27/04/26
Mila ou Milla
Saudade de papai
Vi a roça de milho,
Estava todo pendoado,
Bonecas de cabelo rosado,
O cheiro da florada,
O som do milho,
Som do vento cantando na folha...
As raízes adventícias.
Senti a presença de meu pai...
E a saudade preencheu o meu peito.
A gente junto na roça...
Foram tantas vezes maravilhosas...
Só felicidade!
Inverno, pasto, leite, milho, pamonha...
Só coisa boa.
Milharal
Andei no roçado,
O milho pendoado,
O cheiro da floração,
O milho viçoso...
Meu coração
Ficou bem apertado,
Saudade de meu agricultor,
Que de botas brancas
Me mostrava com orgulho,
O produto de seu trabalho...
Explicava cada momento,
Que trabalhava em silêncio...
Nosso encontro no roçado,
Era algo sagrado...
Quanto amor...
Entre nós...
E os milharais.
Meu pai,
Me ensinou a cultivar a vida.
Como sinto sua partida.
E o milharal, e a mata
E o inverno,
E nossa terra...
Nosso eterno laço.
Amaria te dar um abraço...
Mas, ai...
São só saudades.
26/04/26
Dia memorável
Um domingo no passado, estava muito feliz. Meus avós eram velhinhos. Meu tio Raimundo havia vindo de Natal. Estava feliz porque ia ver ele, sua esposa Tereza e seu filho Aquiles. A gente sentia felicidade em conhecer aqueles parentes que não conhecemos. Só o conhecia pelos retratos. Nem lembro de muita coisa. Lembro de uma câmera fotográfica e um carro, acho que era um gol GTI. Lembro da felicidade que estava naquela casa. A casa onde minha mãe cresceu. Era época de inverno. Lembro da alegria de meu avó. Lembro da felicidade dos vizinhos que passavam falando do doutor Teixeira. Zequinha, Antônio de Chiquinho... A dificuldade que vovô passava, Meire ajudando a vovô. Mamãe De Assis feliz conversando com Terezinha. As coisas trancadas no quarto intocável de vovô Sinhá. Então, ali na frente tio fez algumas fotos nossas. E contando histórias...
Contou de uma disputa entre dois cantadores.
Tio tinha uma voz muito forte, orgulhosa e rompante. Falava alto para ser ouvido ou para se mostrar.
Então ele contou que dois cantadores cantaram assun:
A. Eu sou jiquitiranaboia,
Besouro do piauí,
Quando prego meu ferrão,
O sangue começa a cair.
B. Tu não és juiquitiranaboia,
Besouro do piauí,
Tu és um rola-bosta qualquer
Besouro besta daqui...
Rimos muito e aquele dia foi memorável.
Além das memórias
Amanheceu,
Uma influenza me influencia.
O corre reage,
O corpo responde.
A luz é quente,
O vento é frio.
Uma sensação toma conta de mim.
Uma janela fica aberta...
Deixando entrar algo que me faz matutante,
Sobre coisas tristes...
Mostrando a outra face de viver
Além das memórias.
A realidade mostra que a chuva traz
Muita vida,
E os vírus vem junto...
E a vida se mostra real cada dia...
É preciso ser forte e lutar.
Mas...
Um dia desperto,
Desperto para o mundo.
A realidade trata de negar minha vontade.
Por defeito ou não de ser quero a eternidade, quero o infinito.
O tempo vai se desvelando,
E um dia desperto.
A natureza me ensinou a amar o belo e o bom,
Não me explicou que há um absoluto,
Que e há o feio e o ruim...
Entretanto a raiz estava ali...
Só há belo porque há feio... é uma escala?
Só existe bom porque há ruim...
Não seria algo totalmente subjetivo?
Não seria a raiz do ego, do eu, do self?
Tantos conceitos, tantas palavras para a mesma coisa.
Ai mora a humanidade?
A humanidade é racional?
Produto da memória?
Não sei, mas...
24/04/26
Natureza se ordenar
A chuva,
A chuva molha a mata,
A chuva molha o solo.
A chuva desperta a vida,
A chuva enxarca tudo,
Faz os ramos brotar,
Faz a semente e esporo germinar.
A chuva faz os ovos eclodirem,
Os bichos aparecerem...
Insetos voarem,
Sapos cantarem...
A chuva passageira,
Uma breve estação,
Faz a vida reproduzir...
E a natureza continuar.
