Ontem, conheci a poetisa Nena Gonçalves.
Li um poema seu num cordel que ganhei na praia de Cabo Branco.
Pesquisei na internet e descobri que ela mora em Monteiro
E que é se São João do Tigre.
Podes ouvir sua voz declamando
Suas lindas poesias.
Ontem, conheci a poetisa Nena Gonçalves.
Li um poema seu num cordel que ganhei na praia de Cabo Branco.
Pesquisei na internet e descobri que ela mora em Monteiro
E que é se São João do Tigre.
Podes ouvir sua voz declamando
Suas lindas poesias.
Nas sombras frias e silenciosas da noite desperto,
O sol lenta e silenciosamente nasce e vai revelando o mundo,
Vai aquecendo as cores, vai iluminando as formas.
Matéria e forma, formas e matéria.
A substância de tudo isso!
Formas coloridas, formas aquecidas.
As horas despertas e vivas.
Caem, caem, caem enquanto o tempo passa.
E a noite chega...
As sombras frias e silenciosas caem como uma
Cortina no teatro de minha vida.
Enche o peito do ar frio da madrugada.
Traz em si um cheiro particular,
Cheiro das chuvas de abril,
Cheiro da mata molhada.
O silêncio é sua companhia.
O escuro te envolve
Aos poucos a barra vai quebrando
Lá no horizonte,
A noite se dando ao dia,
E a luz se acendendo.
Uma ave pia.
Esperança e fé.
Reza uma oração.
Aquece o coração.
E se prepara com fé que coisas boas virão.
Ontem Sassá foi para a natação e deu duro. Fez inúmeras atividades. Está quase nadando também. Assim como está quase lendo. Estou organizando um livrinho com os desenhos dele. Como fez muita atividade, gastou muita energia. Assim se alimentou bem. O cansaço o fez mais irritado. Ao irmos para escola conversou pouco, disse que estava ouvindo a música. De fato quando chegamos no estacionamento ele voltou a falar feito um pacum. Tenho que terminar o livro. Ele quer desenhar, mas está sem estímulo, sem saber o que desenhar. Eu entendo bem essa sensação. Bom depois da janta que comeu muito bem. Dei banho e fomos para a cama. Ele quis que eu andasse com ele como se carrega um porco. Não sei como ele gosta. Ri horrores. Como se carrega um porco? Pega o porco e coloca no ombro e anda. Andamos muito.
Tempo que tempo.
Na natureza, o verde da mata.
A intensa luz do sol.
O canto distante da patativa.
O eu pensa no eu.
Desperto da realidade,
O eu deseja boas sensações.
Não tem ideia do limite da intensidade da sensação...
Sensação boa que se intensifique.
Sensação ruim que se acabe.
Sem nenhuma noção da realidade.
O que importa é a sensação.
Ah inocência...
Como é belo o som da patativa,
no oco do silêncio do mato.
A esta hora da manhã,
Pousou na ali aroeira,
E começou a cantar,
Que linda canção
Que linda canção Sabiá,
Mestre exímio em cantar,
Parei tudo só para escutar,
A beleza do canto do sabiá...
Canta sabiá canta sabiá.
Queria saber quem te ensinou a cantar,
Queria saber quem compôs esta canção?
Canta lindo sabiá...
E enche e preenche meus momentos
De paz, e de beleza.
Pois tu és parte da natureza,
Seu canto é de beleza,
Seu canto é de alegria,
Seu canto dá sentido a esta poesia.
Depois o tempo se vai...
E este momento eterno momento...
Tu me fez guardar no coração.
Mais nada
Quantas vezes me aventurei nadar em águas profundas. Quase me afoguei, mas enfim aprendi a nadar.
Um dos oceanos que me aventurei foi na música. Isso mesmo, música erudita. Não entendia como agradável ou desagradável. As primeiras vezes que ouvi foi na rádio Vida da cidade vizinha a minha. A rádio era da igreja e nela o páraco era o Padre Walter Colini, um italiano. Então A música erudita tina um viez para o sacro. Ah. Não! Lembrei... Se usava a música erudita nas notas de falecimento. Acho que isso marcou negativamente muita gente de minha cidade. Papai mesmo não suportava.
Enfim, um dia decidi vou ouvir até onde der. E acabei me acostumando e acabei amando.
Quando comecei a dar aula, tive a sorte de ter um computador com internet e com caixa de sonde, dai passei a dar aula ao som de música erudita. Hoje já não consigo, porque me concentro na música.
Quando morei em São Paulo, amava porque tinha a rádio cultura onde era só passava praticamente música erudita.
Então passei a conhecer muitos compositores além de Bach, Mozart e Bethoveen.
Ouço muito Mozart... aconteceu que estava ouvindo este compositor quando minha mãe faleceu. Então passei a só ouvi-lo como forma de recordação.
