05/04/20

12. Tragédia

Domingo de Ramos.
O mais triste, intenso e doloroso.
A manhã foi normal.
Mas ao meio-dia, soubemos que aconteceu
Uma tragédia.
Um telefonema quebrou nossa paz.
Era a mamãe, chorando.
Avisando da morte de Marquinhos,
O filho de meus primos Aquiles e Rita.
Que fatalidade! Inacreditável!
Desde então o tempo se arrasta.
Nada está fazendo sentido.
Sofrimento, angústia e dor.

11. Drama real

Enquanto o tempo passa a agonia aumenta.
Tristeza, angústia e todas as tristes sensações.
A partida de um ente querido é muito sofrida.
Aos poucos a realidade vai se concretizando em nossa vida.
A chuva começa a chover.
E já é noite.
E nada.

10. Trágico

Algo muito trágico aconteceu!
Pela segunda vez, num domingo em tempos muito diferentes.
Um afogamento! 
Pessoas muito próximas.
A notícia nos atordoa, nos desnorteia.
Primeiro queremos entender.
Não aceitamos, não acreditamos.
Depois, vamos nos ficando anestesiados.
Descontrolados.
Todo o corpo sente a dor da perca.
Nada mais será como antes.
O sol não terá o mesmo brilho por muito tempo.
Realidade, dura realidade.
Eterno devir.
Deixou de ser.
Vai?
Por favor não.
Vai!
Fica!
Ainda falta tanta coisa para ser vivida.
A partir de agora é história.
As paixões, os gostos, os desejos e saberes
Voltam para o cosmos.
Para os braços de Deus.

9. Segundo domingo

Amanhece,
Intensamente brilha o sol.
Na sacada estão dispostas muitas plantas,
Entre estas, se destacam as flores do deserto
Com suas flores rosas.
O céu azul,
O café quente e a tapioca são comidas,
Enquanto mastigo meus pensamentos.
O rádio dá notícias do mundo, sobre o Corona vírus.
Assim, mais um fim de semana acontece,
Reclusos estamos.

04/04/20

8. Fim de noite

É fim de noite.
Deitado, tenho meus últimos pensamentos do dia. Penso no que não fiz e no que concluí.
Penso no que ouvi, senti, percebi.
Penso no que li.
Penso.
Neste momento muitas pessoas assim como eu, estão deitadas.
Algumas estão orando, outras cansadas da monotonia, do sofrimento, da dor.
É fim de noite e fim de dia.
Quanto mais tarde, mais próximo e um novo início.
Cristalizado este texto, registro paciente
Minha existência.
É fim de mais uma noite.

7. Ave

As aves existem para voar, cantar e embelezar ainda mais a natureza.
Por que prender uma ave e impedí-la 
De voar, de cantar e de se reproduzir.
Não uma ave não é um objeto,
Mas sim um ser vivo.

Encantador

Nietzsche quando foi apresentado por Wagner
Ao livro "O mundo como vontade e representação" de Schopenhauer,
Entrou em profunda paixão e devorou a obra em poucos dias.
Borges aprendeu alemão para ler esta obra em alemão.
Que magia há por trás deste livro?
Que grande encanto lançou o grande pessimista nesta obra  magnífica?
Saberemos, saberemos!
Vamos ler!
Schopenhauer contemporâneo de Hegel, não teve a mesma sorte deste
Em sala de aula.
Quando deu aula os alunos preferiam a Hegel.
Sera que seria devido ao sucesso do livro "Fenomenologia do espírito".
Quem sabe!
De certo Schopenhauer influenciou Nietzsche e Borges.
Embora ambos sejam profundamente originais.
A ontologia de tudo seria Kant?

5. Vivemos

Vivemos um momento delicado.
Estamos reclusos em quarentena a cerca de duas semanas.
Presos em nossas casas estamos vivendo algo nunca visto.
Nossa audição fica acurada,
Nossos músculos tensos e cansados.
Psicologicamente abalados.
Vai passar.

