A janela aberta,
Quadro na parede,
A brisa fria que entra,
O canto do sanhaçu-palmeira,
O sanhaçu-cinza,
O papa-capim,
O chiado do computador,
A vida é sublime sobre tudo,
Mas lembrar que está vivo,
Pensar nisto tudo,
Pode tornar tudo mais gostoso.
A janela aberta,
Quadro na parede,
A brisa fria que entra,
O canto do sanhaçu-palmeira,
O sanhaçu-cinza,
O papa-capim,
O chiado do computador,
A vida é sublime sobre tudo,
Mas lembrar que está vivo,
Pensar nisto tudo,
Pode tornar tudo mais gostoso.
O meu amor nasceu contigo,
Seu primeiro choro derreteu meu coração,
Ao te pegar no braço, fui tomado de amor,
Ao te ver sorrir, fui tomado de amor,
Ao te ver respirar, fui tomado de amor,
Ao te ver chorar, fui tomado de dor,
Seu choro é seu código que aprendemos a decifrar,
Tudo fazemos para sentir que estás bem,
Estás bem...
Se dorme te amamos,
Se brincas te amamos,
Contigo nasceu uma nova forma de viver.
A madrugada encantada,
A corroira cantando calma,
O bem-te-vi de sobrancelhas,
Dizia que tinha me visto
Som belo, som perfeito
Nem vi a madrugada
Agora canário corrochiam
Há uma grande beleza
Em tudo isso
A celebração do ser.
A gente vive como sabe, como foi ensinado a viver.
E como a gente sabe?
Porque viver é ser.
E o que é ser?
Está ai?
Ensinaram-me tudo que sei.
Aprendi o que que me ensinaram.
Aprendi o que entendi e o que busquei aprender, além do que sinto, além do que percebo.
Como se nortear sem uma direção a seguir?
Olho no espelho,
Encaro-me olho no olho. Penso quem sou?
E me perco ainda mais na consciência.
Se o fim é único para que tanto esforço?
Sou e uma aranha na teia é,
Uma mosca presa a teia é,
Uma jurema é.
A coisa em si e a coisa para si.
Até quando é e enquanto é.
Qual o valor de cada coisa?
Tudo isso me custa o entendimento.
Mais nada.
Que saudade da infância
Que foi toda vida campestre
Em tudo só via e sentia,
Em nada pensava,
Só existia, só ria,
Mamãe pensava por mim,
Papai fazia o que podia,
Riso era alegria,
Alegria igual a confeitos,
Por isso ficava ansioso,
Pelo sábado quando papai ia pra feira,
E trazia sempre em saquinho de papel,
Um punhado de confeito,
E distribuía pra gente,
Trouxe um caminhão amarelo de botijão,
Trouxe um caminhão azul de cavalos.
Mamãe me mimava,
Rosangela me cuidava,
Nas terras arenosas desconhecidas,
Fui vivendo minha vida,
Nossas vidas,
Chupando caju e umbu,
Envergonhado, sonso,
Dentre outras variações
A infância traçou minha existência,
As orações guardaram o medo,
A fé o norte...
A vida uma essência...
Momentos doces de infância.
Na infância memórias são cristalizadas,
Memórias maravilhosas de serem rememoradas,
Até parecem fluir no momento que são acessadas,
Vou agora contar uma memórias visualizadas,
Memória que de certo não serve para nada,
Só para que não esquecer de uma vida passada,
As paisagens constantemente são transformadas,
Porém essas jamais serão esquecidas,
Passaram do nada para a existência amada,
Por isso aqui vou compartilhar,
Minhas primeiras memórias botânicas,
Sinal de já sabia o que queria quando nem imaginava,
Eram estas paisagens com seus elementos
Que enchiam a minha infância de lindo espaço,
E alegram o meu presente ao matutar.
Tinham plantas ornamentais que admirava...
A mumguba de Lídia de Severino
Um tanto perfumada com filetes alvo e vinho
O ipezinho de jardim de Elita de Joãozinho, Antônio de Chiquinho e da Primeira igreja batista.
O Jasmim de Elisa de Vicente Joana e de Maria de Vicentin,
Os híbiscos de Loló de Assis,
As mutambas de Vicente de Paulo,
O bico de papagaio de Dorinha de Luiz de Bonifácio,
A figueira de João Cosme, linda árvore abandonada ao pé da ruina da velha casa.
As plantas medicinais
Um lindo eucalipto na casa de Zé de Júlio e na casa de Banifácio,
A romã na casa de Irelda,
Com as plantas alimentícias a gente olhava e se deliciavam
A condessa de Nelope e Adelso,
As pitombeiras de Bonifácio e Chico Franco,
As jaqueiras de Dezu, de Loló Laercio, de Bonifácio, e de tio Jessie,
Os umbuzeiros de Elita de João de Lico, Zezim de Tica, Joana Rosendo, Loló de Assis, Antônio de Chiquinho do canto,
As cajaraneiras de Laurita, Munda e Mariana e Mindinnho.
A baixa de coqueiro de Dudé,
A mangueira espada de Bunina,
A mangueira de Leoni,
A ciriguela de Antônia de Nelson,
A pimenta de macaco e mangericão de vovó Chiquinha,
As groselhas de Irelda,
A gravioleira de Loló de Diniz,
A laranjeira de Elita de João de Lico,
O linheiro catolé de Eunice,
As plantas nativas sua natureza se expressava,
O feijão bravo de Iula de Dequin
Os angicos de Rita das urupembas,
Os catolés de Vicente Paulo,
A Timbaúba de Toto de João Corme,
A embiratanha de Chico de Vicente Joana,
O coração de negro de Nelope,
A aroeira de Juvenal,
Os odores das flores de cipós de Bignoniaceae...