Desvelar
Enquanto chove lá fora,
Aqui dentro uma vela acendo,
E ouço a chuva chovendo,
Perco então a noção da hora.
A luz laranja da vela,
Alumia com calma,
Preenchendo a minha alma,
A branca cera dela,
E o branco cordão,
Alumia clareando,
E o sol vai imitando...
O espaço aqui,
A hora agora,
O eu e essa mistura de coisas.
23/04/26
Na Salambaia
Ontem na fazenda, antes de voltar a rotina. Acordei Sassá. Então a mãe queria que ele tomasse leite da vaca no curral. Seu Dedé arreou Realiza e tirou uma caneca de leite quentinho que Sassá passou pra dentro. Tomou meia caneca. Depois tomou outra. Sassá adora leite, desde que seja natural. Enquanto estávamos na fazenda ele tomava quase um litro todos os dias. Se divertiu muito com a galega Ana Alice. Pularam, correram, brincaram, dançaram e muito mais. Foi excelente esses dias na fazenda. Vimos mais aves que bichos. Viu e manuseou um pequeno sapinho. Perdeu o medo e brincou com a cachorrinha nina. Brincou com a gata grete... Essas coisas.
Hiula de Dequin
22.4.2026 - 8-3-1946
Nossa vizinha Hiula de Dequin partiu ontem. A voz de Hiula era muito peculiar, meio rouca mas muito forte. Moravam em Serrinha do Canto. Ali, do lado de Mudinho e Zuleide sua irmã. A gente passava e as vezes ela parava a gente para conversar. Casada com Dequinho. Os vi pela última vez na casa onde eles viveram a vida toda. Papai era muito amigo de Dequinho. Então as vezes passava lá e conversava até perder o tempo. Hiula era irmã de Odalea de Chico de Vicente Joana e de Zuleide de totô. Eram filhas de Vicente de Arcanja. Era evangélica.
Serrinha do Canto daquele tempo não é mais.
22/04/26
Memorável
Acordei e não dormi mais na madruga. O escuro, o calor do quarto e o frio do ventilador, a muriçoca... Minha mente desgovernada.
Pensa poesia, versos... Belos versos, achados no escuro da madrugada, nascido do dia anterior vivido.
A estrada de terra branca. A vegetação enramada. As Sennas e catingueiras amarelas. As baraúnas mortas, os abrejos com água e aguapé. As rochas escoradas na beira da estrada. A sensação de eternidade.
A siriema cantando, o papagaio gritando, o cheiro do marmeleiro.
Vinícius, Ana Alice e Daniel. A interação, a curiosidade no mundo desconhecido da mata verde. Um emboar... Risos de felicidade. A tarde caindo... Memorável momento. Subir e passar a cancela azul francesa... Recomeço.
O momento de início e fim.
A poeta do Sítio Bravo
Rita de Macedo
Cresci numa terra seca,
De longos dias ensolarados.
De noites por vezes enluarada,
Por vezes estrelada,
Quase nunca nublada,
Cresci com o aboio do gado,
Sentindo o pelo a cavalo,
Cada vaca tinha seu nome,
Cada vaca tinha sua individualidade.
O curral ficava ao redor de casa.
Cresci com o meu cachorro leão,
Cresci com bixano o meu gato.
No terreiro vivam as galinhas,
Vermelhas, pretas, pedreses e pereocas,
O galo era cristado e esporado.
Cantava sempre pra manhã nascer.
Cresci e não dei conta de tudo isso.
Fui filha,
Fui moça,
Sou mulher,
Fui professora
Sou mãe e poetisa.
Não tinha tempo vago.
Viver sempre foi trabalhar, na escola e no lar.
Meu marido é uma benção.
Sempre com um riso no rosto.
Meu companheiro, meu amigo, meu confidente e o pai dos meus filhos.
Um bom pai, um excelente avô.
A vida nunca foi fácil,
Mas foi maravilhosa.
Sol, chuva, dia e noite.
Um a um, os anos passaram e a vida
Me fez forte e resistente.
Nasci num lugar seco.
Quase sempre estrelado,
Fui regada e dei flores.
Dividi o meu saber,
Multipliquei o amor.
Agora, depois de tanta coisa vivida.
Tenho saudades de tudo que vivi.
Mas a vida continua, meus filhos assumiram a lida da vida.
Cresci, reproduzi e dividi meu amor,
Multipliquei amizade.