03/04/20

4. Compensação

É época de chuva em minha Serrinha.
As matas verdes, os córregos escorrendo,
Açudes cheios, Jitirana fazendo latadas.
E as aves devem estarem contentes.
Como queria está lá.
Calçar botas, vestir uma roupa e um chapéu.
Depois pegar minha câmera e sair de moto
Para fotografar.
Fotografar de tudo.
As rochas, lagartas, borboletas, grilos,
Besouros, calangos e aves.
As paisagens e as plantas e as flores...
É época de páscoa.
Se não poderei está lá, então vou ouvir um canto gregoriano.

3. Entardecer

A tarde vai silenciosa e cheia de luz douradas.
Os tons aos poucos vão ficando escuros,
Rubros e dourados.
O céu azul maculado de nuvens brancas
Que fazem e desfazerem suas formas amorfas.
O chiado de aves.
A brisa fresca na janela.
O descanso desejado.
No caos dos pensamentos,
Tento gerar um cosmo.
E tudo que conheço me ajuda
Nessa aventura.
Enquanto a tarde vai.

2. Ninhos

As aves estão chocas,
Todas após acasalarem
E construírem seus ninhos,
Estão chocando seus ovos.
Na rua já vi ninhos de beija-flor,
Lavandeira-mascarada,
Bem-ti-vi, sanhaçu, sanhaçu-de-coqueiro.
Paradinhas aquecendo suas pedrinhas.
Era como dizíamos no interior.
Não podia falar ovinho que a cobra vinha comer.
A gente falava pedrinhas.
Que atmosfera fabulosa.

02/04/20

1. Coruja

O silêncio escuro da noite envolve os que tem sono e sufocam os que tem dor.
A noite quando pássaros dormem
Estão despertas as corujas
Que conseguem ver além das sombras.
Não somos corujas,
Mas bem que poderíamos aprender com estas a se orientar no escuro.

58. Memórias

A voz poucas coisas se guarda na memória mais que o timbre de uma voz.
Deitado ouço a voz dos queridos partidos.
Lembrança dos avós, tios e amigos.
Sei lá.
Nesse período de isolamento a gente pensa
Em cada coisa.

57. Voz

Penso que a voz é uma das maiores fontes de aprendizagem e rememoração.
A gente ouve em nossa mente a voz dos que partiram.
Ouço minhas avós, meus amigos.
Tudo em minha mente.
Como um eco.
Mas, bem.
Certo ano estava em Belo Horizonte num congresso.
Dai sai para visitar o museu da Vale.
Aquele prédio lindo, elegante e barroco.
Deixou-me encantado.
Mais encantado ainda fiquei quando entrei em seus átrios.
Aquela voz doce declamando poemas belos.
Espere!
Era a voz de Drummond!
A voz de Drummond.
Fez-me voltar a época da escola.
Momento de sua morte foi lamentado pela professora de português Genilda.
Fiquei ali.
Parado entre o passado e o presente.
Minha mente fugia para o passado
E os sentidos para o presente.
Fiquei ali contemplando.
A partir da voz de Drummond me senti mais próximo de sua obra,
Me senti mais eu.
Que orgulho de nosso pais, nossa poesia.

56. Consciência

Madrugada escura, parcialmente nublada.
Estrelas ofuscadas.
Canto da corruíra,
Sobre os paralelepípedos de xisto ou gnaisse,
Vou caminhando e pensando em tudo e em nada.
A gente costuma se perder quando pensa em tudo.
A cada passo que se dá uma nova imagem,
Um novo estímulo,
Um novo pensamento.
Então caminho sem parar
Por alguns quilômetros,
Tempo que penso sem parar.
Caos e cosmos me preenchem.
Penso no que vejo e ouço.
Aves, árvores...
Um pouco do externo e do interno.
Formando uma consciência...

01/04/20

55. Décimo segundo

Em casa, nesta quarentena a quase duas semanas.
Só saímos para caminhar ou para ir ao mercado.
As ruas vazias, sem movimento de pessoas.
Só ouço os carros passarem.
E o canto das aves.
Aves cantando.