Odores de cor rosa ou amarela das tecomas.
Os odores doces alvos das mimosas, unhas de gatos e espinheiros.
As flores estreladas das Jitirana,
Flores multicolores rosas, azuis, alvas e amarelas,
A rama prurida das urtigas,
O amarelo ovo das senas,
O cheiro violeta das mucunas,
A azeda fruta da imburana,
O cheiro doce do cumarú,
O amargo da Marcela,
O baboso do juá,
O azedo do cajá,
O travoso da maniçoba,
A torteza do Jucá,
São lições botânicas
Fortemente afetivas,
De pessoas muito amadas,
Algumas já partidas...
Assim é viva está minha
Meu canto em Serrinha do Canto.
Apesar de ser armada com unhas de gato
Eram bonitas e perfumadas suas flores,
Um pompom bem rosadinho que fica alvinho,
De tanto abelha visitar e assim realizar
A famosa polinização que é a condução
De pólen de flor em flor por meio de um vetor o agente polinizador,
A flor ao ser fecundada vai se desvanecendo
E o fruto a ser formado vai logo se desenvolvendo
Dos estames o pólen é formado,
É nas anteras gerado.
O pistilo por estames é rodiado,
Essa estrutura feminina por estigma
Estilete e ovário é formado,
No estigma o pólen é recepcionado
Pelo estilete encaminhado,
Onde tubo polínico se desenvolve,
Sendo no ovário recepcionado
Pela micropila o tubo se rompe
E os microgametofito e megagametofito se encontram se fundindo,
Assim um embrião é formado,
A micropila aí se fecha,
Dos integumentos a testa é formada,
Da dupla fecundação o endosperma seminal
Assim a semente é formada
E concomitante a está o fruto do ovário se origina.
Fruto seco achatado de craspedio é chamado
Sendo autodispersado,
A semente é tão pequena e dura
De cor castanha pela testa envolvida
Com uma forma de ferradura ornada
Pelo nome de pleurograma é chamado
Na terra fértil é germinada.
As folhas são todas miudinhas de invermo
De dia se aberta e a noite se fecha
Se desprendendo no verão
É um pé de cerrador planta bela do sertão,
Mimosa paraibana é batizada
Pela taxonomia classificada.
Assim chego ao breve fim
Creio ser a botânica assim.
A lembrança tem seu encanto,
Por vezes, nos causa espanto,
Na infância era tudo diferente
Em casa pouca coisa tinha a gente
Para nossa pequena lida tinha
Enxada, enxadeco e chibanca,
Até uma velha campinadeira
Para o mato da roça campinar
Roçadeira, facão, foice e machado,
Para tirar forragem e madeira
E o gado alimentar e o curral cercar
Um velho morão de pegar e vacinar
Na casa velha havia uma caixa de madeira
Cheia de traquitanas como pregos,
Alicate, troques e martelo, suvela,
Serrote, pua e plana gostava de chafurdava
Então foi num ano pela tarde
A uma escola fui pra lá levado
Todo mundo em fila estava sentado
Me deram um caderno e um lápis
Num quadro verda a professora
Explicava que riscos eram sons
A - E - I - O - U e A, B, C...
Vogais e alfabeto
Um caderno e um lápis
E a incompreensão e insubordinação
Tinha como punição um puxão
De orelha... Ardia e queimava,
Acho que não ligava pois sempre repetia a ação
Ah lição complicada,
Do ABCD chegar a entender o mundo
Que paciência e perseverança,
Largar a infância e se abraçar a responsabilidade
De ler e entender o mundo pelas palavras
As ferramentas de casa eram muito mais simples,
Mas a coragem faz o guerreiro,
Aos trancos e barrancos passava de ano
E ouvia um elogio e um livramento passar de ano,
Ouvia com prazer que ao menos era inteligente,
Ouvia dizer das aparências com Françuar
Comparado até nas astúcias assim cultivava
Minha inteligência pequeno era o mundo
E grande a imaginação...
E ouvi dizer que Dona Lenita era mais rígida,
Mais valente, então o medo me adestrou,
Tomei de primeira as lições, aprendi o que achava
E pontuava as escola, passei por média,
Entre ditongos e tritongos... a Bahia e o Paraguai,
Algo era uma luz e deixara de ser cruz,
Na Serrinha Grande foi a vez de Conceição,
Professora do sertão
Que chegava a serrinha,
E rezava toda manhã,
Agora mais liberdade,
Agora mais responsabilidade,
Três litros de leite e a sala de aula,
Na vergonha vendia aqueles litros,
E o dinheiro a mamãe dava,
Na escola sempre passava...
Quinta série essa foi um destroço
Era muito o alvoroço,
Estudar com professores,
Esperar aula de educação sexual,
Fui expulso da aula de religião,
Fui para quarta avaliação em matemática,
E em ciências, quase reprovei,
Ainda lembro do olhar de severo
De dona Rivete,
Lembro de Cleiton e Primo Valdene...
Edineia, Cileuda, Alessandra e Joesilha,
Sexta série Chaguinha de Viriato me salvou,
Como ave em arapuca,
Fugi de um bagunça nas últimas,
E Chaguinha professor de matemática e ciências
Me salvou da matemática,
Nas ciências me apeguei,
Adivinhe o por quê,
Ali descobri minha inteligência
O livro cheio de imagem,
De bichos e sistemas,
E Chaguinha contava as histórias do Colégio Agrícola de Jundiaí...
Muito obrigado professor,
Na sétima série não esqueço
Aula de geografia,
O mestre José Silva descrevendo as ilhas Polinésias e Melanésias...
