os ungulados.
Enfim.
Fica a dica.
O vento sopra,
Tem soprado um sopro frio.
Até me sinto mais contente.
Mas o que me aperta o peito
É a saudade de mamãe.
E ver que Vinícius vai crescer sem ela.
Que saudade de mamãe
Que saudade de papai.
E o mundo continua girando.
A tarde está nublada e fria,
Silenciosa.
Só ouço uns bem-ti-vis.
Logo as chuvas cairão.
Preparo um tereré.
Então vou ouvi Chopin,
Lembro de papai e de mamãe.
Hoje é um dia especial,
Sua neta entrou na USP,
História.
Estou feliz...
Com saudades deles.
Agora ouço andorinhas e saíras lá fora.
Volto a leitura.
Madrugada escura,
Acordo!
Saio fora do quarto,
Ali está a plenitude do universo,
Um céu tão escuro
E tão estrelado.
Penso na existência,
Ouço o ronco de mamãe e de papai.
Tudo está bem,
Acordamos e tomamos um café juntos.
Que coisa linda.
Passei na rua e fiquei impressionado,
Com o cheiro não sei se era de uma flor.
Procurei por todos os lados, não reconheci tal odor,
Olhei, olhei e nada.
Que estranho e delicioso aroma.
Depois cai no esquecimento.
Mamãe,
Ontem fez dois meses que a senhora se foi,
Significa que nunca fiquei tanto tempo sem te ouvir,
Brincar, me aconselhar, me chamar a atenção.
Nunca estivemos tão distante,
Nem quando viajei para tão longe.
Sinto muito sua falta mamãe.
Às vezes choro, pensando em ti,
Choro de saudades.
Mamão onde estiver saiba que te amo eternamente,
Não me esqueço da senhora...
Se sou tudo que sou porque a senhora me deu a vida, me educou e me ensinou tantas coisas.
Sei que estas palavras não ouvirás,
Devia ter dito antes,
Todavia sempre te disse que te amava.
Várias vezes... isso me enche o coração de paz e amor.
E a senhora respondia que me amava.
Sempre fomos tão próximos.
Que saudades de você.
As dores em ti eram grandes,
Se Deus te levou foi para suavizar,
A existência estava sendo muito dura como sempre foi com a senhora.
Nunca vou me esquecer de ti mamãe,
Nem do papai que foi antes.
Nossa que vazio ficou na minha vida.
Minha sorte é que tem o Vinícius e Dayane e os irmãos.
Quando vejo e brinco com ele me lembro tanto de ti.
É assim a vida.
Assim são as coisas.
Ontem rezei para ti.
Tenho que rezar mais.
Assim a vida vai passando,
Um dia nos reencontraremos mamãe na eternidade.
Muito obrigado por tudo.
Te amo,
Beijos e abraços.
Tarde que cai,
Tarde que vai,
Não volta jamais,
Não torna jamais,
Tarde que esfria,
Tarde fim de dia,
Tarde parte do dia.
Cata um bem-ti-vi.
Oca soa a existência.
Oca soa a existência.
Resumo do dia,
Tarde.
Os momentos podem deixar marcas duradouras.
Os momentos em que estivemos juntos foram tão intensos.
Durante a vida...
Em teu seio fui gerado,
E por ti alimentado,
Tu me ensinaste a andar, falar.
Minha seta direta.
Que saudades de ti.
Onde estarás agora?
A chuva quando chove é tão bonito.
Pingo a pingo vai molhando o chão,
Amolecendo o barro e o torrão,
E água se dar na terra se acumula,
Tomando qualquer forma que a desejar,
Aos poucos vai brotando nos ramos,
Vai moldando gemas formando folhas e flores,
A semente faz germinar da potencia aristotélica, um ato se transformar,
E o embrião adormecido a vida acordar.
A chuva tão amada por meus avós por meus pais e por mim e por todos nós.
Água é fonte de vida.
A chuva é fonte de água,
Que maravilha perceber a beleza da chuva.
Entender a importância da chuva.
A gente precisa da chuva pra plantar o que comer.
Feijão, milho, abóbora, melancia e tantas frutas peculiares.
Que nos alimenta e nos sustenta.
Papai amava a chuva, morria de medo do trovão e do relâmpago.
Mamãe se divertia com o medo de papai.
Tempo bom aquele.
Nas chuvas da tarde a gente se abraçava
Com o olhar.