Bom, Schopenhauer e Nietzsche também amavam esse estílo. No Brasil sei de Ruben Alves.
Aqui na Paraíba o grande pintor Flávio Tavares sempre pinta ao som de música e um dos gêneros é o erudito.
Bom, esse foi o nado que quase me afundou...
Muita gente gosta. Eu gosto muito.
Sempre quando chego em casa para o almoço coloco na rádio Classic music de Londres...
Agora, estou quase me afogando no cordel.
Ontem Sassá ficou calado enquanto o deixava no carro. Depois começou a falar. Normalmente ele fala muito. Estava pensando em algo. Não me contou. Só estava calado. Falei para ele por o cinto. Olhei para trás e vi que não estava usando. Então reclamei. E então me respondeu dizendo que eu não podia olhar para trás porque estava dirigindo. Disse que tinha olhado pelo retrovisor. É bom ficar esperto e não confiar. Embora ande bem devagar. Serviu de lição.
No roçado, papai só queria planta milho, fava e feijão.
Era mamãe que guardava as sementes de jerimum e melancia.
A gente semeava onde tia um buraco de uma planta grande queimada.
Se a chuva continuasse a fartura era garantida.
O gado mago, passava a comer rama.
O leite já era mais a vontade.
Tinha água pra beber e mato para comer o gado.
Nuvens de insetos apareciam.
Cururu não dava conta.
Cachorro corria feliz.
O gato ficava esperto em casa.
Dogue meu cachorro branco.
Era bom de pegar tejo.
Um vira-lata tão amado.
Até choramos quando ele se foi.
Comia pinha e coco.
Tudo isso terá sido um sonho?
As vezes me pergunto...
O que gerou tudo isso?
A gente se sente feliz, sem saber porque,
basta ser sertanejo e ver que vai chover,
E perceber que o inverno vai pegar.
A gente se sente feliz sem saber.
Chuva é sinal de água, de trabalho e de fartura...
O sertanejo ama tudo isso e nem sabe donde veio esse amor.
São neurônios especulares... É sua raiz de existência?
Aprendeu que chuva é abundância... Chuva é esperança...
Ouvir a bica bicando a gotejar,
perceber na cara de quem a gente ama e respeita um sorrido dali brotar...
uma oração a debulhar, um café a tomar.
O clarão do relâmpago, na noite escura,
O estalido do trovão...
Perceber que da cinza ergue verde,
do seco o molhado, do sol o nublado...
Esperança...
Deste peito de criança que cresce e nunca cresce,
porque ama sua terra...
E não entendo o crescer.
invernada pegada,
feijão florido, milho pendoando,
o cheiro da rama do marmeleiro,
um porco feliz no chiqueiro,
o cheiro da esperança...
Guardando a boa lembrança.
As noites escuras e molhadas
a revoada da insetada, cururus gordos, se fartando de bichos...
A melancia partida na roça,
o leite alvo levado na carroça,
o carão cantando no banhado...
Meu Deus quero morrer nordestino, sim esse é meu destino...
E quando tudo passar, o corpo estiver velhinho
e ainda assim ama e tem esperança na chuva, na bonança...
Depois deitar e dormir neste chão...
Esse é nosso lindo destino. Crescer de um menino... do alfa ao ômega.
Ao meu amigo sertanejo Silvano Araújo
Abro a porta da sala,
O corredor vazio,
O corredor frio,
Não se ouve fala.
Tudo é silêncio!
Um agradável odor de molhado,
É cheiro de chuva chovida.
A luz branca ilumina sua profundidade,
É fim de período...
Pra já já recomeçar...
Abro a sala nove.
E é mais um dia,
Ou menos um dia.
Sabe lá.
Depois que caia a chuva,
A coisa melhorava,
A terra bem molhada,
Despertava as sementes,
A mata logo acordava,
A passada cantava,
Era grande a alegria,
Tanajura aparecia,
Cururu do sono despertava,
Nos tanque fazia logo cantava...
A roupa suada ia ser lavada,
No tanque da imburana.
Ali morava o cardeiro,
Ali morava o xique-xique,
Ali minha alma era plena.
Já em maio havia a novena,
Feijão verde, maxixe e muito leite.
O tanque agora perfumado,
De flores de mucunã,
De flores de cerrador,
A mãe lavava com amor,
A roupa do trabalho suada,
Era bom de ver,
Girino com cauda e perna,
A água escorrendo no riacho,
Ah, meu Deus...
Quanta alegria,
O doce da cajarana,
Do milho assado no carvão,
Da alva pinha madura no pé,
Da amarela e velho doce goiaba...
A gente vivia plenamente,
Feliz muito mais que contente,
Por isso foram guardadas na memória...
Cantar a invernada...
Roxa, rosa, amarela flor...