Tomava a lição,
Naquela grande inverno,
Para a estrada ia o gado pastorar,
Com o caderno na mão
Aprendia geografia,
Virando as pedras brancas do Barroso
Em busca de escorpião,
Ai veio o professor Luiz Silva também da geografia,
Tomei gosto pelas boas notas.
Na oitava série o destaque foi Ledimar,
Professora Perpétua e Genilda,
Desculpe mas português não era minha praia...
Lembro da tarde que Drummond morreu,
A professora Genilda falou com muita tristeza.
Essa dificuldade da língua ainda carrego,
Em Martins teve a fabulosa Janildes de biologia,
O fantástico Pedro de matemática,
Oneide e Fátima de Português,
O que dizer da generosidade de drs. Moacir e Luizinho,
Josineide de inglês,
A professora de literatura que me fez pela primeira vez ler o mulato
Dona Marta esta apostou na gente...
Me divertia mesmo era na biblioteca
Ali onde ficava dona Bebeta...
Lia os livros de contos...
Fernando Sabino...
Naquelas noites frias da serra,
Não estava só tinha minhas irmãs
Nossos vizinhos e vizinhas...
Sabe os caminhos foram tortusos,
Mas descobri a caixa de ferramenta de Foucualt muito cedo,
E não teve um dia em minha vida
Que não tivesse um aprendizado,
Agradeço a todos que me ajudaram
E principalmente aqueles que me apoiaram,
Aqueles que vieram e se foram,
Seria impossível descrever...
Dedico tudo que sou a mamãe e a papai.
E fico por aqui.
Às vezes, a gente fica concentrado,
Fazendo atividades cotidianas,
E ouve sons de coisas humanas,
Som de longe distinto e perturbado,
Parece que ouvimos o eco do tempo,
Parece que nos perdemos no espaço,
A gente sente intensa nossa individualidade,
Sente o quanto somos solitários
Talvez tenha tido essa sensação
No estalado a queimar a maravalha,
No ferver do café com água que borbulha,
No chiado da chuva longe que vem chegando,
Na solidão noturna ouvindo um roncar...
Coisas humanas,
Coisas humanas,
Coisas humanas,
Pulsações da vida,
Que renega até a morte a morte,
Esse medo do desconhecido,
Aprendido desde o ser um bebê.
Agora ouço longe
Roncos de motores,
Ecoando nas ruas,
Longe muito longo vou,
Estou no meio do mato,
Ouvindo roncos de motores
Ecoando nas gargantas das serras,
Ecoando entre as caatingas...
Quem desconhece a cinza
Que se faz ao apagar crepuscular
De cada dia, o cantar da ave maria
Na voz de Gonzaga...
Esse profundo eco
Espelho do tempo,
Eternidade momentânea,
Num ponto é fiado é tecido
O presente e o passado
No ser...
Agora a compreensão que o entendimento está para além da experiência.
O tempo em conta gota
Sendo o sono fracionado
A noite que antes fora oculta
agora está sendo desvelada
Entre horas se ouve seu chamado
Um gemido, uma virada, uma tosse
Quando a gente olha e ver
Tanta beleza condensada
Fica hipnotizado cansado
E feliz sem perceber a noite
E seus fenômenos revelados
Frágil Belo e delicado
Necessita de atenção,
Precisa de cuidado
A paternidade é assim revelada.
Um dia esses versos
Serão empoeirados
Serão esquecidos,
Não desaparecidos
Terá sempre uma chave
A quem quiser acessar,
A quem poderia interessar,
São imaturos e pobres
Nem sabem o que expressar,
Falta métrica e rima e emoção,
Amorfos buscam uma classificação,
Querem em um gênero se encontrar
Desejam ser objeto do pensar,
Buscam nas palavras enunciação
Buscam alguma participação
Mas como um um habitat encontrar?
O tempo e o espaço hão de se encarregar
O que vos escreve desconhece a arte
Desconhece os paradigmas e toda parte,
Sabe apenas que o oriente ama a lógica.
Matutar a palavra encaixa-la feito dominó
Encontrar a beleza na organização rimada
Me trás uma reflexão pouco embasada
Que os espaços são ocos e podem ser um só
Ocupado, limitado ou ilimitado,
Pois agora é a melhor hora
De quebrar o paradigma
O protocolo, e aqui intuir
Criar uma quimera
Que seja mesmo independente,
Particular ou universal
Que seja livre
E apesar de tudo original
Que tenha fim imediato.
Serrinha do canto
Meu amado encanto,
Meu centro espiritual,
Meus referenciais,
Em linhas gerais
Aqui sempre estou,
Serrinha do Canto
Foi onde eu cresci,
Foi onde vivi
Vivi protegido,
Vivi amado,
Papai e mamãe,
Meus irmãos e irmãs,
Nossa casinha,
Serrinha do Canto
Onde tudo começou,
As primeiras brincadeiras,
As primeiras amizades,
As primeiras orações,
Serrinha do Canto
Meu ponto de dormida,
Meu ponto de comida,
Meu sentir plena a vida,
Serrinha do Canto
Os nossos vizinhos,
Nossas famílias escolhida,
Elita e Joãozinho,
Du Carmo e João Lusso,
Chico Neco e Arlete,
Artur e Eliza,
Ribamar e Lena,
Airton e Eliene,
Zezin e Tica,
Dudé e Zé de Geremias
Hélio e Paulinha,
Crejo e Josa,
Loló e Dezu,
Seu Mundinho e Luiz,
Dequinho e Iola,
Totó e Zuleide,
Nelson e Antônia,
Raimundo Vieira e Cacau,
Antonio de Doquinha e Ziná
Diã e Neta,
Joquinha e Nena,
Juvenal e Iraide,
Adelson e Antônia,
Nelope e Luzia,
Livani e Evandro
Chiquinho do Canto e Socorro,
Bonifácio e Loide,
Tirite e Lenita,
Leci e Laurita,
Maria de Cajumba,
Tio Juice
Zé Vieira,
Miguel e Tereza,
Mané de Branca e
Dadá e Preta
Dinarte e Doraci
Deo, Nazareno, Gorete, Régia,
Zé Paulo e Elita
Jaíme e Luiza,
Chico de Joana e Daleia,
Minino e Ieda,
Vavá e Elieuza,
Neto e Júlia
Diniz e Loló,
Josimá e Elenita,
Elias e Loló...