A gente se banhava na bica,
Se secava junto ao fogão
Enquanto o Xerém borbulhava cozinhando,
Papai num tamborete bem sentado
Contava alguma graça.
A gente contente, feliz com a água em abundância escorrendo da bica,
Baldes, potes e tanque cheio,
A cisterna cheia.
O ronco barulhento do trovão,
O flash do relâmpago...
A chuva demorada até a noitinha,
Papai saia para o curral engurujado feito frango molhado,
Ia alimentar o gado.
A galinha com os pontos sob as asas dormia na casa velha, na área pequena da cozinha
Se virava como podia dog o cachorro de longa data.
Após a chuva cantavam os cururus.
A noite silenciosa chegava,
A gente se alimentava,
Na cama amada sob cobertas de algodão
Se esquentava,
Mamãe nos enrolava e mandava a gente rezar.
A a chuva chovia a noite inteira.
Parece um sonho de inverno...
Será a vida um longo sonho?
Será a chuva um despertar?
Que saudades da minha mãe.
Mamãe tu partiu e me deixou.
Meu coração está tão machucado,
Tão sofrido sem a senhora para me aconselhar.
A gente combinava as coisas.
Tínhamos tantas ideias semelhantes.
Mamãe. Mamãezinha.
Porque as mães não são eternas.
Ainda ontem te dava os remédios,
Massageava suas pernas e pés.
E você se foi.
Nunca imaginei.
Parece que estou vivendo um pesadelo.
Mãezinha ainda bem que sempre te disse
Te amo.
Pude ouvir de ti que me amava.
Saudades de você mamãe
Saudades do papai.
Saudades.
Uma cruz no meio do caminho.
O que significava aqui?
Pensava quando criança.
Que coisa mais mística.
Abalava minha alma inteira.
Perguntei para papai o que era aquilo.
Ele me respondeu uma cruz.
Mas para que serve?
Para marcar que ali morreu uma pessoa.
Morreu?
O que é morrer?
Por muito tempo desconheci a morte.
Quando descobri o que era morte.
Fiquei com medo.
Perdi minha inocência.
Chorei desesperado.
Já que a morte diziam era uma coisa para todos.
Chorei porque pensei em perder os meus pais para a morte.
A morte se revelou... acho que aos nove anos.
Perdi meu primeiro avó.
A luz de lamparina e velas
Era alumiado aquele corpo idoso.
Um caixão simples de pano azul celeste.
Mamãe e papai choraram.
Doeu meu coração.
Nada fazia muito sentido.
Outro dia sai correndo para trás da casa velha que era germinada a nossa.
Sob o cajueiro, olhando o poleiro das galinhas que ali se faziam.
Chorei... chorei que só.
Era a consciência se estabelecendo em mim.
Era ela expulsando a minha inocência.
Quantas coisas não aconteceram depois ali em nossa casa.
O mundo se desvelou.
Conheci um poema profundamente de Bandeira.
Quando o li, me entristeci.
Hoje papai e mamãe são quem dormem.
Como dói.
Dói no fundo da alma.
A cruz... a morte... o ser.
Nada fica.
Nada é em si.
O tempo tudo dissolve.
Aquela planta ali, é um jasmim-manga.
Veja suas folhas são semelhantes as de manga.
Veja quão alvas são suas flores e amarela sua fauce.
Tem também flores rosas.
Suas flores são tão perfumadas.
Meu primeiro contato com esta planta foi traumático.
A primeira vez que vi.
Vi flores que enfeitavam e perfumavam um corpo frio.
Um corpo numa urna de pano, um caixão.
Um defunto, do latim defunctus aquele que deixou de existir.
Um cadáver, do latim "carne data vermem", carne dada aos vermes.
De qualquer forma tudo associado a morte me parece estranha.
Enfim, aquele odor, e aquela forma pentâmera cravou em minha mente a associação com a morte.
Criou em mim uma marca profunda que só a botânica conseguiu extrair.
Enfim,
Aquela planta que conheci na infância como jasmim.
Continua a ser jasmim.
Porém agora sei que pertencia a família das apocináceas,
Ao gênero Plumeria.
Espécie Plumeria rubra.
E o que muda? Sua forma de conhecê-la.
Nossas orações,
Nossos santos,
Nossos terços,
Nossos oratórios.
