Acordei de madrugada. Vinícius mudou nossos hábitos. Após amamentando, troquei sua fralda. Voltou, mamou novamente. Enquanto isso fiquei vendo as manchetes.
Não se vê uma notícia boa. Nenhuma sequer.
Volto a dormir e é tudo.
Acordei de madrugada. Vinícius mudou nossos hábitos. Após amamentando, troquei sua fralda. Voltou, mamou novamente. Enquanto isso fiquei vendo as manchetes.
Não se vê uma notícia boa. Nenhuma sequer.
Volto a dormir e é tudo.
Uma siriri cantou,
Foi o que ouvi,
Cantou lá nas três ruas,
Lá nos pés de castanholas.
Siriri tem muito por aqui,
Tem muito no nordeste,
Lá para as bandas onde nasci,
Tinha muitas
Que ficavam pousadas nos fios de eletricidade.
Depois que a rede chegou,
Abandonaram os ramos dos cajueiros,
Agora só ficam na rede,
Na beira da estrada.
Contemplei muito a siriri enquanto a tarde caia,
Enquanto a vida passava,
Enquanto pensava como um dia sairia dali.
Era um sonho,
Hoje um sonho realizado,
E olhe!
Aqui estou pensando no lá.
Não estou vendo o siriri,
Mas ouvindo ele vocalizar.
Os tempos são outros,
Assim como as responsabilidades e os problemas.
A vida só muda de faces.
Já fui a tantos lugares,
Já morei também em outros lugares,
Vivi tantas coisas
E olhe a conclusão que chego é que são apenas
Acidentes...
Situações acidentais.
Situações acidentais que ocorrem enquanto os dias se passam,
Os meses e os anos...
Quando nos damos conta disso,
Às vezes já é tarde.
Um siriri, minha memória e o agora,
Amarrando um momento,
Que tão logo deixa de ser.
A vida muda de faces.
Não saber qual é a próxima face nos assusta.
Não dá para esperar feito semente pelo melhor momento para nascer.
A vida é contínua...
E continua até o fim.
Eu Rubens sou testemunha disso.
Quando estudava em Natal era mais fácil ir em casa. Sempre que podia voltava para casa. Papai nas manhãs de sábado me chamava para irmos a rua. A gente pegava a nossa moto azul, uma Honda que temos desde 1997, e partiamos para Martins. A moto até sabia o caminho. A parada era a figueira de seu Davi o famoso da bodega em frente ao colégio Alumínio Afonso. Lá estacionava e íamos a venda do profundo Antônio de Chiquim do Alive. Onde havia maravilhosos encontros dos amigos. Era Aluízio, Hélio de Chico Franco, Bolinha de tio Aldo, Marlene de Chiquim, Washignton, Antônio de Doquinha, Dadá Vicentin. Era uma festa de tanta lorota boa. Depois de tomado o café. A gente ia a venda de Heide Godin pra fazer uma feirinha. Arroz, açúcar, carne, café, produto de limpeza, tomates, bolachas e o meu abacaxi... Papai tinha o prazer de fazer um pequeno mimo. Provava sempre de uma ou duas uvas, no açougue depois de pedir a carne sempre dizia... Pese bem pesado. Pedia a Soró uma caixa. Depois Ceição fazia a conta. Papai pagava e a gente voltava pra casa. Esse foi nosso gostoso hábito por muito tempo. Era um momento só nosso. As vezes a gente não percebe que a grandiosidade dos momentos está na simplicidade do ser e do existir. Fabulosos momentos que pude viver com o papai.
Sabiá ah sabiá.
Se te ouço chiando já sei o que é que está acontecendo.
É o gavião perturbando.
É o gavião xeretando.
Xô gavião.
Longe cantando está outro sabiá.
Sabe, sabiá tem em todo lugar que já fui no Brasil.
Lá em Serrinha do Canto, onde nasci.
Nas manhãs após boas chuvas,
Quando íamos plantar só se ouvia sábias cantando.
Não queria estar plantando,
Queria está sabiazando.
O solo fértil pronto para germinar as sementes
Parecia está contente com o canto do sabiá.
Em Campinas o sabiá vinha arrancar minhocas no meu jardim.
Até fazia ninho na linha da área de fora.