Serrinha do canto
Minha alfabetização
Dona Livani e dona Lenita,
Não não podes imaginar
Nossas distintas relações...
As brincadeiras de criança
Fazenda, dinheiro moeda de carteira de cigarro,
Carro de madeira,
Caçada de baladeira
Caçada de cachorro,
Pegar passarim...
No inverno os banhos de cachoeira no porção
No verão o fotebol no porção e no marocão,
A biclicleta barra circular e a escola,
Nossa monareta azul,
A luz elétrica...
A televisão
Show da Xuxa,
Leandro e Leonardo
Serrinha do Canto
Um ponto entre os avós
Chico e Chica
José e Sinhá,
Tio Aldo e Tia Nevinha,
Esse meu imaginário...
Serrinha do Canto
Nossas vacas magras,
Nossos cachorros,
Nossos gatos,
Serrinha do Canto
É meu alicerce
Meu tempo e meu espaço...
Afinal quem somos nós
Parte de onde partimos,
Parte de onde saímos,
Parte do que ouvimos,
Parte do que repetimos
Aquilo que queremos repetir,
Agora é hora de matutar
Maturar,
Digerir e representar...
Serrinha do Canto.
Quem conhece o sertão
Reconhece seus odores
E suas diferentes cores,
Quem conhece o sertão
Odores fortes de plantas,
Odores forte de carniça,
Odores fortes de lixo,
Quem conhece o sertão
Conhece a caatinga cinza,
Conhece o vinho do mourão de aroeira,
E o laranja ou a alva da poeira,
Conhecer o sertão
Faz parte da existência sertaneja,
é gostar de caldo de cana e rapadura
Gostar de melão e melancia,
Gostar de feijão verde,
Gostar de pamonha,
Gostar de pescar no açude,
Gostar de ouvir cantoria...
Gostar de se encontrar em festa de padroeira,
Gostar de vida simples,
Mas o sertão mudou,
Criança não come coalhada só yogurt,
Criança não brinca correndo,
Criança tem tablet até aprende inglês,
O sertão mudou,
Agora a caatinga é cheia de lixo,
Agora a caatinga é pobre de bicho,
Muita coisa mudou no sertão,
Cemitério tem telhado,
Adulto vive no celular,
Ninguém mais quer trabalhar,
Mudaram as tradições...
Quem vê o sertão de hoje,
Nem imagina como foi,
Tudo evolui
Que se adapta sobrevive
Que não se adapta morre,
Corre corre corre...
Foi o sertão que mudou ou foi sertanejo?
A morte é o não ser,
A morte mata todos,
A morte é o ponto final
Não da frase, mas do texto.
A gente se pergunta
O que é a morte
Quando nos cerca,
Quando nos leva
Alguém muito querido
Pensamos sem parar
Por que isso aconteceu?
A morte é caixão
É paixão,
É dor
É diluição
Desaparecer
E por fim
Adeus poesia
Morte.
Na madrugada, canta marrom a corroira
Canta, cantando vai pulando pra lá e pra cá,
Grita amarelo o bem-te-vi perto de seu ninho,
Canta laranja o sabiá que parece assobiá.
A passarada anuncia um novo dia,
Um lindo dia de março de 2021,
Um novo dia de ação dia de ser.
Numa manhã domingueira,
Segui com mamãe até o sertão,
Fomos de jegue se bem me lembro,
Lá pra casa de vovó Sinhá,
A estrada era apertada,
Com areia alva
E seixos rolados,
A gente ia caminhando
E o mundo descobrindo,
Cada árvore mais linda,
De certo era inverno,
A água escorria na terra úmida,
Era perfumada a estrada,
Um cheiro de marmeleiro,
Cheiro de velame,
A certo momento num novo lugar,
Ouvia a rolinha cantar,
Fogo-pago, fogo-pago, fogo pago...
E ao voar ouvi o som de chocalho,
Ouvi um canto lá no campo,
Era um canto maravilhoso,
Era o tico-tico do campo.
Chegando na casa de vó,
O mundo era tão amplo
E nós tão pequenos,
Ali se via serras
Eram outras terras,
Serras no nascente,
Serras no norte e no poente,
Só o sul era profundo.
Vovó nos recebeu,
Vovô também estava lá
Vimos a mana Lera
Vimos o primo Magi,
Vimos a alegria de mamãe,
Ao chegar lá se sentia em casa,
A maravaia queimava no fogão de lenha,
Queimava acabando de cozer o feijão,
Tomamos uma coisa mole e alva,
Feita de leite chamada de coalhada,
Rasparam a rapadura
Misturaram e comemos,
O que me chamou atenção
Foi o lugar onde guardava
Tal manja a coalhada,
Descansada numa forquilha,
Teve a noite dormida
E agora era comida...
Eu criança curiosa,
Achava aquilo esquisito,
Casa de taipa,
Vovó idosa,
Vovô pigarreando,
Entre eles conversando
E eu viajando,
Apenas nas formas,
Da vida nada entendia,
Só vivia,
Foi um dia maravilhoso,
Que volta sempre a minha memória,
Parece uma estória,
Mais um dia foi realidade,
Seria a realidade um sonho?