Uma vela acesa,
Luz a vibrar,
Fogo é matéria sendo consumida,
Vida é como fogo,
Mente como tempestade.
Nossas crenças,
Nossa fé.
Constitui uma parte de quem somos.
Ou de quem nos ensinaram
E que assumimos ser.
Há dois anos meu carnaval foi completo.
Papai e mamãe estavam comigo.
Ano atrasado papai se foi,
Este ano foi mamãe.
São tantas as saudades.
São tantas as memórias.
O silêncio nos faz pensar.
O silêncio é a ausência de ruído.
Se há silêncio, as vezes há uma reflexão.
Falamos conosco tentando entender o que acontece e nos incomoda.
No geral o que nos incomoda nos faz pensar,
Nos faz agir, nos faz errar.
Então o silêncio é algo sábio e necessário.
Quem domina a língua se domina.
Já que ela quebra o silêncio.
Silencioso o vento passa e não deixa rastro.
Tem dias que a saudade é maior.
É quando a gente lembra
E descobre que a felicidade mora bem nos pequenos momentos.
É quando a gente se ver sem aquele que nos amava.
Fica um vazio...
Da palavra, do carinho só o que sobrevive é o amor.
A gente às vezes tem memórias doces.
Como agora mesmo tive.
Lembrei que em casa tinha uns livros de inglês.
Eram livros de quinta ou sexta séries.
Lembro que sentava no corredor
E ficava estudando.
E me sentia muito feliz por está aprendendo
E achando fácil.
Como aprender me fazia bem.
Assim como as cadeiras de balanço,
O corredor de nossa casa.
Parece que foi a tanto tempo.
Às vezes, parece que foi um sonho.
A realidade se confundindo.
Agora fazendo uma lição de francês
Me veio a memória.
Então resolvi cultivar e colher essa memória doce.
A terra que tudo fecunda e alimenta.
Do seio da terra tiramos tudo que nos alimentamos direta ou indiretamente.
A terra essa grande mãe.
Mamãe amava a terra, adorava plantar e cuidar.
Gostava de ver as coisas em ordens,
Gostava de ver as plantas regadas,
Adorava os animais que agradassem,
Galinhas, porcos e o louro,
Cachorros e gatos era na bengala.
Tinha lá seus momentos de carinho, mas não gostava de demonstrar
Para não mudar a pose.
Mamãe gostava da vida simples, sem dor.
Adorava varrer os terreiros,
Passear.
Engraçado como a gente ver sinais de nossos pais nos nossos filhos.
Vinícius mostra muita coisa de mamãe.
Adora passear e fica irritado quando cruza a rampa.
Tanta coisa de mamãe disseminada entre os netos
E os filhos.
Só com o tempo entendi que somos terra.
Tudo que comemos de saldável vem da terra,
De mamãe herdo muita coisa,
De papai a pena de matar galinhas e tantas outras coisas.
Ave Maria como somos como nossos pais.
Tento matar o tempo
Enquanto o tempo me mata.
Tento esquecer por um momento,
A grande a grande saudades que me deixou.
Esse vazio é tão frio.
Com hálito de eternidade.
Entre as dormes dormidas,
Dormes tu,
Entre as estrelas brilhantes,
Brilhas tu,
Num céu azul,
Onde verdes palmeiras são monumentais,
Aqui estou lembrando de ti,
Minha amada mãe
Parece que foi ontem,
Quando ouvi o tico-tico do campo
Foi aquela a primeira vez,
De certo não me esqueci,
Das catingueiras de flores amarelas,
Das folhas pata de onça com flor vermelha,
Do campo de feijão florido,
Cheio de pés de melancia,
Parece que foi ontem,
Sentado numa Cangaia,
Ouvindo vovó, vovô e mamãe
A cozinha entirnada,
A forquilha com o alguidar de coalhada,
Os perus no chiqueiro,
A cacimba na cozinha,
A forquilha segurando a parede,
Parece que foi ontem
Que ouvi o tico-tico do campo cantar,
A água no corredor,
Cheio de piaba,
O cheiro de velame e mufumbo,
O juá sem graça.
Parece que foi ontem.
Espere será que foi um sonho?
Não sei.
Só sei que essa paisagem
Encanta minha mente
Como uma tarde que se some no poente.
Acho que nada vale a pena ser dito.
Ninguém se importa.
Tanto faz.
Cada um só se importa com aquilo que lhe convém,
Que lhe satisfaz.