Amo o sabiá 😍
Calumbi
Arbusto de copa fechada,
Mais eita que a rama é armada,
Armada de unhas de gato
As folhas bem miudinhas,
O cheiro da rama que forte,
As flores são tão alvinhas,
De doce maravilhoso odor,
Os frutos quebradiços
Achatados e articulados,
Calumbi nasce bem alí,
No lado da cerca,
Cresce um inverno
Ou dois e depois
Desaparece.
Escritos de Borges,
Fenomenologia do espírito de Hegel,
A crítica da Razão Pura de Kant,
Sonatas de Mozart,
São elementos que precisam serem conhecidos,
São elementos essenciais na expansão da consciência...
Sim a bíblia,
O Gita também.
Uma ou duas coisas de cada vez.
Não se pode com muita fome a mesa,
Nem com muita sede ao pote.
Se te apetece coisas simples e geniais da netflix, então se empanturre,
Se te cansas pensar, então simplesmente sirva-se deste banquete.
A vida tem os dias contados,
Faça sua opção.
Deitado no sofá,
Ouço o meu entorno,
A chuva chovendo,
Que chiado gostoso,
Um galo cantou,
Um papa capim,
Um bem-te-vi
Duas siriris
No céu alvo voam tanajuras
E bem-te-vis a comer.
O ventinho frio sopra pela janela,
Manhã a dentro.
Casaca-de-couro pássaro estouro,
Em Serrinha do Canto em nosso sítio,
Na galha do cajueiro cantou e fez
Um ninho a casa-de-couro
Papai ficou tão orgulhoso
Papai ficou tão feliz.
Está ouvindo é a casaca de couro.
Vou plantar um cajueiro
Pra a casaca de aninhar,
E cantar, e enfeitar a nossa vida.
Até o picapauzinho ficará feliz,
A vida enfeitada
A vida feliz.
Plic plic plic amanheceu chovendo,
É muito gostoso acordar bem cedo
Ouvindo a chuva chovendo
Pássaros calados...
Falando em pássaros nunca
Ouvi o joao-de-barro
Eram tão lindas as tardes
Mas num lugar arenoso
Não tem João de barro.
Certa vez um João de barro
Construiu um ninho no orozinho,
Papai ficou tão orgulhoso,
A terde de inverno ele sempre
Sempre canta na caatinga,
João-de-barro e a chuva chovendo.
O pode ser melhor na vida?
Silêncio e o sono quebrado,
Meia noite e o bebê acordou,
Pra mamar, pra trocar frauda,
Pra respirar melhor.
Ommmmrommmmmm.
Voltou a dormir.
Boa madrugada.
A tarde caiu chuvosa,
Úmida e escura e quente.
Em silêncio.
Só se ouvia os pingos chovidos,
Era tarde de sexta-feira,
Em casa, só se via os prédios
Do altiplano acessos
Acenando para o mar.
Daqui de casa
O escuro da mata feliz
O jardim feliz,
A rua molhada,
Molhando,
A chuva chovendo.
Quando a chuva chovia,
Papai se encolhia,
Se recolhia,
Papai dorme o sono eterno,
Saudades dele.
A chuva continua a chover,
Chuva universal,
Chuva eterna,
Tarde eterna,
A gente é só um espectador,
Um sujeito
Entre tantos outros.
Mufumbo
Folhas cinzentas
Madeira rígida,
Cresce em maloca,
Sai em uma soca,
Flores pequenas
E perfumadas,
Doce aroma de mel
Que incensa o tabuleiro,
Planta resistente,
Mufumbo, mufumbo, mufumbo,
Planta maravilhosa,
Cinzenta e escabra,
Frutos estrelados,
Tetralados,
Para o vento dispersar
O vento suave assoviando pela janela,
Passou a manhã inteira me lembrando,
Lembrando de momentos plenos da vida,
Sabe quando a gente está feliz por esta vivendo,
Pelo momento...
Sabe quando a gente percebe isso
No vento soprando.
Soprando assanhando a mata.
Soprando ecoando no fogo da cozinha,
Soprando e assoviando a janela,
Soprando e limpando o milho ou o feijão.
Soprando na algaroba,
Soprando na serra,
Soprando na aurora.
O vento nos fazendo sentir a vida.
Coisas de seu tempo,
Quando as chuvas partem da depressão,
Deixam o sertão,
Enquanto o vento tudo ameniza,
E cela uma mudança de estação.