54. Caos mental

A gente acorda,
Tudo está como esteve,
O que mudou foi o tempo,
De noite para manhã e de manhã para tarde.
As coisas iguais,
Silêncio,
Ruas vazias,
Nossas sensações continuam as mesmas
Fome, sono, disposição, alegria, tristeza.
E as coisas por serem resolvidas,
O mundo lá fora.
Como a gente trata essas informações!
Como fica nossa cabeça.
Em caos.
Um caos impensado por Pessoa ou Borges ou Gogh ou mesmo por mim.
E os minutos e horas vão se passando,
Dias...
Semanas!
Que loucura.
É a humanidade agindo de forma coordenada.
E nós indivíduos ficamos desnorteados.

53. Pios e cantos

O pio de bem-ti-vi se ouve de longe.
Lá no fundo canta a patativa,
No telhado da casa do lado o pardal.
No meio termo a corruíra.
No fio chirlia a siriri,
A passarada faz minha alegria matinal,
Feito som de poesia num sarau.

31/03/20

52. Garrinchão-de-barriga-vermelha

Ontem, durante a caminhada na madrugada, ouvi o canto lindo de um pássaro.
Estava no início das Três ruas, quando o ouvi cantar.
Deveras, que coisa linda.
E o mais mágico, não conhecia.
Refletir como iria conhecê-lo.
Passou.
Hoje a noite usando o Merlin um aplicativo para aves.
Eis que reconheci o canto e desvendei o grande mistério.
Trata-se de um garrinchão-de-barriga-vermelha.
Vou dormir feliz por essa informação.
É isso. 

51. Andorinha

Andorinha
Voa andorinha,
Voa seu vôo ágil e rápido.
Voa pra lá e pra cá.
Pra cima e pra baixo.
Com seu esmoque azul marinho e alvo,
Saboreia insetos nessa dança a voar.
Toda manhã as ouço vocalizar,
A voar, a voar.

50. Silêncio matinal

O silêncio quebrado pelo canto das aves alegra a manhã,
Andorinhas, sanhaçus, sanhaçus-de-coqueiro, patativas,
Gaviões a espreita, beija-flores e bem-ti-vis.
Ouço tudo aqui, sentado.
Este corpo pensante,
Desejoso de uma definição.
Não consegue entender estes cantos,
Vive, assim por viver.

48. Nambuzinha

No passado, tinhamos um pequeno sítio.
Ainda temos a propriedade, mas as árvores morreram. Praticamente todos os cajueiros.
Na sombra deles cresciam pinheiras, goiabeiras e araçás.
No inverno as nambus costumavam fazer ninhos.
Ninhos no chão com ovos roxos.
A coisa mais linda.
Sob os panicum trichoides deitavam ovos sobre os ninhos.
Então cantavam todos os fins de tardes.
Nunca vi uma nambu. Sempre que a via era em vôo.
Nambuzinha do meu sertão,
Que saudades tenho no coração,
Da infância, do sítio, de poder te ouvir cantar.
Espero poder voltar e te ouvir cantar
Pelo resto de meus dias.

49. Desvelamento

Quando tudo se repete de forma especular,
Acorda, levanta, sai para caminhar,
Caminha, contempla o mundo,
Ouve as aves, pensa na vida, na família, nos problemas,
Pensa nos projetos, nas ideias, na vida.
Volta pra casa, toma café, senta para trabalhar,
Ouve noticias ruins e boas,
Entristece ou se anima!
Ver fotos de aves,
Ouve música,
Ver fotos do passado,
Fica saudoso,
Fala com a mãe e com o pai e com os irmãos!
É tão bom!
Como somos chatos,
Sentimos falta do que foi e do que não foi.
Assim, vão se desvelando os dias.

30/03/20

47. Coisas saudosas

A oito anos defendia minha tese.
Desde então, fui embora de Campinas,
Deixei a Unicamp.
A oito anos concluí um projeto.
Deixei aquela cidade com muita saudade.
Saudades da proximidade de meus irmãos.
Saudades das manhãs claras ou frias.
Saudades dos amigos, do bandeco, das bibliotecas, das praças, das ruas, do don Pedro.
Saudades, saudades.
Da minha orientadora Tozzi,
Do charmosissimo João Demora,
Do grande Tama,
Dos amigos,
De tantas coisas vividas,
Como me fez bem.
Este mês faz oito anos.
Parece que foi ontem.
Obrigado por tudo Unicamp.

