Após dia de chuva,
Domingo passou
Molhado e úmido
Montei e colei um souvinir,
O dia foi muito longo e agora se vai.
Após dia de chuva,
Domingo passou
Molhado e úmido
Montei e colei um souvinir,
O dia foi muito longo e agora se vai.
Oitenta anos vividos.
Meu pai viveu por este tempo,
Viveu uma boa vida.
Oitenta anos são cerca de 29.600 dias.
E um câncer o consumiu em 120 dias.
Na equação da vida nada mal,
Mas na equação do coração
Nossa que saudade!
Faz quase quatro meses que se foi e a vida
Perdeu um pouco do brilho.
Mas a vida continua.
O mundo está aí.
Pandemia, isolamento e muita morte.
Melhor voltar no tempo,
No tempo do pensamento.
A realidade está dada, objetiva.
Foram anos bons nossos anos vividos juntos.
Tantos sorrisos,
Um calar, um falar...
O que dizer de uma realidade que sofre metamorfose o tempo inteiro
Que somos parte desta metamorfose,
Nada...
Melhor pensar na caatinga,
Nas estações,
Nas transformações.
E encerrar dizendo que papai
Vive em nós.
Só de lembrar como era rico em fruteiras o nosso sítio dá até uma tristeza.
Eram cajueiros, pinheiras e goiabeiras por todos os lados.
Do nada lendo Clarice Lispector me veio a memória uma pinheira que ficava à sobra de um grande cajueiro perto do barreiro feito para a confecção dos tijolos de nossa casa.
Aquele cajueiro que se juntava com dois outros formando uma agradável copa.
Tinha aquela pinheira e goiabeiras.
Tinha um capim tênue sob eles.
Aquela pinheira de pinhas suculentamente alvas. Quando tava na época era normal ir lá e encontrar pinhas madurinhas.
Então ficava atento as patativas e os sanhaçus.
Quantas vezes não enchi a barriga grande de menino.
Mais pra frente tinha a goiabeira que sempre ia com mamãe e subia pra tirar goiabas e me sentia grande.
Tudo se acabou.
Nossa terra tá aí.
Mas essas secas e falta de água foi matando tudo. Antes a gente mesmo replantava comia aqui e defecava ali. Tava feito a dispersão.
Agora temos muitos catolés.
As nossas lindas palmeiras.
Temos também pinheiras tudo em volta de casa.
Tomara o mato não cubra tudo.
Minhas areias amadas.
Gente a nossa vida muito está ligada a infância.
Não tenho mágoa dos trabalhos manhã cedo.
Era nossa forma de subexistência.
É a nossa história.
Foi nossa fonte de alimento de dinheiro para o básico.
A gente era feliz, pois desconhecia a necessidade.
Hoje a história é outra,
Mas aí que saudades daquela pinheira,
Que saudade.
Ali certa vez achei um ninho de nambu.
Fiquei tão feliz, pois aqueles ovos pareciam pérolas.
Alí fui tantas vezes.
Pensei na vida.
É sério.
O doce macio alvo de uma pinha
Enchendo o bucho,
Trazendo contentamento.
Depois sair em busca de goiaba.
A gente explorava o sítio,
A geladeira nem existia.
Lembro que Chico Neco foi quem inventou
A papai comprar uma geladeira.
Era uma clímax azul.
A gente pra ter as coisas vendia um bicho.
O dinheiro era curto.
Pobre de Begue foi embora tão novo.
Fui mais velho e chorei que só.
Não imaginava que seria assim.
A terra tá lá.
A pinheira só na lembrança.
A noite caiu chuvosa.
Escureceu e nem percebi.
Só percebi o riso de Vinícius,
O cheirinho bom de bebezinho.
Só cuidei dele.
Assim se passam os dias.
Com cuidado.
Olho pela janela o céu nublado. Faz calor.
Minha mente gira feito uma roleta russa.
São muitos os pensamentos e a concentração é mínima.
A roleta gira, gira e gira e não para.
Quando para o tempo exauriu.
Tudo está um caos em desordem.
O mal estar piora.
Calor,
Sono...
Por onde começar.
É muito mais fácil colocar o mundo externo em ordem.
Retratos,
Imagens,
Paisagens...