Tambor tamboril,
Árvore imensa de copa aberta,
Tronco e ramos alvo a cinzento
Folhas folhinhas agudas
Fruto seco auriculado,
Cresce nas serras
No verão endurecido fica,
E se veste e floresce em outro.
A planta é tão bela,
De caule linheiro,
De agradável cheiro,
Folhas sanfonadas,
Sendo as hastes armadas
Com cera nas fechadas
Bela árvore da vida.
Oferta suas folhas
Para serem vassouras,
Suas hastes para giral,
O caule serem linhas,
As raízes tira sal.
É sinônimo de lugar,
Carnaúba, carnaubais,
Carnaúba dos Dantas,
Cresce perto do rio
Sempre verde linda está
Perfeita e maravilhosa carnaúba.
Lá agora chove,
Aqui dentro está tão bom.
Cama e cobertor macio,
Meia luz,
O barulho da chuva chovendo,
O sono...
Hoje, cedo da manhã. Estava aqui sentado matutando. Ouvi bem longe um rouxinol cantando.
Achei aquele canto tão lindo. Até senti quão maravilhosa é a vida. Eu aqui parado e ele lá talvez perto das
três ruas cantando, de certo saltitando e voando. Na minha infância só ouvíamos e víamos rouxinol cantando na época das chuvas.
Quase sempre ela fazia ninho na soleira da porta. A gente não gostava porque geralmente dava cafifa.
Aquela avezinha marrom se reproduzindo. Depois cuidando dos filhotes. Depois ia embora, sumia no mundo e só voltava no ano seguinte. Ela sempre voltava.
Chegava em janeiro e partia em julho. Talvez fosse esse o tempo que ficava com a gente.
Ela chegava com as chuvas e com as moscas. Visto que quando chovia apareciam as moscas.
Apareciam as tanajuras e os sapos.
Ou seja... um pensamento nunca é isolado.
O tempo,
Os relógios,
Os calendários...
Escalas temporais...
Memórias.
Espaço,
Aqui,
Lugar,
Brasil,
Escalas espaciais,
Estará tudo determinado,
Estará tudo dado?
Moiras tecem um destino?
A pandemia.
2020... China, ... Brasil.
Amanheceu e nem vi,
Vi que era madrugada,
Mas achei que era sonho,
Abro a janela que dá para as três Ruas,
Relaxo ao sentir a brisa fria,
Brisa fria da manhã.
Folheio um livro do Neruda,
Leio um poema.
O mundo parece perfeito.
Sanhaçus piando e cantando nas árvores lá das três Ruas,
Olho a pintura de casa na parede,
Vejo papai sentado acariciando a cabeça de tuninha.
Penso no caos que está o Brasil,
Penso sobre de quem é a culpa...
O chiado do computador me puxa para a realidade do quarto e da vida.
A brisa volta a soprar pela janela,
Acompanhada de gritos de jandaia,
Olho no espelho,
Ouço Vinícius bocejar.
É os anos são um declínio para nosso corpo,
A vida passa num filme,
E ouço na mente a sexta sinfonia de Beethoven.
Calmamente...
Volto deste momento feliz.
Que linda de encontrar
Com sua copa florida,
Sem folhas está despida,
Encarnadas de flores vestida
Com beija-flores visitando,
No córrego fez morada
Seu tronco é grosso e armado
Sua folha de feijão é semelhante,
Seu fruto é uma vagem
Com sementes reniformes
Com testa dura e avermelhada
Esse é o mulungu.
Houve um tempo
Em que tudo era novo,
Em que tudo era descoberta,
Houve um tempo
Que acreditava no amanhã,
Que existia um amanhã
Aquele tempo
Eram os anos da infância,
Eram anos fabulosos,
Que a felicidade explodia
Com confeitos
Com brinquedos
Aquele tempo
Não tínhamos nada
Porque de nada precisávamos,
Éramos autossuficiente,
Tínhamos frutas,
Tínhamos leite,
Havia dias plenos
Festas juninas,
Dia das crianças,
Semana de páscoa,
Noite de natal,
Eram dias plenos,
Serrinha do Canto
Era o centro do mundo,
Minha casa o centro da galáxia,
Minha cama o centro do universo,
Meus pais e irmãos meu norte
E eu era tudo.
