Na sala nove, do DSE, aos dias 29 de outubro foi trocada a porta. Uma porta frágil de plástico por uma porta de jatobá.
Quanto tempo durará.
A concepção de mundo é subjetiva, sendo a experiência sua fonte capital. O mundo é representação. Então, não basta entender o processo aparentemente linear impressão, percepção e o entendimento das figuras da consciência. É preciso viver, agir e por vezes refletir e assim conhecer ao mundo e principalmente a si mesmo. Aprender a pensar!
Na sala nove, do DSE, aos dias 29 de outubro foi trocada a porta. Uma porta frágil de plástico por uma porta de jatobá.
Quanto tempo durará.
Ontem, Sassá entrou em seu mundo fantástico. Ele descreveu um ser que dizia ser um tigre, mas parecia mais um dinossauro ou coisa do tipo. Descreveu as patas com três garras enormes. Os dentes feito iguais aos de tigre dente de sabre. Depois fomos desenhar. Lembrei de um conto maravilhoso de Borges "Tigres azuis". Depois de pensado foi e desenhamos tigres eu fiz um tigre verde. Depois fomos tomar banho.
A Siriri cantou animada são três da madrugada.
Aí lembrei de uma época que vivia com os meus pais.
Acordava cedo pra pegar água. Ia de jumento pela estrada. Devagar podia reparar a vida.
Via os cajueiros, os postes, as casas.
Nos cajueiros ou nos fios cantava a siriri. E eu querendo dormir como agora.
A madrugada silenciosa me faz companhia.
Ouço o ronco de um motor distante. Quem será?
Ouço o estalo da cerca elétrica...
O vento soprando nas plantas.
Ouço o canto dos grilos.
E confundo tudo com o barulho na minha mente.
Mamãe, papai e Vinícius.
A sombra da noite me afaga.
Mais nada.
Ontem, 29 de outubro de 2025, faleceu a esposa de nosso tio Raimundo das Neves Teixeira. Ela se chamava Tereza Fernandes de Lima. Das memórias que tenho de infância são tão poucas, quase nenhuma. Nosso tio foi embora para Natal. Foi estudar e quase nunca visitava a terra. Só algumas vezes quando vovó era vivo ele vinha sempre, lembro das últimas vezes que veio a Martins enquanto criança. Temos até umas fotos. Acho que foi em 1992. no ano seguinte Vovô morreu e se foi. Só restou um retrato de sua formatura na parede. Ficamos isolados. Esquecidos. Quem esquece é esquecido. Mas sempre havia aquela áurea de admiração. A gente sente quando conversa entre os primos. Tem também um que de decepção.
Tive a oportunidade de conviver com eles quando fui para a faculdade. Ia lá as vezes. E pude conviver um pouco. Mas a relação era um pouco assimétrica, e eu não entendia bem. As conversas com ela eram mutio poucas. Se não tem conversa não se gera empatia ou antipatia.
Ela passava seus dias a trabalhar. Trabalhou muito para dar as coisas ao único filho. Não sei. Minha mãe até se aproximava deles. Mas as relações eram complexas. Ele era o segundo irmão mais velho. O único mais instruído...
Não sei o que dizer...
Descanse em paz.
A mamãe de Sassá assinou um serviço de acesso as leituras da turma da Mônica.
Sassá está muito feliz. Eles leram tantas historinhas ontem que nem vi eles dormirem.
Só sei que acordei e estava a luz acesa e Sassá entre nós. Dormiam profundamente.
Acho interessante ver ele olhando a revista como se lesse mesmo, as letras e não as figuras.
Num sertão qualquer do nordeste,
Na beira de um riacho, mora uma oiticica.
Ali se encontra areia e sombra a qualquer hora.
O verde escuro e cheiro das folhas, das flores e dos frutos é sempre constante.
Seu grande tronco que cresceu com toda força, agora só enlanguesce.
Sustentando sua copa, suas folhas, flores e frutos.
Ali, quantas coisas aconteceram, das idas e vindas do roçado, da rua, do açudo,
Um pouso para refresca-se em sua sombra.
Os frutos colhidos para serem vendidos.
O cochilo tirado certo dia.
Quantos ai passaram, quantos não já se foram.
E ela continua ai, imponente, até que alguém não queira!
Até lá, cresce oiticica.
A primeira vez que vi uma pipa ainda era criança. Fiquei encantado. Aconteceu lá em Serrinha do Canto, lugar onde nasci. E não chamavam pipa lá não era raia. O dono era Chico de Amaro Lopes e de Cícera.
Ele tinha um pai artesão que sabia fazer tudo, ao menos tudo que nós crianças mais almejávamos. E uma das traquitanas era a raia. Naquele lugar maravilhoso onde não tinha lugar aberto, exceto a estrada. E foi lá que vi Chico Amaro, correndo fazer uma coisa com um rabo, segurado por uma linha voar. As coisas, além das aves e morcegos podiam voar. Sim, lá nós já conhecíamos aviões, ou melhor o avião do americano pastor Pedro que vez por outra sobrevoava o município de Martins. Então, para ter uma pipa era preciso papel, palito de coqueiro, linha e sacola. No entanto, nunca consegui fazer uma pipa voar. Aprendi o que era uma raia, conheci esse objeto ainda pequeno. E isso parece banal, mas para a época não era. Não tínhamos televisão ainda. É de achar que é mentira, todavia é verdade.
Ontem, Sassá foi ao mercado. Selecionou um bolo, morangos e um rabo do bolo. Perguntou se podia comprar um rabo de um bolo. Na verdade ele queria a calda para colocar no bolo. Então nos compramos. Fomos para casa. Arrumamos as compras, jantamos e ele ficou no pé da mãe pedindo pela calda do bolo. Dizemos que Sassá é o provador, desde pequeno quando chega do mercado, chega com uma fome de leão. Quer comer de tudo. É assim mesmo. A gente é feliz por tudo, pelos alimentos, pelo momento pelas nossas rizadas, pela nossa vida em família.
Existe uma chave que permite abrir a porta da mente.
Qual é a chave?
Um estímulo, uma sensação?
Neste universo classificado e que me encontro, há uma direção a seguir.
Ontem, sai com Sassá para caminhar. Fomos às três ruas. Antes pegamos a rua do sapoti. Ele recordou que vimos uma caranguejeira num tronco de uma castanhola. Fomos por ali, por que gosto de surpresas e na borda de uma mata sempre tem uma surpresa biológica. Bom podemos ver flores rosas de jasmim no fim da rua. Falamos do que víamos. Quase sempre as conversas tem uma tendência a se repetirem. Sentimos o perfume, isso mesmo ele falou! Flor perfumada... me referia ao nim. Gostei do termo... Perfumada.