Penso agora risonho...
A casa,
A paisagem,
Meus avós são estórias e sonhos,
Coisas de minha memória,
Que compõe esta estória.
E é só.
Agora é tempo...
Quase meia noite é
Desperto deitado,
Ouço o som
Que vem lá de fora,
Fora é espaço,
A chuva que chora...
A chuva chorando,
Num átino,
Vejo o que não mais existe
Memórias o são essas coisas,
Sei que estou triste
Sinto é tristeza...
Tristeza é reflexo de memória?
A tristeza tem a mesma matéria da memória?
Então penso e escrevo meu pensamento,
Materializando assim tanto a memória
Quanto a tristeza que existe,
Se é que existe...
Só sei porque me disseram,
Você está triste,
Então esse sentimento
Ganhou uma palavra na língua portuguesa.
Se fosse inglesa seria Sad
Ou ainda BLUE...
Esse sentimento existe na natureza?
Duvido que exista fora de mim
Fora de ti!?
Então o que existe fora de mim
Precisa ter substância?
Qual é a substância da memória?
E a substância da tristeza?
A tristeza pode ser controlada
Via medicamentosa
Regulando bem os hormônios,
Endorfina...
A contemporaneidade e a ciência
Juntas numa só mataram a melancolia,
Enterrando as trevas,
Superando os ciclos de Danti.
Parou de chover,
Tudo é silêncio
Mas ouço um som
Um som não é só memória,
A prosa me fez esquecer a tristeza
Ou acabei de ficar triste
Não contente...
Ouço um ruído
Parece som de mangangá
Zuummmm
Zummmmm zeeeeeeee.
Aquela abelha gorda
Sobre a flor papilionácea
Flor violeta da mucuna
Do olho de boi,
Até na sobra da ignorância
Me encantava a natureza das plantas,
Em suas flores, frutos e sementes.
Espere perdi o foco
Ganhei o sono,
Uns versos
Melhor não adiar
Em casa com criança
Sono é artigo de luxo...
Parou de chover.
Chega me calei.
O amor foi feito só para quem ama de verdade. E eu nunca senti por ninguém o que sinto por você. Te amo de verdade. De seu pai para Rubens.
Está frase está numa plaquinha que papai trouxe do Canindé.
Papai era assim nos pegava no amor nos simples gestos.
Seus presentes jenuinos enchiam nossos espíritos de maravilhosos sentimentos.
Hoje recebeu seu amigo Amós aí onde estiver.
Saudades.
Ainda é muito viva a presença de papai na minha vida. Faz quase três mês que ele partiu, mas ainda sinto
intensamente sua presença. Ouço sua voz. Vejo seus gestos. Lembro de nossas conversas. Lembro de tudo.
Dói muito saber que não terei mais sua presença não compartilharei mais nada.
Quando adoeceu foi a pior parte de nossas vidas, pois adoecemos juntos. Entramos em desespero.
Fui correndo cuidar dele. Ele falou assim. Cansado, sem esperança. Era um domingo a noite.
A vida não faz mais sentido.
Não faz sentido.
Então começamos a cuidar dele com o maior do mundo.
E ele ganhou um sentido. Ganhou uma sobrevida.
Viveu um pouco a mais.
O amor pode mudar a maneira de ver o mundo.
Podemos mudar o mundo com amor.
Podemos dar sentido a tudo e principalmente a vida.
A doença venceu a carne, mas não o espírito.
Toda noite papai rezava...
Estava do seu lado o tempo todo.
Enchia ele de beijo, de carinho...
E meu maior medo era da tua partida.
Não sei expressar o que sinto.
E quando não sei expressar.
Esse sentimento externa em lágrimas.
Tenho que reavaliar tudo.
Os anos que vivi ao teu lado papai.
Tudo que aprendi com o senhor sobre a vida,
Coisas grandes e coisas pequenas.
O respeito a vida, aos seres, as pessoas...
E sempre que lembro de seus momentos de fragilidade meu coração se comprime.
Na fragilidade ajudou a mamãe cuidar de mim.
Na fragilidade todos nos cuidamos de ti.
Cuidamos da maneira que podemos até o fim.
Na minha parede agora tem uma imagem sua.
Na minha mente tem o teu espirito.
Amor infinito.
Quando alguém deixa este mundo,
E é gente por nós muito amada,
Fica a ausência algo profundo,
Fica aquela atmosfera destroçada
Parece que tudo chegou ao fim
Fica faltando uma parte,
E demora pra se acostumar
Então a gente pensa no ser
A gente pensa no tempo
A gente pensa mais
Pensa no que aconteceu
E enfim um dia aceita
Embora a dor nunca mais acabe.
Outras coisas ocupam o lugar
A ausência dói.
Não há nada mais sublime que segurar seu filho enquanto dorme na mais perfeita paz.
Seu corpinho frágil, macio, sua respiração, sua vida aos teus cuidados. A impressão que temos é que
nossos corações vão explodir de tanto amor.
A gente fica olhando, assistindo cada coisinha no corpinho.
Sentimos seu cheirinho, sua cândida existência.
Até dois meses atrás desconhecia todas essas sensações.
Até dois meses atrás quando meu filho nasceu,
Certamente eu me transformei, houve uma catarse amorosa.
Noites e noites mau dormidas,
E aquela preocupação na mente está tudo bem?
Está tudo bem...
Mesmo estando tudo bem a gente não acredita e fica acordado olhando até a exaustão.
E quando o dia nasce
E quando aqueles olhinhos se abrem,
Parece que deram uma supercarga de energia,
Porque agora nossa felicidade não é nossa é algo compartilhado.