A brisa refrescou.
Para roleta.
A madrugada é silenciosa e fria,
Só se acorda numa urgência.
Vinícius acorda faminto,
Não fala, mas gira e faz um gemido.
Eu acordo e pego ele e acordo a mãe
Deu ele para ela amamentar.
Penso em papai.
Um cachorro late afobado não muito longe.
Chove suavemente.
Lembro da chuva em minha casa.
Os pingos na bica.
Quanto tempo já não faz que não contemplo este fenômeno.
Sinto repentinamente saudades de casa.
Esta prisão do vírus.
Chove lá fora.
Vou trocar Vinícius
Que a manhã está chegando.
Sexta-feira dia bom. Ótimo sem pandemia. Saudades dos encontros com os colegas, de ir para o trabalho. E voltar no fim da tarde. Todavia a mais de um ano estamos nesta. Sem almoçar com os amigos. Só casa e super mercado. Uma rotina longa. Não conseguimos distinguir os dias. Só sentimos cansaço.
Estou desaprendendo a ouvir os pássaros,
Estou aprendendo a amar um pequeno ser.
Estou desaprendendo a caminhar de madrugada,
Estou aprendendo a observar um pequeno ser,
Estou desaprendendo tanta coisa,
Estou aprendendo tanta coisa,
É uma revolução,
Sinto gratificante trocar uma fralda,
Pegar o termo bebê,
Quando vejo que sorrir,
Meu ser explode de alegria,
Sorriso banguelo
O mais perfeito,
Ingênuo,
Doce,
E puro.
Não desaprenderei de ouvir os pássaros,
Ensinarei como se ouve a natureza e a vida.
O vazio ao meu redor,
Uma infância silenciosa,
O mundo objetivo ai,
Mudo.
Meu mundo subjetivo.
Mudo.
Tudo estava ai dado.
Rochas, solos, plantas, flores, frutos.
Agricultura, pecuária, cozinhar e trabalhar.
A linguagem muda.
O que ouvia?
Não havia literatura, arte, ciência.
Era a vida crua,
A vida crua requer muito das pessoas,
Os estímulos o que nos envolve pode ser qualquer coisa,
Sortudo fui tive amor.
O lugar nu se mostrava,
Mas não tinha olhos para ver,
O lugar cozido se oferecia a uma refeição, mas a boca não era usada.
O início era o princípio mesmo,
Sabe um caderno, um lápis e uma borracha num saquinho de macarrão.
Todos éramos assim,
Isso...
Este reflexo da falta de recurso.
Este era o nosso retrato,
Essa era minha comunidade,
Minha realidade,
A vida crua,
A vida nua,
Mas a natureza diretamente nos ajudava,
E o trabalho nos fortificava,
Triste quem nem a natureza pode recorrer,
Triste quem vive a fome,
São as realidades deste mundo,
Com pessoas injustas,
Triste forma de ser,
Uns com mais outros com menos,
Sempre querendo,
Não foi fácil,
Porque ficamos com muitas marcas,
O importante é que deu certo,
Vem dando certo.
Em meio a tantas coisas onde nós encontramos?
Cansados, tristes, desiludidos?
Não é de fácil ordenar as ideias.
Aí olho meu bebezinho, lindo, perfeito.
E tudo muda.
Sabe por que?
Porque ele me faz crer na vida.
Sua inocência não tem nada a haver com meus sentimentos.
Só quer um pouco de meu amor,
Minha atenção
De mim.
Então sou impelido a lutar
E vencer por amor.
Por amor só um pouco mais.
Jurubeba espinhenta,
Folhas grandes e macias,
Parecem coro curtido,
De verde petróleo pintado,
Ramos cinzentos e armados
De agudos acúleos
Flores estreladas, lilases,
Com anteras poricidas amarelas,
Vai formar um tomatinho,
Escuro e muito amargo,
Jurubeba jurubeba
Quem te ama é a carouxa.