Pegamos as três ruas e fomos caminhando, conversando sobre os enfeites de natal. Ao passar pela pitombeira, falei que ela ia florescer.
Paramos para ver o tronco com ramos jovens de uma castanhola e vimos inúmeros membracídeos.
Pegamos, brincamos, expliquei várias coisas. Quando saímos um foi na minha blusa. Chamei ele de companheiro. Sassá gostou. Fomos até a rotatoria final, lá no cacau e voltamos...
Depois fomos fazer exercícios na academia, ver os gnomos. E casa.
Desenhamos muito.
Aproveitamos a manhã de feriado.
A tarde ardia como todas as tardes.
Não estava no conforto do meu quarto.
Não estava no conforto do dia de semana.
Era sábado, fui rever um amigo pela última vez, ou melhor seu corpo.
Sua mulher, soluçando, sofria a maior dor da vida.
A perda de seu amor. Uma fatalidade, tirou a vida de seu amor.
O espaço era o maior, as coroas as mais belas.
Seu pai, falou palavras firmes, se apegou a Deus tentando não transparecer a dor.
Falou palavras de consolo, tentando se consolar e manter a calma.
Nossos peitos doíam.
Saímos em combio guiados pelas polícias de trânsito.
Saímos pela Maximiniano Figueredo, depois a avenida que dava no Boa Setensa.
Um helicóptero fazia a cobertura.
Com os corpos anestesiados, nem sentíamos quão quente estava a tarde.
No boa setensa a capitã falou palavras de conforto.
Seguimos pela rua principal, dobramos a esquerda, Depois do túmulo do Padre Zé a direita.
Descemos até o jazigo onde iria descansar na eternidade nosso amigo.
Seu corpo e uma placa com uma palavra bíblica e as datas de nascimento e morte.
É somente isto que somos reduzidos.
O tempo se encarrega de acabar com todas as memórias,
Nós nos vamos, nossos filhos também.
Então podemos entender que este momento foi só um momento entre tantos de nossas vidas.
Com maior ou menor intensidade para que o sofre.
Não sei dizer o que sinto, mas sei que sinto algo. Talvez a saudade é um sentimento que pode ser, mas acho que vai além.
Às vezes, pego-me pensando como ficou vazia a nossa casa sem papai e mamãe. Eles eram a essência dali. E só assim posso imaginar essa mesma sensação na casa de vovó e vovô Chico e Chica que viveram na casa que conheci quando criança, para mim, dos meus avós, mas para papai era a casa os avós dele, meu bisavós. Impossível a mim de conceber algo assim... O espaço que foi criado, ocupado teve uma duração e depois e substituído... Espaço vivido por anos e os anos levam tudo. A essência está no ser e no existir.
A casa de meus pais para Vinícius é a casa da tia lí. A casa dos meus avós é a casa de Franci.
Ai, fico sem prumo.
Esse sentimento não é exclusivo meu, mas sinto como se fosse.
Por isso, tentar explicar. Em vão.
Onde estou, carrego meu ser. Sou o que sou. Sou o que me cerca. Sou o que me ensinaram ser.
Sou o que aprendi a valorizar...
Após vamos lá.
Em pé, na beira da estrada, para para contemplar o vale e as serras.
Tudo que vejo é o que conheço.
A cinza da mata.
A cinza da mata.
A cinza das rochas.
A cinza das serras.
No fundo no vale o verde do campim elefante que vive enquanto viver o homem.
Baixa de Janoca,
Baixa de João de Janoca,
Baixa de Douglas...
Do pé do alto, havia uma casinha de taipa.
Nela morava Maria do Carmo casada com João Lúcio e mais um monte de filhos.
Tinha um pé de pinheira e ciriguela que mirava para a baixa...
Mas a frente uma rocha e um pé de angico.
Foi tudo que restou...
Na verdade... o tempo tudo apagou.
O sacrifício para sobreviver a pouca água e a pouca comida.
Ali ia. E costumava contemplar a baixa que em meio ao total cinza era a única esperança verde.
Nossa esperança no sertão é pelas chuvas.
Sinal de fartura.
Quando caem as chuvas é tão gostoso.
A gente parece renovar a vontade de viver assim como as plantas.
As plantas e as sementes despertam de seu sono.
A água faz o mundo cheirar a chuva.
Um professor que conheci desmistificou o cheiro da chuva e disse que era o cheiro de esporos de fungos.
Eita que tem fungo por todo lugar, pois pra mim a chuva só tem esse cheiro em qualquer lugar do mundo.
Então, sinto o vento soprar, ouço o vento cantar ou seriam as árvores cantando?
Assim, volto ao eu... saio da memória.
Caminho pelas estrada vendo o desprezo das pessoas pelo meio em que vive.
Lixo de garrafas de água, de cerveja, carcaças de animais.
Essa poluição não seria uma forma de violência visual?
E assim, segue.
Sábado, fomos a BICA.
Temos ido frequentemente a Bica aos sábados. Sempre encontramos novos elementos.
Bem neste sábado passado, e as novidades foram a nova anta que nós passamos a chamar de Amaro. Como já havia uma fêmea que chamamos de Amora, pois a bichinha só tem uma orelha. Agora recordei que papai teve um jumento que já adquiriu este já era velho e só tinha uma orelha completa. Não dávamos nomes aos bichos, exceto a careta uma vaca que já veio com o nome. Enfim. Na bica vimos o novo componente. Então quando saímos do recinto da anta fomos ao recinto dos peixes. Já lá, a mamãe foi abrir a bolsa para tirar uma bolacha para Sassá e quando ela abriu a bolsa sobre nossas cabeças nos galhos de um ingá estava Janjão o macaco fujão. Ao ver a mamãe abrir a bolsa ele gritou avisando. Então desceu para o chã quando viu que eu tinha o pacote de bolacha nas mãos. Dei-lhe duas bolachas, mas ele queria mais, então ficou de pé de mãos aberta como quem disse me dê mais... Como não quis dá ele gritou. Foi para a beira da água, molhou a bolacha para comer. E nós ficamos ali lhes olhando e rindo. Depois ele subiu no ingá e sumiu. E nós seguimos nosso passeio.
Um ferreirinho relógio acerta as horas.
O sanhaçu afia a tesoura.
Um rixinó canta nos arbustos sob a mata.
Um bentivizinho deu ar da graça.
E a paz reina aqui
Amo o mel,
O mel tem um cheiro e um gosto que está relacionado a florada.
Ainda pequeno a coisa mais doce que provei não foi o sorvete, mas o mel.
As vezes, nossa vizinha nos dava um pouco.
Deve ser por isso que era tão gostoso.
Depois pude comer mel sempre que quisesse, mas agora não posso por conter muita glicose.
E outras coisas mais.