A mamãe amamenta e o papai colabora cuidando de cada coisinha.
E ai surgem novas conversas, surge aquela empatia de quem é pai...
Nossos exemplos compartilhados.
Não sei se sou mais bobo, mas rio à toa com as coisas de meu bebê,
E a proporção que vou sendo reconhecido, a proporção que ganho um sorriso,
Descubro que o amor é infinito.
Ser pai é uma grande dádiva.
Poder falar ouça o papai, venha pro papai, o papai vai te ajudar.
Pegar aquele serzinho e dizer "Te amo".
Você é o meu maior tesouro...
A gente fala sem saber se ele vai entender.
Sabe aquela manhã que você acorda bem e percebe o mundo,
As flores em frente as casas, na campina,
Você ama está vivo, ama ser quem é.
Pois é a sensação de ser pai é muito superior.
Então enquanto lindamente ele dorme ali no carrinho,
Ouço Schubert para bebês
E dedico este pequeno texto aquele que mais amo no mundo,
Vinícius meu bebezinho.
A tarde caiu nublada e chuvosa,
Chove, dá um tempo, chove,
Fecha a janela e abre a janela,
Toma um chá,
Faz calor,
Abre a janela,
Faz frio,
Uma música,
O cuidar das coisas,
Cuidar do bebê,
Cuidar da esposa,
Cuidar dos irmãos,
Da família...
E a fé.
A noite me acordou com seu calor
E me entregou a madrugada estrelada
Entregou-me em silêncio,
Meu menino acordou e mamou
Discretamente dormiu.
Dormiu no meu peito e nos meus braços
Sua cabecinha perfumada incensou minhas narinas,
Se mexia, respirava
Era quente seu corpinho, tão gordinho.
O galo cantou, ouço o teco-teco do ventilador da vizinha de baixo,
Também ouço o canto mudo dos grilos,
Olho pro céu parece que o piscar das estrelas imitam o ciciar dos grilos.
Minha esposa ressona,
Vinícius no berço em busca de se acomodar
Uma corroira canta
Um galo canta,
E penso que ainda me surpreende ter galinha em algumas ruas desse cidade.
Olho a x brilhando e penso em pai.
Até o calor refresca na madrugada,
Enquanto Vinícius mamava
Peguei um livro de Neruda
As uvas e o vento e li o prólogo em um poema.
Pensei em Vô José...
Em mamãe...
Vinícius dormia em meu peito.
Agora lá fora ouço
Siriririririri...
Uma brisa fria atravessa a janela.
O sono já chega...
Andamos perdidos em nossos pensamentos.
Somos infantis?
Sempre em busca de algo que nos preencha.
Parece que o vazio é nossa maior parte.
Somos balões?
Não percebemos a nossa realidade seja qual for.
Somos míopes?
Temos medo de perder algo o tempo inteiro.
Nem vivemos intensamente o presente, o aqui e o agora.
E quando perdemos nem tomamos conta que precisamos nos ater ao presente ao agora.
Parece que a vida é um punhado de areia em nossas mãos
Que vai perdendo grão em grão.
...
Mozart sem dúvida é meu compositor favorito. Se me perguntar por que? Não tenho uma resposta. Como não tenho respostas para a maior parte das coisas que existe ao meu redor. Todavia, gosto pois sinto sua música. Bem todos podem sentir, mas por que não sente ou aprecia, como não apreciava. Cuidando agora de meu filho passo entender e racionalizar muita coisa. Ele não entende coisas que para mim são óbvias. Coisas que o irrita para mim são maravilhosas, mas não é sobre mim. É sobre o outro, sobre você. Quando me perguntas porque Mozart direi porque sinto, porque vejo alegria, felicidade... Sabe a gente tem uma coisa chamada consciência. Que por definição seria a apreensão de um sentido. Desde que a gente passa a ter consciência a vida fica muito mais complicada, porque passamos a nos basear nos outros. Estava sozinho em meus pensamentos e perguntei a mim mesmo. O que poderia ser bom neste momento. Liguei o computador e ouvi Mozart. Não entendi nada. A primeira vista as coisas nos desnorteiam, são apenas impressões. Na segunda vez que ouvi, já me familiarizei um pouco e fui tomando consciência, passei a ter percepção, depois mais um pouco me interessou saber quem foi o compositor, o que o fez compor tal e tal peça... Bom esse é meu modo de ser. Veja que arrodeio muito para falar algo. Gosto de Mozart porque descobri que podia gostar. Então fique em paz que vou ouvir aqui.
https://www.youtube.com/watch?v=FZ1mj9IaczQ
O mundo essa soma de tudo que existe
É a pluralidade além de nossas impressões,
Por certo objetiva, mas que é sem emoções,
Existe a sensação de está alegre ou triste.
Meu mundo o que seria representações
Ou seria o que é pura matéria
Ou um produto do trabalho de reflexões,
Ou coisa descabida de explicações.
Versos, estrofes, rimas frases com migalhas de perguntas.
Uma tentativa de organizar o universo humano.
Talvez algo se consiga entender,
Talvez seja tudo vaidade,
Talvez seja uma busca da verdade,
Ou tudo é ilusão.
Na antena
Pousou um sanhaçu
Ficou ali plinçando
Ficou ali cantando,
O frescor da manhã,
O céu infinito,
A liberdade em suas asas,
A liberdade em seu canto,
A beleza dessa realidade
A beleza da simplicidade,
Se perde em nossos pensamentos,
Por vezes se encontra no agora,
Em estado de graça.
Lá fora está fresco.
A manhã nasceu agradável.
Nublada, mas com campos de azul do céu.
Canta sem parar,
Canta em todo lugar,
O bem-te-vi,
A corroira,
A patativa,
O sanhaçu...
