terça-feira, 21 de outubro de 2025

Tudo que resta

 Esses dias em Serrinha de meus pais saia pra caminhar antes do sol nascer. A paisagem árida tingida de cinza. Até parece que o tempo havia tingindo tudo ou desbotado as cores vivas. As casas de minha infância, Chico Neco, João de Licor, Chico de Joana e Arthur Barreto... Já não há mais o amarelo poeira nos ramos secos, as curvas de brita ora brilha ora não são tão rápidos quem por aí passa. 

Meu velho amigo João de Licor não olhas mais para o sertão... Resta a paisagem eterna paisagem. Segurando meu terço rezo as orações que aprendi com mamãe... Tudo agora é história. Caminho sem ter que chegar a lugar algum. Caminho pela fisiologia, caminho para pensar e tentar encontrar as memórias que estão aí. As casas de Benício Filho, as entradas das terras de Raimundo de Euzébio... O Joazeiro de Josimar, o alto do Barroso. Tudo é passado. Tudo é passado e em alguns anos este texto como tudo terá perdido o sentido, por falta de memória compartilhada.


Serrinha minha Serrinha.

Vi o último broque na terra de Raimundo de Euzébio ou de João de Janoca... Sim antes seriam tantos.

Agora busco um novo sentido.

Rezo.

E trago meu filho para cá pra não me sentir tão morto.

Papai, mamãe e nossos vizinhos se foram quase todos em alguns anos o tempo seifara nossa geração e esse texto pode ser o que restará e soará apenas como uma história e não a realidade que é.

Cintilante

 A manhã crescia no sertão. O vento soprava frio tingindo a vegetação de cinza.

Ouvi o canto do acauã.

O cheiro da cinza da mata queimada,

O chão queimado...

Na beira da mata varando o céu os galhos abertos ao céu...

Do alto de um galho cantava a acauã. Seu canto continuo e intermitente ia e era respondido da mata...

Parei e fiquei contemplando e me vieram memórias do Boqueirão, do meu pai. E enquanto vivia aquele momento rítmico.


Acauã acauã acauã.


O céu tão azul 

A mata tão cinzenta.


Eu mergulhado em meu ser,

No mundo,

No tudo e no nada.

Velho e novo

 Hoje, passei em frente a um broque queimado.

O cheiro da cinza da madeira queimada.

A nova roça de Chico de Beta.

Uma das últimas em nossa região,

O fechamento e o fim de um ciclo de existência.

Os anos vividos devorados em minutos...

Vi e ajudei tantas vezes papai a queimar, plantar e cultivar nossa terra.

Desperto de telhas memórias.

Versos secos

 A linda caatinga, 

A secura,

O solo seco empoeirado,

As rochas brilhando,

Os trocos cinzentos,

Os angicos de ramos espalhados no céu.

A aroeira exausta da carga,

O enxerco torturando as pinheiras,

O cinza tremendo na mata.

E nós sentindo tudo isso.

Empatia

A cachorra latiu e me lembrei algumas vezes, o cachorro latia e aí chegava Eliene com alguma novidade doce. Havia essa troca. Mamãe também as vezes agradava. A gente era criança e nem sabia dessa empatia que é ser pai

 O verão árido no sertão. A vegetação nua está cinza a adormecida estão as sementes, arbustos e árvores. O anjico armado, a aroeira inerme. Belas árvores. O carcará calado a contemplar a paisagem no Cimo das árvores, os cancões malhados a vocalizar.

A manhã fresca que logo acende com o sol. A tarde ardente e escaldante. As noites escuras e estreladas a resfriar o calor do dia...

Esse ir e vir que preenche o dia de luz e sombra...

E esses dias que preenchem nossas vidas.

Metafísica

 Como é maravilhoso este lugar. Sai lá fora. O céu tão limpo e estrelado. O piscar das estrelas, o canto dos grilos e dos morcegos. Minha mente ainda ouve o arrastado de chinelo de papai e o ronco de mamãe.

Este lugar é mágico.

Aqui meus irmãos e eu existimos protegidos pelos nossos pais. Aqui aprendemos a rezar. Aqui tivemos nossas emoções mais intensas. Aqui é nossa casa. E perceber que bom nossa casa não é lugar nenhum. Porque aqui está a casa, mas não estão os nossos pais... As coisas existem em matéria em espírito, todavia tudo se desfaz...

Chegamos até aqui,  mas uma hora temos que partir.

Tudo vai continuar como sempre foi. Tudo vai continuar como será. E a nossa existência por aqui foi só um dia e uma noite.

Nada mais.

Anos 90

 O silêncio, o tic tac do relógio. O som do motor da geladeira, o som dos tornos da rede.

Eu, a nossa casa, a casa que nos abrigou, que papai amou e mamãe viveu até o fim. Essa casa guarda a nossa pequena história. A foto minha com mamãe na minha formatura, a foto minha com papai em minha casa.

O dia 16 de outubro de 2020, último dia que vi meu pai. Os anos, Vinícius...

Tudo bem.


Ainda ouço o barulho da vinheta do jornal nacional.


Ainda sinto o gosto do açúcar do chá de laranja de Elita.


Pois o que é tudo isso?


Esse silêncio do canto de Serrinha do canto.


Silêncio da eternidade de um tempo e amigos que não voltam mais.


Tic tac

Sexta-feira - serrinha do canto 

Sertão

 É sertão porque está em meu coração.

Vejo o paraíso e o purgatório em suas estações.

O espírito

 Chegamos em casa. Tanta sequidão. O cachorro sherlock veio nos recepcionar feliz. As árvores todas tão sofridas. O coqueiro perdendo as folhas. Os catolés nus. A pinheira usurpada pelos encheiques. Os cajueiros sem uma fruta. O jasmim de laranjeira sofrido. Tudo tão estio. Meu Deus, olha por nós. Contigo tudo suportaremos, mas o tempo, tomará nossas vidas... Esse céu azul, essa terra poeirenta e quente, essa casa únicos como nós. Nosso espírito se move como a vida se move. Baixamos as coisas, trocamos as coisas e almoçamos, e nos sentimos felizes. Tudo é um devir...

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Calor

 Ontem viajamos. Sassá nem reclama. Saímos antes das 5 horas. Chegamos na casa da tia Li ao meio dia.

E aqui ficamos juntos o tempo todo. Fomos ao mercado. E estamos aqui curtindo esse intenso calor.

Últimos dias de 25

 Sassá ama Serrinha minha terra Natal. Aqui têm plantas, animais, espaços, livros, brinquedos, tia Li. Aqui tem o papai e a mamãe e a infânc...

Gogh

Gogh