Dei sentido a realidade.
E o resto não importa mais porque é resto,
Nove fora nada.
Onde está a beleza
A beleza não é embelezada,
Sensação no amanhecer do cariri
A pálida luz fria da manhã,
A brisa fresca e perfumada,
Chão de cimento
Chão frio de cimento,
Singela planta
Na areia do riacho,
Curvas do tempo
Tempo
Os currais do tempo dos nossos avós, do tempo dos nossos pais.Os currais são tão iguais.
Boi, vaca, esterco e estaca.
O cheiro, a textura do pelo do boi
E da vaca.
A carícia áspera da língua do gado.
A escova e se abanar.
A respiração profunda...
O olhar generoso...
Chifres e cascos queratinoso.
Os olhos espelhos convexos e negros.
O ubre e os quatro peitos,
Esse mananciais fonte de vida.
O gado é amizade, é parceria,
É alegria, é fonte de alimento e é vida.
Não é boi ou vaca é leon, é baronesa, é mimosa, é careta...
Quem sabe sente...
Vozes da mata
A mata não fala,
A mata não canta,
Mas a mata encanta,
E a mata é perfumada,
Oras inerme, ora armada.
Na mata mora
Os grandes trovadores...
A bicharada empenada,
Que canta e canta de graça,
Não é uma graça...
As vozes da mata
São de tanta beleza,
Em ordem de cores,
Em ordem de sons,
Em ordem de alma
Que a gente fica encantado...
Sinfonia sertaneja
Despertei de madrugada,
Ao cantar da passarada.
Meu peito bateu desperto,
Ao despertador divino,
Natural e perfeito...
Só Deus fez o mundo desse jeito...
Na baraúna canta o galo de campina,
No fio canta o canarinho,
Na cajaraneira canta o corrupião,
Na goiabeira o xexéu-de bananeira.
Que beleza é o despertar da natureza...
Na algaroba fez o ninho,
E agora de lá a cantar,
De gibão e penacho,
Canta a casaca-de-couro macho.
Gritou pra avisar,
Que no chão ali está,
A coruja buraqueira.
O galo do chiqueiro em alerta,
Cantou o seu canto falcado.
Ou meu Deus abençoado,
Como é bom aqui estar,
Poder ouvir e decifrar quem vos canta e encanta...
O sanhaçu na pinheira, cantou,
O seu despertar...
Na estrada de terra fria canta a siriema...
Oh meu Deus que coisa linda,
Quanta alegria divina.
Não posso deixar de falar que agora despertou o sabiá...
... Sinfonia do sertão...
O canarinho cantou,
Galo de campina despertou,
O currupiu se juntou,
Teteu na campina gritou,
O xexéu de bananeira, sanhaçu e sabiá...
A andorinha, a casaca de couro
Canta lindo em estouro...
Desperto
Despertei de madrugada
Ao ouvir a passarada
Cantava o canarinho,
O tetéu e o galo de campina.
A manhã anunciava.
Quem despertou
Essa passarada?
Nem precisam trabalhar,
Mas desperta pra cantar,
Desperta para amanhã
O que a natureza ensina,
Como é linda e divina a vida com uma canção
Faz bater o coração
E a vida começar
Antes do sol despertar...
Corrupião despertou também,
A coruja buraqueira,
Pousada no chão
Deu grito
Que bonito
Que bonito
Que bonito.
A vida da bicharada,
Começa na madrugada...
18/04/26
Antônio Pereira
O poeta da saudade
Semana passada ouvi o compositor Santana declamando um dos mais lindos versos sobre saudade.
Ele falou de Antônio Pereira...
Pesquisando na internet. Encontrei uma filmagem de um poeta Valdir Correia em sua casa.
Uma casa linda de alvenaria com uma porta no meio e duas janelas.
A entrevista me fez fugir da realidade encontrando memória em outro tempo e em outro espaço.
O canto do tico-tico do campo, fez lembra o povoado das Vertentes onde ouvi essa ave cantar pela primeira vez.
Cantando ainda ali, tico-tico e golinho.
Antônio Pereira de Morais nascido no dia 07.set.1911, em Livramento - PB.
Morou a vida toda no sítio Jatobá em Itapetim, falecendo em 07.nov.1982.
O xadrez
Minha irmã ama os bichos.
Seu nome é Francisca.
Antes da páscoa só tinha uma gata.
Uma gata alva como uma garça,
Alva como algodão,
Alva como goma de tapioca.