Sassá viajou para o interior. Ele ama viajar, ir para Serrinha dos Pintos. Viajamos na quinta. 16/10 e retornamos dia 21-10-25. Brincou com os primos Davi e Nikolas. Nós andamos nos matos, comemos coquinhos e cajus. Fomos a casa de tia Nina... Retornamos e já voltamos a rotina.
As vezes percebo os limites do mundo ou seria os limites do eu?
Olhando para um céu estrelado,
Olhando para a linha do horizonte no mar,
No perfume de uma lonicera,
Ouvindo Hakan Hardemberg.
A corneta me emociona ou será o momento em que é tocada.
Não sei.
Mas ouvir um golinho cantando ou um ticotico do campo me faz sentir a humaninade,
De tão agradável foi ouvir pela primeira vez e seguem sendo...
Para gostar de ler.
Sempre gostei de contos, crônicas e coisas do gênero, curtos de se ler. Gostava daqueles bem curtinhos nos livros paradidáticos de português. No ensino médio eu adorava aulas vagas para ir ler na biblioteca. Queria escrever algo. Recentemente morreu um gigante o grande Luiz Fernando Veríssimo. Cheguei a ler seus textos deliciosos no estadão. Gostava de Fernando Sabino, Clarice Lispector... Faz tanto tempo que nem me lembro mais. Restam algumas memórias. Só sei que gostava. Estou lembrando dum monte de coisas que gostava como doce de mamãe, continuo amando, mas não posso comer. Mel de abelha também.
Gostava de ganhar brinquedo. Achar uma fruta madura no pé, fosse um caju, uma pinha ou uma goiaba. Eu me achava esperto por saber encontrá-la.
Entre coisas de comer e coisas de ler... Gosto de ambas, dependendo da ocasião.
Gosto de agradar a planta sedenta com um pouco de água. É bom cultivar uma planta.
Tenho a mania de catar sementes por ai pelas estradas.
Coletei sementes de Canavalia e Anadenanthera...
É cada reflexo uma memória... A biblioteca do Joaquim Inácio, a cozinha de mamãe...
Tudo lá na minha terra tem sombra em mim.
Até algum dia desses.
Papai plantava cajaraneiras.
A cajaraneira não produz uma madeira boa e papai sabia disso, mas quando você usa uma madeira de cajaraneira está plantando uma nova árvore. Papai trabalhou muito para nos sustentar. Deu-nos o maior amor do mundo. Passando na estrada de um lugares que ele trabalhou, lá no parieiro, nas terras martinenses podemos ver uma cajaraneira crescendo na cerca. Eu sei quem plantou e me orgulho disso.
Foi papai quem plantou. Meu amor por papai é infinito.
Descortinada a vida!
Que me resta senão amar.
Amar meu filho, minha esposa...
Tudo o tempo dissolverá.
Tudo. Até lá vamos viver a graça que Deus nos dá a cada dia.
Tudo seco!
A mata dormindo se tinge de cinza.
Do macro ao micro.
As aves contentes cantam sem se preocupar se houve ou não inverno.
Cantam contentes, o galo de campina, o sabiá, o rixinó.
E o carcará contemplar a paisagem que parece torrada.
O vento da manhã venta suave e fresco.
A gente se sente bem.
A gente se sente bem quando está bem. E nada nos incomoda.
Despertei para a sucessão dos dias...
O que foi, está condenado a sumir.
Mesmo que as memórias existam são apenas sombras de uma realidade que deixou de existir.
Só
Esses dias em Serrinha de meus pais saia pra caminhar antes do sol nascer. A paisagem árida tingida de cinza. Até parece que o tempo havia tingindo tudo ou desbotado as cores vivas. As casas de minha infância, Chico Neco, João de Licor, Chico de Joana e Arthur Barreto... Já não há mais o amarelo poeira nos ramos secos, as curvas de brita ora brilha ora não são tão rápidos quem por aí passa.
Meu velho amigo João de Licor não olhas mais para o sertão... Resta a paisagem eterna paisagem. Segurando meu terço rezo as orações que aprendi com mamãe... Tudo agora é história. Caminho sem ter que chegar a lugar algum. Caminho pela fisiologia, caminho para pensar e tentar encontrar as memórias que estão aí. As casas de Benício Filho, as entradas das terras de Raimundo de Euzébio... O Joazeiro de Josimar, o alto do Barroso. Tudo é passado. Tudo é passado e em alguns anos este texto como tudo terá perdido o sentido, por falta de memória compartilhada.
Serrinha minha Serrinha.
Vi o último broque na terra de Raimundo de Euzébio ou de João de Janoca... Sim antes seriam tantos.
Agora busco um novo sentido.
Rezo.
E trago meu filho para cá pra não me sentir tão morto.
Papai, mamãe e nossos vizinhos se foram quase todos em alguns anos o tempo seifara nossa geração e esse texto pode ser o que restará e soará apenas como uma história e não a realidade que é.
A manhã crescia no sertão. O vento soprava frio tingindo a vegetação de cinza.
Ouvi o canto do acauã.
O cheiro da cinza da mata queimada,
O chão queimado...
Na beira da mata varando o céu os galhos abertos ao céu...
Do alto de um galho cantava a acauã. Seu canto continuo e intermitente ia e era respondido da mata...
Parei e fiquei contemplando e me vieram memórias do Boqueirão, do meu pai. E enquanto vivia aquele momento rítmico.
Acauã acauã acauã.
O céu tão azul
A mata tão cinzenta.
Eu mergulhado em meu ser,
No mundo,
No tudo e no nada.
Hoje, passei em frente a um broque queimado.
O cheiro da cinza da madeira queimada.
A nova roça de Chico de Beta.
Uma das últimas em nossa região,
O fechamento e o fim de um ciclo de existência.
Os anos vividos devorados em minutos...
Vi e ajudei tantas vezes papai a queimar, plantar e cultivar nossa terra.
Desperto de telhas memórias.
A linda caatinga,
A secura,
O solo seco empoeirado,
As rochas brilhando,
Os trocos cinzentos,
Os angicos de ramos espalhados no céu.
A aroeira exausta da carga,
O enxerco torturando as pinheiras,
O cinza tremendo na mata.
E nós sentindo tudo isso.
A cachorra latiu e me lembrei algumas vezes, o cachorro latia e aí chegava Eliene com alguma novidade doce. Havia essa troca. Mamãe também as vezes agradava. A gente era criança e nem sabia dessa empatia que é ser pai
O verão árido no sertão. A vegetação nua está cinza a adormecida estão as sementes, arbustos e árvores. O anjico armado, a aroeira inerme. Belas árvores. O carcará calado a contemplar a paisagem no Cimo das árvores, os cancões malhados a vocalizar.