Ai o tempo passou,
Ai aprendi sobre tudo,
E tudo se descortinou,
E tudo ficou insuficiente,
E perdi o eixo de tudo,
Aqui estou...
Sendo pai
Sendo o eixo principal de meu filho,
Que tem João pessoa como galáxia,
A mãe e eu como universo,
O berço e o carrinho como universo,
E ele é tudo.
A noite caiu nas três Ruas.
O escuro e o silêncio me impressionam.
Ouço o canto dos grilos,
Ou será um eco em minha cabeça?
Penso ou sinto em minha mente que estou em Serrinha do Canto.
Penso qualquer coisa.
Quando se está cansado os pensamentos são desorientados.
Mistura saudades com realidade
E o que tem é a insônia...
Mais sensação de cansaço.
Acho que é possível superar tudo isso.
Com o sorriso desdentado de Vinícius,
Meu bebê.
É isso.
A madrugada silnciosa
É inundada pelo canto do siriri
Que vai ondulando seu canto
Siriririririri
E entra em cena a corroira
Cantando seu canto marrom
Daqueles saltitando na faxina,
No chiqueiro, na casa velha.
Canto tão lindo.
Até valoriza a madrugada de domingo,
Até valoriza a rua, que dá nas três Ruas.
A gente fica pensando essas coisas
Ouvindo o mundo de fora e de dentro da gente.
Mundo real e mundo subjetivo.
São apenas divagações,
De quem perdeu o sono
E ama ouvir o mundo
Na esperança de se prender ao mesmo.
Canta siriri.
Canta corroira.
A noite e o dia,
Em casa.
Um bebezinho lindo,
Com horários militares,
Com gostos apurados,
Hora dos bainhos,
Hora de mamar,
Hora de dormir,
Hora de dirigir,
Hora para tudo...
A gente se acostuma com o tempo
E ama cada momento.
Até mesmo limpar e trocar a frauda.
Tem horas que cansa,
Mas o cansaço vai embora
Num lindo riso,
E o coração desmancha
E ternura e amor.
É madrugada escura,
Nas três Ruas o vazio,
No firmamento céu estrelado,
No substrato paralelepípedo
Dormem lado a lado.
Ali nas árvores e nos telhados,
Canta contente a corroira,
Aqui acordado estou deitado,
Pensando a existência,
A continuidade da vida,
Os fatos e os sentimentos,
Memórias agora internas,
Vovó, vovô, tio Aldo, papai
Ontem reunidos pelo tempo
Hoje pela morte,
Nesse eixo,
Aqui estou eu e a corroira
Acordados na madrugada,
Cantará pelo seus pais?
Ou já superou e canta por cantar?
Quem saberá.
Teu cheirinho,
Tua maciez,
Tua altivez,
Teu sorriso,
Teu carinho,
Tua inocência,
Tua impaciência,
Que plenitude
É você
Só você,
Meu bebê.
Onde andará tua alma,
Além do real e racional,
Em algum lugar onírico,
Onde reina a paz.
Onde andará tu,
Não sei, mas percebo a ti,
Nas árvores não cortadas,
Na mata fechada,
Na cerca mal alinhada,
Na roça de palma,
Nas fruteiras do terreiro,
Nas flores do jardim,
Nas fruteiras do quintal,
Na minha pele.
Por onde ando
Num universo aéreo,
Perdido entre pensamentos,
Buscando uma referência,
Já que perdi minha maior inspiração.
Me perco olhando pro tempo,
Para as coisas lentas,
Acendo velas para orações.
Acho que nunca fui tão místico
Será possível se encontrar?
Tenho um mar de dúvidas
E nem uma gota ou um grão de certeza.
Amanheceu chovendo.
Que fenômeno maravilhoso,
A chuva chovendo,
Que fenômeno curioso,
A água tudo rompendo,
A água caindo e preenchendo,
E então vai se escorrendo,
As vezes nos encharcamos,
As vezes, nos sentimos chovidos.
São coisas da vida,
Coisas boas como ouvir a chuva chover.
A chuva amanhecer,
A vida acontecer.