Na páscoa algo aconteceu.
Fomos a vacaria e por acaso,
E ou por alegria uma gatinha preta,
Preta como uma graúna,
Preta como um anum...
Nos seguiu da vizinhança
Até nossa casa...
Se enroscou e se enroscou
nas pernas de Vinicius...
Só precisou de três voltas para amoleceu seu coração.
E nos seguiu.
E ali ficou.
E Francisca Lidiana a adotou.
Agora temos um xadrez...
Uma gata alva, belinha.
Uma gata preta, beleza negra.
Flores
Amarela, vermelha e branca.
Uma chanana, uma ixora e um jasmim.
Uma erva, um arbusto e uma árvore.
Dispostas vejo através de minha janela.
Flores numerosas.
Flores radiadas.
Flores que florescem porque florescem.
Eu as uno nestes versos.
As abelhas quiçá
Podem mais que eu.
A existência é em si...
Nós criamos, unimos e o fazemos...
Para se eternizar de qualquer forma.
Para preencher o vazio de nossa existência...
As flores só dão um tom...
Meu amigo jasmim,
Minha amiga ixora
E agora a chanana.
Mais nada.
Madrugada
Enche o peito do ar frio da madrugada.
O silêncio é sua companhia.
O escuro te envolve
Aos poucos a barra vai quebrando
E a luz se acendendo.
Uma ave pia.
Esperança e fé.
Reza uma oração.
Aquece o coração.
E se prepara com fé que coisas boas virão.
Nena Gonçalves
Ontem, conheci a poetisa Nena Gonçalves.
Li um poema seu num cordel que ganhei na praia de Cabo Branco.
Pesquisei na internet e descobri que ela mora em Monteiro
E que é se São João do Tigre.
Podes ouvir sua voz declamando
Suas lindas poesias.
Cortina
Nas sombras frias e silenciosas da noite desperto,
O sol lenta e silenciosamente nasce e vai revelando o mundo,
Vai aquecendo as cores, vai iluminando as formas.
Matéria e forma, formas e matéria.
A substância de tudo isso!
Formas coloridas, formas aquecidas.
As horas despertas e vivas.
Caem, caem, caem enquanto o tempo passa.
E a noite chega...
As sombras frias e silenciosas caem como uma
Cortina no teatro de minha vida.
17/04/26
Amanhece
Enche o peito do ar frio da madrugada.
Traz em si um cheiro particular,
Cheiro das chuvas de abril,
Cheiro da mata molhada.
O silêncio é sua companhia.
O escuro te envolve
Aos poucos a barra vai quebrando
Lá no horizonte,
A noite se dando ao dia,
E a luz se acendendo.
Uma ave pia.
Esperança e fé.
Reza uma oração.
Aquece o coração.
E se prepara com fé que coisas boas virão.
Como
Ontem Sassá foi para a natação e deu duro. Fez inúmeras atividades. Está quase nadando também. Assim como está quase lendo. Estou organizando um livrinho com os desenhos dele. Como fez muita atividade, gastou muita energia. Assim se alimentou bem. O cansaço o fez mais irritado. Ao irmos para escola conversou pouco, disse que estava ouvindo a música. De fato quando chegamos no estacionamento ele voltou a falar feito um pacum. Tenho que terminar o livro. Ele quer desenhar, mas está sem estímulo, sem saber o que desenhar. Eu entendo bem essa sensação. Bom depois da janta que comeu muito bem. Dei banho e fomos para a cama. Ele quis que eu andasse com ele como se carrega um porco. Não sei como ele gosta. Ri horrores. Como se carrega um porco? Pega o porco e coloca no ombro e anda. Andamos muito.
Oco da mata
Tempo que tempo.
Na natureza, o verde da mata.
A intensa luz do sol.
O canto distante da patativa.
O eu pensa no eu.
Desperto da realidade,
O eu deseja boas sensações.
Não tem ideia do limite da intensidade da sensação...
Sensação boa que se intensifique.
Sensação ruim que se acabe.
Sem nenhuma noção da realidade.
O que importa é a sensação.
Ah inocência...
Como é belo o som da patativa,
no oco do silêncio do mato.
Canção do sabiá
A esta hora da manhã,
Pousou na ali aroeira,
E começou a cantar,
Que linda canção
Que linda canção Sabiá,
Mestre exímio em cantar,
Parei tudo só para escutar,
A beleza do canto do sabiá...