Minha vida guarda amor,
Da terra, da água e do sol...
Porque o amor é a eterna inocência,
É não saber o que se ama.
Adeus tudo isso.
Foi maravilhoso enquanto durou.
O mufumbo floresceu
Perfumando estradas
E veredas.
Voa apressado o cavalo do cão,
Não quer perder uma gota de néctar.
O riacho lá em baixo,
Está escorrendo de lado a lado,
Água azulzinha.
O cheiro doce as flores de mufumbo,
Enfeitou tanto o mundo,
Meu Deus.
Que pena que o inverno dura tão pouco.
Com o inverno as coisas são mais bonitas.
Sinto no fundo da minha alma.
A beleza é alegria.
Sabe!
Com a água da chuva do inverno...
A vida acorda...
Acorda da sementes até o embuá.
Acorda os ramos secos da mata.
E a vida se enche de graça,
Aparece folha, flor e lagarta.
Á água caindo do céu,
O cheiro da vida...
O tremor do trovão,
Enche o coração de alegria...
De cinza perde o tom do tronco da catingueira,
Amarelas flores brotam,
A água do riacho escorre cantando.
O zunido da abelha é doce como o mel que ela esconde...
Um dia vou me encantar
Que seja lá na caatinga,
No sertão...
Não sei de onde vi,
Mas tenho certeza que se morrer,
E se pudesse reviver...
Queria poder viver eternamente nordestino.
Só pra poder cheirar a florada do mufumbo...
O cheiro do sabão na água de chuva,
Lavando a coberta dormida.
Como é boa a vida.
Beleza negra foi o nome que demos a gata preta que encontramos na vacaria. Estávamos na casa da tia Li, em Serrinha na páscoa e em uma manhã saímos para explorar a mata. Papai levou a câmara e fomos caminhando no meio do mato. Vimos o milharal, andamos pelas veredas e fomos a matinha do vovô Chico. Lá tem duas bromélias que o papai gosta de apreciar. A mata é velha e conservada, por isso elas existem lá. Então entramos na mata, vimos a primeira bromélia. Em seguida, andamos na mata porque é composta de árvores e é fácil de andar lá. Fomos ver como estava o açude de vovô Chico, orozinho como ele chamava. Estava cheio e sangrando. Vimos ali do lado uma grande lasiodora, linda. Ficamos contemplando. Depois seguimos para ver a segunda bromélia e andar na mata. Vimos sob as caatingueiras uma linda arácea nem sabemos o que é... Em seguida vimos a bromélia, a embiratanha. Seguimos e fomos ao açude de Dedé, dono da vacaria. Atiramos algumas pedras, vimos a pequena cachoeira. E fomos voltando pelo caminho. O córrego estava escorrendo uma água bem azuzinha. Se diz que é por causa do Carbonato de Cálcio que ela fica assim azul. Então fomos indo em direção a vacaria. O cajazeiro estava com frutos então quis provar e o papai pegou um. Sob o cajazeiro tinham frutas, mas estavam furadas. O cheiro era bom. Vimos Josimar passando a campinadeira no campo de feijão... Vimos uma burra branca que Sassá chemou de Leonardo Crispim. pelo brando que conhecemos do cavalo que pasta na praia de cabo Branco. Então vimos os porcos no chiqueiro em três recintos, um, duas porcas e um barrão, e sete filhotes. Quando chegamos a casa da vacaria apareceu uma gata preta. Sassá quis ver se tinha sapo no tanque e a gata nos seguiu. Foi se alisando nas pernas de Sassá. Nos seguiu até o tanque... E se alisava em Sassá. Chamamos diamante negro, mas Sassá disse Beleza Negra e ficou. Fomos voltando, e iamos pelo milharal. Beleza negra nos seguiu. Foi indo... terreiro, estrada... a enxotamos, mas ela veio... veio e quando percebemos estava na casa da tia li. E ali ficou... Tia li é Francisca não resistiu e alimentou a gata e ali mesmo ela ficou. E ainda está na casa da tia li. A gata de Sassá.
O sol rasgou as nuvens,
Nuvens de chuva.
A luz dourada
Bate pra todo lado...
Um intenso calor aquece as paredes e telhas frias.
Aquece as folhas das plantas.
O vento chega e faz a árvore dançar.
Refresca a luz intensa do sol.
Quanto durará a bravura do sol?
O dia inteiro,
A manhã inteira,
Alguns instantes?
Há tempo para tudo...
Vítreos olhos atentos,
Olhos de ires azuis
Sobre braços e pernas deitados,
Miram o mundo.
Pupilas dilatadas,
Veem na pouca luz,
De um dia que se acende.
Logo que chega a luz,
Negras fendas elípticas se faz,
Bigode e sobrancelhas,
longas...
O silêncio e a solidão contemplam...
Que seres mais individuais...