A manhã fresca que logo acende com o sol. A tarde ardente e escaldante. As noites escuras e estreladas a resfriar o calor do dia...
Esse ir e vir que preenche o dia de luz e sombra...
E esses dias que preenchem nossas vidas.
Como é maravilhoso este lugar. Sai lá fora. O céu tão limpo e estrelado. O piscar das estrelas, o canto dos grilos e dos morcegos. Minha mente ainda ouve o arrastado de chinelo de papai e o ronco de mamãe.
Este lugar é mágico.
Aqui meus irmãos e eu existimos protegidos pelos nossos pais. Aqui aprendemos a rezar. Aqui tivemos nossas emoções mais intensas. Aqui é nossa casa. E perceber que bom nossa casa não é lugar nenhum. Porque aqui está a casa, mas não estão os nossos pais... As coisas existem em matéria em espírito, todavia tudo se desfaz...
Chegamos até aqui, mas uma hora temos que partir.
Tudo vai continuar como sempre foi. Tudo vai continuar como será. E a nossa existência por aqui foi só um dia e uma noite.
Nada mais.
O silêncio, o tic tac do relógio. O som do motor da geladeira, o som dos tornos da rede.
Eu, a nossa casa, a casa que nos abrigou, que papai amou e mamãe viveu até o fim. Essa casa guarda a nossa pequena história. A foto minha com mamãe na minha formatura, a foto minha com papai em minha casa.
O dia 16 de outubro de 2020, último dia que vi meu pai. Os anos, Vinícius...
Tudo bem.
Ainda ouço o barulho da vinheta do jornal nacional.
Ainda sinto o gosto do açúcar do chá de laranja de Elita.
Pois o que é tudo isso?
Esse silêncio do canto de Serrinha do canto.
Silêncio da eternidade de um tempo e amigos que não voltam mais.
Tic tac
Sexta-feira - serrinha do canto
Chegamos em casa. Tanta sequidão. O cachorro sherlock veio nos recepcionar feliz. As árvores todas tão sofridas. O coqueiro perdendo as folhas. Os catolés nus. A pinheira usurpada pelos encheiques. Os cajueiros sem uma fruta. O jasmim de laranjeira sofrido. Tudo tão estio. Meu Deus, olha por nós. Contigo tudo suportaremos, mas o tempo, tomará nossas vidas... Esse céu azul, essa terra poeirenta e quente, essa casa únicos como nós. Nosso espírito se move como a vida se move. Baixamos as coisas, trocamos as coisas e almoçamos, e nos sentimos felizes. Tudo é um devir...
Ontem viajamos. Sassá nem reclama. Saímos antes das 5 horas. Chegamos na casa da tia Li ao meio dia.
E aqui ficamos juntos o tempo todo. Fomos ao mercado. E estamos aqui curtindo esse intenso calor.
Então ao perceber que tudo é passageiro.
Ao perceber que tudo está em mudança constante.
A saber que tudo é devir.
Como racionalizar essa informação?
Como intuir e transformar em sentimento este fato?
Há alguma possibilidade ou continuaremos sendo orgânicos ou naturais para a vida toda?
Outubro de 2025.
Ontem arriou uma grande árvore de copiúba aqui ao lado do departamento DBM e DSE, da UFPB.
Copiúba pertence a família do caju e da manga e do umbu e do cajá, Anacardiaceae.
Seu nome é Tapirira guianensis. Depois de vários anos produzindo flores e frutos seu ciclo chega ao fim.
Prestou muito serviço retendo carbono nas suas folhas, ramos, tronco e raízes.
Assim morre mais uma árvore e não teremos reposição.
Fui com Sassá ao mercado e ele me pediu para comprar kiwi. Perguntou se era caro e respondi que sim. Comprei só dois para ele provar. Pediu-me ainda um bolo de chocolate. Fizemos as compras e ele saiu satisfeito. Disse que só dava para comer em casa porque precisava descascar. Ele entendeu. Em casa, a mãe descascou e ele comeu. Até me ofereceu. Perguntou porque o kiwi era verde radiado. Respondi que era a forma de disposição das sementes. Depois fomos desenhar. Disse que queria desenhar animais do Japão. Desenhou um cervo, um panda e depois fui banhar ele e fomos para a cama.
Olhando para a mata, percebi a alma de gato que ao voar pousou na sucupira. Não estava muito claro, mas vi. Ela vocalizou e voou novamente. Vi e ouvi a alma de gato. Será o mesmo indivíduo que ouço sempre?
Deitei na cova a semente do feijão e da fava.
Terra nova e queimada,
Com trabalho preparada.
Cada semente uma esperança,
Da fartura e de sustento,
Meu pai trabalhava sem parar,
Para em nossa casa nada faltar.
Tirando da terra o sustento,
Disseminando seu ensinamento,
Que com fé e trabalho,
Não há de faltar provento,
E aos risos e graças cultivava
O que comia,
A gente vivia com alegria.
Um triângulo figura aguda,
Um quadrado figura isomorfa,
Um pentágono figura estelar.
Um hexágono figura tridimensional
Acima, abaixo, a direita, a esquerda, para frente e para trás.
Que é tudo isso?
Em setembro a gente tinha uma horta com cebolinha e coentro e alface. Papai montava a horta que era feita de vara de marmeleiro e estacas de Jurema. Eu pegava água no alívio pra mamãe agoar as plantas. Subia aquele cheiro de coentro perante o sol brilhante. A água beijava o paú e se doava a cada planta.
A noite, antes de dormir, mamãe me ensinou a rezar. Ela ia ao nosso quarto e rezava e eu repetia a oração. Foi assim que aprendi o pai nosso e a ave Maria. Não aprendi a salve rainha, mas sei que ela me ensinou. Depois de me cobrir de bençãos me envolvia numa coberta de algodão. Eu me sentia seguro e protegido. Então me beijava e ia para seu quarto ao lado. Foi assim que Jesus Cristo acendeu em meu coração através de mamãe.
Sassá vai ganhar uma festa de aniversário de cinco anos. Merece! merece! merece!
O tema é dinossauros. Então ontem ele já começou a fazer os desenhos dos convites.
Passou a manhã desenhando. Quando cheguei em casa já tinha tomando banho, arrumado e almoçado, pronto para irmos para a escola. Dai, ainda tínhamos um tempo. Então nós fomos brincar no quarto. Fomos desenhar. Desenhamos um estegossauro.
Depois deixei ele na escola. Está todo feliz pois vai ter uma festinha com os amiguinhos da escola.
Com um misto de angústia penso.
Saudades daquilo que passou de bom.
Aquilo que me fez, meus avós e meus pais e nossa relação com o mundo.
Vejo agora que tudo era e se foi da forma que eu pensava, ou queria ou entendia.
Mas ai. Tudo muda constantemente.