Canta sabiá canta sabiá.
Queria saber quem te ensinou a cantar,
Queria saber quem compôs esta canção?
Canta lindo sabiá...
E enche e preenche meus momentos
De paz, e de beleza.
Pois tu és parte da natureza,
Seu canto é de beleza,
Seu canto é de alegria,
Seu canto dá sentido a esta poesia.
Depois o tempo se vai...
E este momento eterno momento...
Tu me fez guardar no coração.
Mais nada
16/04/26
Raizes do ser
Quantas vezes me aventurei nadar em águas profundas. Quase me afoguei, mas enfim aprendi a nadar.
Um dos oceanos que me aventurei foi na música. Isso mesmo, música erudita. Não entendia como agradável ou desagradável. As primeiras vezes que ouvi foi na rádio Vida da cidade vizinha a minha. A rádio era da igreja e nela o páraco era o Padre Walter Colini, um italiano. Então A música erudita tina um viez para o sacro. Ah. Não! Lembrei... Se usava a música erudita nas notas de falecimento. Acho que isso marcou negativamente muita gente de minha cidade. Papai mesmo não suportava.
Enfim, um dia decidi vou ouvir até onde der. E acabei me acostumando e acabei amando.
Quando comecei a dar aula, tive a sorte de ter um computador com internet e com caixa de sonde, dai passei a dar aula ao som de música erudita. Hoje já não consigo, porque me concentro na música.
Quando morei em São Paulo, amava porque tinha a rádio cultura onde era só passava praticamente música erudita.
Então passei a conhecer muitos compositores além de Bach, Mozart e Bethoveen.
Ouço muito Mozart... aconteceu que estava ouvindo este compositor quando minha mãe faleceu. Então passei a só ouvi-lo como forma de recordação.
Bom, Schopenhauer e Nietzsche também amavam esse estílo. No Brasil sei de Ruben Alves.
Aqui na Paraíba o grande pintor Flávio Tavares sempre pinta ao som de música e um dos gêneros é o erudito.
Bom, esse foi o nado que quase me afundou...
Muita gente gosta. Eu gosto muito.
Sempre quando chego em casa para o almoço coloco na rádio Classic music de Londres...
Agora, estou quase me afogando no cordel.
Desconfiado
Ontem Sassá ficou calado enquanto o deixava no carro. Depois começou a falar. Normalmente ele fala muito. Estava pensando em algo. Não me contou. Só estava calado. Falei para ele por o cinto. Olhei para trás e vi que não estava usando. Então reclamei. E então me respondeu dizendo que eu não podia olhar para trás porque estava dirigindo. Disse que tinha olhado pelo retrovisor. É bom ficar esperto e não confiar. Embora ande bem devagar. Serviu de lição.
Será um sonho
No roçado, papai só queria planta milho, fava e feijão.
Era mamãe que guardava as sementes de jerimum e melancia.
A gente semeava onde tia um buraco de uma planta grande queimada.
Se a chuva continuasse a fartura era garantida.
O gado mago, passava a comer rama.
O leite já era mais a vontade.
Tinha água pra beber e mato para comer o gado.
Nuvens de insetos apareciam.
Cururu não dava conta.
Cachorro corria feliz.
O gato ficava esperto em casa.
Dogue meu cachorro branco.
Era bom de pegar tejo.
Um vira-lata tão amado.
Até choramos quando ele se foi.
Comia pinha e coco.
Tudo isso terá sido um sonho?
As vezes me pergunto...
O que gerou tudo isso?
15/04/26
Sabe lá
A gente se sente feliz, sem saber porque,
basta ser sertanejo e ver que vai chover,
E perceber que o inverno vai pegar.
A gente se sente feliz sem saber.
Chuva é sinal de água, de trabalho e de fartura...
O sertanejo ama tudo isso e nem sabe donde veio esse amor.
São neurônios especulares... É sua raiz de existência?
Aprendeu que chuva é abundância... Chuva é esperança...
Ouvir a bica bicando a gotejar,
perceber na cara de quem a gente ama e respeita um sorrido dali brotar...
uma oração a debulhar, um café a tomar.
O clarão do relâmpago, na noite escura,
O estalido do trovão...
Perceber que da cinza ergue verde,
do seco o molhado, do sol o nublado...
Esperança...
Deste peito de criança que cresce e nunca cresce,
porque ama sua terra...