46. Tarde


A tarde caiu vazia de sol,
Nuvens cobriam completamente o céu,
De leste a oeste e norte a sul.
Por vezes, o sol azul aparecia entre estrias das nuvens.
As aves piavam, cantavam e voavam.
Tudo estava em paz.
E as coisas, as construía.

45. Manhã de chuva

Manhã chuvosa e escura,
O sol nem saiu,
A chuva chove e para,
As aves voam e cantam.
A cidade, as ruas todas vazias.
Pessoas apreensivas e com medo,
Em suas casas fazem comida, assistem televisão,
Trabalham ou dormem.
Assim vai se passando mais um dia.

29/03/20

44. Despertar

Interesses,
Livros, plantas e aves.
Os livros ampliam meus pensamentos e idéias.
As plantas ampliam meu mundo.
As aves ampliam a beleza do mundo em sons cores e formas.
As vezes, essas classes tornam
A vida melhor.

43. Pensar coisas

De certo, meus avós não viveram uma epidemia como essas.
Presos em suas casas, suas atividades cotidianas.
Tudo que faziam era trabalhar.
viver era trabalhar.
Trabalhar do primeiro ao segundo crepúsculo.
O que era alegria e felicidade?
Alegria era ganhar alguns trocados,
Alegria era comer algo saboroso.
Sem muitas perspectivas.
O que era o mundo para eles?
O que tinha valor.
Os filhos, os objetos, a família.
Nesse massaroca qual era sua realidade?
Não sei, mas esse tempo ocioso me faz pensar essas coisas.

42. Reações

O silêncio excita nossos pensamentos,
De olhos fechados, ouvindo sons sem padrões.
Timbre em desordem.
O calor ou o frio.
Lógica ou razão,
Dialética,
Ordem,
Construimos esse mundo objetivo,
E o absorvemos subjetivamente.
O que é esse tudo?
O que é isso que cremos ser a realidade?
Quando tudo para percebemos que é produto
De nosso trabalho.
Nós criamos a realidade,
Mas não temos como impedir acidentes.
Tudo é uma construção mental.

28/03/20

41. Quarentena

Sábado,
O isolamento,
As ruas vazias,
Comércio fechado,
Nada acontece,
Rotina repetida.
Pelo menos podemos ler
Nietzsche, Galeano, Pessoa ou Borges.
Ouvir Mozart, Lizst, Bhrams,
Ou o canto das aves.
...
As coisas acontecem.

40. Manuel de Barros

O grande poeta pantaneiro Manuel de Barros
Que Deus o tenha. Gerou em mim grande afeição. Entre os anos 2008 e 2013, pude acompanhar sua ascenção na mídia.
Ouvi na rádio Band News um poema "gratuidade das aves e dos rios*", lido pelo ator Juca de Oliveira. Então fui tomado por uma profunda paixão pela alma do escritor.
Aquele ser tímido que usava as palavras para produzir encantamento.
Faz falta, faz falta e muita.
Deixou sua obra.
Lembro que dizia: _ "se quiser me conhecer leia minha obra".
Inspirador.