Miram o mundo,
Miram o dia,
Veem o mundo,
Veem a alma.
Tudo é instinto.
Assim são os gatos,
Com olhos azuis,
Melados e outros mais.
Onde TauÁ?
Tá no gambá,
No guaraná,
No araribá
No tamanduá,
No taperebá,
Errou Tauá está no Estado do Ceará.
Onde PiauÍ
No guaraní,
No macuxi,
Na sucuri,
No curucuturi
Onde ParaU
No uirapuru,
Na murucututu
Na Murucutuca,
No Jucurutu,
No mulumgu,
No Urubu,
Errou para no Rio Grande do Norte...
A boca que cantava,
Cantava que encantava.
A boca era bonita,
Não se via os dentes.
Não era mole,
Não era desdentada,
Era elíptica,
Era viva...
A boca subia e baixava o som,
Meu Deus que som.
A boca expressa a alma,
A boca expressa o pensamento,
A boca alinhada.
Lábios, dentes e língua.
Não era boca nojenta...
Não sei se cheirava,
Não sei se fedia...
Encantava por saber ser usada.
Cantando,
Contando...
A boca, que sugou sozinha,
A boca que alimenta
A boca que alimentou a alma.
Essas coisas
O vento,
A tarde chuvosa...
Tarde de domingo,
Sol sobre nuvens,
O canto da chuva,
O vento ondulando,
Oras acelerado,
Oras desacelerado,
Dois cataventos
Dando pelo vento
Um verde e um azul.
Sanhaçu voando
O verde escuro da mata...
O eu.
Sentir o mundo,
Encontrar um sentido...
Na cor,
Na harmonia do som,
No cheiro da flor,
O do calor da flor,
No gosto amarelo da manga,
No gosto rosado do beijo quente
E molhado,
Num olhar não procurado e achado,
Achar um sentido,
Em tudo que se passou,
Em tudo que se passa,
Achar e por isso de graça,
É uma verdadeira graça.
Achar um sentido,
Pelos sentidos,
Uma emoção,
Uma percepção,
Um sentimento,
Pra vingar precisa ser criado,
Precisa ser cultivado...
Às vezes parece que será eterno,
Mas é inexperiência...
Às vezes, a gente até aposta...
Outras vezes até se ilude
E nessa ilusão,
A vida tem até sentido,
Além de um sentido,
A ilusão até nos anestesia,
Faz suportar a dor,
Ah...
O sentido de tudo
É o sentido da vida...
Vida que a gente cultiva
Até que a vida se enfraquece,
O tempo e a experiência machuca demais
Se são tantos desenganos,
Os sentidos e os sentimentos...
Há de aprender a cultiva-los senão
A desilusão o mata cedo.
A gente sempre volta ao pote,
porque tem sede.
A gente sempre volta à mesa,
Porque tem fome.
A gente sempre volta à igreja,
Porque crê no eterno.
A gente mesmo que demore volta a pensamentos,
Porque não sabe como deles fugir.
A gente sempre deseja o que quer,
Por achou bom,
A gente sempre quer fugir da dor,
Porque achou ruim.
Ah! Um riso, um olhar nos encanta,
Um riso e um olhar nos espanta.
Porque achou belo?
Porque achou feio?
Porque foi sincero?
Porque nos assustou...
Onde tudo começou?
Após o banho, Sassá foi por mim enrolado e fomos para o calçadão. Ficamos ali aguardando sua mamãe. E vendo as pessoas passarem conversando, fofocando ou sabe lá o que. O calçadão é um pequeno retrato do Brasil. Muitos turistas, muitos pessoenses que vão e que vem. Felizes, preocupados. Não importa ou quem importa. O que importa. Só somos nós sentados ali. Sassá se secando. A mamãe vindo...
Quando mamãe já trocou eis que no coqueiro se opondo ao calçadão e a rua na folha mais aberta pousa uma coruja. Uma coruja de igreja, uma rasga-mortalha, uma suindara... Tantos nomes para o mesmo bicho, tantos nomes para a mesma ave que resolvemos chamar de "Lara" a suindara.
Lara estava curiosa com algo que estava ali. Enquanto nós estávamos atento a cada movimento. Tinha um grupo ao nosso lado que também percebeu Lara... mas logo perdeu o foco. Nós ficamos absorvidos por lara.
Vira e mexe... hipóteses surgem. É o seu ninho. Pensei sei não. Um ninho tão amostra. E não sei como ela se enfiou ali na base da folha e meio que desapareceu... É um ninho. Mas não era. Lara estava era caçando. De repente apareceu com um ratão preso as garras... Voou para as casuarinas. E nós ficamos só na curiosidade.