Desconhecer muitas vezes oculta a beleza das coisas. Lá na Grugeia onde papai nasceu grandes granitos deitados nas terras descansam pela eternidade. Para eles nada mais que pedras. A objetividade não se revela a toa as pessoas. Os lindos cristais de quartzo, ortoclazio e mica. Na terra de solo alvo onde nasce unha de gato aos montes. Espinheiros... Floresta decidual. Classificada a vegetação e o solo e as rochas. Em que isto impacta na vida das pessoas? Acho que em nada só nos permite contemplar melhor o mundo. As coisas podem ficarem belas quando as compreendemos. A quebrada, a falta de perspectiva endurece um coração termo.
Que bela planta,
Nua tem casca verde,
Suas folhas articuladas,
Grandes e palmadas,
Embiratanha,
Que bela flor
Grande e alva,
Cálice tubuloso,
Estames vistosos,
Embiratanha,
Casca milagreira,
Planta milagrosa,
Rica em taninos,
Pseudombax marginatum,
Planta linda do sertão.
Quando criança gostava se sair com papai. Não era para todos os lugares.
Geralmente a gente ia na casa dos tios dele. Manuel Souza, Raimundo Souza e Michico.
Gostava de ir a casa de tio Michico por causa das aves, das jaqueiras ou a caramboleira?
Aquela casa enorme com uma Ficus elastica na frente, com aquelas estípulas enormes vermelhas.
Tinha uma área com uma estrutura de um avião numa areazinha.
A casa antiga com calçada alta, telhado alto.
A gente subia a calçada e entrava numa área grande que dava para o curral.
Tinham várias plantas, inclusive um jasmim.
Depois tinha uma área com um poço e a cozinha escura.
Com vários viveiros.
Lembro da graúna.
O terreiro da cozinha dava numa caramboleira e várias jaqueiras, mangueiras, cajueiros.
Eu como moleque curioso ficava curiando os quartos.
Tinha um criatório de preá.
Papai sempre conversava muito.
Eu só olhava as buguesas, a graúna...
Lembro de ir com papai num carnaval e vi pela primeira vez uma televisão colorida.
Allananda
Cipó leitoso,
Folhas verticilada,
Simples
Flores tubulosas,
Cor de vinho,
Vi lá no pé do serrote,
Em flores
E depois em frutos
Cápsulas armadas,
Linda flor natural,
Usada como ornamental.
O silêncio agora é tudo.
O corpo descansa,
A alma está em paz,
Tudo que teve significado
Agora se desfez.
Não adianta tentar entender sob a lente de nossa razão.
Aconteceu! Deus assim quis.
Assim foi sua partida,
Assim será nossa partida.
Somos sempre levados a observar sob a ótica da razão,
Sob a luz de nossos pensamentos e ideias,
Porém há uma barreira intransponível que alguns creem existir uma janela, uma porta,
Que ao que tudo indica só tem um sentido.
Vendo o que ficou...
E o que não ficou.
A questão é o que é a vida?
Essa construção interminável que se encerra no último suspiro.
Não sabemos.
Fica sempre em aberto, mas um dia saberemos.
Um dia até lá, vamos nos virando.
Anos 2000
Faculdade,
Nova cidade,
Natal, universidade federal,
Cazuza,
Dunas,
Distância de casa.
Dificuldade na faculdade,
Tudo excessivamente novo.
Novos amigos...
Tudo acontece.
Cedinho, no berço o menino se mexe. Vou até ele. Sento no banco e olho e toco. Então, ouvi o bem-te-vi e lembrei imediatamente da época que fui para a faculdade. Lembrei da dor de deixar minha casa. As madrugadas que acordava para caminhar e correr no campinho de areia. Pensando nas futuras conquistas. Pensando em casa em papai e mamãe. Sofri novamente e percebi o quanto me sacrifiquei para ser quem me fiz. Não tinha como retroagir. Vinícius girou de novamente e o dia começou. Agora só o ronco do nebolizador
Estou aqui e em outro universo,
Universo mental
Quantos lugares,
Ah...
Perdidos nos meus giros,
Nos giros,
Na massa cinzenta.
Estou perdido.
Essa linda árvore de tronco cinza
Folhas verde escuro, macias
Folhas imparipinadas e caducas
Gosta de serrote pra viver
Vi em Serra e sertão,
Vi florida beira a perfeição,
Flores alvas fios rosas
Frutos secos cinza mariposa
Frutos estiptados e alados,
Pelo vento é levado
E nas chuvas a semente,
Germina e se desenvolve,
Dando início outra vida,
Continua a geração.