Tenho pensado na vida o tempo todo e não sei se é bom ou ruim. Para melhor dizer, não é a vida toda, mas desde o momento que tomei consciência de minha existência. Desde então, soube que a vida tinha um fim. Esta ideia tomou o meu ser. A finitude. Então passei a observar o mundo. A noite, o dia, a aurora, o crepúsculo. E pensava as coisas e estas aconteciam, mas nunca da maneira como imaginava. Então me perco na celeuma de pensamentos... Até que as coisas aconteçam como tem que ser.
Mucunã cipó calibroso,
Que cresce nós lajeiros
Sobre a vegetação
Vai se enovelando,
Formando ramada,
Quando em florada,
Fica toda roxeada,
Intensamente perfumada,
De longe se ouve o zzzzz
Da mamangava abelha avantajada,
As Folhas trifolioladas são caducas
Se desprendendo na seca,
Fica só o estirão,
Com suas Vargens macias e veludosas
Que espocam atirando as sementes
Que parece encoraçada
Essa é minha toada.
Árvore enorme
E Sombra rala
Miúdas folhas
Armado tronco
Casca encarnada,
Feito couro curtido,
Mandeira forte e dura,
Usada no carvão,
Na porta e janela,
Na cangaia...
Perfume de verão,
Alimentar a fauna
Plataforma de pouso
Mata frouxa
É o anjico
Manhã plena ensolarada,
Céu azul, oceano céu a brilhar
Então saio a pedalar,
Cruzo ruas olho os jardins
Vou seguindo até a mata
Que vigor viridescente,
Flores amarelas,
Flores alvas perfumadas
Perfume de angélica
Perfume de guabiroba,
Perfume de mutamba,
Eita mata perfumada,
Até o feijão bravo tá florido
Nesta faixa tão estreita,
Cada vez mais esmagada,
Pela construção civil,
Já não sobra quase nada,
E o que sobra ainda descartam lixo,
Pobres árvores esmagadas,
Pobrezinhas perfumadas
Mutamba,
Guabiroba,
Angélica,
E o que sobrar no futuro
Nada nada nada,
Só o luxo
Só o lixo,
A mata tá condenada,
Pobrezinhas esmagadas,
Porém floridas e perfumadas.
A noite escura
O céu estrelado,
Estrelas brilhando,
Nuvens passando,
Um dejavour,
Faltou o relinchar
De um jegue
Besouros ciciando,
Minha mente está perdida,
Divagando sobre o não ser
A brisa sopra
Os olhos se cansam,
E a ordem lógica não foi achada,
Nenhuma ideia,
Cadê o entendimento?
Como sempre atrasado,
Como sempre acanalhado
Muito querendo e pouco comendo.
E a sextilha?
Não sei ainda,
Mas vou aprender
Estou tentando aprender a aprender.
Mais nada.
Árvore torta e armada,
Romos abertos e difusos
Casca castanho avermelhada,
Quase sempre esfoliada,
Suas folhas imparipinadas,
Perfumada se rasgada,
As flores reduzidas
Diclinas e tetrameras,
Os frutos cápsulas
Com sementes ariladas,
Na cultura popular,
Se usa a madeira
Pra fazer artesanato,
Porta, bichos, objetos,
Nasce muito na Paraíba,
Mas dá em toda caatinga,
Embeleza nosso lugar.
A janela aberta,
Quadro na parede,
A brisa fria que entra,
O canto do sanhaçu-palmeira,
O sanhaçu-cinza,
O papa-capim,
O chiado do computador,
A vida é sublime sobre tudo,
Mas lembrar que está vivo,
Pensar nisto tudo,
Pode tornar tudo mais gostoso.
O meu amor nasceu contigo,
Seu primeiro choro derreteu meu coração,
Ao te pegar no braço, fui tomado de amor,
Ao te ver sorrir, fui tomado de amor,
Ao te ver respirar, fui tomado de amor,
Ao te ver chorar, fui tomado de dor,
Seu choro é seu código que aprendemos a decifrar,
Tudo fazemos para sentir que estás bem,
Estás bem...
Se dorme te amamos,
Se brincas te amamos,
Contigo nasceu uma nova forma de viver.
A madrugada encantada,
A corroira cantando calma,
O bem-te-vi de sobrancelhas,
Dizia que tinha me visto
Som belo, som perfeito
Nem vi a madrugada
Agora canário corrochiam
Há uma grande beleza
Em tudo isso
A celebração do ser.
A gente vive como sabe, como foi ensinado a viver.