O que dizem não sei,
Mas é uma beleza de ouvir.
São as coisas deste mundo,
São as coisas desta vida,
Particularidades de uma totalidade.
Onde a consciência não consegue tocar
Apenas contemplar.
Uma manhã qualquer
Em qualquer lugar que seja.
A base de tudo é subjetiva.
Papai meu papaizinho querido,
É pena que tenhas partido,
Deixando meu coração fendido
Em dor e muita saudade
Logo você minha maior alegria,
Meu alicerce, meu pilar, minha poesia
Meu confessor e amigo mais antigo,
Como dói a sua ausência a noite ou de dia
Me faz falta sua grande Alegria
Forte e intensa que me contagia.
Ah papai que intensa foi a dor,
Como foi triste sua partida
Achei que ia perder a vida
De tanto sofrer de amor
Não tenho mais o que fazer
Só me resta agora é sofrer,
Tá cheia minha lembrança,
De todo o tempo vivido
Em sua presenças ouvido
A vida cheia de bonança
Mas aí, mas aí
O tempo cruel vai
Levar que a gente ama
A gente imóvel na cama
Neste triste momento
A gente se questiona
Por que a vida se vai
Por que levou meu pai?
Cadê você papai
Cadê você papai
Não falas
Não ouves
Não és
Continuar aqui a sofrer
Quem sabe um dia ao morrer
Venha te encontrar
Eis maior mistério
Que o senhor me perdoe
Mas é a dor quem me fala
É a dor que não cala
De alguém que um dia foi
Agora é só memória
Nada mais.
Umbuzeiro
Árvore intrincada e retorcida,
De copa muito fechada
Conhecida como árvore da vida,
Madeira mole, quebradiça e alva
Nuas na seca se tornado cinza,
Floresce quando o clima muda,
Seus cachinhos são alvinhos
Miudinhas flores estreladas
Que planta amável
Já chove três dias seguidos aqui em João Pessoa.
Vários alagamentos ocorreram nas ruas mais baixas.
As pessoas estão reclusas em casa.
Esperando esta chuva parar.
Já choveu mais que chove nesta época.
Segundo jornal a 30 anos não Chovia tanto na mesma época.
Segue chovendo muito.
Canta o sabiá e o bem-te-vi.
E tudo está acontecendo como sempre.
Juca
Esta planta marrenta
De crescimento lento,
De tronco liso bicolor
Tronco forte e enroscado,
Cresce feito espeto
Ramo inerme e lenticelado,
De copa muito fechada,
Reune toda passarada,
Tem folhas o ano inteiro,
De inverno a verão,
E quando floresce,
Seus cacho amarelos,
A copa embelezada,
Por abelhas visitada,
Após forma fruto duro,
Mulungu
Belas flores encarnadas
Assim tem sua florada
A copa aberta enfeitada,
De flores naviculadas
Nela aparece o beija-flor,
Buscando néctar de flor em flor
Aparece o sofreu
Aparece o sanhaçu,
E após polinizada
Tem as flores fecundada,
Da vagem moniliforme
Semente vermelha é dispersada,
E na beira do riacho,
Germina e a semente,
É a natureza moira
Que determina a geração
Essa prima do feijão
De madeira mole
Só encanta a natureza
Só é fonte de beleza
É uma planta invocada
Sempre encontra-se armada
Na seca perde as folhas e fulora
No inverno se enrama e cresce
Assim é o mulungu
Planta viva do sertão.
Nela aparece
Que bela e imensa árvore,
Que cresce em beira d'água
Tronco armado e estriado,,,
Cajus maduros suculentos,
Cajueiros inteiros carregados,
O ambiente todo perfumado,
A graça divina na terra,
Fartura madura acridoce,
Que infância de relevância,
De um passado acabado,
Restam apenas lembranças,
Nem algo com semelhança...
Delícia, deliciosa, passada.
Maniçoba
Arvore estiolada,
Lenha mole e alvinha,
Tronco escuro,
Ceiva alva leitosa
Casca esfoliante,
Ramos angulados,
Odor intenso
Folha lobadas,
lisa, de haste avermelhada,
Flores diclinas,
Fruto cápsulas
Espocam no verão,
Atirando suas sementes,
Juazeiro
Juazeiro,
Essa árvore tão frondosa,
De copa imensa e fechada,
Sombra fresca e generosa,
Até na seca enfolharada,
Nasce muito no baixio,
Cresce de forma lenta e torta,
De ramos sempre armados,
Demora a frutificar,
Oculta é sua florada,
De flores pequenas,
Verdes e estreladas,
Só por abelhas anunciada,
Então no fim da estação,
Aparecem os frutos ásperos,
De cor amarela e quiabenta,
Só os bichos apreciam,
Comem as folhas e os frutos,
E dispersam no cercado,
Há quem use sua casca
Para higiene bucal,
Juá na cachaça,
Creme dental melhor não há,
Deus o livre se sua estrepada,
Que fura até alpercata de pneu,
E lá está o juazeiro,
No meio do tabuleiro,
Verde esperança,
No meio da seca,
No meio do sertão.
De tronco áspero e duro,
Alva madeira e casca amarga,
Os ramos armados,
Com a casca muito amarga,
A madeira é alva
Tua madeira alva e dura,
A casca é muito amarga,
A casca
Com sua casca escova os dentes,
Suas flores tão miúdas,
Teu fruto áspero e quiabento,
O tempo,
O espaço,
A existência
Coexistem,
Se convergem entre si,
Numa impressão
Chamada ser,
Que é e deixa de ser,
No mesmo instante,
No devir!!!