Hoje é sexta-feira Santa,
Não estou em Serrinha,
Não poderemos mais estarmos juntos fisicamente.
Porém está em mim, na minha essência,
Nos meus pensamentos mais felizes.
Não sentará mais a mesa, mas está entre nós.
Em todos os momentos de celebração, sejam eles felizes ou tristes,
Ensinarei e continuarei nossa linhagem.
Sois parte da unidade.
Um pilar essencial.
Sois nosso pai.
O pai de nossa família,
Pater familie...
Nossa pinha.
Amor eterno.
Não é por que partiu que não celebraremos a ti.
Quem sabe está em páscoa em família com seus pais e irmãos.
Hoje é sexta-feira Santa.
Sangue de Cristo tem poder.
O cordeiro de Deus que tirou o pecado do mundo.
Quantas esperanças alimentadas ao longo da vida.
A vontade de ser de ter a ideia da felicidade.
Quantas páscoas estivemos juntos,
Jejuamos, sejamos e oramos.
A fé foi nossa maior guia sempre.
Alguma vez mudamos nossa forma de agir.
Nossa forma de ser.
Parece que nascemos assim.
Nascemos ou nos tornamos assim?
Pensar para avaliar se está tudo bem ou se necessita mudar.
Pensar para organizar o ser a ideia de ser.
Amarrar as ideias soltas,
Várias e várias vezes,
Novamente, repetidamente...
Tenho feito isso observando a natureza.
A Jurema tem época de florada,
Independente da chuva,
A Jurema tem folhas até na seca,
Porque assim se fez
Ou lugar assim a gerou?
Entende.
Ver e aprender com o visto.
A fé é um combustível
Mas nós somos a usina.
Uma fotografia,
Uma música,
Um odor,
Um gosto,
Despertam memórias,
Boas ou ruins,
Memórias,
Memórias...
Reviver.
O que é real?
O que é sonho?
Traços em todo lugar.
Quando quero lembrar,
Acesso uma das fontes.
Boas lembranças.
De amor...
Esqueça a dor.
Meu bebê está crescendo tão rápido.
Ainda a pouco o sorriso era um reflexo involuntário.
Ainda a pouco não via nem as cores.
Em três meses está tudo mudou, agora está evoluindo tão rápido.
Benza Deus.
À tarde caiu. Acabei umas atividades e fui cuidar de Vinícius meu filho. Pego no braço e vou pra lá e pra cá. Coloco no carrinho e fico brincando. Ontem fez três meses de vida. Nem sei expressar o quanto que ele preencheu as nossas vidas. Enfim, sai na sacada para olhar o mundo. O que vimos foi um mundo lindo, mas triste com a Covid. Meu bebê nem imagina. Mas estamos passando por isso a mais de um ano.
Ouvi o sanhaçu de coqueiro cantar, um gavião cantar, o brilho do sol numa parede.
A tarde caiu no infinito.
Por vezes, amanheço indisposto. A razão não me impulsiona a agir. Até parece que o mundo é um pesar.
Embora não queira, até meus pensamentos são lentos e cansativos.
Nem todas as manhãs são maravilhosas quanto manhãs pós chuva no semiárido em que acordamos dispostos.
Dizem que pode ser o açúcar no sangue, acho essa hipótese plausível.
Colocar a culpa no açúcar.
O tema entendimento tem me interessado bastante ultimamente.
Talvez não seja possível filtrar ou peneirar deste texto algo palatável.
Espere!
Coloque ai no youtube "Divertimento pour cordes K 136" de Mozart.
Ouça um pouco!
Sentes algo?
Não.
Apois, eu sinto algo bom.
Sabe ouvindo eu visualizo uma memória que adoro cultivar.
A paisagem é de Serrinha do Canto,
Entre os anos 80 e 2000, os meses são entre julho e setembro,
O ano foi ótimo. Choveu muito teve muito inverno.
A roça de milho já secou e papai dobrou cada um dos pés
E a fava faz pavio se enovelando nos pés de palha seca,
E o vento sopra a vontade,
Livre, solto...
Canta a siriri...
Da terra nasce um mato verde de cabeças brancas.