A caatinga perde a folha, sofre com a estiagem,
Depois se renova com as chuvas e ganha mais um novo cenário.
E a gente muda a face da caatinga tadinha.
Assim é.
Só o que existe é o agora.
Uma estrada de barro,
A poeira sentada na mata,
O capim seco dourado,
A mata seca cinza.
Uma cruz...
O tempo designado.
As sensações,
Calor,
Frio,
Solidão,
Isolamento.
Um pensamento imediato.
E por fim o afastamento de tudo.
O sol de outubro é ardente no Campus I.
Lá na mata, cantam umas cigarras um canto diferente.
Tenho lembranças de minha infância lá no município potiguar de Martins.
Na serra com mata fechada a mesma espécie ali cantava.
Relembro todas as vezes que ouço.
Memórias de adolescência, mamãe deveras teria ouvido, vovô e vovó e meus bisavos...
Antes achava esquisito.
Agora amo.
Porque me leva ao passado.
Se minha mãe estivesse viva, hoje faria 75 anos. E os anos continuarão caindo. Foi-se com 71. Sinto muita saudade de ti. Como afirma um amigo meu que somos 50% da mãe e do pai, mas com certeza é muito mais que isso. Tive a grande felicidade de conviver com mamãe por 42 anos. Mãe veio ao mundo no início da década de 50, neste dia tão importante para nossa existência. Aprendi com mamãe a importância de comemorar o aniversário. Quando completei 40 anos ela disse! E já é isso tudo? Mãe tinha um temperamento peculiar e casou com papai que era o oposto dela, mas numa coisa eles combinavam no nome de Francisco e na generosidade. Mamãe era generosa, mamãe não fazia questão das coisas, mamãe adorava organização. Aprendi a ver o mundo por via de mamãe, foi minha primeira percepção. Mamãe era a caçula de meus avós. Quando ela nasceu vovó tinha 48 anos e vovô tinha 37 anos. Mamãe tinha nove irmãos e sobrinhos com idade quase igual a ela. Mamãe teve uma vida com uma história de constantes problemas no corpo, sempre fazia uso de remédios para dores. Eu sofria muito quando as vezes acordava com ela chorando de dor. Mamãe foi a melhor mãe do mundo. Queria ser filho dela se nascesse por 1001 vezes. Tivemos muitos momentos juntos a sós. Caminhando para Martins, Serrinha, para a casa dos meus avós, meus tios e amigos. Mamãe sempre quis me agradar. Lembro de um trator que me deu no dia das crianças comprei lá na venda de Caboco. Era um trator vermelho. Me deu dinheiro para comprar uma bolinha azul. Mamãe sempre me mimou. Quando completei 18 anos queria ir pra São Paulo, mas ela interveio e eu fiz o concurso da serrinha onde passei, e me mantive em Serrinha até ir morar em Natal. A gente se falava semanalmente, depois diariamente. Mamãe era minha voz narradora. Gostava de contar novidades, mas nunca me contava novidades ruins como falecimento. Vivemos dias bons e dias muito difíceis. Mamãe se adaptava muito bem as dificuldades. Viveu de maneira forte, nunca colocou suas vontades a frente, nos porque nós éramos sua prioridade e depois os seus netos. Sua felicidade era nos ver felizes. Não tem como descrever a minha mãe. Tudo que eu possa falar sobre ela é pouco. Mamãe foi a coisa mais sublime que me aconteceu, pois ela foi minha geradora, minha cuidadora, minha educadora, minha luz, minha sensibilidade, meus sentimentos de amor e carinho e nunca de ódio ou rancor. Todos os sentimentos bons que tenho, agradeço a minha mãe. Ela vive em mim. E o seu amor estou transmitindo ao meu filho. O amor é invisível, mas é a força mais potente que há no universo. Amor é coesão. Amor é sinônimo de ser mãe como mamãe foi. Celebro hoje esta data tão sublime em minha vida. Comemoramos juntos, lembro junto com meus irmãos e sempre dedicarei este dia a ti por toda a minha vida. Te amarei eternamente. De seu Rube.
Ontem foi um dia muito especial. Fomos deixar Sassá e o seu foguete na escola. Estava lindo todo prateado com exceção do bico que era vermelho e as chamas do exaustor amarela e vermelha. Foi uma festa, mas para as mães ver o resultado sendo elogiado por todos. Por acaso tinha comprado um reloginho de astronauta. Sassá amou, não tirou do braço desde que eu coloquei, a cada segundo ele apertava o botão e perguntava a hora. Bem na escola foi aquela festa, as mães felizes com o resultado de seu árduo trabalho, mas compensador. O estresse se converteu em risos e muita alegria. A criançada em seus foguetes pareciam decolar mesmo. Um dos foguetes o pai era engenheiro elétrico e tinha lanterna e ventilador. Outro tinha botões, painéis sofisticados, emblemas da nasa, cds... Foi maravilhoso. A noite a festa continuou na festa de aniversário de uma amiguinha. Outubro já contou com três aniversários. Quantos librianos. No final o stresse virou alegria.
Lúcido sol aquece a mata,
Folhas a brilhar,
Leves ao balançar,
Cantando e mostrando o vento...
No meio da mata,
Distraída está a patativa,
Canta, canta, canta em parar,
Canta muito a dançar.
Aqui no meu conforto,
Estou a contemplar,
E viajo nas asas da imaginação.
Viva o sol, a mata, a árvore, o vento e a patativa.
Viva. Viva. Viva.
Sol intenso de outubro,
Enche tudo de luz,
Colore o céu de azul,
Tinge de verde as matas,
E faz a mata mudar de ramada.
As cigarras exaltadas com o calor,
Enchem todo o ambiente de canto...
A mata no campus é mais bonita
Do que se ver,
Porque ali a natureza é viva,
Aves e cigarras a cantar,
Árvores a enfeitar e perfumar cada canto...
Causa espanto
Não se espantar com tanta natureza.
Em nosso jardim morava uma gata. Apelidamos ela de mel pela cor do pélo. Já estávamos acostumado. Sassá gostava dela. Ela ora se escondia atrás das espadas de são jorge, ora está sobre o local de colocar o lixo. A vizinhassa que alimentava ela a chamava de aurora. E quinta-feira ela desapareceu. Não sei ainda como vou contar a Sassá esse fato. Será se vai voltar a aparecer? Espero que sim.
Os gatos ronronam,
Ronronam sem parar.
É a força da lua,
É o calor dos dias?
O que será que está a despertar,
A vontade de procriar...
Gatos, ronronam...
Nas cálidas manhas,
Auroras matinais.
Que veio a provocar.
A mata encanta,
Ao sol despertar
Videscens as folhas,
O marrom cobre o solo,
E as aves cantam baixinho,
Parecem o vento acompanhar,
O canto suave das árvores...