A catingueira madeira torta
Na seca até parece morta,
Tronco forte e acinzentado,
As vezes oco e habitado,
Seu crescimento lento,
E longa é sua vida,
Hiberna maior parte da lida,
Se chove desperta,
Brotam das gemas as folhas,
Das folhas o intenso odor,
Depois aparece a flor,
E com elas as abelhas
Que visitam sem parar,
O dia inteiro vem e vai,
Mamangava vem abelha sai,
O polém e néctar a explorar
Após a polinização
Ocorre a fecundação,
E a semente a crescer,
Em vagens duras de roer,
Vem o verão,
Fim da estação,
A vagem explode,
E atira a semente,
Em um distante lugar,
Caminhando na mata
Só se ouve o estalar,
Espoca, pra cá e pra lá,
Quando cai a chuva,
Germina a semente,
E a vida renova,
Sem precisar de cova,
A natureza,
Mostra sua beleza,
Independência humana,
Cresce forte a catingueira.
Jitirana Jitirana,
Uma corda enroscada
Forma uma latada,
E linda florada,
Cresce no campo
Cresce na mata
Cresce até florar,
Cresce a se enroscar
Jitirana Jitirana,
Flores coloridas
Flores estreladas,
Flores visitadas,
Flores amarelas,
Flores rosas,
Flores azuis,
Flores alvas,
E quando é seca,
Dorme no chão,
Dormente a semente,
Espera o outro inverno.
O pinhão manso
Cresce no bem em tabuleiro,
E em qualquer lugar,
Seu crescimento é ligeiro
Seu caule é esfoliante,
Ramos moles espessados
Látex abundante e transparente
Suas folhas são lobadas,
Nervação radiada,
Copa bem aberta espigada,
Estípulas fimbriadas,
As inflorescências determinadas
Todas flores unissexuadas,
Flor pistilada e estaminada
Por borboleta visitada
Após polinização e fecundada
A tricoca é formada
Vai crescendo devagar
Pra três sementes formar
Após amadurecida
É bem desidratada
E explode a espalhar
As sementes carunculadas,
Planta bela,
Planta forte
A seca e o verão.
Viva por muitas estações.
Como sinto sua ausência,
Penso em ti contantemente,
Nem acredito nessa experiência,
Saudades de tudo entre nós.
Do alto da noite nasce um novo dia,
Quando a noite vira madrugada,
Profundo silêncio em todo lugar,
No curral, o gado a ruminar...
O chocalho a badalar,
Blim... blim... blim... Tong... tong... tong...
O aroma perfumado,
Do esterco processado,
O mourão cumpre sua função,
Vigilante e pronto está
Pra segurar alguma brabeza,
Ou de camarada coçar algumas costas.
O vento sopra de acoite,
E traz o aroma da mata seca,
Ecoa entre ramos secos,
Chia, levanta poeira e passa,
Canta o galo na pinheira,
Cocorococooooooo...
Alguém desperta dentro de casa,
Lamparina acesa,
Pela fresta se acompanha,
Na cozinha estala o graveto de marmeleiro,
Uma chama se faz
Agua na chaleira de barro,
Se ouve o pipocar da água fervendo,
Adicionado o café,
O aroma faz a barra se quebrar...
Mais tarde nasce a manhã.
E os personagens noturnos saem de cena.
A noite desperta,
Aurora anuncia
A chegada do dia
Ave pia esperta
Voa no espaço,
Com alegria
Grande é a folia
Lindo sanhaçu
Bem-te-vi,
Corroira,
Sabiá
Desperta
Alerta,
Já é dia
Finda a poesia
A tarde partindo,
Luz se diluindo,
Corpos quentes,
Emitindo calor,
Sombra fresca,
Enfadado corpo,
E as memórias,
Lugares conhecidos,
Diferentes estações,
Paisagens,
Por fim
O melhor lugar,
Numa cadeira
De balanço,
Na calçada,
Até o final,
A última tarde,
Desta não se pode passar.
Caatingueira,
Caatingueira,
Do sertão,
No carrasco,
Sobre o seixo,
Sobre a areia,
Sobre o barro,
Limite do campo,
Inicio da mata
Na seca perde folha
No inverno se enrama.
Caatingueira
Caatingueira
Casca cinza,
Torta e dura madeira,
Ramos jovem glutinoso,
de forte odor exalado,
Desarmada, a ramada,
Folhas grandes fracionadas,
chamadas de bipinadas.
Caatingueira
Caatingueira
Suas flores amarelas
São singelas e belas,
Se percebe a florada,
O odor no mundo se espalha,
O zumbido de motor,
É zumbido de mamangava,
Zuuuzzzzzzzzzzzzzuuzzzzzzzzzzzz
Zuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu
Zuzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
Uma flor,
Outra flor,
Uma inflorescência,
Outra inflorescência,
Uma árvore outra árvore,
A grande abelha pesada,
Amando a delicada flor,
Tomando doce néctar,
A manhã inteira...
Caatingueira
Caatingueira,
Após tantas visitas,
Ocorre a polinização,
Suas vagens vão crescer,
Pequenas bainhas,
A copa vão enfeitar,
Então no final da estação,
Seca vagem espoca,
Explode expulsando
Plana semente,
Que em solo fértil vai cair,
E logo que chove germina,
E a vida continua,
Caatingueira
Caatingueira
esse nome popular
Cenostigma pyramidalis na Bahia,
Cenostigma nordestinum na Paraiba,
Cenostigma bracteosum no Rio Grande do Norte,
Coisa de botânico estudado,
Sua família é Fabácea...
Chega de versos e estrofe,
Que o poeta é limitado.
O poeta da saudade Semana passada ouvi o compositor Santana declamando um dos mais lindos versos sobre saudade. Ele falou de Antônio Pereir...