Volto ao agora, momento presente.
E a realidade dos fatos atormenta meu coração.
Calma Rubens!
Calma... Vinícius está dormindo no colo da mamãe.
Fez três meses.
E você ai tentando organizar as ideias.
Tentando ler Neruda e Pessoa,
E flertando com Kant e Hegel...
Já não basta a complexidade do mundo.
É isso...
Entendo você!
Quer por ordem neste caos para poder se sentir melhor.
Mas o mundo é tão multifacetado né.
Uma coisa de cada vez.
Relaxe...
Tudo vai está melhor mais tarde.
Só relaxe.
Acordei de madrugada. Vinícius mudou nossos hábitos. Após amamentando, troquei sua fralda. Voltou, mamou novamente. Enquanto isso fiquei vendo as manchetes.
Não se vê uma notícia boa. Nenhuma sequer.
Volto a dormir e é tudo.
Uma siriri cantou,
Foi o que ouvi,
Cantou lá nas três ruas,
Lá nos pés de castanholas.
Siriri tem muito por aqui,
Tem muito no nordeste,
Lá para as bandas onde nasci,
Tinha muitas
Que ficavam pousadas nos fios de eletricidade.
Depois que a rede chegou,
Abandonaram os ramos dos cajueiros,
Agora só ficam na rede,
Na beira da estrada.
Contemplei muito a siriri enquanto a tarde caia,
Enquanto a vida passava,
Enquanto pensava como um dia sairia dali.
Era um sonho,
Hoje um sonho realizado,
E olhe!
Aqui estou pensando no lá.
Não estou vendo o siriri,
Mas ouvindo ele vocalizar.
Os tempos são outros,
Assim como as responsabilidades e os problemas.
A vida só muda de faces.
Já fui a tantos lugares,
Já morei também em outros lugares,
Vivi tantas coisas
E olhe a conclusão que chego é que são apenas
Acidentes...
Situações acidentais.
Situações acidentais que ocorrem enquanto os dias se passam,
Os meses e os anos...
Quando nos damos conta disso,
Às vezes já é tarde.
Um siriri, minha memória e o agora,
Amarrando um momento,
Que tão logo deixa de ser.
A vida muda de faces.
Não saber qual é a próxima face nos assusta.
Não dá para esperar feito semente pelo melhor momento para nascer.
A vida é contínua...
E continua até o fim.
Eu Rubens sou testemunha disso.
Quando estudava em Natal era mais fácil ir em casa. Sempre que podia voltava para casa. Papai nas manhãs de sábado me chamava para irmos a rua. A gente pegava a nossa moto azul, uma Honda que temos desde 1997, e partiamos para Martins. A moto até sabia o caminho. A parada era a figueira de seu Davi o famoso da bodega em frente ao colégio Alumínio Afonso. Lá estacionava e íamos a venda do profundo Antônio de Chiquim do Alive. Onde havia maravilhosos encontros dos amigos. Era Aluízio, Hélio de Chico Franco, Bolinha de tio Aldo, Marlene de Chiquim, Washignton, Antônio de Doquinha, Dadá Vicentin. Era uma festa de tanta lorota boa. Depois de tomado o café. A gente ia a venda de Heide Godin pra fazer uma feirinha. Arroz, açúcar, carne, café, produto de limpeza, tomates, bolachas e o meu abacaxi... Papai tinha o prazer de fazer um pequeno mimo. Provava sempre de uma ou duas uvas, no açougue depois de pedir a carne sempre dizia... Pese bem pesado. Pedia a Soró uma caixa. Depois Ceição fazia a conta. Papai pagava e a gente voltava pra casa. Esse foi nosso gostoso hábito por muito tempo. Era um momento só nosso. As vezes a gente não percebe que a grandiosidade dos momentos está na simplicidade do ser e do existir. Fabulosos momentos que pude viver com o papai.
Sabiá ah sabiá.
Se te ouço chiando já sei o que é que está acontecendo.
É o gavião perturbando.
É o gavião xeretando.
Xô gavião.
Longe cantando está outro sabiá.
Sabe, sabiá tem em todo lugar que já fui no Brasil.
Lá em Serrinha do Canto, onde nasci.
