18/05/26

Mundo oco

Morei a minha infância e adolescência num sítio. Nele tinha uma parte que cultivávamos fruteiras e uma parte de plantas nativas onde fazíamos os roçados e colocávamos o gado para pastar. À tarde, após o almoço, descia para soltar as vacas do cercado e trazê-los para o curral. Ali no caminho, as vezes ouvia estrondos de bombas de festejos na Serrinha Grande. Era quando percebia que o mundo era oco. Havia algo transcendente que não assumimos quanto ser. Achava bonito e sentia ora alegria ora aflição. Não sei explicar. Eu sentia a falta de âncora da vida? Eu sentia a infinitude e a eternidade em que somos postos quando tomamos consciência. Naquela época, tinha minhas referências que originaram o meu eu; meus avós paternos e maternos, meus pais, meus irmãos e meus vizinhos. A consciência foi se expandindo e o tempo passando, então fui entendendo que a gente vive e ao viver só vai perdendo... Meus avós..., tios... e tudo vai acontecendo de forma natural. Eu já intuía que o mundo é oco. As bombas explodiam e eu ouvia... E sentia o mesmo que sinto hoje. Qual é o limite do som o que não é difícil fisicamente de se saber. Sentia um aperto no peito. Ali já sentia a transcendência da existência... Olhava o cinzento das catingueiras, o gado magro, sentia o calor do sol na luz e nos entes no meu entorno... Sabe, parecia que eu sentia o que sinto hoje. A ausência de meus pais amados. Naquele tempo eu podia ao voltar pra casa sentir sua proteção e o seu carinho e o esforço para que nos sentíssemos bem. Sentia a potência do amor. Bem... Na certa era trabalho feito pelos fogueteiros e encomendados e explodidos pelos romeiros. A fé acenava no meu coração. O chão seco, o estalo dos frutos de catingueira. O mundo é oco e o que sou neste mundo tão profundo? No meu torrão, comendo cuzcuz eu entendi a dureza da vida... Eu não entendi o outro... Minha infância, será eternamente minha. Marcou profundamente quem sou. O eco das explosões.. Ora volto lá pra sentir meu pai e minha mãe. Sem eco, sem explosões. A mata, a seca o tempo. Todavia hoje tenho um motivo... Um motivo superior que é o meu inestimável e amado filho. Seguro a tocha da vida. Sabendo que o amor é o que manterá a vida viva e eterna. Naquele tempo parece que meu de hoje estava lá. E oras sinto que meu eu de ontem está aqui. Coisas que se sente sem explicar.


Estação cabo Branco

 Sassá ficou comigo o fim de semana em casa. Fomos a uma exposição na estação Branco. Vimos esculturas, pinturas... arte em geral. Viu gente...

Gogh

Gogh