*Gratuidade das aves e dos rios

Sempre que a gratuidade pousa em minhas palavras,
elas são abençoadas por pássaros e por lírios.
Os pássaros conduzem o homem para o azul,
para as águas,para as árvores e para o amor.
Ser escolhido por um pássaro para ser a árvore dele:
eis o orgulho de uma árvore.
Ser ferido de silêncio pelo voo dos pássaros:
eis o esplendor do silêncio.
Ser escolhido pelas garças para ser o rio delas:
eis a vaidade dos rios.
Por outro lado, o orgulho dos brejos
é o de serem escolhidos por lírios
que lhes entregarão a inocência.
(Sei entrementes que a ciência faz cópia de ovelhas
Que a ciência produz seres em vidros
Louvo a ciência por seus benefícios à humanidade
Mas não concordo que a ciência
não se aplique em reproduzir encantamentos).
Por quê não medir, por exemplo,
a extensão do exílio das cigarras?
Por quê não medir a relação de amor
que os pássaros têm com as brisas da manhã?
Por quê não medir a amorosa penetração
das chuvas no centro da terra?
Eu queria aprofundar o que não sei,
como fazem os cientistas,
mas só na área de encantamentos.
Queria que um ferrolho fechasse o meu silêncio,
para eu sentir melhor as coisas increadas.
Queria poder ouvir as conchas
quando elas se desprendem da existência.
Queria descobrir por quê os pássaros escolhem
a amplidão para viver enquanto os homens
escolhem ficar encerrados em suas paredes?
Sou leso em tratagem com máquina;
mas inventei, para meu gasto,
um Aferidor de Encantamentos.
Queria medir os encantos
que existem nas coisas sem importância.
Eu descobri que o sol, o mar, as árvores e os arrebóis
são mais enriquecidos pelos pássaros do que pelos homens.
Eu descobri, com o meu Aferidor de Encantamentos,
que as violetas e as rosas e as acácias são mais filiadas
dos pássaros do que os cientistas.
Porque eu entendo, desde a minha pobre percepção,
que o vencedor, no fim das contas, é aquele que atinge
o inútil dos pássaros e dos lírios do campo.
Ah, que estas palavras gratuitas
possam agora servir de abrigo para todos os pássaros do mundo!

39. Matéria

Sábado,
Até parece que os pássaros sabem que é sábado.
Silêncio!
Tudo que reina e existe.
É apavorante,
Bom, mas estranho.
Nessas horas que fazemos com os pensamentos?
Este silêncio é do mundo ou dos nossos pensamentos.
Temos medo do silêncio,
Pois é matéria para começar a pensar.
Até nos agoniamos quando queremos pensar algo interessante.
Algo lógico e linear.
Que!
Melhor ouvir o silêncio.
Melhor abrir um livro e ler.

27/03/20

38. Estalo

O caos,
O que é e o que provoca na gente.
Desordem,
Desconexões
E a arte,
A arte pode colaborar para um cosmo.
Ordem,
Conexões,
Um limiar,
Um limite,
Caos e cosmos,
Consciência!
Sei lá, pensar nisso. Cansa.
Melhor pensar e olhar coisas de passarinho.
Assim vivo melhor.

37. Breve

Mais uma madrugada com o céu azul-marinho,
Estrelas rutilando, alinhadas e geometricamente,
Linda ilusão,
A luz amarela dos postes,
A aurora,
Agora,
Este momento,
Após ir e vir na rua,
Ouvir os sons,
Ver as formas serem reveladas pela luz.
Singela a vida não.

26/03/20

36. Partida do dia

Por ironia do destino uma saíra pousou no fio
Em frente a minha janela.
Tão bela,
Fiz quatro fotos.
Agora que é fim de tarde,
A luz doura tudo que toca,
Os sanhaçu-de-coqueiro
E bem-ti-vi vocalizam,
Um cachorro late longe,
O cheiro de abacaxi que vem da cozinha
Torna tudo agradável,
A tarde caindo,
A tarde se indo.

35. Por acaso

A rua vazia,
A luz dourada,
O silêncio oculto no canto das aves,
Sob o jambolão se ouve o poque de uma baga,
Baga oblonga, macia, lisa e escura
Que caiu e se achatou no chão,
Perdeu sua forma genuína, macia e lisa,
E ganhou uma nova forma,
Sua cor atropurpúrea revela o violeta acridoce.
Esse movimento rápido
Que se passou num atino instante.
Por acaso, passava ali,
Por acaso,
Então, caminhei e continuei ouvindo o sanhaçu-de-coqueiro,

25/03/20

34. Saíra

Sairá pássaro belo,
Pequeno e ágil,
Que agitado e belo seu canto.
Bico preto, corpo marron ou amarelo,
Tangara cayana é seu nome,
Canta o dia inteiro,
Manhã e tarde,
Vive sempre em bando,
Linda nectarifera,
Sempre adora floradas de jambeiros.
Certa vez, a vi explorando nectário
De leucena.
E vejo e tento fotografar,
Mas é tão arisca.
Assim, um dia nos encontraremos.