Nas manhãs após boas chuvas,
Quando íamos plantar só se ouvia sábias cantando.
Não queria estar plantando,
Queria está sabiazando.
O solo fértil pronto para germinar as sementes
Parecia está contente com o canto do sabiá.
Em Campinas o sabiá vinha arrancar minhocas no meu jardim.
Até fazia ninho na linha da área de fora.
Amo o sabiá 😍
Calumbi
Arbusto de copa fechada,
Mais eita que a rama é armada,
Armada de unhas de gato
As folhas bem miudinhas,
O cheiro da rama que forte,
As flores são tão alvinhas,
De doce maravilhoso odor,
Os frutos quebradiços
Achatados e articulados,
Calumbi nasce bem alí,
No lado da cerca,
Cresce um inverno
Ou dois e depois
Desaparece.
Escritos de Borges,
Fenomenologia do espírito de Hegel,
A crítica da Razão Pura de Kant,
Sonatas de Mozart,
São elementos que precisam serem conhecidos,
São elementos essenciais na expansão da consciência...
Sim a bíblia,
O Gita também.
Uma ou duas coisas de cada vez.
Não se pode com muita fome a mesa,
Nem com muita sede ao pote.
Se te apetece coisas simples e geniais da netflix, então se empanturre,
Se te cansas pensar, então simplesmente sirva-se deste banquete.
A vida tem os dias contados,
Faça sua opção.
Deitado no sofá,
Ouço o meu entorno,
A chuva chovendo,
Que chiado gostoso,
Um galo cantou,
Um papa capim,
Um bem-te-vi
Duas siriris
No céu alvo voam tanajuras
E bem-te-vis a comer.
O ventinho frio sopra pela janela,
Manhã a dentro.
Casaca-de-couro pássaro estouro,
Em Serrinha do Canto em nosso sítio,
Na galha do cajueiro cantou e fez
Um ninho a casa-de-couro
Papai ficou tão orgulhoso
Papai ficou tão feliz.
Está ouvindo é a casaca de couro.
Vou plantar um cajueiro
Pra a casaca de aninhar,
E cantar, e enfeitar a nossa vida.
Até o picapauzinho ficará feliz,
A vida enfeitada
A vida feliz.
Plic plic plic amanheceu chovendo,
É muito gostoso acordar bem cedo
Ouvindo a chuva chovendo
Pássaros calados...
Falando em pássaros nunca
Ouvi o joao-de-barro
Eram tão lindas as tardes
Mas num lugar arenoso
Não tem João de barro.
Certa vez um João de barro
Construiu um ninho no orozinho,
Papai ficou tão orgulhoso,
A terde de inverno ele sempre
Sempre canta na caatinga,
João-de-barro e a chuva chovendo.
O pode ser melhor na vida?
Silêncio e o sono quebrado,
Meia noite e o bebê acordou,
Pra mamar, pra trocar frauda,
Pra respirar melhor.
Ommmmrommmmmm.
Voltou a dormir.
Boa madrugada.
A tarde caiu chuvosa,
Úmida e escura e quente.
Em silêncio.
Só se ouvia os pingos chovidos,
Era tarde de sexta-feira,
Em casa, só se via os prédios
Do altiplano acessos
Acenando para o mar.
Daqui de casa
O escuro da mata feliz
O jardim feliz,
A rua molhada,
Molhando,
A chuva chovendo.
Quando a chuva chovia,
Papai se encolhia,
Se recolhia,
Papai dorme o sono eterno,
Saudades dele.
A chuva continua a chover,
Chuva universal,
Chuva eterna,
Tarde eterna,
A gente é só um espectador,
Um sujeito
Entre tantos outros.
Mufumbo
Folhas cinzentas
Madeira rígida,
Cresce em maloca,
Sai em uma soca,
Flores pequenas
E perfumadas,
Doce aroma de mel
Que incensa o tabuleiro,
Planta resistente,
Mufumbo, mufumbo, mufumbo,
Planta maravilhosa,
Cinzenta e escabra,
Frutos estrelados,
Tetralados,
Para o vento dispersar
O vento suave assoviando pela janela,
Passou a manhã inteira me lembrando,
Lembrando de momentos plenos da vida,
Sabe quando a gente está feliz por esta vivendo,
Pelo momento...