E como a gente sabe?
Porque viver é ser.
E o que é ser?
Está ai?
Ensinaram-me tudo que sei.
Aprendi o que que me ensinaram.
Aprendi o que entendi e o que busquei aprender, além do que sinto, além do que percebo.
Como se nortear sem uma direção a seguir?
Olho no espelho,
Encaro-me olho no olho. Penso quem sou?
E me perco ainda mais na consciência.
Se o fim é único para que tanto esforço?
Sou e uma aranha na teia é,
Uma mosca presa a teia é,
Uma jurema é.
A coisa em si e a coisa para si.
Até quando é e enquanto é.
Qual o valor de cada coisa?
Tudo isso me custa o entendimento.
Mais nada.
Que saudade da infância
Que foi toda vida campestre
Em tudo só via e sentia,
Em nada pensava,
Só existia, só ria,
Mamãe pensava por mim,
Papai fazia o que podia,
Riso era alegria,
Alegria igual a confeitos,
Por isso ficava ansioso,
Pelo sábado quando papai ia pra feira,
E trazia sempre em saquinho de papel,
Um punhado de confeito,
E distribuía pra gente,
Trouxe um caminhão amarelo de botijão,
Trouxe um caminhão azul de cavalos.
Mamãe me mimava,
Rosangela me cuidava,
Nas terras arenosas desconhecidas,
Fui vivendo minha vida,
Nossas vidas,
Chupando caju e umbu,
Envergonhado, sonso,
Dentre outras variações
A infância traçou minha existência,
As orações guardaram o medo,
A fé o norte...
A vida uma essência...
Momentos doces de infância.
Na infância memórias são cristalizadas,
Memórias maravilhosas de serem rememoradas,
Até parecem fluir no momento que são acessadas,
Vou agora contar uma memórias visualizadas,
Memória que de certo não serve para nada,
Só para que não esquecer de uma vida passada,
As paisagens constantemente são transformadas,
Porém essas jamais serão esquecidas,
Passaram do nada para a existência amada,
Por isso aqui vou compartilhar,
Minhas primeiras memórias botânicas,
Sinal de já sabia o que queria quando nem imaginava,
Eram estas paisagens com seus elementos
Que enchiam a minha infância de lindo espaço,
E alegram o meu presente ao matutar.
Tinham plantas ornamentais que admirava...
A mumguba de Lídia de Severino
Um tanto perfumada com filetes alvo e vinho
O ipezinho de jardim de Elita de Joãozinho, Antônio de Chiquinho e da Primeira igreja batista.
O Jasmim de Elisa de Vicente Joana e de Maria de Vicentin,
Os híbiscos de Loló de Assis,
As mutambas de Vicente de Paulo,
O bico de papagaio de Dorinha de Luiz de Bonifácio,
A figueira de João Cosme, linda árvore abandonada ao pé da ruina da velha casa.
As plantas medicinais
Um lindo eucalipto na casa de Zé de Júlio e na casa de Banifácio,
A romã na casa de Irelda,
Com as plantas alimentícias a gente olhava e se deliciavam
A condessa de Nelope e Adelso,
As pitombeiras de Bonifácio e Chico Franco,
As jaqueiras de Dezu, de Loló Laercio, de Bonifácio, e de tio Jessie,
Os umbuzeiros de Elita de João de Lico, Zezim de Tica, Joana Rosendo, Loló de Assis, Antônio de Chiquinho do canto,
As cajaraneiras de Laurita, Munda e Mariana e Mindinnho.
A baixa de coqueiro de Dudé,
A mangueira espada de Bunina,
A mangueira de Leoni,
A ciriguela de Antônia de Nelson,
A pimenta de macaco e mangericão de vovó Chiquinha,
As groselhas de Irelda,
A gravioleira de Loló de Diniz,
A laranjeira de Elita de João de Lico,
O linheiro catolé de Eunice,
As plantas nativas sua natureza se expressava,
O feijão bravo de Iula de Dequin
Os angicos de Rita das urupembas,
Os catolés de Vicente Paulo,
A Timbaúba de Toto de João Corme,
A embiratanha de Chico de Vicente Joana,
O coração de negro de Nelope,
A aroeira de Juvenal,
Os odores das flores de cipós de Bignoniaceae...
Odores de cor rosa ou amarela das tecomas.