33. Isolamento

Isolado,
Preso,
Vendo o mundo atrás das janelas.
O desconforto da ausência de liberdade.
O celular, a tv e os livros são um bom passa tempo.
Vamos vivendo assim,
Um dia após o outro.

32. Aves felizes

A madrugada estava chuvosa,
Na rua ainda escuro, caiu o maior toró.
Enquanto chovia a água escorria,
E paulatinamente amanhecia,
Quando a chuva parou,
As tanajuras do alto de uma azeitona
Saiam para voar,
Então chegou um grupo de pássaros,
Sanhaçus e saíras fizeram a festa,
Saltando, vando, cantando, comendo,
Peneiravam-se todas de alegria.

24/03/20

31. Entro às escuras

Durante a caminhada, no final das três ruas, vi uma grana ave branca voando.
Tinha asas retas.
Quando me aproximei vi que era uma grande coruja de igreja.
Não deu para contemplar, pois voou para longe logo.
Que maravilhoso encontro.

29. Confinamento

O confinamento continua.
A internet nos auxilia ou nos atrapalha neste confinamento?
Como seria a situação se não tivesse uma forma tão eficiente de informação?
Pela internet ouvimos música, assistimos filmes, conversámos, nos informamos e interagimos.
De pensar que em 2000 criei meu primeiro email. E só tive acesso porque estava na universidade.  Na residência universitária onde moravamos tinham três computadores um no 14 meu quarto, no 15 e um no 7.
Só tinha uma linha e para conectar tinha que ser negociado.
Os celulares nem imaginava que se usaria a internet.
No mestrado, em 2005 a situação ainda era a mesma.
Só no pós-doc em 2012 que comprei um telefone com internet.
Hoje quase todas as pessoas tem acesso.
Para bem muita coisa mudou.
Por exemplo, a quantidade de livros que podemos baixar é imensa.
Então, baixe um livro e se entregue ao confinamento.

28. Acidente ornitológico

Vi um acidente triste,
Um pássaro que voava bateu na janela de uma van parada,
O gato que estava a espreita,
Correu e pegou,
Tentei salvar, mas não deu,
O felino foi mais rápido,
Fugindo com o pobre passarinho.
Então comecei a refletir sobre o acaso
E suas situações se é que estas existem.
Em pouco tempo perdi o foco e passei pensar em outras coisas.
A rua está tão vazia de gente.

23/03/20

27. Ouro Preto

Hoje a tarde, mexendo numas fotos encontrei umas fotos de Ouro Preto.
Fotos minhas com o João e a Ana Paula fotuna.
Senti-me saudoso.
Que cidade diferente.
Cheia de igrejas e ladeiras.
Ruas de rochas irregulares onde podemos ver musgos e hepáticas e selaginelas.
Os casarões históricos o frio e o soar dos sinos
Nos faz sentir-se em outro mundo.
O horizonte breve sempre oculto pelas montanhas.
Chuva frequente.
Foi excelente a viagens a cidade histórica mineira.
Já faz alguns anos e ainda sinto saudades.

26. Apologia ao tempo

O que se passou de ontem pra hoje senão o tempo.
Este divisor que tudo cria e separa.
Nele há início e fim
Nele tudo é gerado e acabado.
Realidades ocorrem e desaparecem.
Tempo é uma matéria que me incuca.
Por isso respeito os segundos.

25. Efemeridade

As ruas vazias com o sol a pino.
O calor intenso.
As aves cantam, saltam e voam.
A gente chega a ficar desnorteado.
Mas resiste e contempla mais e mais.
A vida não é tão maravilhosa.
Qual será o motivo.
A raridade do tempo,
A sutileza da vida,
A brevidade de tudo.
O tempo é contado.
Temos que saber o que pode ser melhor para não desperdiçamos nenhum momento.

22/03/20

24. Gaia ciência

Após concluir a leitura de Gaia Ciência,
Resolvi que lerei mais um Nietzsche.
Agora irei iniciar O viajante e sua sombra.
Apesar de flertar com a Clarice Lispector.
Reler é sempre bom.
No caso de Clarice não seria releitura.
Tenho um projeto de ler O capital.
Espero que seja este ano mesmo.
Enfim, a noite me nanda dormir.