E não entendo o crescer.
invernada pegada,
feijão florido, milho pendoando,
o cheiro da rama do marmeleiro,
um porco feliz no chiqueiro,
o cheiro da esperança...
Guardando a boa lembrança.
As noites escuras e molhadas
a revoada da insetada, cururus gordos, se fartando de bichos...
A melancia partida na roça,
o leite alvo levado na carroça,
o carão cantando no banhado...
Meu Deus quero morrer nordestino, sim esse é meu destino...
E quando tudo passar, o corpo estiver velhinho
e ainda assim ama e tem esperança na chuva, na bonança...
Depois deitar e dormir neste chão...
Esse é nosso lindo destino. Crescer de um menino... do alfa ao ômega.
Ao meu amigo sertanejo Silvano Araújo
Sala
Abro a porta da sala,
O corredor vazio,
O corredor frio,
Não se ouve fala.
Tudo é silêncio!
Um agradável odor de molhado,
É cheiro de chuva chovida.
A luz branca ilumina sua profundidade,
É fim de período...
Pra já já recomeçar...
Abro a sala nove.
E é mais um dia,
Ou menos um dia.
Sabe lá.
Tchau
14/04/26
Águas no sertão
Depois que caia a chuva,
A coisa melhorava,
A terra bem molhada,
Despertava as sementes,
A mata logo acordava,
A passada cantava,
Era grande a alegria,
Tanajura aparecia,
Cururu do sono despertava,
Nos tanque fazia logo cantava...
A roupa suada ia ser lavada,
No tanque da imburana.
Ali morava o cardeiro,
Ali morava o xique-xique,
Ali minha alma era plena.
Já em maio havia a novena,
Feijão verde, maxixe e muito leite.
O tanque agora perfumado,
De flores de mucunã,
De flores de cerrador,
A mãe lavava com amor,
A roupa do trabalho suada,
Era bom de ver,
Girino com cauda e perna,
A água escorrendo no riacho,
Ah, meu Deus...
Quanta alegria,
O doce da cajarana,
Do milho assado no carvão,
Da alva pinha madura no pé,
Da amarela e velho doce goiaba...
A gente vivia plenamente,
Feliz muito mais que contente,
Por isso foram guardadas na memória...
Cantar a invernada...
Roxa, rosa, amarela flor...
Minha vida guarda amor,
Da terra, da água e do sol...
Porque o amor é a eterna inocência,
É não saber o que se ama.
Adeus tudo isso.
Foi maravilhoso enquanto durou.
Florada do mufumbo
O mufumbo floresceu
Perfumando estradas
E veredas.
Voa apressado o cavalo do cão,
Não quer perder uma gota de néctar.
O riacho lá em baixo,
Está escorrendo de lado a lado,
Água azulzinha.
O cheiro doce as flores de mufumbo,
Enfeitou tanto o mundo,
Meu Deus.
Que pena que o inverno dura tão pouco.
Com o inverno as coisas são mais bonitas.
Sinto no fundo da minha alma.
A beleza é alegria.
Sabe!
Com a água da chuva do inverno...
A vida acorda...
Acorda da sementes até o embuá.
Acorda os ramos secos da mata.
E a vida se enche de graça,
Aparece folha, flor e lagarta.
Á água caindo do céu,
O cheiro da vida...
O tremor do trovão,
Enche o coração de alegria...
De cinza perde o tom do tronco da catingueira,
Amarelas flores brotam,
A água do riacho escorre cantando.
O zunido da abelha é doce como o mel que ela esconde...
Um dia vou me encantar
Que seja lá na caatinga,
No sertão...
Não sei de onde vi,
Mas tenho certeza que se morrer,
E se pudesse reviver...
Queria poder viver eternamente nordestino.
Só pra poder cheirar a florada do mufumbo...
O cheiro do sabão na água de chuva,
Lavando a coberta dormida.
Como é boa a vida.