Sassá já sabia o que era uma peteca. Tinha o conceito e já havíamos brincado ontem. Entretanto ontem ele pegou folhas grandes que a mamãe ia por no lixo e dobrou, dobrou, amassou e amassou e saiu uma coisa abacaxiforme... E foi ai que nasceu a peteca. Bom, só de papel era mole, então adicionou um plástico e a mamãe adicionou uma fitacrep. E voilá uma peteca. A peteca que o Sassá criou e confeccionou salvou milagre. Fomos brincar. Pulava, sorria, gritava de tanta felicidade. Estávamos brincando com um instrumento que ele mesmo construiu. Bebeu, água e chegou o momento que se cansou. Então fui dar um banho. E jaz a peteca sem função. Assim é. Depois do banho fomos para cama e eu dormi.
A tarde surda,
Tudo é silêncio,
O calor muda
A voz da natureza,
Numa sombra,
Pia um bem-ti-vi.
Desperto para essa realidade.
E por minha memória,
Resgato a eternidade.
Em que tempo estou,
Como uma imagem de espelho,
Me pergunto,
Sou eterno,
Sou atemporal.
Não sei...
Ontem Sassá estava com muita energia. Comeu um grande jantar e ainda comeu o ovo de páscoa que ganhou de seu amigo Ravi. Pulou, brincou, andou, lugou... Fez tanta coisa que nem me lembro que horas ele dormiu. Fez a lição de casa com a mamãe. Coisa muito importante para ele e para nós.
Suave e doce cheiro de açucena,
Delicada e grande flor,
Longas pétalas
Alvo-vinácea.
Pendula umbela,
As vezes deitada no chão.
Cada encontro
É aconchegante,
Doce sensação,
Eterna sensação.
A luz dourada
refletindo nas jovens folhas,
Folhas molhadas
Dão um lindo tom
Amarelo limão,
Amarelo claro
Desfia uma suave neblina.
E o brilho
sem expande,
se multiplica
E o sol parece acender,
E a novem parece andar...
O que é tão belo?
Minha forma de ver o mundo será sempre a mesma?
Fui progressista e progredi.
Foi apaixonado pela filosofia, mas só li.
Não vinguei?
Li quando devia ter estudado.
Nietzsche e Neruda!
Este último me inspirou.
O primeiro pôs combustível nas minhas revoltas.
Não ri, não entendi.
Um amigo meu erudito. Suspirava ao ler Nietzsche.
Antes li Machado que rachou a minha cuca de tanto usar o dicionário.
Aluízio Azevedo... Os Azevedos. Acho que foi o melhor que li.
Na época se encaixava tão bem...
O tempo passou...
Tantos livros folhiei.
Li u tomei o meu tempo.
Será se ficou algo?
Escrevi tanta coisa.
Escrevi a mesma coisa...
Notas do Eu...
Temas que me amedrontavam e amedrontam
O envelhecimento e a morte.
Temas que me empolgam.
Balela.
A fama.
No final de tudo.
É só uma salada sem fruta.
Ontem Sassá conversou tanto.
Sobre repteis,
Sobre dragões,
Sobre serpentes.
Ele se empolga.
Ele mistura imaginação,
Com historia natural,
Com suas ideias.
E cria o mais lindo dos mundos.
O mundo de seus pensamentos.
Neste lindo céu azul,
Céu fresco de sol claro,
Onde bando de carneirinhos
Espalhados no campo ciano,
Campo azul do céu...
Tarde de céu azul,
Tarde fresca dá chuva
do dia que passou.
Miro este céu,
E vejo uma ave voando tão alto,
Duas aves,
Três aves,
Cinco aves,
Voam em espiral,
Em bando
Ou sozinha...
É urubu,
São urubus?
Sem identidade,
Quem já fez amizade com urubu?
Tadinha são nogificadas
Por seus hábitos catárticos.
Não há quem não olhe para o urubu com um ar de superioridade.
Ehh. que nojo, você come carniça....
Anda desajeitado,
Cabeça de peru...
Que importa.
Olho para essa bendita ave e penso,
Quanta liberdade...
Os urubus são ideologos,
São nefelibatas...
Eles veem além e pagam por isso.
Sabe todas as tardes são eternas,
mas algumas mais que outras.
Ao menos é o que parece.
Feito fumaça,
Vai pensamento,
Evapora de graça.
Que fique a beleza da tarde,
A liberdade do urubu,
E o saber da eternidade.
O seria um labirinto?
A garrincha canta,
Cadenciadamente,
Canta uma,
Canta duas,
Canta três...
Canta várias vezes.
É inverno.
Ela só canta no inverno.
Será papinho cheio?
Garrincha que amar,
Quer uma companheirinha.
Faz o seu ninho
E canta,
Até me encantou seu canto.
Parece um canto encantado.
A terra seca e dura,
A água da chuva tudo munda.
O cheiro da chuva caindo,
A chuva trazendo frescor...
