terça-feira, 10 de maio de 2011

Acacias

Minha casa, quando morei em Natal, era uma casa coletiva. Era um prédio pequeno com 16 apartamentos, duas pequenas cozinhas, dois banheiros coletivos, com diversos boxes sem portas, e as privadas com portas discretas, o mictório era algo de mais rudimentar. Muitas vezes aquele ambiente azedo de moradores, se assemelhava a prisão. Talvez não chegue a tanto porque entravamos e saíamos a hora que queríamos. As portas estavam sempre abertas. Uma casa masculina pintada de rosa com detalhes brancos, soava meio hilário. As janelas dos apartamentos do térreo tinham grades. E nós residentes éramos a coisa mais rica que havia ali, rica culturalmente, porque na realidade éramos quase franciscanos. Em meio a esse ambiente haviam árvores no pátio, mal cuidadas, mas elas permaneciam lá como nós residentes. Bem na entrada havia uma fila de coqueiros, ao cruzar o portão podíamos contemplar uma grande e velha algaroba fazendo sombra para o orelhão e para as Polycias, bem do lado das janelas do apartamento quatro havia uma palmeira de venus e bem em frente ao dois uma pinheirinha, mais a dentro havia uma grande Anadenanthera, seguida de velha acacias. bem depois da lavanderia havia uma goiabeira. E atrás da lavanderia havia uma acacia e um cajueiro onde os mano fumavam seu beque, vulgarmente conhecido como mirante, maconhódromo para os mais conservadores. Era da ala dos conservadores. Na casa a nossa frente nos fundos havia uma grande casuarina, uma acacia e uma graviola e bem na entrada da casa havia uma grande acacia e mais na frente uma jovem mangueira e uma goiabeira. Sim meus caros amigos era sob as árvores que escornavamos nossos corpos depois de um farto almoço, mais parecíamos gigantes, as vezes falando coisas sérias, mas na maioria das vezes falando sobre nossos desejos. Falavamos sobre mulheres e tudo que devíamos fazer para ter as mulheres. Bem haviam alguns que fugiam a regra, mas eram minoria, eu me incluía nesse grupo. Para cada pessoa havia um determinado assunto. Enfim caros amigos.
Quando estava em dificuldades nos estudos, financeiras, desesperanças, quando me encontrava só. Eu olhava para os cachos das flores de acácia como quem olha para a imagem de um santo ou de Cristo. Sim na hora que ia tomar o banho, no banheiro de cima podia ver os cachos amarelos, sempre floridos ou com frutos, muitas vezes acompanhados de formigas. E mirava em cada flor, nos pequenos frutos, respirava e tirava dali mais forças para seguir. Ou muitas vezes quando chegava no pátio sem esperança, sem forças, simplesmente sentava e ficava catando as sementes vermelhas das anadenanthera e contava e recontava. Atirava, depois buscava ou as vezes pegava os pecíolos das folhas e ficava quebrando, montando algo. Sim, aquelas plantas me confortaram muito nos momentos de tristeza. Foi sob a sombra do algaroba que fui muito feliz quando recebi maravilhosos telefonemas ou fui muito triste quando recebi a notícia da morte de meu tio. As vezes na sala de estudo ficava mirando os galhos da algaroba tentando descifrar o que contava seus espinhos. Quanta memória não se fez e se desfez naquelas árvores. Quantas!
A minhas amigas meus sinceros sentimentos de saudades.

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