Beleza negra a gata
Beleza negra foi o nome que demos a gata preta que encontramos na vacaria. Estávamos na casa da tia Li, em Serrinha na páscoa e em uma manhã saímos para explorar a mata. Papai levou a câmara e fomos caminhando no meio do mato. Vimos o milharal, andamos pelas veredas e fomos a matinha do vovô Chico. Lá tem duas bromélias que o papai gosta de apreciar. A mata é velha e conservada, por isso elas existem lá. Então entramos na mata, vimos a primeira bromélia. Em seguida, andamos na mata porque é composta de árvores e é fácil de andar lá. Fomos ver como estava o açude de vovô Chico, orozinho como ele chamava. Estava cheio e sangrando. Vimos ali do lado uma grande lasiodora, linda. Ficamos contemplando. Depois seguimos para ver a segunda bromélia e andar na mata. Vimos sob as caatingueiras uma linda arácea nem sabemos o que é... Em seguida vimos a bromélia, a embiratanha. Seguimos e fomos ao açude de Dedé, dono da vacaria. Atiramos algumas pedras, vimos a pequena cachoeira. E fomos voltando pelo caminho. O córrego estava escorrendo uma água bem azuzinha. Se diz que é por causa do Carbonato de Cálcio que ela fica assim azul. Então fomos indo em direção a vacaria. O cajazeiro estava com frutos então quis provar e o papai pegou um. Sob o cajazeiro tinham frutas, mas estavam furadas. O cheiro era bom. Vimos Josimar passando a campinadeira no campo de feijão... Vimos uma burra branca que Sassá chemou de Leonardo Crispim. pelo brando que conhecemos do cavalo que pasta na praia de cabo Branco. Então vimos os porcos no chiqueiro em três recintos, um, duas porcas e um barrão, e sete filhotes. Quando chegamos a casa da vacaria apareceu uma gata preta. Sassá quis ver se tinha sapo no tanque e a gata nos seguiu. Foi se alisando nas pernas de Sassá. Nos seguiu até o tanque... E se alisava em Sassá. Chamamos diamante negro, mas Sassá disse Beleza Negra e ficou. Fomos voltando, e iamos pelo milharal. Beleza negra nos seguiu. Foi indo... terreiro, estrada... a enxotamos, mas ela veio... veio e quando percebemos estava na casa da tia li. E ali ficou... Tia li é Francisca não resistiu e alimentou a gata e ali mesmo ela ficou. E ainda está na casa da tia li. A gata de Sassá.
Tempo para tudo
O sol rasgou as nuvens,
Nuvens de chuva.
A luz dourada
Bate pra todo lado...
Um intenso calor aquece as paredes e telhas frias.
Aquece as folhas das plantas.
O vento chega e faz a árvore dançar.
Refresca a luz intensa do sol.
Quanto durará a bravura do sol?
O dia inteiro,
A manhã inteira,
Alguns instantes?
Há tempo para tudo...
Olhos dos gatos
Vítreos olhos atentos,
Olhos de ires azuis
Sobre braços e pernas deitados,
Miram o mundo.
Pupilas dilatadas,
Veem na pouca luz,
De um dia que se acende.
Logo que chega a luz,
Negras fendas elípticas se faz,
Bigode e sobrancelhas,
longas...
O silêncio e a solidão contemplam...
Que seres mais individuais...
Miram o mundo,
Miram o dia,
Veem o mundo,
Veem a alma.
Tudo é instinto.
Assim são os gatos,
Com olhos azuis,
Melados e outros mais.
13/04/26
Lugares e as vogais
Onde TauÁ?
Tá no gambá,
No guaraná,
No araribá
No tamanduá,
No taperebá,
Errou Tauá está no Estado do Ceará.
Onde PiauÍ
No guaraní,
No macuxi,
Na sucuri,
No curucuturi
Onde ParaU
No uirapuru,
Na murucututu
Na Murucutuca,
No Jucurutu,
No mulumgu,
No Urubu,
Errou para no Rio Grande do Norte...
Boca
A boca que cantava,
Cantava que encantava.
A boca era bonita,
Não se via os dentes.
Não era mole,
Não era desdentada,
Era elíptica,
Era viva...
A boca subia e baixava o som,
Meu Deus que som.
A boca expressa a alma,
A boca expressa o pensamento,
A boca alinhada.
Lábios, dentes e língua.
Não era boca nojenta...
Não sei se cheirava,
Não sei se fedia...
Encantava por saber ser usada.
Cantando,
Contando...
A boca, que sugou sozinha,
A boca que alimenta
A boca que alimentou a alma.
Essas coisas
O eu na chuva
O vento,
A tarde chuvosa...
Tarde de domingo,
Sol sobre nuvens,
O canto da chuva,
O vento ondulando,
Oras acelerado,
Oras desacelerado,
Dois cataventos
Dando pelo vento
Um verde e um azul.
Sanhaçu voando
O verde escuro da mata...