Tanajuras no céu.
O mundo molhado,
Os troncos e cupins.
A lama escorrida da água da chuva,
Argila vermelha.
Areia escura.
O homem e a terra tratada,
A terra arada, fofa, macia e fria.
A cova cavada,
Semente semeada...
A babugem no campo,
A mata brolhando,
Catingueira se pinta de vinho
Depois se enverdece...
Folha molhada,
Cheiro das plantas.
Agudo espinho de cacto...
Tanque cheio,
Despertar e cantar do sapo.
Tudo isso é felicidade,
Tudo isso é prosperidade,
Trazida pela chuva,
Água fonte de vida,
No Seio da mãe terra.
Seus filhos agradecem.
O silêncio frio da mata
aguardando a água da chuva.
A terra enxombrada,
Mole de tanta água.
Sementes germinando,
Fungos esporulando.
O sol, sobre as nuvens.
O tempo mudado.
O sol acenou de manhã,
Mas logo desapareceu,
Choveu, choveu, choveu,
Nuvens escuras, luz branca.
A luz do fogo,
A luz de vela,
A luz...
Em outra forma,
Que não luz do sol.
A chuva,
A água escorrendo,
Cantando em toda calha,
Cantando na bica...
Água fria.
Um chá faz bem.
E o dia escorre,
E o dia molhado,
Demora a secar,
Demora a passar...
Demora
Um dia mamãe e papai estaremos juntos.
Não da forma como estivemos.
Não!
Quando estivemos juntos,
Vocês foram os melhores pais do mundo.
Alimentaram-me da melhor maneira,
Educaram-me da melhor forma.
Vocês me ensinaram o essencial para viver em harmonia,
Vocês me deram segurança, amor e paz.
Foi maravilhoso vivermos juntos.
Mas um dia nos encontraremos na eternidade.
Um dia seremos só uma data.
Cairemos no esquecimento...
Será se nos encontramos em vidas passadas?
Não sei!
Sou mamãe você e papai.
Estou tentando ser o que vocês foram para mim.
Para o meu filho.
Tem dias que sinto falta...
Tudo vira essência.
Sabe.
Tudo termina em essência.
Meu peito não queria isso,
mas é egoísmo meu ou orgulho.
Somos eons do criador...
Ontem, estávamos muito cansados. A mãe de Sassá exausta e doente. Bom, parece que sabia, por isso nem deu muito trabalho. Depois do banho dele. Nos deitamos na cama. Acho que dormi ou quase dormi. Então ele me despertou e rezamos o pai nosso e a ave maria e logo em seguida dormimos. Nem sei quem apagou a luz. Ontem foi aquele dia de chuva, frio e tudo molhado. Enfim. Sassá entendeu.
Sonhei que era fim de inverno.
O campo de cajueiro que nosso vizinho plantou
Estava todo florido.
Uma paisagem tão bela.
Então dei por falta de mamãe e papai.
E perguntei quando mamãe e papai
Vão voltar de São Paulo.
Então senti o abismo da realidade.
Eles se foram,
Partiram para eternidade.
Tornaram ao ser.
Concluíram a existência.
Em algum lugar bem distante,
A beira da estrada, um fruto caiu,
Dali, num inverno nasceu uma aroeira,
Os anos foram passando e lentamente,
Bem suavemente ela cresceu.
Continua crescendo.
Um dia ela floresceu,
Um dia frutificou...
No verão caíram as folhas,
Uma a uma ficaram o tronco e os ramos,
Depois cheia de vassorinhas,
Floresceu, frutificou...
Mas veio a chuva e ela regou,
Então de folhas todinha se vestiu.
As aves adoram nela pousar,
As aves adoram nela cantar...
Às vezes a tarde vai lá o sabiá,
Canta, alumiado pela dourada luz da tarde.
Canta o cabeça-vermelha,
Canta o papa-arroz.
Nela nasce e se põe o sol.
Nela se avista primeiro o dia,
Nela se escurece por último.
A noite esta desaparece...
Milhares de flores e frutos já dispersou.
Oh aroeira.
Como te admiro,
Faça chuva ou faça sol.
Impávida ali está.
Seguimos nossos dias,
Você de lá e eu de cá...
A areia seca,
O solo molhado,
Sobre o solo a gitirana
Cresce se esparramando.
Tão belo seu movimento,
De crescimento,
De vida efêmera.
A Pinheira verdinha.
Senhora Pinheira,
Amiga conhecida
De tantas safras,
Tantas visitas,
Sanhaçus,
Vem-vems...
O fruto verde gerado,
Crescente e maduro.
Do duro ao mole,
Só verde ao branco.
Dia e noite,
Verão e inverno.
Chuva e água.
Ser.
Ali ao lado,
Tantas vezes me sentei.
Tantas vezes me senti.