Sabe quando a gente percebe isso
No vento soprando.
Soprando assanhando a mata.
Soprando ecoando no fogo da cozinha,
Soprando e assoviando a janela,
Soprando e limpando o milho ou o feijão.
Soprando na algaroba,
Soprando na serra,
Soprando na aurora.
O vento nos fazendo sentir a vida.
Coisas de seu tempo,
Quando as chuvas partem da depressão,
Deixam o sertão,
Enquanto o vento tudo ameniza,
E cela uma mudança de estação.
Tambor tamboril,
Árvore imensa de copa aberta,
Tronco e ramos alvo a cinzento
Folhas folhinhas agudas
Fruto seco auriculado,
Cresce nas serras
No verão endurecido fica,
E se veste e floresce em outro.
A planta é tão bela,
De caule linheiro,
De agradável cheiro,
Folhas sanfonadas,
Sendo as hastes armadas
Com cera nas fechadas
Bela árvore da vida.
Oferta suas folhas
Para serem vassouras,
Suas hastes para giral,
O caule serem linhas,
As raízes tira sal.
É sinônimo de lugar,
Carnaúba, carnaubais,
Carnaúba dos Dantas,
Cresce perto do rio
Sempre verde linda está
Perfeita e maravilhosa carnaúba.
Lá agora chove,
Aqui dentro está tão bom.
Cama e cobertor macio,
Meia luz,
O barulho da chuva chovendo,
O sono...
Hoje, cedo da manhã. Estava aqui sentado matutando. Ouvi bem longe um rouxinol cantando.
Achei aquele canto tão lindo. Até senti quão maravilhosa é a vida. Eu aqui parado e ele lá talvez perto das
três ruas cantando, de certo saltitando e voando. Na minha infância só ouvíamos e víamos rouxinol cantando na época das chuvas.
Quase sempre ela fazia ninho na soleira da porta. A gente não gostava porque geralmente dava cafifa.
Aquela avezinha marrom se reproduzindo. Depois cuidando dos filhotes. Depois ia embora, sumia no mundo e só voltava no ano seguinte. Ela sempre voltava.
Chegava em janeiro e partia em julho. Talvez fosse esse o tempo que ficava com a gente.
Ela chegava com as chuvas e com as moscas. Visto que quando chovia apareciam as moscas.
Apareciam as tanajuras e os sapos.
Ou seja... um pensamento nunca é isolado.
O tempo,
Os relógios,
Os calendários...
Escalas temporais...
Memórias.
Espaço,
Aqui,
Lugar,
Brasil,
Escalas espaciais,
Estará tudo determinado,
Estará tudo dado?
Moiras tecem um destino?
A pandemia.
2020... China, ... Brasil.
Amanheceu e nem vi,
Vi que era madrugada,
Mas achei que era sonho,
Abro a janela que dá para as três Ruas,
Relaxo ao sentir a brisa fria,
Brisa fria da manhã.
Folheio um livro do Neruda,
Leio um poema.
O mundo parece perfeito.
Sanhaçus piando e cantando nas árvores lá das três Ruas,
Olho a pintura de casa na parede,
Vejo papai sentado acariciando a cabeça de tuninha.
Penso no caos que está o Brasil,
Penso sobre de quem é a culpa...
O chiado do computador me puxa para a realidade do quarto e da vida.
A brisa volta a soprar pela janela,
Acompanhada de gritos de jandaia,
Olho no espelho,
Ouço Vinícius bocejar.
É os anos são um declínio para nosso corpo,
A vida passa num filme,
E ouço na mente a sexta sinfonia de Beethoven.
Calmamente...
Volto deste momento feliz.
Que linda de encontrar
Com sua copa florida,
Sem folhas está despida,
Encarnadas de flores vestida
Com beija-flores visitando,
No córrego fez morada
Seu tronco é grosso e armado
Sua folha de feijão é semelhante,
Seu fruto é uma vagem
Com sementes reniformes
Com testa dura e avermelhada
Esse é o mulungu.
Enche o peito do ar frio da madrugada. Traz em si um cheiro particular, Cheiro das chuvas de abril, Cheiro da mata molhada. O silêncio é su...