23. Fazer

Sair para fotografar o mundo e tudo que nele tem.
Particularmente, prefiro as aves e plantas.
As formas. Ah. Como me encantam e ensinam.
E o que nos ensinam as formas?
Quem ensinou e quem criou estes códigos.
Voltando!
As aves e as plantas são tão belas.
As aves cantam e as flores perfumam.
As aves saltam, cantam e voam.
Depois de um certo tempo criarmos os álbuns
Então, devemos.    organizar as coleções por data, por categorias ou classes.
Traçamos uma metodologia e organizamos o plano de trabalho.
Depois de muita organização, então iniciamos o projeto.
Na contrução, vamos descobrindo e aprendendo  a melhor forma de fazer.
Dá trabalho selecionar as fotos e descrevé-las.
E fazemos fazendo.
O bom é perceber que está acontecendo.
Um pouco de cada vez.
Vai indo.
Quando menos esperamos foi.

22. Realidade?

A memória nos traí. A realidade é muito mais substanciosa.
Enquanto nossa memória é subjetiva a realidade é objetiva.
O nível de certeza de nossa memória está Associada ao tempo que usamos para constui-la.
E com o tempo tudo fica laxo e então, não temos mais certezas.
Por tanto, o que escrevo está mais para ficção.
A realidade é o presente e memórias e o passado e o futuro, bem não costumo mexer com o que virá por ser uma profunda incógnita. 

21. Início escolar

As primeiras palavras, os primeiros números, as primeiras letras não me pareceram algo maravilhoso. As primeiras aulas não me pareceram atraentes. Não gostei de ficar preso a uma carteira. Achei interessante aquelas crianças que nunca vi e também aquele prédio chamado de escola.
A escola que ficava quase no Parieiro
Gostei da merenda feita por dona Dudé.
Com sete anos aos poucos ganhamos consciência e vamos conhecendo o mundo da lógica.
Aprender pode parecer duro talvez pela metodologia utilizada.
Todavia esse processo foi essencial, pois foi o ingresso na minha vida escolar, foi a primeira linda do texto do que se chama aprendizagem formal.
Com o desenrolar dos anos, aprender se tornou o alimento para o espírito.
E a minha esteve sempre alinhada a educação, por ser está libertadora.
A palavra é nossa forma maior de expressão.
Não lembro quais foram as primeiras palavras.
Não lembro de quase nada daquele tempo, mas lembro do esforço que meus pais para que não faltasse um dia de aula. Foi está atitude de
Amor que me fez quem sou.

21/03/20

20. Memórias da tarde

Na infância, não tinhamos água encanada em casa.
Nossa água era trazida em cargas d'água num jegue ou burro.
Geralmente, papai acordava e arrumava o jumento.
Às vezes, nas sextas-feiras, colocava água a tarde só para dormir até mais tarde nos sábados pela manhã.
Lembro daquele tempo, daquelas tardes, pois eram diferentes das manhãs friorentas.
Eram tardes quentes e com a luz se acabando. Então, ia ao riacho três vezes, lá em casa gastávamos três cargas d'água.
Eram tardes belas, de céu azul, poeira solta pelos caminhos da ladeira.
Na mata ouvia os pássaros como choca-barrada, encantos-de-ouro, abre-fechas.
E aos poucos a tarde ficava dourada até se apagar.
Não me esqueço de nosso jumento de orelha cortada e muito menos de nosso burrinho.
O burrinho é bom demais, forte e manso.
Não tinha maldade. As vezes, quando se soltava, corria a terra toda, mas aí parava dava a cabeça ao cabresto e tudo ficava bem.
As vezes, sonho com ele correndo no campo.
É muito bom ter essas memórias de um tempo de plenitude.


Amanhece

 Enche o peito do ar frio da madrugada. Traz em si um cheiro particular, Cheiro das chuvas de abril, Cheiro da mata molhada. O silêncio é su...

Gogh

Gogh