Sou uma Pinheira.
Que resiste se sequidão.
Que sofre calada,
As ervas daninhas nos meus galhos.
Sofre calada o calor, mas repleta de esperança
Pelo tempo de bonança que sempre vem.
Para a terra.
O lugar.
A existência...
Sentado ali.
Foi confidente a Pinheira,
Minha de papai e de mamãe.
Quando eles participaram ela estava triste e desgalhada e assim me senti.
Ontem estava plena.
Eu também.
Mas havia um certo vazio no meu peito...
Que nunca vai passar...
É a autoconsciência.
Queria ser uma gitirana espalhando-se pelo chão.
Mas o tempo, a memória me fizeram Pinheira.
Ontem domingo de páscoa em Serrinha dos Pintos fui à missa e ao sepultamento do padre daquela terra Francisco das Chagas Neto.
A igreja estava repleta de gente. Durante a serimonia da missa choveu.
Houve o cortejo fúnebre onde encontrei e cumprimentei meus amados professores e amigos.
Luiz Preá, Ledimar, Rivete, Berg, Glicério, Eudes.
Vânia, Herbenia e Francisco meu primo.
Fui ao túmulo de meus pais.
A noite caiu.
Padres cantando e um colega enterrando.
O bispo e Nil o coveiro.
O dia e a noite.
Os últimos Franciscos estão sendo enterrados.
Só sobrarão os evangelistas Lucas, Marcos e Mateus.
É o espírito do tempo.
Agora fim de páscoa.
Sou o que fui.
Sou o que sou.
Deveio e devir.
Minhas ilusões.
Minhas desilusões.
Estou onde mais estive neste época.
Estou sem quem mais estive.
Ainda sim na balança da existência,
Vivi mas com eles...
É a vez do meu filho.
O tempo escorre.
Sempre escorreu em espiral...
O cheiro do mato,
A brisa fria da tarde.
Algo anormal.
Cadê mamãe.
Cadê papai.
Onde foram?
Onde estão.
Seguirei pela eternidade sem resposta...
Me apoiando em algo que me encanta.
...
Sinto minha alma viva.
Sinto intensa presença da eternidade.
Sinto que sou este lugar.
Este lugar sou eu.
O cumaru cultivado por papai,
As Pinheiras, as palmas.
A erva com sua rama
Que pinta tudo de verde e formas,
Formas cordadas,
Formas radiadas,
Formas ternadas.
Ouço fora e em mim o som da passarada...
A Garrincha no oitão,
O sanhaçu nas pinheiras,
O vem-vem no encheique,
O sabiá na aroeira,
O encanto de ouro no catolé.
O pacum voando,
A rolinha no terreiro comendo.
O cheiro alvo da flor do araçá, do mororó,
Do jasmim.
Esse lugar sou eu,
Minha alma é esse lugar.
Após o café, o caminhar...
A manhã metade ida.
O corpo quer um descanso.
A gente senta na área.
Nessa área eterna.
Área que sentei toda a infância.
Área que sentei na adolescência,
Área que papai sentava pela manhã
E pela tarde.
Área que mamãe despertava
Após o cochilo vespertino.
Área de recepção,
Área de despedida...
Nunca estava vazia nestes momentos...
Esta área foi testemunha das nossas visitas
Vovô sinhá,
O amigo Dadá,
Meu tio Aldo,
João de Licor,
João de Lourival...
Quantas vezes Bege, as meninas
E eu chegamos
E quantas vezes demos adeus.
Esta área eterna.
Hoje vive vazia,
Tendo um cachorro
Por companhia.
O sol
E a lua
Alumiaram
E alumiam.
Papai deixou plantado em sua frente
Um espada de São Jorge,
As vincas,
Mamãe aqui deixou a açucena
E o jasmim laranjeira...
Área que me ensinou sobre paciência.
Aqui li Gandi,
Machado de Assis,
Aluízio Azevedo...
Encarei a biologia,
A química as ciências naturais.
Aqui esperei o inverno e as chuvas.
Os resultados das provas que fiz.
O triste dia da partida de papai,
De mamãe...
Aqui foi o palco de alegria e tristeza.
Não se sabe,
Não se percebe
Porque se vive sempre
No presente...
O passado são memórias
E o futuro são desejos.
Essas coisas são particulares
Está cultivada em cada um de nós.
Aqui papai envelheceu, cochilou e partiu.
Mamãe tantas vezes renasceu
E a morte venceu.
Hoje tudo é só memória,
Parte de uma memória...
Se está área falasse.
Se ao menos existisse,
Porém é apenas um vazio entre três portas.
Só isso.
Tudo e nada.
No mês de abril,
Após as grandes chuvas,
pude no mato andar.
É gostoso sentir
O perfumado cheiro da flor,
O amarelo doce do cajá provar.