Uns pássaros não se aguentam,
E explodem a cantar,
Sanhaçu coqueiro,
Patativa...
E a silenciosa harmonia impera na natureza,
Outubro chegou já.
Véa é o nome que o pessoal do departamento colocou numa gata malhada de preto e vermelho.
Sempre a vejo aqui, ela mora aqui. Foi adotada pelos professores.
Bem, nunca tinha visto ela limpando a cara. Comportamento comum entre os gatos usar a língua e a pata para lavar o focinho.
Lá em casa, como em todas as casas do interior era comum criar gatos. Tivemos inúmeros gatos. Nos apegamos muito a eles, dando nome e um bom cuidado.
Bem, não estive presente neste momento, mas sei que aconteceu, pois mamãe sempre repetia.
Certo dia, mamãe estava com tia Raimunda, irmã de papai. Juntas viram um gato limpando o focinho.
Então minha tia falou que gatos ao limparem o focinho está adivinhando uma visita.
Disse a mamãe que era sinal de visita.
Então aquela primeira vez que mamãe viu esta predição foi proferida por tia Raimunda, irmã de meu pai.
Mas não teve a curiosidade de perguntar para tia quem havia ensinado para ela.
Nossa tia, morreu de câncer, quando eu tinha apenas quatro anos. De maneira que não me lembro de nada, mas era muito comum a gente ver o gato limpando o focinho e cada vez que a gente via e mamãe estava presente, havia a mística que iriamos receber visitas. Assim, mamãe endossava, finada Raimunda dizia que quando o gato limpa a cara é sinal que tem visita na casa. As vezes, havia visitas, as vezes não.
O fato é que esse conhecimento foi transmitido, num espaço e num tempo e vem se disseminando essa ideia.
Por gostar de histórias escrevi e escrito está.
Sassá foi ao aniversário de seu amigo, o segundo do mês. Sexta tem outro.
Se divertiu muito, brincado, socializando, se alimentando.
Comeu doces, brincou com os objetos.
Foi uma alegria só.
Só existe uma primeira impressão,
A segunda impressão é percepção,
A terceira impressão é uma ilusão,
A quarta impressão reflexo da realidade.
Só existe uma impressão,
Existe inúmeras percepções,
Existem ilusões.
A realidade é o ponto inicial para o conhecimento.
A repetição a oportunidade de aprender
e entender a realidade.
Os versos me encantam,
Versos rimados ou livres,
Versos percebidos,
Versos pensados.
Versos com rima,
Versos com estima,
Versos versados.
Verso uma face do universo.
Que se percebe ouvindo,
Que se percebe lendo,
Algo se exprimindo,
Algo com início,
Algo com meio,
Algo com fim.
No cinza da catinga fechada,
Espinhos, garranchos a vista barrar.
Imperiosa a aroeira imersa ali está,
Seu tronco forte a sustentar,
Seus numerosos ramos ao céu apontar,
O termo e luminoso setembro,
Suas folhas lhes fez deixar,
Nua, de ramos cinzas inflorescências faz brotar,
Flores diminutas, a convidar, os bichos dela se alimentar...
Meliponias, aqui e aculá,
Na galha de lá um arapuá a morar.
Do alto vem bichos o mundo contemplar,
Venho sabiá, papa-arroz, sanhaçu...
Difícil não encontrar nessa magestosa árvore,
O calado carcará...
Agora, que amai contemplar,
Guardei no coração,
Essa imagem linda de contemplar...
Nestes versinhos...
As aroeiras vou eternizar.
Entre uma atividade e outra,
Uma pausa, um pouso, um repouso.
Livros dispostos pelos lados,
Livros usados,
Livros intactos,
E a vontade de devorá-los...
Salvo o tempo,
Nada posso fazer senão desejar...
O tempo do pouso é curto,
Mas a vontade de abstração é imensa.
Eis ai o espaço,
Eis ai o tempo,
No abstrato, dispenso o espaço,
Jamais o tempo.
Como um carcará na aroeira,
A beira da estrada se apressa em voar,
Perante um olhar.
Preciso voltar a trabalhar.
No silêncio outubro desperta, de anos indos 2025. Para trás comemoravamos mais um ano de vida de minha amada mãe.
Este ano é o quarto sem sua fisicalidade.
Só sua essência se mantém em nossos corações.
Outubro, franciscano outubro,
Tinges o céu de azul, sopras o vento desenfreado,
Faz a rosa sedenta desabrochar no jardim e olhar e agradecer por tudo.
E entender oh outubro quão depressa tudo se faz e desfaz.
No silêncio outubro desperta, de anos indos 2025. Para trás comemorávamos mais um ano de vida de minha amada mãe.
Este ano é o quarto sem sua presença.
Só sua essência se mantém em nossos corações.
Outubro, franciscano outubro,
Tinges o céu de azul, sopras o vento desenfreado,
Faz a rosa sedenta desabrochar no jardim e olhar e agradecer por tudo.
E entender oh outubro quão depressa tudo se faz e desfaz.
A lagoa
O grande espelho da lagoa, embeleza a cidade de João Pessoa.
Rodeada de belas palmeiras. Gordas Macaúbas, altas palmeiras imperiais, tem também os jerivás e sabais. Num canto toma o céu as sertanejas carnaubeiras.
Fui lá passear, achei tão vazia,
Mas de uma beleza indomável, atemporal...
A marca do tempo e da glória, nos bambus, nos ficus, nos antigos oitis.
Aqui muito se refrescou o paraibano que em João Pessoa buscou uma solução para seu problema econômico, de saúde, de passeio.
Lagoa que recebe na rua que vem da rodoviária, paraibanos sertanejos, caririzeiros, brejeiros, seridornes, curimataueses e muito mais.
Aqui se busca a esperança.
Conheci Antoni José, numa tenra idade em cadeira de roda com tanta ganas de viver e se movimentar.
E me puz a pensar, no que já aconteceu. Nas vezes cegas que aqui pisei, morando em Natal.
Lembrando das tardes ensolaradas... Das tardes enfeitadas de natal.
E por por aí se vai...
Gerando memória em nós.
Domingo à noite, a televisão está ligada no SBT, ali na sala. Jantamos e saímos para nos sentarmos em frente a tv. Sílvio Santos anima o programa. O que esperamos da vida? Nada. Torcemos para que o participante ganhe no jogo. Os anos puseram cabelos brancos na cabeça de papai e em mamãe caiu-lhes a saúde. Mas a vida é essa simplicidade. E dias assim se repetiram pela eternidade de nossas vidas breves. Os acontecimentos enchiam as nossas vidas. E a responsabilidade de dar conta do amanhã.