O eu.
Um sentido
Sentir o mundo,
Encontrar um sentido...
Na cor,
Na harmonia do som,
No cheiro da flor,
O do calor da flor,
No gosto amarelo da manga,
No gosto rosado do beijo quente
E molhado,
Num olhar não procurado e achado,
Achar um sentido,
Em tudo que se passou,
Em tudo que se passa,
Achar e por isso de graça,
É uma verdadeira graça.
Achar um sentido,
Pelos sentidos,
Uma emoção,
Uma percepção,
Um sentimento,
Pra vingar precisa ser criado,
Precisa ser cultivado...
Às vezes parece que será eterno,
Mas é inexperiência...
Às vezes, a gente até aposta...
Outras vezes até se ilude
E nessa ilusão,
A vida tem até sentido,
Além de um sentido,
A ilusão até nos anestesia,
Faz suportar a dor,
Ah...
O sentido de tudo
É o sentido da vida...
Vida que a gente cultiva
Até que a vida se enfraquece,
O tempo e a experiência machuca demais
Se são tantos desenganos,
Os sentidos e os sentimentos...
Há de aprender a cultiva-los senão
A desilusão o mata cedo.
Onde começa o eu
A gente sempre volta ao pote,
porque tem sede.
A gente sempre volta à mesa,
Porque tem fome.
A gente sempre volta à igreja,
Porque crê no eterno.
A gente mesmo que demore volta a pensamentos,
Porque não sabe como deles fugir.
A gente sempre deseja o que quer,
Por achou bom,
A gente sempre quer fugir da dor,
Porque achou ruim.
Ah! Um riso, um olhar nos encanta,
Um riso e um olhar nos espanta.
Porque achou belo?
Porque achou feio?
Porque foi sincero?
Porque nos assustou...
Onde tudo começou?
Lara a suindara
Após o banho, Sassá foi por mim enrolado e fomos para o calçadão. Ficamos ali aguardando sua mamãe. E vendo as pessoas passarem conversando, fofocando ou sabe lá o que. O calçadão é um pequeno retrato do Brasil. Muitos turistas, muitos pessoenses que vão e que vem. Felizes, preocupados. Não importa ou quem importa. O que importa. Só somos nós sentados ali. Sassá se secando. A mamãe vindo...
Quando mamãe já trocou eis que no coqueiro se opondo ao calçadão e a rua na folha mais aberta pousa uma coruja. Uma coruja de igreja, uma rasga-mortalha, uma suindara... Tantos nomes para o mesmo bicho, tantos nomes para a mesma ave que resolvemos chamar de "Lara" a suindara.
Lara estava curiosa com algo que estava ali. Enquanto nós estávamos atento a cada movimento. Tinha um grupo ao nosso lado que também percebeu Lara... mas logo perdeu o foco. Nós ficamos absorvidos por lara.
Vira e mexe... hipóteses surgem. É o seu ninho. Pensei sei não. Um ninho tão amostra. E não sei como ela se enfiou ali na base da folha e meio que desapareceu... É um ninho. Mas não era. Lara estava era caçando. De repente apareceu com um ratão preso as garras... Voou para as casuarinas. E nós ficamos só na curiosidade.
A peteca
Sassá já sabia o que era uma peteca. Tinha o conceito e já havíamos brincado ontem. Entretanto ontem ele pegou folhas grandes que a mamãe ia por no lixo e dobrou, dobrou, amassou e amassou e saiu uma coisa abacaxiforme... E foi ai que nasceu a peteca. Bom, só de papel era mole, então adicionou um plástico e a mamãe adicionou uma fitacrep. E voilá uma peteca. A peteca que o Sassá criou e confeccionou salvou milagre. Fomos brincar. Pulava, sorria, gritava de tanta felicidade. Estávamos brincando com um instrumento que ele mesmo construiu. Bebeu, água e chegou o momento que se cansou. Então fui dar um banho. E jaz a peteca sem função. Assim é. Depois do banho fomos para cama e eu dormi.
10/04/26
Labirinto temporal
A tarde surda,
Tudo é silêncio,
O calor muda
A voz da natureza,
Numa sombra,
Pia um bem-ti-vi.
Desperto para essa realidade.
E por minha memória,
Resgato a eternidade.
Em que tempo estou,
Como uma imagem de espelho,
Me pergunto,
Sou eterno,
Sou atemporal.
Não sei...
Tesoura
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Gogh