Ver o feijão no campo de espalhando,
Nas hastes longas
As flores roxas desabrochar.
E o agricultor com a campinadeira,
Dando ordens e o boi obedecendo
Na carreira subindo e descendo.
A vista cheia de beleza, o cheiro
Da terra arada,
O canto da passarada.
Andar no meio do mato,
Com cuidado pra uma cobra não encontrar,
Vendo a copa da mata fechada.
O cuidado pra não se estrepar.
Ver o açude de água nova barrenta,
O som da água na pedra escorrendo...
E o peito cheio de alegria...
A alma que é uma poesia...
Essas coisas bonitas
Que a gente leva pra vida.
Às vezes a área estava ensolarada e quente,
Às vezes escura e fria,
O que ele não gostava,
Papai era friorento.
Quanta coisa pensou?
Nesta área...
Por nós aqui rezou.
Rezou até o fim.
E por fim se encantou.
Como Deus quis assim se foi.
Neste lugar eterno,
No seu tempo eterno...
Aqui tudo é eterno 😍
Da área onde me sento para onde olho tudo é rico em memórias.
Sentado onde meu pai sentava.
Sentado onde meu pai pensava.
Às vezes sozinho,
Às vezes acompanhado,
Só Deus sabe no que pensava,
Pensava o que vivia,
Pensava o que passava.
Sentia amor,
Pedia proteção
Ontem tive o maior presente do criador,
Estando em minha terra natal
E foi como um sonho renovador.
Acordei enquanto chovia
Meu peito cheio de alegria...
Foi um sonho vivido,
Foi um sonho revivido.
Vivi duas coisas numa só.
A natureza eterna e profunda
Numa face maravilhosa,
Verde, fresca e molhada.
Quantas vivi essa face em minha vida
Não foram muitas.
As maravilhas divinas sentimos
E amamos mesmo
Que seja a primeira vez.
A esperança forte batendo no peito.
E a já sente a eternidade.
A chuva, o verde e a fé que isso é bom
É verdadeiro e efêmero.
O cantar alegre das aves...
O cantar harmônico das aves.
O cantar feliz das aves
nos transmite felicidade.
Foi o que senti ainda criança
E reafirma sempre que ouço...
Tá guardado na memória.
Ver pela janela a fora
Enchendo a vista de forma, de cor, de profundidade...
Sentir o ar fresco,
A brisa fria, o cheiro de mato molhado, o cheiro da terra enxombrada.
Sentir a realidade da ausência de pai e mãe materializada em saúde.
Aí está.
O coqueiro morreu.
A graviola está quase morta.
Foi papai que plantou.
A realidade do tempo que se foi.
A realidade do tempo que é.
Esse posso viver,
Aquele não mais
Em totalidade.
Tenho um filho pra criar,
Um filho pra ensinar como é a vida aqui...
Na ausência de meus manos e meus pais.
Aqui as mesmas sensações terá.
O ontem foi pra isso.
O café aquecendo o frio da manhã.
A manhã de chuva.
O banho de chuva.
O passeio na mata.
O almoço com arroz de leite e peixe frito.
A tarde de chuva...
Chuva a tarde todinha...
A noite escura e fria.
O angu com leite...
O chá.
A vida.
Passamos a páscoa na Serrinha dos Pintos-RN, terra natal do papai e dos avós de Sassá. Lá nós pudemos contemplar como está tudo bonito após as chuvas. A mata toda crescendo, as ervas fechando tudo. Tudo é verde. Uma imensidão de insetos. Teve um dia que choveu o fim da manhã e a tarde e Sassá pode tomar muito banho de chuva. Como ficou feliz. Pulou na caixa dágua e foi muito banho. Saímos para explorar a mata, vendo os insetos e fazendo fotografia. Fomos na mata grande, nos açudes de papai e Dedé. A gente chupou cajá. contamos os porcos. Encontramos uma gata preta que ele seu o nome de beleza negra... A gatinha amou Sassá e ele adorou ela. Ela se enrolava nas pernas dele. Ela foi conosco até os tanques para ver se via sapos. Depois veio conosco para a casa da tia Li. Acredita. Acho que a tia vai adotar beleza negra. Bom, fomos a casa do Davi onde Sassá comeu goiaba no pé. Fomos ainda na casa de seu primo Nicolas. Fomos a missa da páscoa. Corremos muito. Ele já saia da cama atordoado querendo ir para o mato. Teve um dia que fomos com a foice limpar as juremas brancas e o calumbi e as mimosas do terreno. Sassá me ajudou muito. Se divertiu muito. Só não se divertiu mais por causa do tempo. Enfim foi maravilhosa nossa páscoa.
Acordei e não dormi mais na madruga. O escuro, o calor do quarto e o frio do ventilador, a muriçoca... Minha mente desgovernada. Pensa poes...