Foi-se o papai, a mamãe e o Silvio Santos. O tempo deles se esgotou.
Hoje é domingo, agora é noite. E ainda tenho o reflexo destes momentos singulares em minha existência.
Depois papai deitava no quarto, mamãe também e eu também. A noite se fechava e um novo dia nascia.
Meu avô e minha avó paterna eram católicos. Vivi muito pouco com eles. Convivi mais com minha avó. Meu avô morreu em 1988 quando tinha nove anos e minha avó em 1995 quando já tinha 14 anos. As memórias que tenho de onde moravam no sítio Sampaio são como fotografias apenas. Lembro da voz de minha avó. Posso remontar sua imagem com a ajuda duma fotografia. Pouco resta desta face de minha vida. Papai trouxe muito deles, mas não conseguia determinar o que veio deles por não conviver com eles. Muito deles está difundido entre os filhos e netos. Como identificar?
O católicismo franciscano, a alma de Rosângela minha irmã. Não sei mais.
Doce manhã que me desperta, sol luminoso que se acende, ave que canta, flor que desabrocha...
A toda essa grande graça obrigado meu senhor.
Ontem na escola de Sassá houve a abertura dos jogos internos. Fomos com ele, pois ia desfilar. Estava todo feliz. Já saiu da escola avisando do evento. Sassá ama a escolinha, os amiguinhos. Chegamos cedo, a quadra ainda tinha os portões fechados, foi bom porque peguei uma vaga perto dali. Ai escolhemos o lugar e ele todo feliz com a amiguinha. Logo foi chegando um a um. Soltamos ele para correr na quadra numa alegria de bobo. Depois a professora levou eles para a entrada, onde se organizaram para o desfile dos infantís 2 até o 4. O desfile foi lindo. Saiu dali faminto. Compramos um cachorro quente e um bolo que ele comeu. Tomou banho e foi dormir.
A gata mel como chamamos, aurora como o pessoal da rua chama, desapareceu.
Nem sei como irei falar para Sassá. Ele gostava muito de vê-la em nosso jardim.
Ela se escondia atrás das espadas de são jorge, se deitava em cima do muro.
Sumiu. A gente chamava ela de aurora por causa do pélo melado.
É outubro, décimo mês do calendário.
O verão aqui é a época de ausência de chuva.
A mata está seca, só algumas espécies verdejam brilhantes.
Aqui em João Pessoa, mata atlântica. Compartilha algumas coisas com a serra de onde vim.
Agora mesmo uma cigarra me fez lembrar dessa similaridade.
O canto de uma cigarra de mata atlântica, desperta as memórias de minha infância.
Só isso.
Medo!
Medo destes tempos idos,
Das coisas imbricadas e veladas,
E agora desveladas.
O tempo que tanto revela,
Ao revelar cobra a vida.
Mostrando que nossas percepções são nada.
Tudo imaginação.
Dá um aperto no peito.
Pega a gente de jeito,
Saber que tudo é criação...
Medo do que o tempo nos revela.
São tempos idos.
Sassá foi a lagoa, parque Solon de Lucena no domingo. Estava bem vazia. Ele procurava na borda da lagoa ver bichos, aves. Vimos socós e garças e nada de peixe. Ainda conhecemos o campeão de força e energia o Pequeno Antoni José que mesmo numa cadeira de rodas esbanja energia. Indo de lá pra cá, usando seus bracinhos. Depois contemplamos a obra de Miguel da pedra do reino. Comemos pipocas, contemplamos as árvores e palmeiras, coletamos plantas e voltamos para casa felizes. Ainda passamos nas três ruas onde ele andou de bicicleta, comeu bolo e fomos para casa, onde aguamos as plantas do jardim.
Fernanda, a aroeira continua a crescer, desde então nunca mais a podaram.
Desde que aquele que lhes deu o nome se foi.
Já não penso mais em Fernanda,
Mas ela está ali.
Então tem dias que ela vez e me mostra que tudo vai continuar bem.
Que tudo é fruto de nossas mentes.
O que podemos temer do amanhã?
Tudo vai continuar e nós, bem talvez deixemos um pouco de nós no coração das pessoas que respeitamos.
Outubro chegou trazendo chuva,
Estranha chuva nesta estação...
Deitadas e molhadas as folhas caídas no chão estão.
Contemplei com alegria,
O térreo marrom, cor de telha,
Cor de folha!
Veio a mente a canção folha seca...
Fui a feira de orgânicos na UFPB ver os amigos, conversar e comprar. Vi seu Biu, seu José, Seu Edson e seu Zizo.
Ir a feira, como não gostar desse Bafafá.
Ouvir a bandinha tocar,
A cliente a questionar o preço das coisas,
O cheiro da tapioca sendo assada no caco.
Gente indo e voltando.
Mercadoria sendo entesourada....
Eis que encontro Lis, a poetisa, na volta para minha sala.
Quanta alegria, com saboroso gosto de poesia.
Lisbeth Lima de Oliveira,
Lima de Solânea, e Oliveira de Cajazeira.
Conversamos sobre tantas coisas,
Que nos perdemos no tempo.
Das coisas que pesquei.
Lisbeth, nobre amiga,
Que muito tem a me ensinar,
Antes ouvir a falar,
Quem fala doa,
Quem ouve recebe,
E foi aquela troca,
Aprendi a aprender,
Falando e me agradando
do Carinho de me escutar.
A certas horas vi que era todos ouvidos,
Foi a feira a escutar,
Ver, ouvir e cheirar,
Ao café saborear...
A goma que se aquecida,
Vira tapioca, estava o ambiente a perfumar...
De flores na mão senti a mercadoria pesar.
Lis ouvia...
Em suas orelhas dois ouvidos,
Um interno e outro externo,
Uma espiral coclear,
Uma concha espiralada,
Mostrava que ouvia e ensinava no ouvir.
Lima, lima, lima...
Oliveira, oliva...
O roxo do jacarandá enche sua vista de alegria.
A memória do cheiro do cabelo de sua vó...
Memórias são despertas,
Eternizadas.
Mais nada
A alma de gato marrom vez por outra aparece. Não vejo, mas escuto.
A patativa de papinho amarelo só canta a dançar. E agora tá cantando no meio da mata.
O sanhaçu de coqueiro verde anima as praças pessoenses.
Agora!
Isso é tudo.
Uma das atividades para o dia da árvore, na escola de Sassá, incluía plantar uma árvore. Sassá plantou uma castanha de caju. Esta germinou, após germinar a professora de Sassá entregou para ele cuidar dela em casa. Ele se divertiu com o coleguinha Ravi que também plantou uma castanha. Antiontem, Ravi falou que o cajueiro dele estava nascendo. Eu me lembrei da planta de Sassá. Perguntei para ele onde estava e ele trouxe a mudinha. Está com os cotilédones verdes já, bem a vista, mas ainda parte encerrado na castanha. Então a noite, ele trouxe a planta para a mesa onde contemplamos aquele pequeno cajueiro. A mamãe falou que iria fazer um bonsai. Aguamos a mudinha. Sassá disse que ela precisa de muita luz e eu complementei e de água também. E foi isso.