Generosos são os que falam com amor,
E não para aparecer.
Quem e onde estão eles.
Céu azul,
Sol brilhando,
A gente passeando,
A senhora no banco da frente
Falando e falando... Feliz.
Aqui e acolá.
Falando de tudo e sobre nada.
Gosta de música animada.
Que felicidade tê-la como mãe.
Muito obrigado pelo carinho,
Pela amizade,
Por todo tempo que se dedicou a mim.
Não tenho palavra para agradecer,
Só um coração cheio de amor
Que muito sente sua falta.
Te amo mamãe.
Minha amiga me falou uma coisa que achei interessante.
Ela falou do mundo dos espíritos.
Achei bonito.
Achei coerente.
A muito que gosto de Chico Xavier.
Mamãe está no mundo dos espíritos.
Papai foi mais cedo.
Sinto uma saudade tremenda de mamãe.
Como amava brincar com ela.
Suas histórias.
Mamãe quando sentava no banco do carro da frente parecia uma jandaia.
Desembanhava a conversar.
Falava, falava e falava.
Só o que ela sabia.
Era bom vê-la ali feliz na nossa companhia.
A casa de Cledina ficou tão boa.
Vamos passear lá.
Mamãe, Rosangela, Gabriela, Pedro e eu.
Fiquei ali olhando as transformações que a chuva faz.
Mamãe, Rosangela e Cledina ficaram na cozinha cozendo.
Pedro e Laura no tablete e no celular.
Foi um dia muito agradável.
Comi muito no almoço, guiné.
À tarde, após o almoço deitamos na rede na área de fora.
Ficamos olhando o mundo e conversando.
Até entardecer.
Foi meu último dia com a mamãe.
Dia 31 de dezembro de 2021.
A tarde caiu cinzenta.
A tarde de domingo.
Achei que tardes de domingos não poderiam ser mais tristes.
Estava enganado, foram duas mais as tristes tardes de domingo.
A primeira quando papai se foi e a segunda quando a mamãe se foi.
Quão subjetivo é isso.
Todavia a dor da perda é algo universal.
Só quem perdeu pode me entender.
Pode ser como um poeta divagando
Ou realidade no fel.
Sabe lá.
Pensa...
Pensa.
Não sabia que o domingo me reservava tal realidade.
Nem saberei mais o que virá.
Sonhei conversando com Jorge Luis Borges,
Que pretensão a minha a de conversar com Borges.
Que maravilha.
Ouço Borges semanalmente e sempre acho que temos tanta coisa em comum.
É impressionante nossa simpatia para com aqueles que gostam das mesmas coisas que a gente.
Fiquei encantado ao ouvir Eduardo Galeano e Facundo Cabral.
Tanta elegância e conhecimento nos enamoram.
Com Borges a relação é antiga começou com flerte de um livro numa livraria no Don Pedro.
Fiz uma leitura analítica e desde então não me afastei desse bruxo das palavras...
Vieram os livros, biografias e por fim a fase de ouvinte.
É impressionante o quanto tenho a aprender com Borges.
Ouvi-lo é está pronto para se surpreender o tempo todo.
Às vezes, mesmo indispostos é bom de ouvi-lo.
Aprendo, concordo e me surpreendo sempre que me disponho a receber suas preciosas palavras.
É maravilhoso a forma como define as coisas.
Quanto tempo matutando os textos, os livros...
Ouvindo Lili Kraus... até me perco em tudo.
Até perdi o foco do sonho.
A vida se ressignifica com a morte.
A morte o limite da vida é inerente ao viver.
A experiência de morte é a última de quem a experiencia.
A dor é de quem fica.
Após a morte tudo são fatos.
Um corpo é conduzido a sepultura.
Para onde vai o espírito? Geist?
Depois da morte apenas restam memórias.
E como uma chuva que não dura para sempre,
O sol em pouco faz tudo secar.
Será o sol o tempo?
As impressões, as sensações, as percepções e os pensamentos cozinham minha mente.
Sigo perdido num caos cru.
Estou numa busca sem saber o que vou encontrar.
Não estou colocando nada no sistema.
Estou quase enlouquecendo.
Vivendo dias difíceis.
Um dia de cada vez.
Enche o peito do ar frio da madrugada. Traz em si um cheiro particular, Cheiro das chuvas de abril, Cheiro da mata molhada. O silêncio é su...