Os odores doces alvos das mimosas, unhas de gatos e espinheiros.
As flores estreladas das Jitirana,
Flores multicolores rosas, azuis, alvas e amarelas,
A rama prurida das urtigas,
O amarelo ovo das senas,
O cheiro violeta das mucunas,
A azeda fruta da imburana,
O cheiro doce do cumarú,
O amargo da Marcela,
O baboso do juá,
O azedo do cajá,
O travoso da maniçoba,
A torteza do Jucá,
São lições botânicas
Fortemente afetivas,
De pessoas muito amadas,
Algumas já partidas...
Assim é viva está minha
Meu canto em Serrinha do Canto.
Apesar de ser armada com unhas de gato
Eram bonitas e perfumadas suas flores,
Um pompom bem rosadinho que fica alvinho,
De tanto abelha visitar e assim realizar
A famosa polinização que é a condução
De pólen de flor em flor por meio de um vetor o agente polinizador,
A flor ao ser fecundada vai se desvanecendo
E o fruto a ser formado vai logo se desenvolvendo
Dos estames o pólen é formado,
É nas anteras gerado.
O pistilo por estames é rodiado,
Essa estrutura feminina por estigma
Estilete e ovário é formado,
No estigma o pólen é recepcionado
Pelo estilete encaminhado,
Onde tubo polínico se desenvolve,
Sendo no ovário recepcionado
Pela micropila o tubo se rompe
E os microgametofito e megagametofito se encontram se fundindo,
Assim um embrião é formado,
A micropila aí se fecha,
Dos integumentos a testa é formada,
Da dupla fecundação o endosperma seminal
Assim a semente é formada
E concomitante a está o fruto do ovário se origina.
Fruto seco achatado de craspedio é chamado
Sendo autodispersado,
A semente é tão pequena e dura
De cor castanha pela testa envolvida
Com uma forma de ferradura ornada
Pelo nome de pleurograma é chamado
Na terra fértil é germinada.
As folhas são todas miudinhas de invermo
De dia se aberta e a noite se fecha
Se desprendendo no verão
É um pé de cerrador planta bela do sertão,
Mimosa paraibana é batizada
Pela taxonomia classificada.
Assim chego ao breve fim
Creio ser a botânica assim.
A lembrança tem seu encanto,
Por vezes, nos causa espanto,
Na infância era tudo diferente
Em casa pouca coisa tinha a gente
Para nossa pequena lida tinha
Enxada, enxadeco e chibanca,
Até uma velha campinadeira
Para o mato da roça campinar
Roçadeira, facão, foice e machado,
Para tirar forragem e madeira
E o gado alimentar e o curral cercar
Um velho morão de pegar e vacinar
Na casa velha havia uma caixa de madeira
Cheia de traquitanas como pregos,
Alicate, troques e martelo, suvela,
Serrote, pua e plana gostava de chafurdava
Então foi num ano pela tarde
A uma escola fui pra lá levado
Todo mundo em fila estava sentado
Me deram um caderno e um lápis
Num quadro verda a professora
Explicava que riscos eram sons
A - E - I - O - U e A, B, C...
Vogais e alfabeto
Um caderno e um lápis
E a incompreensão e insubordinação
Tinha como punição um puxão
De orelha... Ardia e queimava,
Acho que não ligava pois sempre repetia a ação
Ah lição complicada,
Do ABCD chegar a entender o mundo
Que paciência e perseverança,
Largar a infância e se abraçar a responsabilidade
De ler e entender o mundo pelas palavras
As ferramentas de casa eram muito mais simples,
Mas a coragem faz o guerreiro,
Aos trancos e barrancos passava de ano
E ouvia um elogio e um livramento passar de ano,
Ouvia com prazer que ao menos era inteligente,
Ouvia dizer das aparências com Françuar
Comparado até nas astúcias assim cultivava
Minha inteligência pequeno era o mundo
E grande a imaginação...
E ouvi dizer que Dona Lenita era mais rígida,
Mais valente, então o medo me adestrou,
Tomei de primeira as lições, aprendi o que achava
E pontuava as escola, passei por média,
Entre ditongos e tritongos... a Bahia e o Paraguai,
Algo era uma luz e deixara de ser cruz,
Na Serrinha Grande foi a vez de Conceição,
Professora do sertão
Que chegava a serrinha,
E rezava toda manhã,
Agora mais liberdade,
Agora mais responsabilidade,
Três litros de leite e a sala de aula,
Na vergonha vendia aqueles litros,
E o dinheiro a mamãe dava,
Na escola sempre passava...