Grande Bach.
Suas composições nos aproximam do criador.
São tão intensas como o mar ou um céu estrelado.
Não tem como não se sentir pequeno
E parar para contemplar...
Area é o mar, é o céu estrelado... profunda e reveladora da face divina.
Sou um viajante do tempo.
Tudo teve início no meu nascimento.
O choro me despertou,
Inconsciente que estava continuei,
O que me guiava era a vontade de viver,
Desenvolvi apegos e gostos...
Descobri o eu.
Consciente me tornei,
Igual a todos que me cervavam,
As emoções e sentimentos
Me ensinaram a amar,
A sorri e chorar...
A minha vida parecia eterna,
Tudo era tão intenso.
Todavia a razão,
Foi matando a emoção,
A consciência dominando a inconsciência...
E comecei a perguntar quem sou!
Pensei, em cima de pensamento,
Alimentei sentimento...
O tempo afraca minhas forças,
Envelhece o meu corpo,
Me domina...
E me pergunto quem sou eu...
Tudo em vão.
No olhar da criança imaginação,
No olhar do adulto ilusão,
No olhar do idoso, sabedoria.
Sou forjado pelo tempo...
Quem fez quem me fez passou,
Quem me fez passou...
O lugar é o mesmo, atemporal.
O espírito eterno...
Vive trocando de corpo e fazendo crer na individualidade.
Tudo é nada,
E nada é tudo...
Sou só produto do acaso,
Do tempo...
Dios tuto natura.
Ontem, Sassá e eu conversamos, enquanto o deixava na escola. O assunto é sempre falando sobre como foi nossa manhã. Ele diz sempre que não lembra de nada. Depois ele perguntou se tinha serpentes naja no Brasil. Disse que não. Ele incutiu que, QUANDO CRESCER, vai criar serpentes. Sempre explico o problema dos venenos. Então, me perguntou se podia criar teiu. Disse que podia, mas que tinha o perigo de levar uma lapada do rabo do bicho. Ele perguntou porque o da bica era lerdo. Falei que são menos ativos. Na casa da tia li que fica no sertão tem muito calor por isso os teius são mais ativos. Contei de um episódio que aconteceu com o nosso cachorro de nome sherlock. Um dia, em 2018, após o almoço, ouvimos o latido de sherlock lá no curral. Fui ver o que era, afinal poderia ser uma cascavel. Graças a Deus não era. Sherlock estava acuando um teiu. Nem sherlock, nem o teiu avançava. Quando o teiu me percebeu, partiu para morder sherlock que recuou grunindo. Dai o teiu deu no pé.
Ele achou intressante a história. Então chegamos na escola e ele foi para a aula.
Busco a minha essência, mas nada encontro.
Se busca o que falta.
Minha essência seria uma definição?
Como se definir se mudamos constantemente,
Como muda a natureza das árvores
Que na mudança perde e faz novas folhas,
Entra em floração,
Produz frutos...
Como abarcar tudo isso?
Razão, percepção.
Estava mexendo nos meus arquivos de fotografia e encontrei essas fotos. Maravilhosas porque mostra papai sentado em frente ao lugar que amava. Meu pai, meu amigo. Que saudades! Às vezes quando vou a nossa casa sinto tanto a sua falta. A gente se abraçava duas vezes na chegada e na saída. Chegava e o senhor nos esperava para o almoço e nos acompanhava com aquela conversa boa. Papai às vezes estou almoçando e lembro de ti. Todos os momentos que almoçávamos juntos. Seu cuidado com os bichos, com as plantas. Nossas árvores no sítio, nossos catolés, nossa matinha, nossa casinha. Sinto falta das vincas que aguava, de suas passadas arrastadas, ao amanhecer no terreiro, a varrer a aguar as plantas, alimentando as galinhas...
Meu eterno pai. Cuido de nossas palmas e catolés, de nossa casa. Farei enquanto puder. E estou ensinando o meu filho a amar o nosso lugar. Você iria amar ele.Esta semana, duas situações ou lugares me fizeram lembrar do meu primo e amigo Mazildo.
Primeiro foi o lugar e o dia, estava no shopping mangabeira e era sexta-feira. Sempre neste lugar e neste dia enviava fotos do ambiente. Meu primo era tímido, tinha uma doença que nunca descobriu a causa. Meu primo vivia em casa. Quando pequenos a gente se divertia andando nos matos caçando, mas nem matava nada a gente gostava de ver o mundo silvestre. A gente foi crescendo e suas limitações físicas praticamente o impediram de anda. Seu deslocamento se limitava ao espaço interno da casa. Meu amigo, saia de casa para cortar o cabelo ou votar. Sua vida era acordar, tomar o café, limpar as gaiolas e ouvir rádio e ver televisão e por último usar o celular. Estava engordando demais e se cansava dentro de casa mesmo. Nunca reclamava. No dia mesmo que faleceu nos trocamos mensagens.
A segunda vez foi no sábado, estava no parque Arruda Câmara, lá encontrei seu Eduardo que cuida dos animais no parque. Estávamos conversando e eu prestava atenção no som das jandaias foi quando ouvi o periquito da caatinga, grasnou umas três vezes, daí, o bicho veio e pousou ao nosso lado. Aí lembrei e comentei que meu primo tinha um periquito que ele cuidava tão bem. Acordava o loro a noite, tirava o bicho do guarda roupa e dava comida para o bichinho.
E hoje na praia vendo as Maracanã voarem me lembrei novamente.
Ontem, Sassá saiu da escola tudo bem, viemos para casa conversando normalmente. Chegamos em casa, aguamos nosso jardim. Quando terminamos, entramos no prédio. Ele se mostrou cansado. Geralmente quando entramos no prédio, competimos para saber quem ganha ao chegar primeiro em cima. Ontem, ele estava de espírito abatido, pensei é o cansaço. Subiu sem ânimo. Falou, hoje não tem brincadeira. Estou cansado. Quando abri a porta e ele viu a mamãe foi um choro. Foi explicar o que aconteceu na escola. Aos prantos explicou que a professora havia escolhido um giz de cera de cada um para derreter. E que a coleção agora estava incompleta. Não adiantava eu explicar que iria comprar uma nova para ele. Chorou. Depois parrou, jantou e fomos brincar.
Por um momento senti a vida em plenitude, e já não tinha tanta juventude. Pensei no tempo que nada tem de materialidade, Vasculhei na memór...