Quinta série essa foi um destroço
Era muito o alvoroço,
Estudar com professores,
Esperar aula de educação sexual,
Fui expulso da aula de religião,
Fui para quarta avaliação em matemática,
E em ciências, quase reprovei,
Ainda lembro do olhar de severo
De dona Rivete,
Lembro de Cleiton e Primo Valdene...
Edineia, Cileuda, Alessandra e Joesilha,
Sexta série Chaguinha de Viriato me salvou,
Como ave em arapuca,
Fugi de um bagunça nas últimas,
E Chaguinha professor de matemática e ciências
Me salvou da matemática,
Nas ciências me apeguei,
Adivinhe o por quê,
Ali descobri minha inteligência
O livro cheio de imagem,
De bichos e sistemas,
E Chaguinha contava as histórias do Colégio Agrícola de Jundiaí...
Muito obrigado professor,
Na sétima série não esqueço
Aula de geografia,
O mestre José Silva descrevendo as ilhas Polinésias e Melanésias...
Tomava a lição,
Naquela grande inverno,
Para a estrada ia o gado pastorar,
Com o caderno na mão
Aprendia geografia,
Virando as pedras brancas do Barroso
Em busca de escorpião,
Ai veio o professor Luiz Silva também da geografia,
Tomei gosto pelas boas notas.
Na oitava série o destaque foi Ledimar,
Professora Perpétua e Genilda,
Desculpe mas português não era minha praia...
Lembro da tarde que Drummond morreu,
A professora Genilda falou com muita tristeza.
Essa dificuldade da língua ainda carrego,
Em Martins teve a fabulosa Janildes de biologia,
O fantástico Pedro de matemática,
Oneide e Fátima de Português,
O que dizer da generosidade de drs. Moacir e Luizinho,
Josineide de inglês,
A professora de literatura que me fez pela primeira vez ler o mulato
Dona Marta esta apostou na gente...
Me divertia mesmo era na biblioteca
Ali onde ficava dona Bebeta...
Lia os livros de contos...
Fernando Sabino...
Naquelas noites frias da serra,
Não estava só tinha minhas irmãs
Nossos vizinhos e vizinhas...
Sabe os caminhos foram tortusos,
Mas descobri a caixa de ferramenta de Foucualt muito cedo,
E não teve um dia em minha vida
Que não tivesse um aprendizado,
Agradeço a todos que me ajudaram
E principalmente aqueles que me apoiaram,
Aqueles que vieram e se foram,
Seria impossível descrever...
Dedico tudo que sou a mamãe e a papai.
E fico por aqui.
Às vezes, a gente fica concentrado,
Fazendo atividades cotidianas,
E ouve sons de coisas humanas,
Som de longe distinto e perturbado,
Parece que ouvimos o eco do tempo,
Parece que nos perdemos no espaço,
A gente sente intensa nossa individualidade,
Sente o quanto somos solitários
Talvez tenha tido essa sensação
No estalado a queimar a maravalha,
No ferver do café com água que borbulha,
No chiado da chuva longe que vem chegando,
Na solidão noturna ouvindo um roncar...
Coisas humanas,
Coisas humanas,
Coisas humanas,
Pulsações da vida,
Que renega até a morte a morte,
Esse medo do desconhecido,
Aprendido desde o ser um bebê.
Agora ouço longe
Roncos de motores,
Ecoando nas ruas,
Longe muito longo vou,
Estou no meio do mato,
Ouvindo roncos de motores
Ecoando nas gargantas das serras,
Ecoando entre as caatingas...
Quem desconhece a cinza
Que se faz ao apagar crepuscular
De cada dia, o cantar da ave maria
Na voz de Gonzaga...
Esse profundo eco
Espelho do tempo,
Eternidade momentânea,
Num ponto é fiado é tecido
O presente e o passado
No ser...
Agora a compreensão que o entendimento está para além da experiência.
O poeta da saudade Semana passada ouvi o compositor Santana declamando um dos mais lindos versos sobre saudade. Ele falou de Antônio Pereir...